Paralelas
19 Capítulo 17 - Escolhas
Riley
De todos os pesadelos que poderia ter, aguentar a Sophie uma manhã inteira depois de uma noite mal dormida era o pior deles.
Poderia ter inventado qualquer desculpa, um trabalho atrasado ou minha inscrição tardia para a peça de Shakespeare ou para o time de corredores de Crystal High. Qualquer coisa que servisse como uma desculpa para não ficar perto dela e seu discurso de auto piedade era melhor.
Odiava admitir, mas aquela descrição que Max havia feito dos meus colegas era bem verídica, especialmente quanto a insegurança de Sophie.
Apesar da arrogância e autoconfiança bem enraizada em sua personalidade, além de preencher todos os requisitos para fazer parte de qualquer grupinho popular, o medo que Sophie tinha só de se imaginar saindo de sua zona de conforto a sabotava completamente.
Foi fácil ignorá-la nas primeiras aulas, especialmente quando eu só precisava responder seu monólogo com poucas palavras ou um simples murmurar, mas não podia dizer o mesmo do intervalo, quando Harper surgia com seu jeito invasivo e se unia a ela em uma metamorfose única.
Passei os dedos entre minhas mexas de cabelo e soltei uma forte lufada de ar, o corpo reclinado sobre a mesa.
— Você quer me dizer algo, Riley? — Sophie indagou, a sobrancelha arqueada em um olhar inquisitivo.
— Não, Sophie, o mundo não gira ao seu redor. — Revirei os olhos.
— Você é inacreditável. — Bufou, as longas unhas batendo em sincronia contra a mesa.
Só faltou mascar um chiclete rosa de boca aberta para preencher a última lacuna do estereótipo que ela fazia de si mesmo.
— Riley, se você não tem algo a acrescentar, não atrapalha. — Nick apertou meu ombro esquerdo. — Tudo bem? — Amenizou a rispidez com a qual me respondeu, sem desfazer o sorriso cerrado.
— Inacreditável. — Repeti a frase de Sophie, em baixo tom, um sorriso debochado desenhando as curvas dos meus lábios.
Apoiei o rosto nas mãos e divaguei pelo refeitório, decidida a abstrair a conversa da dupla, antes que Harper chegasse e acabasse com o resquício de autocontrole que eu tentava manter.
Esquadrinhei o ambiente ao meu redor e pude notar a pequena diversidade de gêneros e estilos que aquelas quatro paredes reservavam.
Centralizado, tínhamos o time de Rugby e, como sempre, eles personificavam e representavam tudo o que a futilidade humana poderia ser durante o ensino médio. Inclusive Cory, o imbecil que levou um soco na cara por avançar em Max, estava ali sendo o rei dos imbecis.
À esquerda, próximo a cantina, estava a mesa dos excluídos, com três garotos jogando Magic, as cartas bem preservadas em sleeves de plástico. E não muito longe existia o contraste de um grupo de novatos metidos à rebeldes sem causa, com seus coturnos recém polidos e delineados bem-feitos.
E era isso.
O resto dos 130 alunos não se destacavam por um motivo aparente, exceto, é claro, as garotas populares que passavam a maior parte do tempo gravando gritinhos para postar em suas redes sociais ou tentando chamar a atenção de Cory e seus amigos. Elas não costumavam se sentar muito longe deles.
Mas no meio daquele pequeno mar de pessoas, estava Max, com seu típico xadrez vermelho rindo de alguma piada que ouviu de Violet, as maçãs do rosto coradas e uma gargalhada alta preenchendo o espaço entre eles.
Ela não preenchia nenhum daqueles grupos tradicionais do refeitório, apesar dela e seus amigos cumprirem bem o papel dos “isolados por serem queers demais em uma cidade pequena.” E, claro, não podíamos nos esquecer do título “assassina de Crystal High” que carregava como um bônus.
Ela jogou o corpo para trás, as costas batendo na cadeira e os olhos enrugados, enquanto apontava algo em Violet.
Noah estava segurando um copo de refrigerante na mão e, a julgar pela careta molhada de Violet e pequenas poças marrom na mesa, ela havia acabado de tomar um banho de cuspe.
Saddie chegou em seguida, envolvendo o corpo de Max por trás em um abraço caloroso, o queixo repousando no topo de sua cabeça, afofando as mexas de cabelo castanho médio. Ela dedilhou seu braço direito, contornando a manga dobrada de sua camiseta cor de chumbo.
Olhar para ela me lembrava fragmentos familiares de uma lembrança não tão distante, mas completamente esquecida e enterrada.
Quando um incidente acontece e temos algo nos que apoiar, facilmente, podemos transformá-lo em uma muleta conveniente para as nossas desculpas.
Era indiscutível que a noite da campina bagunçou a dinâmica num todo. Mas o luto se encarregou de colocar tudo em seu devido lugar e, embora tenha sido de uma maneira torpe, a maioria de nós se encaixou de novo.
Menos eu.
Exaltava minha solitude, assim como um tolo idolatrava um pedaço de metal brilhante, sem me dar conta que era a solidão quem me encarava de volta.
Por um tempo, a relação única e intrínseca entre Nick e eu era o bastante. Dispensava a superficialidade das amizades liquidas e me afundava cada vez mais nesse pequeno universo, até ele se tornar pequeno demais até para mim.
Não confunda minhas queixas com o arrependimento de ter largado o clube do livro ou me afastado dos excluídos de biologia, ou das conversas esporádicas com um veterano qualquer.
Eu me arrependia de ter me perdido.
— Já volto, não se matem. — Nicholas anunciou alto o bastante para que eu prestasse atenção, mesmo não querendo.
