Paralelas
16 Capítulo 15 - Fim do dia
Notas iniciais
Max
— Poderíamos ter ido à fogueira hoje. — Noah resmungou, estendendo sua cadeira de praia o mais próximo que podia da fogueira sem se queimar.
— E perder essa fogueira particular? — Violet indagou, incrédula. —Nem fodendo! — Ela mantinha o espeto com marshmallow sob o fogo, esperando criar acamada tostada que tanto gostava antes de comê-lo, assim como fez com os últimos que devorou.
Sadie surgiu na soleira da porta, com um engradado de cerveja que pegou escondido do pai e algumas latas de refrigerante na mão.
Noah vibrou com a visão e gesticulou para que ela jogasse uma lata para ele.
Ela jogou as bebidas no gramado recém aparado, longe da fogueira, na intenção de preservar o gelo por mais tempo, e sentou-se na cadeira ao meu lado.
— Pensei que tivesse esquecido de nós. — Sadie reclinou o corpo na minha direção e murmurou.
— Não perderia uma noite assim. — Apontei para o céu estrelado sobre nós e a Lua crescente em conjunção com Vênus e sua fiel estrela.
Sadie maneou a cabeça com um meio sorriso no rosto, os olhos esverdeados refletindo as chamas da fogueira com ternura. Ela refez o seu coque frouxo, deixando algumas mechas de seu cabelo caírem pela lateral de seu rosto e enfiou as mãos no bolso canguru de seu moletom preto, duas vezes maior que o seu tamanho.
— Aliás, obrigada por ter devolvido minha bicicleta. — Apontou para a bicicleta jogada no meio do gramado. — E por não ter me avisado que iria roubá-la.
— Foi uma emergência. — Respondi com os lábios contraídos em um leve bico. — E de nada. — Lancei uma piscadela.
— Sei... — Murmurou.
— Max, queremos te perguntar uma coisa. — Violet arremessou uma lata de cerveja para o Noah e me ofereceu a outra lata em sua mão.
— Diga. — Neguei a bebida, mas me levantei para pegar uma nova lata de refrigerante e misturar com a vodca barata que Noah conseguiu com sua identidade falsa e um pequeno suborno.
— Aquela história da Riley ter batido no Cory é verdade? — A curiosidade transparecia em seus olhos castanhos em um brilho estarrecedor.
— Todo mundo está falando sobre isso. — Noah completou, a voz enrouquecida após quase se engasgar com a primeira golada de cerveja.
— Que surpresa. — Revirei os olhos e senti o peso do meu corpo duplicar na cadeira improvisada.
Ter evitado Nicholas mais cedo, quando deixei Riley em casa, facilitava um pouco minha vida, mas a velocidade com a qual esses boatos se espalhavam significava que deveria me preparar para um confronto em breve. E uma briga com Reed era a última coisa que eu gostaria de ter. Especialmente agora que Riley e eu estávamos nos acertando, de alguma forma.
— E então? — Insistiu, os ombros arqueados para a frente.
— É, a Riley bateu no Cory ontem. — Respondi, dando-me por vencida. —E foi a melhor coisa que eu vi! — Não contive o lapso de animação que aquela doce memória me causou.
Riley Stevenson, uma garota magrela de pouco mais de 1,60, derrubando um dos caras mais fortes do time como Cory Gale era impagável. Não sabia de onde ela havia tirado tanta força, mas aquele soco certeiro e inesperado me salvou de um olho roxo – de novo.
— Que foda! — Noah vibrou em seu lugar, derrubando um pouco da bebida gelada em sua camisa branca. — Merda. —Praguejou em seguida e arrancou uma gargalhada de Sadie.
— Estou surpresa com isso, ela não parece ser alguém que faria isso. — Violet constata.
— Você não conheceu a Riley de verdade. — Sadie dispara, franzo o cenho com seu comentário. — Estudamos juntas há alguns anos, você não sabia disso? — Nego com a cabeça e torno a encarar as estrelas por um breve momento.
— Minha aposta ainda está de pé. — Noah retoma o assunto do refeitório e se levanta da cadeira, esticando o corpo sobre a fogueira, como se quisesse abraçar as chamas para espantar o frio da noite.
— Você vai perder. — Resmunguei em baixo tom, girando a latinha de refrigerante batizada com vodca entre os dedos. — Riley não fala muito dele. — Repassei nossas conversas desde Seattle e parei para contar quantas vezes ouvi o nome Nicholas Reed sair de sua boca, se não fosse para comentar alguma insegurança ou servir de “barreira” para impedi-la de tomar alguma decisão impulsiva.
— E você a conhece a quanto tempo, Max? — Sadie provoca, um tom ácido e debochado. — Alguns dias de detenção?
Ignoro seu comentário, mas me mantenho em silêncio. Ela não está completamente errada. Há quanto tempo eu conhecia e conversava com Riley para valer? Algumas semanas desde Seattle ou os poucos dias da detenção?
Talvez, nem estivesse perto de conhecê-la de verdade.
