Paralelas
7 Capítulo 6 - Arcade
Passeamos pelo porto da cidade pela manhã e entramos em algumas galerias pequenas, procurei por alguns jogos em duas ou três Game Stop e sai com uma figura de ação que peguei por ter achado bonita, porque o jogo não era um dos meus favoritos.
Por volta das duas horas, seguimos para o parque, onde encontraríamos Tyler, o garoto por quem Peter estava apaixonado e que estava prestes a se formar e ir para o outro lado do país, e tomamos sorvete.
Conversamos sobre nossos planos, o que gostaríamos de fazer quando terminássemos o ensino médio, divagamos sobre a cronologia dos nossos filmes favoritos de super-heróis e teorias absurdas, até o assunto chegar em uma conotação sexual carregada. Foi quando Sadie e eu percebemos estar sobrando entre os dois.
Sadie quis ir para o outro lado da cidade procurar algumas bugigangas que só encontrávamos em lojas de quinquilharias antiga e eu a acompanhei.
Entramos em duas lojinhas e procuramos por incensos, estatuas e outras tranqueiras que nos serviriam para algo, mas sem muito sucesso. Sadie saiu de lá apenas com um punhado de aromatizantes e um relógio de bolso antigo, que pegou apenas por remeter a cultura cyberpunk que ela ama.
Nos primeiros minutos do anoitecer, quando o sol havia se posto por completo no horizonte, aguardava impacientemente a chegada de Peter. Fazia quase meia hora desde que enviei a localização para ele e era estranho ele ainda não ter chegado.
— Olhar para o relógio não fará o tempo passar mais rápido. – Sadie resmungou.
Aguardávamos em um banco de frente para a terceira loja de quinquilharias que havíamos entrado naquela tarde, Sadie estava sentada, com as pernas cruzadas e eu insistia em permanecer de pé, caminhando de um lado para o outro.
— Por que o Peter está enrolando tanto? – Chutei algumas pedras no meio fio da calçada.
— Alguma coisa deve ter acontecido.
— Mas é nossa noite do Arcade. – Trinquei o maxilar. Não desviei o olhar da esquina por um segundo sequer, esperando o conversível preto despontar no cruzamento.
— A noite mal começou, ainda temos muito tempo. – Ela remexia nas sacolas de compra a procura de algo. – Olha só o que eu trouxe. – Ela desenrolou um pequeno pote metálico reluzente de um pedaço de papel pardo e jogou em minha direção.
Em um reflexo rápido, curvei o corpo na direção do objeto e o peguei no ar. Uma brisa suave de seu odor de erva preencheu meus pulmões.
— Você é perfeita, sabia disso, não é? – Maneei a cabeça em negação.
Guardei o potinho no bolso interno da minha jaqueta jeans e sentei-me ao lado de Sadie.
— Sobre a conversa de mais cedo... Aquilo te deixou meio desconfortável, não? – Ela me fita com um olhar gentil e preocupado.
— Qual parte? – Franzi o cenho, não sabia exatamente ao que ela se referia.
— Futuro?
— Ah, não é como se eu não tivesse meus planos. – Dei de ombros, não queria me aprofundar nisso. Não era hora e nem o momento certo para aquilo.
— É? – Pareceu surpresa. – Você não me fala muito dos seus planos— Fez aspas no ar.
— Não gosto de pensar muito nisso. – Admiti. – Mas sim, eu tenho meus planos. – Retribui as aspas.
Sadie sorri torto e morde o lábio inferior.
— E para onde sua rota de fuga te leva?
Sadie era minha melhor amiga, desde que nos conhecemos no nono ano. Ela tinha um jeito áspero e direto de tratar as pessoas que não gostava e isso foi o suficiente para me fazer querer criar uma amizade com ela. Eu contava tudo para ela, por quem me apaixonava, quem eu detestava, os problemas que tinha em casa... Mas nunca contei muito sobre o meu futuro.
Depois de sobreviver aquele caos, sinto que cada parte de mim se fechou em um casulo impenetrável. Evitava a maioria dos assuntos que não seja relacionado ao mundo geek, porque não quero ter que pensar, me abrir ou parecer vulnerável.
— Cal... – Peter interrompeu a minha linha de raciocínio com a buzina estridente de seu carro.
— Ele chegou. – Sadie jogou o corpo para fora do banco e caminhou para o carro.
