Produção Independente
24 24. Cedo ou tarde - Por Letícia
Sempre que preciso falar em público tenho ataques de ansiedade. Falta de ar, dor de cabeça, tremor nas pernas, gagueira, um horror. Se não perco o sono por inteiro, desperto de uma em uma hora como se tivesse tomado um baita susto.
Márcia e Ricardo indignaram-se profundamente com a conduta antiética de Marinete e leram o rascunho do meu discurso sobre as amizades. Mamãe me disse que não encontrou nada de imoral e abominável no meu texto, muito menos “superficialidades”, orgulhando-se que eu tivesse enfrentado o medo de falar em público, então ela e papai fizeram sugestões e me aconselharam a ler o texto em frente ao espelho até que eu não sentisse medo do próprio reflexo e nem da minha voz ecoando pelo quarto.
Foi um ótimo treinamento.
Cuca sempre disse que o seu perfeccionismo na mocidade a impediu de arriscar-se mais, acrescentando que essa obsessão em estar sempre certa é a pior das ilusões.
Às vésperas da apresentação eu mal terminei o jantar, o que condicionou meus pais a baterem na porta do meu quarto e terem uma conversa comigo. Fiquei sentada na cama entre eles. Mamãe me disse que quando eu era criança e não conseguia dormir, fazia massagens nos meus ombros e preparava um achocolatado morno para que o sono viesse.
Deu muitíssimo certo.
Despertei mais disposta, arrumei a mochila para o grande dia e meus pais apertavam minhas mãos contra as deles afirmando que eu me sairia muito bem.
A Profª Marinete protestou o quanto quis, mas não me impediu de apresentar ao público da escola (pelo menos do nosso turno) aquele discurso em forma de poema que seria declamado para muitas pessoas conhecidas ou não.
O anfiteatro da escola encontrava-se cheio e o camarim improvisado também. As meninas compartilhavam seus estojos de maquiagem, pinceis e truques, todas se sentindo igualmente ansiosas, até aquelas que naturalmente têm mais desenvoltura para falar em público. Os meninos aparentavam mais tranquilidade sem fazerem muitos ruídos.
Atrás da cortina vermelha estava eu, a próxima a ser chamada para o palco.
Marinete dirigia o evento junto com outros docentes e todo mundo sabia que estava rolando o maior bafafá na sala dos professores. Ela e a professora de Artes eram amiguinhas e queriam que seus queridinhos vencessem, pensamento que o professor de História, amigo da Cuca, não tinha. Ele pretendia lançar sua própria chapa de candidatura para a diretoria da escola.
Seria bem interessante se o Chicão fosse eleito, pois acabaria com aquele concurso de beleza que só trazia discórdia, estragava o cronograma escolar, não promovia uma inclusão digna com a comunidade e excluía 90% dos estudantes.
Todos nós queremos ser valorizados, estamos nessa fase em que a opinião alheia interfere severamente nas nossas escolhas e podem virar as nossas cabeças, especialmente se os olhos não estiverem vidrados para o caminho que queremos seguir.
Seria muito mais rendoso e gratificante que em vez do concurso de beleza no qual a vencedora não é unânime e normalmente ganha à faixa de “Miss” por camaradagem, a instituição de ensino convidasse as famílias para ações sociais que promovam uma interação profunda entre a comunidade, apreciando a diferença de cada um, acolhendo, estendendo a convivência, frutificando o que é falado em sala de aula, conscientizando, até mesmo com ideias para angariar fundos para que a Associação de Pais e Mestres não seja apenas uma sigla perdida dentre tantas outras.
Nós jovens passamos boa parte de nossa infância e adolescência no ambiente escolar, então é importante que estejamos adaptados e também contribuamos para que as próximas gerações usufruam de um lugar habitável e tenham gosto de ali estudar.
Nossa contribuição é muito importante, qualquer que seja ela. E estaria dando a minha naquele momento, com a minha entonação.
― Bom dia, alunos e professores. Estou aqui para apresentar a crônica inspirada em uma história que li e mexeu muito com o meu coração.
Mamãe me aconselhou a fingir que a plateia não existia.
Hoje em dia é muito difícil encontrar alguém que não controle pelo menos uma rede social. Acredita-se que ela quando bem utilizada é uma plataforma para conhecermos pessoas com interesses em comum aos nossos e também para reunir todos os amigos do círculo sem necessariamente ter uma briga daquelas.