Mas sabia que ela gostava de jogar jogos de tabuleiro e era apaixonada por fliperama — o que não era tão difícil de deduzir depois de tê-la encontrado no Arcade — mas Stevenson também ouvia as mesmas músicas que eu, o que também não contava muito. Eu sabia dessas coisas antes mesmo dessas últimas semanas.
Porra.
Eu realmente não a conhecia.
— O Reed vai te matar quando descobrir que Riley está saindo com você. — Noah apontou.
— Será que podemos deixá-lo um pouco de fora? — Resmunguei, quase em súplica.
A cada novo comentário e esse confronto de realidade que estava prestes a enfrentar afastava de mim a sensação nostálgica e acolhedora que tive ao chegar na casa de Sadie. E por mais que tentasse evitar, tudo, fosse o que fosse, despontava na porra do Nicholas. O tempo todo era ele.
Violet notou minha inquietação e mudou o foco do assunto para a festa de Halloween que Oliver estava organizando em sua casa e a possibilidade dele fazer algo mais exclusivo em seu porão e nos convidar.
Não demorou para Noah criar seus próprios planos e mergulhar no que Violet falava, criando um roteiro completo para que não perdêssemos um segundo sequer do dia.
Quando Sadie abriu a terceira lata de cerveja e encheu o meu copo com um pouco de refrigerante e o whisky horrível que Violet tinha arrumado com um amigo de sei lá quem, tive a ideia de mandar uma mensagem para Riley.
Tirei o celular do bolso da minha calça jeans e procurei por ela em todas as redes sociais. Comecei pelo Twitter, mas sua última interação havia sido há quase um ano, o que me fez desistir de primeira.
Descartei o Facebook tão rápido quanto a ideia de procurá-la ali. Detestava tudo naquela rede social, especialmente a necessidade de ter um aplicativo só para o feed e outro para interação, não fazia o menor sentido.
Entrei no Instagram e tive a sorte do seu perfil não ser privado.
Sua última postagem foi uma foto da costa de Seattle, no dia seguinte que desembarcamos na cidade. Poucas horas mais tarde e teríamos nos esbarrado ali mesmo, bem antes do arcade.
Precisava mostrar para Riley que podíamos conversar sem a necessidade dela inventar algo que a levasse para a detenção comigo.
Apertei no ícone de mensagens, inspirei fundo e enviei algo que julguei descontraído o bastante para a ocasião.
Espero que tenha sobrevivido. Não quero encarar mais uma semana com a professora Howard sozinha. Ela é insuportável.
Um peso que nem notei existir saiu dos meus ombros. Deixei o celular de lado, na mesinha improvisada entre a minha cadeira e a de Sadie.
Fui até a caixa de som na base da escada para pegar o celular de Violet e colocar algumas músicas na fila de reprodução. Selecionei algumas faixas do álbum Hatful of Hollow do The Smiths e passei uma música da Ariana Grande que Violet escutava o tempo inteiro.
— Sério, Max? — Sadie soltou uma risada desacreditada.
— Você não reclamou na fogueira. — Respondi, aumentando o volume da caixa no máximo.
Ela não curtia muito a banda por fatores políticos, assim como eu. Mas era impossível escutar How Soon Is Now? e ignorar a energia caótica e intensa dos anos 80 e a atemporalidade que aquele tremolo proporcionava.
Essa música era uma das minhas favoritas e eu invejava o fato dos meus pais terem vivido essa época de ouro. Apesar da cultura pop ter retomado alguns conceitos, é diferente. A tecnologia é uma benção, mas também é a maldição da minha geração.
— Eu sou humano e preciso ser amado, assim como todo mundo precisa. — Cantarolei o refrão da música, balançando o corpo em uma dança contida.
Estiquei os braços para Sadie em um convite para que ela se juntasse a mim.
— Não sei por que ainda sou sua amiga. —Resmungou, pegando minha mão e ficando de pé.
— Porque eu sou incrível. — Dei de ombros, provocativa. — E você, Noah? — Girei para encará-lo e o encontrei focado em seu celular. — Lembra quais são as regras?
— Que regra? — Indagou, o cenho franzido e com rugas ao redor dos olhos semicerrados.
— Sem celular na fogueira. — Tirei o aparelho de sua mão e joguei em cima da pilha de mochilas, próximo a um cooler vazio que usávamos de lixo para esconder as latinhas de cerveja.
Uma onda de alegria preencheu o meu peito e silenciou a ansiedade de mais cedo. Fazer jus ao carpe diem e aproveitar o momento era um dos maiores prazeres da vida.
Não sabia quanto tempo isso duraria.
Meus amigos, as fogueiras que fazíamos em noites estreladas, as músicas e não se preocupar com nada além do momento. A vida adulta chegaria para todos nós, inevitavelmente, e isso aqui não passaria de lembranças e fragmentos de uma época remota.
É por isso que viveria cada segundo como um pequeno deleite do universo.
Fale com o autor