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2 O Bar
Notas iniciais
Na mesma hora ela parou de caminhar. As palavras ditas por ele sem alteração na voz fizeram o coração dela palpitar de susto. De todas as respostas que esperava, aquela passou longe de sua mente.
— Como é que é — perguntou, já tendo se virado para ele. Seus olhos, arregalados, estavam perplexos, refletindo tudo o que sentia no momento. — Como é que é, Russell?! — Quando deu por si já estava com as duas mãos na mesa dele, encarando-o frente a frente.
Ele não respondeu.
Aos poucos ela retirou as mãos do móvel, sem saber o que dizer.
— Por que você não me contou?
Julie não podia esconder o quão incomodada ela se sentiu ao saber daquilo. Foi como tivesse sido traída por seu melhor amigo.
— Eu não consegui.
— Mas... Você e Barbara... vocês se amam!
Suas palavras ecoaram pela sala. O que seria apenas uma indagação, pareceu mais uma ordem, tanto que após dizer isso Julie se sentiu mal, como se soubesse de tudo o que acontecia com eles e tinha o direito de dizer qualquer coisa.
— Eu também achava isso. Mas quando me vi numa discussão com ela, eu... percebi que... as coisas não são mais como antes.
O que dizer para tentar melhorar a situação e não estragar tudo? Julie ficou neste dilema. O rosto abatido traduzia o quão mal ela estava. A resposta a pegou de jeito.
— DB...
— Agradeceria se não contasse a ninguém. Não quero que essa história se espalhe ainda.
Ela fez uma cara confusa. Queria saber por quanto tempo ele iria manter aquele segredo dos outros. Se tivesse parado de insistir, talvez nem mesmo ela saberia tão cedo.
—|-
Como lhe pedido ela não contou o que soube a ninguém. Os dias foram passando e o ambiente, por mais que Julie torcesse, não melhorou; pior, pareceu se degradar aos poucos. Ela o via com outros olhos, mas nem isso foi o suficiente para aceitar o que acontecia. As poucas tentativas de mascarar seu estado não adiantavam. Russell estava sendo sugado para uma espiral e muito em breve levaria os outros também. Mesmo sendo um homem reservado, ele não conseguia deixar os problemas de casa fora de separados do trabalho totalmente e acabava sendo afetado por isso, afetando aos outros também. Assim como Finn o havia alertado.
Julie não suportava mais que as coisas continuassem sem mudança alguma. Não que os outros aguentavam, eles estavam tão tensos quanto. Porém ela, quem tinha um carinho especial pelo supervisor, uma amizade de muitos anos, não podia aceitar aquela condição. Saber que Russell estava passando por um momento delicado em seu casamento, quase terminando ele, era como se ela mesma estivesse se divorciando.
Se Russell não tomasse uma atitude ou alguém “tomasse” por ele, uma hora todos iriam pagar por isso. Claro que não era a vontade do supervisor, mas ele não conseguia pensar além daquele divórcio. Sentia-se isolado.
— Ei.
— Ei, Jules.
Novamente, final de turno. Persianas baixas como aprovou encontrá-las assim, Julie se aproximou do supervisor que cuidava dos seus cogumelos com toda a cautela. Ele nem precisou se virar para reconhecê-la, apenas sua voz bastava.
— Você não larga eles, não é? — Ela se aproximou dele e ficou ao seu lado.
— Não. — Ele sorriu, mas não foi o mesmo sorriso de antes. Por trás do gesto havia um peso.
Cruzando os braços, Finn olhou para seu rosto discretamente antes de voltar a dar atenção aos cogumelos. Russell aparentava estar melhor, mas só aparentava. Havia muito mais por trás daqueles olhos que só chamavam a atenção dela.
— Eu tenho uma proposta pra você.
— Não me diga que vai me levar a um bar. Não, obrigado.
— Só vai saber se aceitar vir comigo.
— Finn. Você sabe que não estou muito à vontade para isso.
— Ou você vem ou eu vou ficar te chamando de Diebenkorn toda hora.