Há pessoas que preferem não postar muito sobre a vida pessoal, minimalistas virtuais. Compartilham o que julgam ser necessário e evitam qualquer tipo de exposição.
Há outras pessoas que gostam de serem admiradas e fazem questão que todos saibam onde elas estão, o que fazem, pensam, sentem e gostam. São aquelas que adicionam amigos para contabilizar um número grande de conectados, ainda que não deem conta de todos. Elas necessitam de curtidas, que cultuem esse personagem. As curtidas determinam o dia, o comportamento, o humor.
Nenhuma delas está errada.
E vocês vão me perguntar: será que a segunda pessoa não tenta encobrir alguma insegurança tentando mostrar que é feliz o tempo todo?
Talvez, mas isso não nos cabe julgar.
Não é só porque eu discordo de algumas atitudes suas que as condenarei.
As pessoas não precisam ser idênticas para que sejam amigas. Basta que elas sejam o que são, o melhor que puderem ser.
Cada um de nós é um livro único na estante da vida.
Eu posso escolher ter um milhão de amigos ou apenas dois ou três seguidores. Posso escolher ser minha melhor amiga. Posso ter vários e não ter nenhum.
Quando eu era criança, lá no primário, eu achava que amizade se implorava, que eu precisava ter uma única amiga, o que descobri que não era verdade, eu poderia ter vários amigos e me entender com todos, respeitando cada um.
Tem amigos que moram mais longe, o que não quer dizer que não estejam vivos dentro do meu coração.
Tenho os meus amigos mais novinhos com quem eu posso me permitir ser menina de novo, ralar meus joelhos apostando corrida e olhar para o mundo do jeitinho que eles olham, com aquela inocência incontestável e agridoce.
Com os meus amigos da escola eu compartilho todas as nossas experiências aqui dentro, as nossas expectativas, dificuldades, briguinhas, esses momentos únicos que vão ser lembranças algum dia, lembranças essas que eu espero guardar com carinho sem necessariamente permitir que a saudade me mate.
Tenho aqueles amigos que precisam ser consolados. Tenho aqueles que ficaram no passado porque eles mudaram e eu também.
Isso não é ruim.
Às vezes você pensa que sabe responder a todas as perguntas do caderno da vida, mas de repente não tem certeza nem do próprio nome.
Tudo muda.
Nós mudamos também.
Nossos amigos mudam.
As estações também. O Sol se põe aqui para nascer no Japão, a Lua continua cantando a sua canção.
Toda vez que eu olho para as estrelas e converso com Deus antes de dormir, peço para que ele cuide de quem eu não posso cuidar, para que me conceda tranquilidade para sobreviver cada dia sem exigir das pessoas e nem de mim, para que eu sempre me coloque no lugar dos outros e evite julgamentos precipitados, mal embasados.
Os imprevistos que apavoram a criança interior ignorada também nos mostram que grandes amigos podem estar escondidos atrás de quem menos se suspeita. Foi assim que eu encontrei a minha melhor amiga e mesmo que estejamos distantes, tudo o que vivemos juntas está gravado no meu coração, ninguém poderá apagar.
Eu aprendi tantas coisas com ela. Eu aprendi sobre a vida, sobre as pessoas. Eu aprendi que os adultos também sentem medo do escuro e nem por isso se escondem debaixo da cama quando chove forte. Espero tê-la ensinado alguma coisa, ter sido um tiquinho importante na sua vida quanto ela foi e ainda é.
Cada amigo que fazemos vive dentro de nós. Uma pessoa nunca se vai totalmente quando reside nas nossas recordações. Então, estimados amigos e colegas que me ouvem agora, priorizem a qualidade dos seus contatos, não a quantidade.
Perguntem-se, antes de qualquer coisa, se vocês gostam do que são. Se vocês se sentem bem, ninguém tem o direito de julgá-los.
Eu me preocupava muito com o que as pessoas achavam de mim, eu pensava que tinha que ser igual às outras para ser aceita, mas mesmo que eu cedesse às pressões, sei que não estaria satisfeita comigo. Eu estaria abraçando o vazio de qualquer jeito.
Estar em busca de se encontrar não é algo que alguém possa fazer por mim, nem eu posso fazer por você. É a odisseia de cada um e antes que soe repetitivo, não custa ressaltar que antes de exigir um ano melhor, nós também temos de nos esforçarmos para sermos pessoas melhores.
Antes de pressionarmos para que as pessoas sejam perfeitas, que voltemo-nos para dentro de nós e nos perguntemos se nós estamos sendo bons amigos.