Segui atrás dela e encontrei Peter sentado no banco do motorista, com os olhos avermelhados e lagrimas secas nos cantos das bochechas.
— O que aconteceu? – Perguntei.
— Acho que alguém brigou com o namorado... – Sadie murmurou baixo.
Entramos no carro, a garota no banco de trás e eu na frente, ao lado de Peter.
— Ele não é meu namorado! – Vociferou em resposta. Sua voz falha denunciou o choro que tentava segurar.
— Você quer conversar? – Estiquei o braço para tocar seu ombro, mas ele se afastou rapidamente.
Nos dois anos de amizade que mantinha com Peter, nunca o vi chorar. Sempre que ele ficava irritado ou magoado com alguma coisa, permanecia em silencio enquanto o resto de nos jogávamos e criávamos nossas estratégias ou, em algumas ocasiões, saia sem nem se despedir. Mas chorar nunca foi algo que ele demonstrou virtualmente, quem dirá pessoalmente.
— Eu só quero ir para casa... – Disse baixo, sua voz falhou de novo e uma lagrima escorreu pelo canto de seu olho. – Posso deixar vocês no Arcade, mas não vou ficar lá.
— Peter. – Sadie esticou o corpo entre o vão dos bancos dianteiros e encarou o garoto atrás do volante. – Você não pode deixar que o Tyler estrague o seu fim de semana.
— Sadie... – Disse em um tom repreensivo. – Precisamos respeitar o espaço do Peter, ainda temos amanhã e segunda.
— Mas é a noite do Arcade! – Relutou.
— Sadie. – Falei com mais firmeza.
Ela suspirou fundo, derrotada. Percebeu que eu tinha razão e que seria bom para o Peter ter um momento só para ele, sem nossa interferência e sem forçá-lo a ir para um lugar em que ele não quer. Ainda mais quando o seu pseudo-namorado estaria lá e, pelo visto, Tyler é a última pessoa que ele gostaria de encontrar no momento.
Peter nos deixou na frente do Arcade e seguiu para sua casa, apenas algumas quadras dali. Sadie e eu observamos a entrada colorida, muito diferente dos muros laterais que eram escuros, e o letreiro em neon logo acima da porta.
Era impossível conter a ansiedade quando estávamos de frente para um paraíso nerd dos anos 80. Só queria entrar, escolher a primeira máquina e socar seus botões enquanto afogo meus demônios em puro entretenimento e disputa.
Sadie correu para dentro e me puxou pelo braço. Atrás daquelas portas pretas, um universo de cores, sons e cheiros preencheu cada um dos meus sentidos.
Uma música clássica dos anos dos anos 90 estava tocando, o cheiro de salgadinhos, hambúrgueres e hot dogs tomavam conta da parte leste, onde ficava a cozinha e as mesas com bancos almofadados. A oeste estava as máquinas de fliperama, das mais novas até as mais antigas e bem no centro ficava a pista de dança com um globo característico de discoteca.
— Quer apostar uma corrida? – Sadie me fitou com seu típico olhar desafiador, a sobrancelha arqueada e os lábios contraídos em um bico debochado.
Assenti. Ela contou três segundos levantando um dedo de cada vez e corremos como se nossa honra dependesse do resultado daquela aposta.
Atravessei o corredor mais cheio, porém mais curto, até o fundo do Arcade. Era lá onde a máquina de Gauntlet ficava e era por ela que começávamos nossa lista de fliperamas que precisávamos jogar todas as vezes que visitávamos Seattle.
Avistei Sadie do outro lado do corredor, esgueirando-se entre um grupo de garotos fervorosos e totalmente imersos em uma partida de Tekken. Se ela tivesse sorte em passar por ali sem muita dificuldade, chegaria até o Gauntlet antes de mim.
Contornei o corredor à minha direita, evitando passar pela máquina de dança, que costumava estar lotada, independente do horário, e segui sem muitos obstáculos até o meu objetivo.
Ali estava ela, em toda sua magnitude de um clássico do RPG, apenas na espera de alguém colocar uma ficha para mostrar todo seu potencial. Seus tons azuis eram realçados naquelas luzes neon e criavam uma aura única para ela. Apesar de estar cercada por outro par de fliperamas, ela se destacava como um diamante em meio a um lixão.
Dei alguns passos largos e esbarrei em uma garota que segurava um copo de refrigerante na mão. Senti seu olhar me fuzilando pelas costas, mas eu estava muito perto de vencer para parar e pedir desculpas.