Foi só neste momento que Russell deixou de dar atenção às suas plantas para focar em sua amiga. Não esperava que ela voltasse com a briguinha de sempre para tirá-lo daquela zona de (des)conforto.
— Não pode fazer isso.
— Claro que posso.
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A noite começou há um tempo. O pequeno bar que ficava um pouco distante do centro era simples, sem muitos detalhes que tirassem o conforto de quem estava por lá e gostava deste tipo de coisa. Russell, ainda que tivesse sido garantido por ela que o lugar era “seguro” para eles, sem correr o risco de serem vistos, mantinha-se cauteloso; um pouco desconfortável por estar naquele lugar com uma colega de equipe, mesmo que fosse sua amiga de longa data.
— Ninguém vai nos ver aqui — disse ela ao notar que ele olhava um pouco inquieto para os lados. Nem mesmo a opção das cadeiras ao invés do balcão, mais para os fundos do bar acalmou o supervisor.
— Oh, claro, claro. — Ele disfarçou com um sorriso torto, vindo a pegar um sachê de sal para ficar observando.
Antes de pedir por algo, Julie o fitou por alguns segundos, sempre tentando alcançar seus olhos. Mesmo tentando, ele não podia deixar de olhar para a aliança em sua mão esquerda, e com isso o brilho de pouco tempo se apagava, junto com a tentativa de Finn em animá-lo.
— Vamos pedir alguma coisa. Não vamos ficar aqui sem beber nada, não?
Com um aceno, os dois resolveram pedir uma bebida leve para começar. Era evidente que Russell ainda estava desconfortável, muito pelas duas posições que se encontrava: supervisor e alguém que passava por um quase divórcio. Ele escolheu tomar um gole generoso de seu martini na tentativa que gerasse algum estalo em sua mente e parte daquela carga desaparecesse.
— Bom que veio aqui. Se continuasse preso em sua sala iria acabar criando cogumelos em você mesmo.
O comentário dela o fez rir e quase se engasgar. Ele balançou a cabeça repetidas vezes e até tirou os óculos por uns instantes para coçar os olhos. Então pressionou levemente o copo e o balançou por alguns instantes.
— Você é impossível, Jules.
— Estou falando sério. — Ela continuou com a brincadeira, sem deixar de focar em seu rosto, percebendo o quanto sentia falta o sorriso esboçado nele. Afinal, Russell e o riso eram companheiros de longa data; vê-los separados por muito tempo era sinal de que as coisas não estavam indo bem.
Brincando com a superfície do copo, o supervisor foi deixando aquele sorriso de lado, assim como a satisfação dela em ter tirado um sorriso de seu rosto. Finlay nunca estaria preparada para perguntar aquilo, mas sua mente não a deixava em paz.
— O que houve, DB?
Ao fitá-la por um instante, Russell voltou a olhar para o copo pela metade. A reposta, que pairava na ponta da língua, se perdeu em meio a pensamentos desordenados. Como dizer aquilo à melhor amiga?
— Foi para isso que me chamou, não é, Jules?
— Fiquei sem alternativas. — Sem aparentar vergonha, a CSI apenas deu de ombros.
Resvalando a mão sobre a nuca, Russell suspirou por três segundos. Abrir-se para Finn nunca foi tarefa tão difícil, porém a história era outra, tinha contextos diferentes.
— Acho que... não nutrimos mais aquele amor que sentíamos um pelo outro.
— Como assim? — Tudo o que ela conseguia retrucar era com perguntas incrédulas.
Ouvir aquilo a pegou em cheio, quase do mesmo jeito que ouviu dele sobre a separação. Ela conhecia DB e Barbara há anos e sempre os viu bem; nos jantares na casa dos Russell, em eventos com amigos e nas visitas que fazia com certa frequência. Não poderia imaginar que os dois se encontravam naquele cenário.
— Eu a amo, mas... não como eu acho que esperava. Talvez não como minha esposa.
— Tem certeza do que está falando?