Será que sabemos ouvir ou ouvimos apenas o que desejamos?
Sabemos realmente cativar os outros ou estamos apenas alimentando a nossa vaidade, a nossa sede por atenção?
São indagações que não tenho respostas, mas espero que cada um medite e procure suas próprias respostas. Não peço para ter uma vida perfeita ou ser a princesa indefesa de um conto de fadas, eu quero escrever a minha própria história sem negar nenhum parágrafo.
Quando finalizei a leitura fui aplaudida de pé e à medida que a plateia ia se sentando para que o próximo número entrasse ao fundo do anfiteatro eu reconheci a Cuca Magalhães e imediatamente os meus olhos se encheram de lágrimas.
Os professores ali presentes me abraçaram, me parabenizaram, menos a Marinete que virou as costas e fingiu que eu não existia. Eu, por minha vez, consegui me infiltrar naquela correria e deixei o anfiteatro, encontrando a Cuca no pátio. Esperei tanto tempo por aquele abraço e não tive receio de demonstrar minhas emoções porque depois de passar anos mendigando a atenção de quem nunca quis me dar, uma amizade verdadeira me apresentou a uma nova versão de mim mesma e preparou-me para ter esse significado para outro alguém também.
A distância não separa, prepara. E testa. Protesta. Remexe as emoções, coloca o orgulho de joelhos e avisa que ele não tem autorização para estragar tudo. A distância é o intervalo, não o final.
― Você arrasou. ― Cuca fez questão de repetir.
― Imagina... Eu estava tão nervosa. ― olhei para baixo, mas sorri contente. De fato, eu me saí muito melhor que imaginei e bem dizendo, não foi ruim ter tentado.
― As pessoas te aplaudiram de pé, Lelê. ― lembrou Cuca. ― Foi lindo e comovente o que você escreveu, a sua narração sincera e doce, os seus pensamentos muito bem elucidados. A propósito, obrigada pela carta.
Cuca tirou de dentro do bolso da jaqueta de couro marrom a cartinha que eu escrevi e agradeceu imensamente pelo carinho, entregando a mim uma carta também a qual pediu para que eu lesse quando voltasse para casa.
― Parece que a minha tartaruguinha saiu do casco. ― Ela beijou a lateral da minha cabeça: ― Eu sabia que isso iria acontecer, cedo ou tarde.
― Fico feliz por você ter acreditado em mim.
― Foi você que acreditou em si mesma, Lelê. ― A professora ressaltou. ― Eu sempre acreditei que você conseguiria, mas você tinha que acreditar também.
― Por alguns segundos eu achei que não iria conseguir, que iria engasgar, errar alguma palavra, suar, ter dor de barriga, um piripaque, mas segui às recomendações da minha mãe de me concentrar nas minhas palavras como se estivesse no meu quarto e eis que deu tudo certo.
Cuca sorriu para mim:
― Pois se pretende mesmo ser professora vai ter que aprender a lidar com a ansiedade. Todo mundo sente esse frio na barriga, mas a diferença é que alguns o enfrentam e outros ficam escondidos, coagidos, esperando as palavras perfeitas para demonstrarem o que sentem a alguém, e quando perdem esse alguém e a oportunidade ficam se lamentando, se culpando. Às vezes alguém desiste do seu trabalho por achar que ele vão vale a pena ou pensa que não deve se entregar a um sentimento ou que sua causa é perdida.
― Então você acha que eu posso ser uma boa professora?
― Se você continuar nesse caminho, sim. Entre passar a vida inteira sendo mártir da insegurança, por que não tomar a iniciativa?
― Isso quer dizer então que você está amando?
Cuca assentiu com a cabeça e aquele sorrisinho tímido se irradiou, me contagiando também.
― E é quem eu estou pensando?
Ela riu:
― É ele?
Nós nos abraçamos.
― Não sabe o quanto fico feliz ouvindo isso, Cuca. ― O Dr. Fábio ou Dr. Bonitão (como chama a Lia) iria se ver comigo se fizesse a minha amiga sofrer. ― Por favor, se você mudar de ideia quanto ao casamento, não se esquece de me convidar, viu?
― Mas é claro, querida! ― Cuca sorriu. ― E a propósito ― Ela segurou na minha mão e me encaminhou para fora da escola. ― Tem alguém que quer muito te conhecer...
