Places
1 O Laboratório
Notas iniciais
Inicialmente o capítulo seria uma oneshot, mas como ficou maior do eu esperava, decidi separá-lo por capítulos.
O começo da manhã marcava o fim do expediente do último turno, o "turno do cemitério". Parte da equipe dos CSI já havia ido embora, loucos para aproveitarem o começo do fim de semana. Como sempre, Russell era sempre o último da equipe a sair do laboratório. DB fazia questão de verificar e tratar cada um de seus cogumelos antes de ir embora, não importava o tempo que levasse. Era sua “outra família”, assim dito por ele.
— Já está pronto, homem dos cogumelos — perguntou a voz que veio da porta. A mulher não perdia a oportunidade em tirar sarro dele por sua paixão por aqueles fungos.
— Sei que está com ciúmes porque dedico meu tempo a eles, Jules. — Permanecendo de costas a ela, Russell sorriu logo após dizer seu apelido.
— Estou começando a desconfiar que você passa mais tempo com eles que com qualquer outra pessoa.
— Eles me entendem — argumentou o supervisor sem tirar os olhos das plantas à sua frente.
Finlay fechou a porta atrás dele, baixou as persianas e seguiu em sua direção. Parou ao seu lado enquanto o observava regar cada cogumelo cuidadosamente.
— Vai ficar aí?
— Acalme-se. Já estou indo, Jules.
— Você sabe que isso não vai adiantar, Diebenkorn.
— Eu sei que adianta.
Os anos passavam, porém a “briguinha” interna entre os dois se chamarem por nomes dos quais não gostavam persistia. Era um evento quase diário, tanto que quando isso não acontecia era porque alguma coisa não estava certa.
— Jantar na minha casa? — Finlay sugeriu enquanto o assistia cuidar dos cogumelos. Ela chegou a olhar discretamente para trás após fazer aquela pergunta. Um pouco de privacidade eles tinham já que as persianas bloqueavam a visão.
— Claro.
Quem via aquele sorriso estampado no rosto do supervisor não poderia imaginar o tempo difícil que passou um ano atrás. Sorriso que demorou a surgir novamente com tanta facilidade. Não foi por causa dela exatamente, mas foi ela quem o ajudou a voltar a sorrir.
—|-
Russell não era o mesmo. Aos poucos o homem brincalhão ia se fechando para os outros ao seu redor, limitando-se a falar apenas sobre coisas sobre o trabalho e evitando ferrenhamente os comentários e perguntas sobre sua vida pessoal. As saídas com os amigos de trabalho nas pausas ou fim de turno iam diminuindo até que chegou o tempo em que pararam de acontecer.
Havia algo de errado com Russell, a maior parte deles desconfiava, mas ninguém tinha coragem de chegar perto dele e perguntar realmente. Até porque qualquer tentativa de fazer isso era logo abafada.
— O que está acontecendo, hein, DB?
Finlay, mais próxima do supervisor e amiga de longa data, foi quem deu este passo. Esperou que o turno acabasse e os colegas tivessem ido embora.
Confinado em sua sala, sentado à mesa lendo alguns documentos, Russell pareceu surpreso num primeiro momento ao vê-la se aproximar dele e se encostar no móvel.
— Nada.
Sua resposta não a surpreendeu. Pelo contrário, esperava que ele estivesse na defensiva e que se não fosse ela quem fizesse a pergunta provavelmente receberia uma resposta mais áspera.
— Você mente mal, sabia? — Ela respondeu tentando ver aqueles arquivos.
— Estou bem, Finn. — Fechando aqueles arquivos logo em seguida, porém, marcando a página com o indicador, Russell virou-se para encará-la nos olhos. Seu rosto estava sério, mais sério do que ela estava acostumada a ver, já que só o via assim quando trabalhava no meio de um caso grave. — Só estou cansado.
Sua resposta deu a entender que Russell não queria mais conversa e que o assunto estava por encerrado. Quieta, tentou entender o que poderia estar por trás daquela cara fechada.
— Vá para casa, Jules. Você trabalhou muito hoje. — Finalmente DB sorriu para ela, antes de dar uma olhada em seus cogumelos. O gesto foi nitidamente forçado, proposital para que a ideia sobre ele estar mal não persistisse.
Sem responder, Julie apenas bateu na mesa de leve com os dedos e seguiu em direção à porta.
— Sabe que pode falar comigo, não sabe?
Ele apenas assentiu sem dar muito crédito.