Ele apenas deu de ombros, não tinha uma resposta.
O que ela podia fazer para deixá-lo melhor? Finn não se lembrava de falar com alguém numa circunstância como o possível divórcio. Geralmente ela quem recebia esse tipo de apoio já que se divorciou duas vezes. Ela o queria bem, nem sabia dizer o quanto, e se fosse para ser feliz divorciado de Barbara, que fosse assim então.
— Houve... alguma... coisa entre vocês dois?
— Você quer dizer traição? — Russell arqueou as sobrancelhas, já deduzindo o que ela quis perguntar. — Não. Nós temos muito respeito um pelo outro. — Ele tomou o restante da bebida no copo. — É outra coisa. Eu...
Esta era a verdade: sua mente estava confusa. Via-se entre duas escolhas: lutar até o fim para saber se ainda estava disposto a manter aquele casamento junto de Barbara, ou abrir espaço para outra coisa, um sentimento que o balançava e o fazia se sentir culpado toda vez que cogitava imaginar aquilo.
Ele acabou não falando o que pretendia, vindo a olhar para baixo, calado, talvez querendo outra rodada de seu uísque.
— Cerveja agora? — Finn perguntou.
— Hã?
Sorrindo pela distração do supervisor, ela apontou para o copo vazio dele.
— Sim, sim.
Russell não estava pronto para falar e ela entendeu isso. O momento era para ser aproveitado, dar tempo ao tempo. Finn não sabia quando, mas ele iria contar o que estava por trás daquele olhar cabisbaixo.
Ao longo do tempo no bar, Russell parecia um pouco mais “aberto” talvez por conta da companhia ou por causa da bebida. Não se transformou num livro aberto, mas já era um começo. Eles deram lugar a mais umas doses, permitindo que a conversa fluísse melhor. Falaram sobre trabalho, sobre o pessoal do laboratório e um pouco da vida de Finn. Ela adorava ironizar certas partes de sua vida, como os dois casamentos em que acabou se divorciando. Falar sobre isso talvez não tenha sido a melhor ideia, só que já era tarde para voltar. O jeito engraçado com que comentou o fez rir um pouco, o bastante para deixá-la menos tensa.
— Eu posso falar com ela — comentou entre um gole e outro.
Na mesma hora Russell entendeu de quem ela estava falando. O assunto que fora deixado de lado, de repente, voltou. O semblante dele foi mudando para algo que Finn via no começo. Fez de tudo para que ela não “percebesse” seu coração disparado. Finn era a última pessoa que Russell gostaria de ver entrar no meio.
— Não. — Ele ergueu a mão direita, cortando logo a possibilidade. — Eu nem queria te envolver nessa história. Deixe que... nós dois nos resolvemos.
Ela soltou um breve suspiro e olhou para o lado por um instante.
— Não dá pra ficar te vendo assim — desabafou.
Houve um silêncio após aquela reposta que acabou saindo de modo pessoal. Ela não era do tipo de revelar necessariamente o que sentia, mas aquela era a ocasião. Poucas eram as oportunidades na qual Finn podia falar ou falava abertamente com ele, quem sabe o supervisor não notava o quanto era importante para ela.
Ele abriu um sorriso e ajeitou os óculos. Para falar a verdade ficou sem jeito, suas palavras o desmontaram, fazendo-o perder o controle de seus pensamentos.
— Sou eu quem cuida de você, não? — O supervisor brincou, tentando voltar a si. De certa forma era verdade que o supervisor sempre cuidou e sempre se preocupou com Finn, até demais se comparado aos outros subordinados.
— É. Mas a situação se inverteu desta vez.
A bebida a estava deixando maleável demais, fazendo-a tomar um tom do qual não deveria. Ela queria vê-lo feliz, mas da mesma forma queria outra coisa, algo como tê-lo perto por mais tempo. Por mais que a ocasião não fosse pelo melhor dos motivos, a companhia dele a fazia se sentir bem, quase como ter uma recompensa para si.
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