Paralelas

17 Capítulo 8.1 - Todo dia é o mesmo dia


Notas iniciais
Notei que Nick andava muito apagado na história, permanecendo muito mais na cabeça de Riley do que na vida dela, propriamente dito. Pensando nisso, criei 2 capítulos extras para preencher algumas lacunas na história. Eles não afetam em nada a progressão e nada do que aconteceu até aqui, apenas servem como um complemento para aumentar a profundidade da relação Nick-Riley na narrativa. Os eventos desse capítulo acontecem entre o capítulo 8 e o 9, resumindo brevemente o que Riley viveu nesse meio tempo entre Seattle e a sua volta às aulas. A recomendação de música para o capítulo é End Of The World Everyday - Wildcat! Wildcat!.

Riley

Estava deitada na beirada da cama, o braço caído para o chão e as pontas dos dedos tocando a superfície gélida de madeira.

Se pudesse me definir em uma palavra, dualidade definitivamente cairia bem.

Adorava ficar na escola e sumir de Crystal High, tanto quanto adorava estar fora de casa e viver a vida como um adolescente normal viveria.

Seattle não foi meu melhor momento. Mas também foi mágico.

Fazia tanto tempo que eu não passava por aquilo que havia me esquecido das náuseas e tonturas. Não sei o que teria acontecido comigo se Nick não aparecesse ali para me ajudar.

Talvez Max pudesse me ajudar ou...

Trinquei o maxilar e senti um frio na espinha percorrer ponta a ponta do meu corpo.

Girei na cama, mirando o teto branco e os pequenos pontos de luz distribuídos nos quatro cantos e afaguei o rosto com as palmas da mão.

Estava destruída em todas as formas possíveis.

As lembranças de Seattle se tornaram subjetivas, assim como boa parte do que me recordava da noite da campina. Fragmentos tentavam preencher o vazio, mas não era o bastante para me dar uma imagem clara.

Lembro-me de ter acordado em uma cama de hospital, nos dois casos, com um acesso cheio de remédios e o tintilar dos meus batimentos cardíacos no monitor.

A única diferença foi que, dessa vez, não passei quase duas semanas apagada.

— Ei, miss paranoid? — Ouço a voz suave e gentil de Nick do outro lado da porta, seguido de três batidas contra a madeira.

— Pode entrar.

Nicholas surge com uma grande caixa branca de pizza, um refrigerante debaixo do braço e dois copos desajeitados entre os dedos.

— Pronta para mais uma sessão de terror? — Pergunta, erguendo a caixa de pizza e quase deixando os copos caírem.

— Você sabe que não precisa fazer isso.

Era o terceiro dia consecutivo que ele vinha para minha casa com comida e alguma proposta indecente de assistir um filme de terror recheado de gore e jump scares.

— Sei, mas alguém tem que cuidar de você. — Replica, os cantos dos olhos enrugando em resposta ao sorriso largo que ele abriu.

Pulei da cama em um sobressalto para ajudá-lo antes que o quarto virasse uma bagunça completa.

Coloquei a pizza no centro da cama e os copos com bebida em um puff duro, junto do controle da televisão.

Nick tirou os sapatos e cruzou as pernas, posicionando-se bem ao meu lado. Seu cheiro de almíscar preencheu o quarto em poucos segundos.

Estar com ele era uma das poucas coisas boas que me restou e esse cheiro era tão familiar que soava como o abraço confortável e seguro que eu procurava quando era criança e tinha pesadelos.

— Você já sabe o que vamos assistir hoje?

Ontem o dia se resumiu em uma maratona dos quatro filmes já lançados de Pânico, uma das minhas franquias favoritas.

Nick achava muito fraco comparado aos outros clássicos do cinema, algo muito previsível, óbvio e sem surpresas. Mas, ainda assim ele conseguiu errar todos os palpites de quem era o assassino de cada filme.

E era saboroso vê-lo errar e se contorcer de raiva.

— Que tal Slasher? Uma homenagem ao seu gênero favorito. — Respondeu com uma piscadela.

— Por que não? — Joguei o controle da televisão em seu colo.

Abri a caixa de pizza e senti o cheiro de queijo inundar o quarto, disputando espaço com o aroma de Nick e o difusor que costumava deixar na mesinha de cabeceira.

Mal esperei que Nick colocasse o primeiro episódio da terceira temporada da série – por onde ele queria começar — antes de abocanhar vorazmente o primeiro pedaço da pizza. Como eu amava isso.

Sempre fui forte para o gênero e o gore nunca despertou repulsa em mim, o que tornava fácil comer e assistir tv ao mesmo tempo, mas aquele primeiro episódio começou como um soco no estomago em forma de alerta.