Ele e Harper seguiram para o meio do refeitório, onde estava um garoto com quem Harper fazia dupla na aula de ciências.
Trinquei o maxilar instintivamente e desviei o olhar de volta para a mesa, fazendo pequenos círculos com a ponta do indicador ao redor de uma rachadura.
Só precisava aguentar mais alguns minutos de Sophie resmungando e eu estaria livre dessa merda pelo resto do dia.
O último período foi com a Senhora Romero e sua típica aula exaustiva de literatura.
Não podia negar o cenário cômico que era estar de volta no lugar onde toda a história da detenção com Max começou e a atitude defensiva com a qual Romero replicava todas as perguntas de Max, como se esperasse alguma travessura ou piadinha de duplo sentido da garota.
— Ela não te deu um tempo hoje. — Comentei para Max, a alça da mochila escorregando do meu ombro, enquanto eu tentava equilibrar alguns cadernos e livros com as mãos.
— Enquanto ela não ficar puta com outra pessoa, eu serei seu alvo. — Max maneou a cabeça, pegando alguns livros do topo e me ajudando a carregá-los.
— Mas eu também fui para detenção com você.
— E com quantos professores você já teve problemas, Stevenson? — Max inquiriu, o olhar desafiador e a sobrancelha arqueada.
— Essa não é minha primeira detenção, Max. — Revirei os olhos em resposta.
Ela franziu o cenho em um nítido olhar de curiosidade.
— Você se surpreenderia com tudo o que eu escondo.
Abri a porta do armário com certa dificuldade, batendo alguns cadernos contra o metal durante o processo. Empilhei os cadernos na vertical e guardei os livros em seguida.
— É, Max. — Nick rompeu nossa conversa em tom sarcástico e completamente ácido. — Você surpreenderia com tudo o que a Riley esconde. — Ele alternava o olhar entre Max e eu, o maxilar trincado em um visível lapso de raiva.
Meu coração pulsou descompassado no meu peito, um frio na barriga e o nervoso de ansiedade tomando conta de cada parte do meu corpo.
Eu deveria ter contado a ele sobre o que aconteceu com Cory, porque isso envolvia Max no meio da história.
Mas por que eu devia isso a ele?
Passei minhas mãos pelo pescoço, puxando algumas mexas de cabelo e a pele em um aperto firme.
— Reed. Que surpresa agradável. — Respondeu com um fundo de deboche na voz e cruzou os braços, o encarando de volta com o mesmo olhar desagradável.
Nick soltou um baixo grunhido em desprezo e resposta para o comentário de Max.
— Que foi, Nick? — Disse por entre os dentes, a claustrofobia do conflito dentro de mim me sufocando em um nó apertado na garganta.
— Você tem ideia do risco que você se mete toda vez que conversa com ela? — Nick indagou incrédulo, a linha do maxilar demarcada e os dentes rangendo. — Primeiro aquela merda em Seattle, depois a detenção e agora você sai socando pessoas? Você não é assim.
Nick sabia que eu era exatamente assim e termos pego aquele ônibus para ir para Seattle, ao invés de continuar naquele carro com aquele motorista imbecil, era uma das maiores provas que eu podia oferecer.
— Fica longe dela. — Avançou em sua direção. Nick era um pouco mais alto que Max e, apesar de tentar usar isso a seu favor, Max não moveu um centímetro com sua aproximação.
— Ou o que, Reed? — Indagou pausadamente, devolvendo em tom ameaçador para Nick.
— Vamos conversar com a senhora Howard sobre sua detenção. — Nick segurou meu braço em um forte aperto e me puxou em direção ao teatro.
— Espera, quê? — Puxei meu braço de volta e, pelo reflexo de seus olhos, consegui me ver com uma reação perplexa, o fitando com um misto de confusão e raiva. — Isso não é da sua conta, Nicholas. — Repliquei.
— Qual é o seu problema? – Max interveio. Sua proximidade inesperada fez Nick encará-la com furor e seus músculos tensionaram em resposta. — Tá tudo bem? — Max perguntou, preocupada. Seus olhos azuis imersos ao meu em um segundo que me prendeu pelo que pareceu minutos.
—Vão se foder. — Murmurei baixo.
Dei as costas para os dois. Minhas mãos estavam tremulas e fechadas em um forte aperta, enquanto eu era sufocada pela sensação de nó na garganta por algo não dito.
Cheguei na detenção antes de todo mundo, até mesmo antes da senhora Howard, que deveria estar pegando seu café descafeinado e recheado de chantilly antes de aparecer no teatro, carregando sua bolsa cheia de roteiros e planejamento.
Organizei alguns pinceis e latas de tinta na mesa improvisada de madeira com cavaletes e subi as escadas, assumindo o lugar de Max na pintura.
Prestei atenção no movimento do pincel e em como o pigmento verde cobria a madeira crua gradualmente, mas a raiva e o caos psicológico que residia no meu silêncio e no hiperfoco estavam me enlouquecendo.
Não demorou para a senhora Howard chegar carregando um copo térmico na mão e alguns papeis enrolados no lugar onde deveria estar sua bolsa.
Ela se surpreendeu ao me ver ali antes de todo mundo e deve ter imaginado como eu estava arrependida por ontem e queria compensar isso. Quando, na verdade, era o completo oposto.
Ela me advertiu por ontem e estendeu minha detenção em mais alguns dias, como punição pelo sumiço de ontem. Diferente de Max, que ouviu um sermão de cinco minutos sobre suas atitudes e o futuro que ela gostaria de ter antes de ouvir sua sentença.
Max pegou o outro pincel da mesa e foi para o outro lado do teatro, em total silêncio. Não trocamos mais nenhuma palavra pelo resto do dia.
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