Pra-eterum
2 Capítulo II - Luminária
Notas iniciais
Restaure a luz da luminária na cabeceira...
Vista algo para o frio e, talvez, calce algumas meias.
Irei fazer uma viagem sob esses lençóis, que podem me transportar ao passado, onde, quem sabe, você ainda jaz.
Consigo sentir seu eflúvio de orvalho fresco, e os caracóis indecentes do seu cabelo.
É sumidade que não posso fazer esse sentimento durar para sempre, como não posso tê-la para sempre ou, pelo menos, não como imaginei. Então, durante esses inconspícuos instantes, finja que tudo isso faz sentido e que estamos de volta àquele tempo.
Podemos fazer piadas pueris; deixe-me completar suas frases, terminando-as de tal forma que agrade ambos.
Esse desígnio é uma quimera, um estado de sofisma. Estou me enganando com a metafísica do seu amor, enquanto você me ludibria dizendo que somos reflexos de um mesmo espelho.
Como espelhos...
A felicidade que você me questionou, eu ainda procuro. Nesses breves devaneios, tento encontrar as respostas que você sempre buscou.
O espectro de luz que viaja nessa luminária ao lado da minha cama, ilumina átomos de poeira que dançam nessa madrugada, pairando acima dos meus olhos...
São infinitos segundos que correm em minha cabeça, recitando todas as nossas conversas. Eu sinto falta disso, e sinto frio; talvez por isso tenha te pedido para calçar meias.
Você não foi o meu primeiro amor, mas talvez o meu mais forte ideal.
Há a certeza de ter te entregue tudo, e sempre soube que era verdadeiro. Escondi minhas motivações mais bobas em te amar, por um receio fósmeo.
Que importa? A nossa juventude segue perene em algum lugar do passado, que viajo sozinho enquanto minha visão não esmorece.
Você pode voltar a me assombrar a qualquer instante. A ideia de sermos feitos um para o outro jamais irá me escapar, por mais que o tempo continue a passar.
Há uma zona onde esses pensamentos não parecem importar.
Por isso, quero só dormir e sonhar. A vicissitude da existência é fleumática e fugaz.
É fácil perceber suas verdadeiras cores, afinal; ao olhar num espelho, eventualmente, eu posso te enxergar.
A progressão vazia de um piano vai elucidar uma anedota sobre nós dois juntos, até finalmente se calar no abismo...
A luz da luminária fraqueja,
Pelo que quer que seja.
Oh, por favor...
Diga-me o que é esse reflexo de amor ideal,
Ressurgindo de um espelho quebrado.
~Gabriel.
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