Sadie estava há poucos passos de distância também, vindo da direção oposta. Seu olhar sanguinário não escondia a competitividade que aquela garota tinha.
Chegamos ao mesmo tempo até o Gauntlet, mas minha mão tocou primeiro a haste do player 1, o que significava vitória.
— Ah, eu não acredito! – Sadie deferiu um soco direto em meu braço esquerdo – Você nunca joga limpo. – Resmungou e apertou o botão vermelho.
— Você que foi lenta demais. – Repliquei. – Aliás, cadê as fichas? – Coloquei as mãos nos bolsos da minha calça jeans, sem sucesso.
— Peter não entregou para você? – Indagou, o cenho franzido em preocupação e raiva.
— Achei que ele tivesse deixado com você. – Soltei uma forte lufada de ar.
— Eu não vou sair daqui, já sou o player dois, não preciso perder tempo em uma fila de merda. – Sadie fincou os pés em sua posição, obstinada a permanecer ali, independente de qualquer coisa.
— Tudo bem. – Aceitei sem reclamar muito, era justo.
Estendi a mão e gesticulei para que ela me desse alguns dólares para comprarmos ficha o suficiente para aquela noite. Ela me retribuiu com um revirar de olhos e entregou algumas moedas.
Dessa vez, atravessei o arcade de volta ao canto oeste com mais calma, já que não estava disputando mais nada. O jogo de luzes da pista se movimentava encantadoramente e as cores alternavam de tempos em tempos, acompanhando o ritmo da música.
A bilheteria era próxima à porta de entrada e saída e uma pequena fila se formava em frente ao balcão.
Parei atrás de um homem de quarenta e poucos anos e pouco mais de 1.90 de altura que reclamava sobre o quanto aquele lugar havia mudado.
Aprenda a lidar com o progresso. Resmunguei internamente quando ele comentou a respeito da roupa de algumas garotas que acabara de entrar.
— Eu esqueci de pegar! – Uma voz familiar rompeu minha linha de raciocínio.
— Era a coisa mais básica do mundo! – Um desconhecido protestou.
Procurei pelo dono da voz conhecida e encontrei Tyler parado na porta, poucos metros de mim. Uma garota com o cabelo branco preso em um coque frouxo e um outro garoto, mais baixo que o “namorado” de Peter o acompanhava.
Tyler olhou diretamente para mim, antes mesmo de olhar para o letreiro da bilheteria pendurado em cima do balcão. Talvez tenha notado que alguém não parava de olhar para a direção deles.
Não demorou para ele e seus amigos pararem atrás de mim para comprar ficha.
— Esqueceu de pegar as fichas com o Tyler, aposto. – Comentei. Quebrar o gelo e começar um assunto era a última coisa que eu estava sabendo fazer desde que sai de Crystal Falls.
— É, ele não me deu muita abertura para isso. – Respondeu ríspido. – Como ele está, a propósito? – Respirou fundo e perguntou. Ele não parecia muito preocupado.
— Acho que é melhor vocês conversarem depois. – Não contaria que vi Peter chorar pela primeira vez, muito menos o estado em que ele apareceu para nos buscar.
— Oi, eu sou a Galaxy. – A garota do coque branco interrompeu aquela conversa antes do clima se tornar desconfortável. – Esse é o Liam. – Apontou para o garoto mais baixo.
— Oi. – Retribui com um sorriso gentil. Ela era muito bonita, definitivamente, mas era o seu olhar penetrante que me pegou de guarda-baixa.
— Era com vocês que iriamos vir hoje, não era? – Suas íris azuis não desviaram um segundo sequer dos meus olhos.
— Sim. – Forcei-me a desviar o olhar antes que minhas bochechas corassem com a forma desconcertante que ela me encarava. – Mas tivemos uma pequena mudança de planos. – Dei de ombros.
— Você ainda pode ficar com a gente, se quiser.
— Verei com a minha amiga... – Trinquei o maxilar, ela ainda me devorava com o olhar – Se ela topa. – Conclui a frase com mais dificuldade do que gostaria
Marchei em passos pesados até a cabine e pedi algumas fichas com os trocados que Sadie me deu e junto do que eu havia guardado no bolso.
