Paralelas
18 Capítulo 16 - Insônia
Riley
Não conseguia fechar os olhos e dormir, muito menos esquecer a conversa desgastante que tive com meus pais há pouco.
O brilho do celular era a única luz que preenchia a escuridão do meu quarto e, apesar de rolar o feed algumas vezes e bater o olho em diversos vídeos e fotos, nada me prendia o bastante para permanecer por mais que alguns segundos.
Era quase três da manhã quando decidi dar um sinal de vida para Max e responder suas mensagens com um:
Estou viva, não se preocupe.
Afundei a cabeça no travesseiro duro após um longo suspiro. Girei a cabeça de um lado para o outro e coloquei mais peso, esperando que a espuma se ajustasse a mim, tornando-se mais confortável e anatômico, mas desisti logo em seguida, decidida a jogá-lo do outro lado da cama e afundar no colchão.
Rangi os dentes e larguei o celular na cabeceira, a luz da tela diminuindo sua intensidade gradualmente até a total escuridão.
Esperamos mais de você, Riley. A voz de Ryan ecoava nas paredes em uma ressonância exaustiva da desaprovação e negação com a qual eles me olhavam.
A insistência de Nicholas de se fazer mais presente e sugerir de me buscar de carro na saída da detenção era mais um mísero detalhe que só atava o nó em minha garganta.
Há quanto tempo eu vivia dessa forma?
O quanto meu julgamento havia sido afetado por esse monte de comprimidos?
Confrontar essa realidade e a maneira como estava sendo supervisionada o tempo inteiro, sob as rédeas de Nicholas e dos meus pais era como deferir um soco seco e profundo no meio do meu estômago.
Quando eu tinha deixado de lado aquela minha versão subversiva e encarnei o papel da garota regrada?
— Talvez quando você cansou de ser uma decepção? — Resmunguei baixo.
Culpa, insegurança, a maneira como magoava facilmente as pessoas e as lembranças de como eu era uma completa idiota com Sophia e os outros ilustravam as respostas que eu procurava.
Mas tinha muito mais nessa história do que apenas a letalidade de alguém inescrupulosa. Existia a fúria de uma vingança fria e amarga das minhas escolhas que refletia o comportamento deles.
A frustração nunca me abandonou, afinal, e, talvez, concordar e aceitar fosse mais fácil e exigisse menos de mim. Porém, em cada sim que dizia, quando meu interior gritava um não, perpetuava a sensação de fracasso.
Tão claro quanto o dia, me culpava pelo que causei para os meus pais. Em contrapartida, era impossível calar o orgulho que me preenchia pelos atos impensados e impulsivos dos últimos dias.
Viver era um constante jogo de escolhas e consequências com o qual lidávamos, dia após dia.
Que ótimo.
Seria infinitamente mais fácil se não me sentisse presa em um dilema do “bem contra o mal”. Sorri com a ideia de transformar meu drama pueril em algo mais poético, como a jornada do herói dos meus personagens favoritos.
Se encontrasse um sentido nisso tudo, talvez não sofresse tanto com as consequências, mas quem eu queria enganar?
Sentei-me na cama, afastando de mim os pensamentos densos e me agarrando nas nuances da última tarde, ouvindo a playlist maravilhosa de Max, que contava com uma música espetacular do Billy Idol, minha maior descoberta da semana.
Não sei até que ponto sua teoria poderia estar certa ou até onde deveria confiar nela, mas Max foi a única pessoa que acreditou em mim sem se afastar ou sugerir que eu estava ficando louca.
Nem mesmo Nick acreditava em mim.
— Nick... — Suspirei seu nome baixo, cedo ou tarde ele descobriria minhas intenções por trás da detenção e que estava me encontrando com Max às escondidas, ainda mais depois do soco que dei em Cory e os boatos correndo pela escola.
Essa era a única maneira, por hora, e quanto mais passava o tempo com ela, mais meu lado irracional gritava. Sentia-me como se fosse abraçada pelos suaves feixes de sol em uma tarde de inverno.
— Você sabe muito bem como isso irá acabar. — Murmurei, a exaustão física e mental recaindo sobre os meus ombros.
Escutei um barulho vindo do andar debaixo e o ranger de uma janela aberta no corredor. Não era normal meus pais dormirem sem fechar a casa inteira, muito menos estarem acordados à essa hora.
Reuni um pouco de coragem para espantar a preguiça e colocar o pé para fora da cama. Peguei o celular na cabeceira e usei a luz de sua tela para iluminar parte do caminho.
Trinquei os dentes ao me aproximar do corredor vazio e silencioso, imerso no breu da madrugada. Tive tantos pesadelos com esse lugar e lembranças que gostaria de não recordar, mas era inevitável a sensação de calafrio e pavor me dominando.