Era comum filmes de terror contarem com um assassino mascarado, era um clichê que passava batido e ninguém mais se importava, além de gerar ótimas fantasias de Halloween, mas esse em específico não me agradava.

Alguma coisa na forma como aquele assassino abordava e surpreendia suas vítimas ilustrava perfeitamente o assassino da campina.

Antes dele, apenas o ghostface chegava próximo, mas o lado cômico em suas investidas, especialmente a partir da sátira, transmitiam um ar de inofensivo e facilmente domável.

Mas esse não.

Pelos 46 minutos seguintes, senti meu corpo agonizar toda hora que o assassino aparecia na tela, em um medo irracional de que ele pudesse sair dali e me atacar.

Nick se divertia com meus sustos e dedilhava minhas costelas algumas vezes, transformando meu grito silencioso em um grunhido agudo.

— Você não se incomoda com isso? — Perguntei quando os créditos do primeiro episódio começaram a subir.

— Com o que? — Indagou, espreguiçando-se em forma de alongamento.

— Como você consegue ser tão lento? — Murmurei. — Parece o que aconteceu com a gente. — Sibilei.

— Riley, isso é igual a 99% dos filmes de terror. — Deu de ombros, o cotovelo esticado na mesma posição por longos segundos. — Sempre tem um assassino mascarado ou fantasiado, isso não surpreende mais ninguém. — Completou.

— Sim, sim, é só que eu não gostei desse cara. — Admiti, mas me arrependi no segundo seguinte ter falado em voz alta. Nick arrumaria um jeito de fazer piada e me assustar com isso, já que era a primeira vez em muito tempo que algum filme ou série despertava um medo interno em mim. —Nem pense nisso! — O alertei quando Nick ergueu as sobrancelhas em um olhar malicioso.

— O que? Eu nem fiz nada! — Defendeu-se com uma risada sarcástica. O empurrei com o pé para fora da cama, o som de seu corpo caindo no chão foi mais alto do que esperava. —Aí, Riley! —Reclamou. — Podemos assistir outra coisa, já que isso está te incomodando tanto. — Revirou os olhos e voltou para a cama, esfregando o pulso que pareceu torcer com a queda.

— Que tal vermos Chucky ou A Hora do Pesadelo? — Sugeri.

— Pode ser. — Nick girou o pulso algumas vezes, massageando a região. Eu poderia até sentir uma pontada de culpa por tê-lo machucado, mas sabia que ele não perderia a oportunidade de me assustar com Slasher qualquer hora, então poderia dizer que estávamos quites, antecipadamente.

Sabia quase de cor e salteado as falas, mas ainda sentia raiva do Chucky nas mesmas cenas, como se fosse a primeira vez que estava vendo aquilo.

— Como alguém tão pequeno pode ser tão insuportável? — Ergui as mãos em relutância.

— Não sei, me diz você. — Nick respondeu com tanta naturalidade que precisei pensar duas vezes antes de sacar a indireta em seu comentário.

— Como eu te odeio! — Murmurei entre os dentes. Apertei os olhos por um breve momento e deslizei a ponta gélida dos dedos pelo contorno das bochechas, pressionando os lábios no final. — Caralho! — Dei um tapa em seu ombro, um pouco mais leve que o empurrão.

Nick caiu em gargalhada, estapeando seu joelho algumas vezes enquanto tentava recuperar o fôlego.

—Vou te expulsar do meu quarto. — Apontei para a porta com uma sobrancelha arqueada.

— Ah, você vai?! — Inquiriu com um quê de ironia. — Que tal um duelo? — Ele pegou o controle do Playstation na mesa de cabeceira e o jogou em meu colo.

— Desprezível. — Respondi com um sorrisinho torto. — Se você perder, vai fazer massagem nos meus pés por uma semana.

— Achei que iria me expulsar. — Replicou.

— Por que eu faria isso quando posso ter um escravo de pés? — Dei uma piscadela e liguei o vídeo game.

Ele pegou o outro controle na mesa de computador, dentro de uma das milhares de gavetas que guardavam minhas tranqueiras e voltou para a cama, acomodando-se na beirada, próximo da televisão.

Apertei meu pulso esquerdo gentilmente, sentindo a pulseira de couro que eu usava há mais de cinco anos e que ele havia me dado em um dos parques itinerantes que fomos, em uma comemoração aos anos que já tínhamos de amizade, e não contive uma risada baixinha com a lembrança repentina que veio.

Eu tinha sorte.

Por mais angustiante e monótono que meus dias poderiam ser, Nick sempre estava ali para torná-los mais leves e me incentivar a sair da caverna em que eu me enfiava de tempos em tempos.

O único que nunca desistiu de mim e o único que sempre estaria ali por mim.