— Tudo bem. – Ela apoiou os cotovelos no balcão ao meu lado. – Estaremos por aqui, caso vocês queiram se juntar. – Galaxy deu uma piscadela. Ela fez um sinal com a mão para a balconista e entregou uma nota de 50 dólares.
Retornei para o Gauntlet torcendo para que Sadie não me matasse pela demora.
A encontrei parada do lado do fliperama, batendo o pé e de braços cruzados. Sua cara entregava seu mal humor.
Dois garotos estavam parados lado a lado na máquina que deveria ser nossa e, a meu ver, estavam apenas começando e tinham vidas o suficiente para passar os próximos vinte minutos ali, a menos que fossem muito ruins e morressem de primeira.
— A fila estava grande. – Murmurei em minha defesa.
— Deveríamos ter lembrado de pegar as fichas com o Peter. – Grunhiu. – Mas tudo bem, espero que ele esteja melhor.
— Ele precisa se acalmar, você sabe que ele se recupera rápido. – Entreguei algumas fichas para Sadie e mantive uma dúzia no meu bolso.
— O que faremos enquanto isso?
— Eu tenho uma ideia...
A música do arcade trocou para uma clássica dos Ramones no instante em que arrastava Sadie para a pista de dança. Sabia o quanto ela gostava de dançar e era assim que enrolaríamos até podermos dar início a nossa noite da forma certa.
Um coro em uníssono sobressaiu todas as conversas e qualquer outro som do ambiente e foi seguido do cantarolar da música.
O globo prateado refletia as luzes vermelhas com mais intensidade, um pouco de fumaça saiu das estruturas metálicas do teto e preencheu a pista com uma fina nevoa branca.
Sadie se rendeu rapidamente ao ritmo, balançando sua cabeça com voracidade enquanto suas mexas loiras chicoteavam o ar à sua volta.
Eu me limitava a movimentos sincronizados da cabeça, alternando entre círculos e bate-cabeça. Arrisquei um balançar mais agitado dos meus braços, mas minhas pernas eram incapazes de se movimentar da mesma forma.
As mãos de Sadie tocaram meus braços e me puxaram para alguns movimentos mais elaborados. Ela me fez girar em torno de seu corpo e me soltou de novo na pista.
Sorria para ela com tanta felicidade. Era disso que eu precisava para ser feliz. A liberdade de ser quem eu era sem que ninguém me julgasse ou tivesse medo de mim. A liberdade que havia perdido meses atrás.
Deixei a alegria daquelas músicas me contagiarem e embriagarem cada átomo de mim e Sadie guiar mais alguns passos. Passamos de Ramones para The Clash e encerramos nossa sequência de dança com The Smiths.
Nos sentamos nos banquinhos da ilha e pedimos dois refrigerantes para beber antes de retornarmos para o Gauntlet. Jogamos um pouco de conversa fora, respondemos algumas mensagens de Peter que gostaria de saber como Tyler estava e se estávamos com eles e me deparei com uma garota ruiva nos encarando atentamente, desde a hora que chegamos ali.
Ela me deu uma piscadela e apontou para Sadie que estava entretida demais em seu celular para perceber qualquer sinal.
— Ei! – Sussurrei. Empurrei seu celular para baixo e o apoiei na mesa. – Eu preciso dar uma volta.
— O que, por quê?! – Inquiriu confusa. – Você vai me deixar sozinha? – Ela levantou o olhar para me encarar.
— Eu preciso de um minuto. – Pressionei os lábios para esconder um sorriso. – Sozinha. – Reforcei quando ela insinuou levantar e me seguir.
— Está tudo bem?
— Sim, eu só... preciso de um minuto, eu já volto. – Quando o assunto era ser convincente eu dominava.
Queria que a ruiva se aproximasse dela naturalmente, sem nenhuma interferência minha. Sadie precisava deixar de lado Alice por um instante e aproveitar as oportunidades que a vida dava.
Na fogueira, ela não fez nada além de lamentar e dar um fora em todas as pessoas que se aproximaram dela. Esperava que aqui fosse um pouco diferente, mas não estaria aqui para olhar.
Essa deixa também foi conveniente o suficiente para que eu respirasse um ar puro do lado de fora e me livrasse um pouco do som abafado e do cheiro de gordura que vinha da cozinha.
Do lado de fora, recostei na parede grafite do Arcade e peguei a latinha metálica que havia guardado no bolso da minha jaqueta.