Os dias foram passando, coisa que não fez bem ao supervisor. Seu estado era refletido em sua conduta no trabalho, cada vez mais distante de seus subordinados. O ambiente já não era mais o mesmo quando Russell estava por perto nos momentos entre turnos ou de descanso. De todos, era o que mais evitava falar sobre assuntos pessoais, sempre mudando a conversa. O clima que já não se achava bom, ia se deteriorando com o decorrer do tempo.
Uma semana foi embora e Julie não suportava mais aquela situação. Antes de qualquer um da equipe, ela tinha sido a primeira a perceber que havia algo errado com Russell e a primeira a tomar alguma atitude. Se as coisas continuassem do mesmo jeito que se encaminhavam uma hora alguém iria pagar pela situação quase insustentável que Russell mantinha.
Final de turno. A maioria, como sempre, tinha ido embora; oportunidade para Finn tentar novamente arranjar alguma coisa do supervisor. Ao se aproximar de sua sala, notou que as persianas estavam baixas, melhor para ela porque assim ninguém os veria.
— Por que ainda está aqui, Jules? Vá descansar.
— Você sabe porque estou aqui. — Ela caminhou para perto dele, notando que o supervisor se enfiou no meio de algumas anotações. — Cansaço, DB? Há quanto tempo você tem estado assim?
Quando notou que ela ficou mais próxima, ele cobriu o caderno com um arquivo qualquer.
— É só uma fase, Jules. Vai passar — disse, agora focando nela.
Não dava para assistir o teatro de Russell, agindo como se não fosse nada qualquer que seja a coisa que acontecia em sua vida. A ausência de uma resposta franca a deixava ainda mais incomodada. Finn até poderia deixar passar esta atitude dele com os outros, mas não aceitava que fizesse isso com ela, logo após tudo que passaram.
— Essa “fase” está afetando todo mundo. Tem gente comentando já sobre você.
— Eu não estou surpreso com isso, afinal, todo mundo comenta sobre todo mundo.
— DB — retrucou, desta vez mais dura. — Por que você não pode simplesmente dizer pra mim o que tá acontecendo? Eu tenho conheço muito bem, não precisa ficar tentando esconder.
— Você já escondeu muita coisa de mim e mesmo assim eu não fiquei insistindo.
Aquela resposta a remeteu diretamente aos momentos sombrios de Seattle. Tempos que ambos gostariam de esquecer, mas que sempre surgiam e justo nos piores momentos. Só depois que disse aquilo, Russell percebeu que sua fala saiu pior do que esperava. Chegou até a fechar o livro e deixá-lo sobre a mesa.
— Desculpe-
— Então é isso, não é? Ok! — Sua voz se sobressaiu à dele, como em poucas vezes ela fazia. — Se não vai falar nada ao menos invente alguma desculpa decente lá para o pessoal. Tem gente preocupada, querendo ajudar, mas você nem ao menos se ajuda — declarou.
Poucas vezes Finn perdia a paciência com Russell. Esta foi uma das vezes. O seu alto astral e humor até fora de hora do supervisor seguravam seu temperamento, só que desta vez foi diferente.
— Ninguém pode me ajudar, Finn — declarou com aquele olhar abatido que não dava para ser escondido sob os óculos.
— Tá. — Ela resolveu por fim na conversa o quanto antes. — Tá bom. Até amanhã.
Sem pensar duas vezes ela deu meia-volta e seguiu para a porta. Vê-lo naquele estado a cortava, porém vê-lo agindo daquela forma a incomodava ainda mais. Talvez Julie voltaria em sua sala alguns dias depois, revigorada, pronta para tentar fazer alguma coisa mesmo que se mostrasse inútil no final. Mas naquele momento não havia nada que adiantasse. Se continuasse ali poderia acabar dizendo algo que a fizesse se arrepender depois. Ela só não sabia o que iria acontecer daqui pra frente, ainda mais com a equipe. Torceria bastante para que a relação entre eles e o supervisor não se agravasse, e assim, o trabalho não se tornasse mais dificultoso do que já estava se tornando.
— Acho que vou me divorciar.
Notas finais
A verdade é que eu não pretendia postar uma fic dos dois agora porque estou trabalhando com Manhunters. Mas depois de pedidos que eu recebi me senti motivada para escrever alguma coisa sobre Frussell. Obrigada a todos que incentivaram e a todos que leram. Beijão e até o próximo capítulo! ♥
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