Paralelas

8 Capítulo 7 - Criaturas da noite


Max

Retornei para o arcade e encontrei Sadie conversando com a garota do bar. Elas estavam próximas, a mão da ruiva deslizava pela base do cotovelo até a metade do braço de Sadie em um afago íntimo.

Encontrei Nicholas e Riley sentados em uma mesa grande, com um grupo maior de pessoas. Ela estava com Galaxy, a garota de cabelo branco que me deixara atônita mais cedo.

Era nítido a maneira como Galaxy devorava Riley com o olhar, foi exatamente como ela fizera comigo. Nem conseguia imaginar o turbilhão de pensamentos que estava permeando a cabeça de Riley naquele instante.

Joguei algumas partidas no Gauntlet com a Sadie e Lucy – a garota do bar -, segui para uma partida solo de Pinball enquanto elas se divertiam em uma máquina de corrida de motos e encerrei a noite com um bom e velho Tekken.

Deixamos o Arcade quando beirava quase duas horas da manhã e fomos andando para a casa de Peter. A noite parecia ter sido arrancada de um clichê qualquer, com o céu estrelado, a brisa do Pacífico nos reconfortando. Era a típica vida de liberdade que desejava ter todas as noites e eu a aproveitaria antes de voltar para a minha realidade em Crystal Falls.

Para alguém que estava com dificuldade de seguir em frente e superar Alice, Sadie se saiu muito bem com Lucy. Elas não se desgrudaram até chegarmos na porta da casa de Peter.

Não me incomodei com o excesso de demonstração de afeto. Isso nunca me afetou, na verdade.

A maioria dos adolescentes reclamariam e fariam de tudo para se afastar, porque não sabem lidar com a solidão sendo esfregada e pintada em nossos rostos, mas eu realmente não ligava. Ir frequentemente naquela fogueira me anestesiou, já que era muito comum ver caricias um pouco mais... intimas.

— Ah, não. – Sadie reclamou alto, as mãos batendo em seus bolsos freneticamente. – Acho que esqueci meu celular no Arcade. – O olhar serene em sua face foi substituído por um pânico imediato.

— Sério? – Indaguei, procurando no meu casaco por seu celular de maneira instintiva, mesmo sabendo que não o encontraria ali.

— Sim... Meus pais vão me matar. – Grunhiu, decepcionada.

— Posso voltar e buscar para você.

— Está muito tarde para você andar sozinha. – Alertou Lucy. – Podemos ligar e pedir para guardarem.

— Não! – Respondi rapidamente. – Queria aproveitar um pouco mais dessa noite. – Tentei soar o mais convincente possível para Sadie e Lucy.

Mas era verdade. Não queria entrar na casa de Peter agora e perder a oportunidade de aproveitar uma das melhores noites que vivi nesse último ano. Fora que seria ótimo ter um momento de silêncio comigo, refletir ou só, sei lá, respirar o ar do oceano.

— Toma cuidado, por favor. – Sadie pediu.

Ouvi a porta ranger ao se abrir e Peter convidá-las para entrar. Sadie explicou que eu estava voltando para o Arcade e neguei a carona que ele iria me oferecer antes mesmo que ele pudesse abrir a boca para falar algo.

Era o meu momento de solidão.

Percorri o mesmo caminho de volta, cantarolando algumas músicas que surgiam na minha cabeça. Meu peito estava cheio de esperança e uma alegria que poderia me sufocar se quisesse, porque eu não ligaria.

Estava absorta em lembranças boas e quentes da minha infância e do nono ano, quando conheci Sadie e Noah. Lembrei das horas que gastava jogando em meu Playstation com Noah e Peter, uma das melhores pessoas que tive a chance de conhecer.

Eu era feliz, mas não conseguia enxergar com clareza.

Estar em Crystal Falls afogava todos os bons momentos em um poço fundo de desespero e tormento. Os olhares dos meus tios, a insegurança dos meus professores, os comentários maldosos...

Era uma merda sustentar a minha casca de impenetrável, dia após dia, apenas para sobreviver a um inferno.

Não daria a nenhum deles o gostinho de me ver no buraco em que já estava. Eu poderia até alimentar algumas teorias quando achava interessante ou pertinente. Seria a pessoa mais odiada da Lakeside High inteira, mas eles jamais veriam o estrago que fizeram em mim.

Meu cantarolar começou a ficar abafado. Sons externos de outras músicas começaram a ocupar um espaço maior no meu cérebro.

Não me dei conta que havia andado o bastante para estar na metade do caminho de volta até o Arcade, também não me recordava de ter ouvido alguma balada funcionando por aqui.