Dei o primeiro passo para fora do meu quarto e senti o assoalho gélido de madeira grunhir rudemente sob os meus pés. Caminhei suavemente até a ponta da escada, me esgueirando pelos cantos, como se precedesse um ataque surpresa. Um dia, a paranoia iria me salvar ou me consumiria de vez.
Um pequeno feixe de luz piscava no andar debaixo, próximo à sala de estar. Deduzi que meus pais haviam esquecido de desligar a luminária quando subiram para dormir. Entretanto, isso não bastou para reduzir a tensão em meus músculos.
Desci em passos largos e rápidos, cuidando para não fazer barulho e despertá-los, apesar de saber que eles tinham um sono relativamente pesado.
Meu coração pulsava na garganta na mesma intensidade descontrolada que a luz piscava, os nervos à flor da pele e a audição atenta para qualquer som que surgisse no ambiente.
Era apaixonada pela noite, mas as madrugadas me assustavam como se eu voltasse a ser uma criança de cinco anos, logo após assistir um filme de terror que não deveria.
No menor ruído ou uivo do vento que vinha da rua, meus pelos se eriçavam em uma resposta estarrecedora. Esquadrinhei cada canto daquela sala solitária antes de alcançar o interruptor da luminária.
Demorei o olhar pelas janelas de vidro, trincando os dentes de medo com as possibilidades medonhas que havia imaginado. Essa era uma grande desvantagem de ter uma mente ardilosamente criativa, qualquer cenário era digno de uma narrativa, positiva ou não.
Respirei fundo e desliguei a luz da luminária, tornando a deixar a sala em um completo breu. Liguei a lanterna do celular quando me dei conta que o brilho da tela não era forte o bastante para traçar o meu caminho escada acima.
Prendi a respiração e congelei por um longo momento ao virar de volta para o caminho por onde tinha vindo e me deparar com um casaco pendurado próximo à base da escada.
— É por isso que você faz terapia! — Murmurei entre os dentes, fechando a mão em aperto firme. — Está tudo bem. Estranhamente bem. — Repeti baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse.
A janela tornou a ranger, lembrando-me que deveria fazer mais uma parada antes de retornar para o único lugar em que me sentia segura: meu quarto.
— Você se porta como uma criancinha, Riley. — Continuei a conversa em baixo tom comigo, era eficiente o bastante para me distrair e afastar os pensamentos ruins. — Então a culpa é sua. —Constatei.
Um pequeno galho estava atravessado na base da janela, próximo à dobradiça e ele impedia que o trinco encostasse por completo na trava. Com o vento forte dessa noite, precedendo a frente fria que enfrentaríamos, era compreensível o barulho todo.
Afastei o galho seco e forcei um pouco a estrutura da janela para fechá-la por completo. Torci para que o som agudo repentino não despertasse ninguém.
Com o problema resolvido, minha aventura de madrugada pela casa havia terminado. Segui meu caminho de volta para o meu quarto e encostei a porta entreaberta do banheiro. Eu tinha uma mania muito nítida que era não gostar de frestas ou portas entreabertas, tinha a sensação de ser observada por alguém.
Cada passo em direção ao meu pequeno covil significava estar mais perto da segurança e o conforto da minha coberta. Foi inacreditavelmente fácil.
Fácil até um rangido suave ser percebido e captado pela minha audição aguçada e mente paranoica. Trinquei o maxilar, a visão expandindo sem que eu precisasse do auxílio da lanterna do celular.
Bastou uma fração de segundo para o som se tornar mais alto e eu voltar meu olhar para o corredor que havia passado. A mão na maçaneta da porta, o coração batendo atônito dentro de mim e o olhar fixado para uma massa preta, entre a escada e eu.
Não, não, não! Gritava internamente, incapaz de emitir qualquer som ou pedido de socorro para os meus pais, que estavam a poucos metros de mim.
A sombra deslizou pela parede em uma névoa torpe e veio em minha direção, num redemoinho de escuridão e pavor. Apertei a maçaneta com toda minha força, mas não conseguia girá-la para abrir a porta do quarto. Meus pés pareciam grudados no chão e meu corpo inerte não respondia a nenhum comando.
Cada vez mais perto, um fogo subiu pela minha nuca conforme aquilo se aproximava de mim, prestes a me envolver em seu abraço feral.
— Não! — Gritei com toda força que tinha, projetando meu corpo para frente em um salto repentino.
A cena desapareceu em um piscar de olhos, dando espaço novamente para o meu quarto escuro, iluminado apenas pela tela do meu celular.
Recobrei os sentidos, os batimentos em uma arritmia única e a respiração descompassada, e observei que a mensagem que havia digitado para Max não havia sido enviada.
— Está tudo bem... — Afundei o rosto na palma da mão e apertei a coberta, convencendo-me que isso não passara de um pesadelo.
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