Preparei rapidamente um pouco de erva em uma seda de vidro e acendi com meu isqueiro de prata com um dragão entalhado de madeira.
Dedilhei por cima da calda do dragão menor. A textura áspera da madeira mal envernizada arrancou alguns arrepios da minha espinha.
Ouvia o burburinho de sons que ecoava quando abriam a porta, mas estar do lado de fora era relativamente silencioso, calmo. Observar o céu estrelado e o azul petróleo era um baque, se comparado as luzes internas.
A brisa úmida me preenchia com uma calmaria apaziguadora. Meus demônios estavam em silencio, dentro de mim não existia nada além de uma quietude de espírito.
Era apenas eu, um pouco de erva e uma cidade cheia de desconhecidos a minha volta. Talvez Seattle se tornasse um possível refúgio para quando eu saísse daquela escola maldita. Era um lugar com boas faculdades e uma vida noturna interessante, só não era quente como a Califórnia, mas tinha seus encantos.
O som de alguns pedregulhos chamou a minha atenção para uma garota parada na beirada da calçada, com as mãos enfiadas nos bolsos de um casaco preto.
Riley? Só pode ser brincadeira do destino. Protestei.
Nossos gostos eram parecidos, ao menos pelas conversas que já tivemos, mas estar no mesmo lugar e hora era o auge da coincidência.
— Aproveitando o clima? – Rompi o silêncio.
— Sim. – Respondeu num murmúrio baixo. Estava entretida demais com seus pedregulhos para virar e olhar para mim.
— Aqui é um bom lugar. – Era um dos meus favoritos. Se morasse em Seattle não sairia desse arcade por nada.
Nosso encontro foi infinitamente mais agradável do que aquele desastre no ónibus. Riley estava mais descontraída, quase como das vezes que a encontrava na escola, mas tinha algo diferente nela.
Foi durante nosso aperto de mãos que pude sentir um hálito cítrico com um quê de álcool. Notei as escleras de seus olhos esverdeados cercadas por um vermelho intenso que irradiavam até sua íris. Parece que alguém andou bebendo.
Riley era o tipo de pessoa que eu adoraria ter no meu círculo de amizade. Conseguia nos ver facilmente perdendo horas discorrendo sobre assuntos banais e controlando aquelas crises de riso que faziam a barriga doer.
Era alguém que eu chamaria para as noites da fogueira, para minhas partidas online ou para vir até Seattle só para conhecer um dos meus lugares favoritos.
Entretanto, isso não passava de uma imaginação boba. Nossas vidas estavam marcadas e se até meus laços mais intrínsecos bambalearam com as teorias, como eu construiria uma relação com alguém que já tinha medo de mim?
Terminei de fumar todo o conteúdo que havia preparado na seda e deixei mais um punhado pronto, para caso de “necessidade”. Riley estava entretida com a análise que estava narrando de seus amigos e seus olhos cruzavam os meus de tempos em tempos.
Eu demorava mais do que deveria perdida em suas orbes, deleitando-me da fantasia que criara da nossa amizade. Um arrependimento amargo e cruel se formou em minha garganta e um nó apertado esmagou meu coração.
Deveria ter me aproximado antes. Deveria ter ignorado o mal humor de seus amigos e os olhares tortos e a puxado para o meu mundo, mesmo que por pouco. Queria que ela realmente tivesse me conhecido direito, da forma como eu gostaria que ela me visse.
— E eu? – Inquiriu. Ela não pareceu levar em bom tom o que havia dito de seus amigos, muito menos quando citei Nick.
— Imprevisível. – Um suspiro escapou.
Não me referia a sua personalidade como imprevisível apenas por estar em um conflito interno a respeito de como ela se lembraria dessa noite. Se ela se arrependeria de ter conversado comigo e agradeceria por ter saído viva ou se ela estava se divertindo e iria me ver com outros olhos.
Mas Riley parecia imprevisível como uma caixinha de surpresas.
Ela não era o tipo de pessoa que andava com meninas que só sabiam falar de garotos e seus problemas patéticos. Muito menos a garota que era apaixonada por Nicholas Reed, o jovem prodígio que pareceu ser arrancado de um romance do Nicholas Sparks.
Uma intensidade e uma onda de mistério emanavam de Riley, como se ela escondesse muito mais do que deixava transparecer.
Imprevisível. Era tudo o que eu tinha para descrevê-la. Era o que bastava, por enquanto.
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