Cuca me conduziu até o carro de Lia que estava estacionado bem próximo ao colégio. Encontramos Samira nos braços da tia e então formalmente fomos apresentadas.
― Ela é muito linda.
Quando Cuca ajeitou Samira nos meus braços, senti um medo tão grande de não conseguir segurá-la, mas nenhum inconveniente aconteceu. Aquele cheirinho gostoso de bebê nas roupinhas enchia o meu coração de ternura. Ouvi-la balbuciar me fazia querer lhe dedicar toda a atenção do mundo. Foi por uma boa causa que minha professora estava em licença-maternidade. Aquela pequena criança precisava dela mais do que nós.
Samira era fotogênica e eu, como não poderia deixar de ser, pedi à Lia para que registrasse com o meu smartphone aquele instante mágico, numa selfie “girl power”. Eu com as minhas chiquinhas, a filha de Cuca jeitosa no seu macacão de abelhinha escolhido pela mamãe que comprou roupinhas cor de rosa, azuis, alaranjadas, com detalhes de animaizinhos, sem padronizar. Aquele par de sapatinhos de lã que a minha mãe confeccionou especialmente para nossa nova amiguinha estava nos pés dela.
Fiquei de prosa com Cuca e Lia até às 11h00min, pois Samira tinha uma consulta marcada para o meio-dia. Minha amiga voltaria a lecionar no segundo semestre, se nada de mais ocorresse, ou seja, eu iria me livrar daquela bruaca da Marinete, cujas aulas eram um convite ao tédio. É o que lia de sua alma, alguém que trabalhava somente pelo dinheiro e não o fazia com boa vontade. Uma profissional assim eu não desejo ser.
Voltando para a escola, algumas pessoas vieram de encontro a mim para me felicitar pela apresentação. Nem me importei por não ter levado o troféu, gostei de verdade foi de ter subido ao palco e vencido ao reflexo torto de mim mesma desenhado pela insegurança, pela rejeição, pelo medo de não ser o suficiente.
Não foi tão assustador assim.
Quando Cuca recebeu o ano de 2014, nem lhe passava pela cabeça que seria mãe da Samira e que no meio de tanta confusão, seu verdadeiro amor imergiu para mostrá-la que nem todos pretendiam magoá-la. Aceitar o amor dele foi uma escolha. Se eles nunca se declarassem, nunca saberiam o quanto estavam fazendo a diferença na vida um do outro. Tenho certeza de que ela não planejou as surpresas que a vida lhe fez.
Eu ainda não senti esse amor que a Cuca e o Fábio estão curtindo. Não é a minha hora. Quando for, não espero efeitos especiais, somente a dádiva de ser amada do jeito que eu sou e saber amar com todas as minhas forças sem nunca anular o meu personagem. Não estou dando o mínimo de importância a quem quer controlar a minha vida com julgamentos, não cederei às pressões.
Quanto ao concurso de beleza que iria ser promovido com seletivas ao longo do ano (Flora e Flávia foram eleitas na edição de 2014, dividindo o troféu e brigando, é claro!), ele não me representava e nem refletia o meu valor!
Esperava mesmo que o Prof. Jorge se candidatasse para a diretoria, fizesse uma campanha limpa, honesta, e todas aquelas propostas que a Cuca apoiava saíssem do papel, das discussões imaginárias e seletivas para serem, de fato, promessas cumpridas.
Seria muito bonito se as menininhas todas fossem representadas de outra forma que não sendo excluídas pelos padrões de beleza, aprendendo que a popularidade não é e nem deve ser nossa missão aqui na Terra, que tem outros jeitos de ser especial, começando por sermos nós mesmas.
O que eu sou ninguém pode ser.
Não posso ter vergonha do que sou. Dos meus gostos, desejos, sonhos, nem raiva dos meus defeitos.
Se eu renegar os meus traços estarei magoando a quem me trouxe ao mundo, ao meu criador, a minha melhor amiga, aos meus outros companheiros, acima de tudo, a mim mesma. Eu estarei desmerecendo o meu destino, os meus motivos de aqui estar.
Eu não sou rainha da beleza, mas estou aprendendo a gostar de ser quem sou e não forçar uma personalidade que vai contra os meus princípios. É claro, queria tirar notas melhores nas disciplinas exatas, acredito que com um pouco mais de esforço eu chego lá. Quero ser professora, meu caminho será extenso, cansativo e recompensador porque decidi não fugir das minhas escolhas.
Cedo ou tarde temos que fazê-las.
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