Uma onda de preocupação surgiu. Será que havia passado dos limites na maconha e me perdi sem querer? Era um caminho simples, sem muitas voltas. Mas alguma coisa estava diferente.

Conforme caminhava, o som se tornava mais claro. Alguns holofotes jogavam um forte feixe de luz no céu estrelado. A rua estava mais movimentada, grupos de três ou quatro pessoas cruzaram o meu caminho algumas vezes e dobraram a esquina de onde as luzes surgiam.

Fui atraída para lá pelo meu subconsciente curioso. Não era possível que não tivesse reparado um lugar como esse quando voltei com Lucy e Sadie.

Do outro lado da rua, encontrei uma fila longa, lotada de pessoas caracterizadas como personagens dignos da cultura pop que cercava meu mundo geek.

Era o paraíso, definitivamente, sensacional ver que em Seattle existia um lugar como esse. Foi como viajar no tempo diretamente para 1985, quando Simple Minds estava em seu auge com uma das minhas músicas favoritas.

Mas, houve mais um detalhe que me chamou a atenção. Naquele emaranhado de pessoas caracterizadas, uma garota vestindo um casaco preto e calça jeans skinny surrada estava parada na entrada. Seu cabelo ruivo na altura dos ombros não se parecia em nada com os permanentes que remetiam à época.

Estava a mercê de mais uma coincidência do destino que colocara Riley diante de mim, sozinha. Desejei tanto ter uma oportunidade de me reaproximar e em um mísero fim de semana gastei todas as oportunidades de uma vida inteira.

Ela parecia curiosa, desejando entrar ali tanto quanto eu.

Levando em conta nossa conversa anterior, não tinha nada a perder se não tentar aproveitar um momento com ela sem a interferência de ninguém. Talvez eu tivesse a chance de conversar sobre o que aconteceu, tudo o que eu vi e o que eu mantenho guardado desde aquela noite...

— Por aqui. – Sem me dar conta, havia corrido na direção de Riley e a cutuquei nas costelas, chamando sua atenção para um beco próximo de nós.

Se minhas teorias estivessem certas e Hollywood também, existiria uma entrada de serviço que seria nossa entrada fácil para essa balada.

E não demorou para confirmar minhas expectativas. Aquela porta estava ali. Preta, pequena e com uma lâmpada fraca e instável.

O piscar irregular da iluminação e a cor fluorescente irritaram meus olhos. Senti como se tudo à minha volta fosse coberto por um véu preto e uma tontura repentina fez minha cabeça doer.

— Você está me seguindo? – Ouvi a voz de Riley abafado. Minhas costas bateram com força contra a parede de tijolos descascado ao lado da porta.

Uma raiva surgiu no fundo do meu âmago. Estava difícil me concentrar e ter o controle total das minhas ações, quando um enjoo sufocante socou a boca do meu estomago.

Era quase uma sensação de desmaio, daquelas que sentimos quando estamos na metade da garrafa de tequila e não sentimos mais nossas pernas. Nosso corpo se mexe da forma como bem entende, nossa boca abre e fecha e nenhum filtro controla as palavras que saem.

Riley estava tensa, nervosa. Ela demonstrou o medo que controlou dentro do ônibus e parecia ter de sado conta da sorte que teve ao conversar comigo na porta do Arcade.

Não existia nenhum progresso. Ela só era mais uma pessoa com medo, mais uma que temia estar perto de mim.

A realidade veio em forma de uma angústia lancinante.

— Seu silêncio já diz tudo. – Falar em voz alta foi como concretizar e aceitar que o mundo em que ela se tornaria minha amiga jamais existirá.

Permanecer em pé se tornou uma tarefa ainda mais difícil. Tentava me concentrar na minha respiração e afastar a ânsia que batia em minha garganta.

— Riley? – A voz familiar de Nick surgiu na ponta do beco.

Vi uma silhueta de pouco mais de 1,78 e um cabelo curto que pendia na altura da mandíbula. Com certeza era ele a última coisa que precisava acontecer agora era uma briga entre nós três.

Riley virou para respondê-lo, criando a oportunidade que eu precisava para entrar por aquela porta e desaparecer.

Perdi o equilíbrio do meu corpo no primeiro passo que dei no chão de tabaco. Escorreguei em uma poça de água acumulada na porta e cai em cima de uma pilha de caixas.

O mundo parou de girar quando toquei o chão. Assim como todo o resto.

Silêncio. Era apenas o que existia atrás daquela porta.

Notas finais
Olha só, parece que esse cap não demorou tanto quanto o imaginado e já estou na produção do seguinte. Seria um progresso? Nah, só estou ficando cada vez mais viciada nessa história e está difícil mantê-la apenas na minha cabeça.