Paralelas
2 Capítulo 1 - Viagem
Acordei com a vibração do meu celular e a luz do luar entrando pelas frestas da janela do quarto. Meu coração pulsava de forma irregular, assim como minha respiração ofegante. Odiava essa estranha sensação de vazio que sentia toda vez que despertava desse sonho.
Esfreguei meus olhos com a palma das mãos e estiquei o braço para desativar o despertador que não parava de ecoar de forma estridente. Conforme os segundos passavam e minha mente ficava mais consciente, podia sentir meu corpo afundar contra o colchão, parecendo pesar uma tonelada. Fitei o teto acima de mim e soltei um longo suspiro cansado.
Era exaustivo lidar com as lembranças daquela noite e com os fatos que sucederam as semanas seguintes. Por isso, optei por me isolar na maior parte do tempo, permanecendo trancada dentro de casa ou, no máximo, atravessando a rua para passar um tempo com Nick. Fazia de tudo para evitar o contato físico ou as memorias repentinas que invadiam meus pensamentos e me colocavam em um quase estado de choque.
Durante o período de luto, obrigações e responsabilidades acadêmicas – e até mesmo as morais – ficaram parcialmente suspensas. Não exigiam muito de nós, nem esperavam muito, afinal, todos compartilhavam uma história de sobrevivência e trauma em comum.
O conforto e a segurança de estar trancado dentro de casa foi um alívio nos primeiros dias. Mas quando uma situação assim perdura muito tempo, ela se torna um problema e muitos tiveram que lutar para retomar sua vida social no mundo aqui fora.
Quem não escolheu se isolar acabou assumindo uma postura mais agressiva e esconderam-se atrás de uma máscara de superproteção, mas também teve um ou outro que desenvolveu paranoia. No caso, eu fui a infeliz que desenvolveu tudo isso de uma vez.
Apesar do tempo ter amenizado os sintomas daquela histeria coletiva, a sede de vingança estava longe de cessar e as investigações continuavam, fosse sondando a região a procura de novas pistas, coletar os mesmos testemunhos – mais uma vez – ou uma perseguição policial que pressionava alguns alunos, na espera de algo inédito.
Mas, por mais que a comunidade ajudasse de forma voluntária e a polícia estivesse imersa nesse caso, não existiam evidências o suficiente para responsabilizar alguém, muito menos uma pista qualquer que servisse de norte para um desfecho positivo.
O celular vibrou algumas vezes e tintilou seu som de notificação agudo, alertando-me das novas mensagens que recebi. Olhei de relance pela tela e identifiquei que era Nick.
Dei de ombros e respirei fundo contando até dez. Não contive um revirar de olhos e outro suspirar frustrado. Desisti da contagem antes de chegar na metade. Essa técnica definitivamente não servia para mim.
Sentei-me na cama e estralei os dedos das mãos, seguido de um estalar no pescoço. Toquei a minha nuca por um breve momento e senti uma cicatriz recente que descia em diagonal do ombro até minha coluna.
Essa marca era a única prova que tinha daquela noite e, também, meu lembrete diário da minha vida nas semanas seguintes. Às vezes, desejava que ela desaparecesse e que eu pudesse apenas fingir que nada daquilo aconteceu fora da minha imaginação, mas também era reconfortante saber que eu não estava insana.
Depois que me resgataram, passei alguns dias inconsciente no hospital enquanto tratavam minhas lesões. Precisei de um tempo para me readaptar e ficar atualizada dos acontecimentos e quanto mais me lembrava e mais ouvia falar sobre aquela noite, mais reações negativas e crises incontroláveis me dominaram.
Estava tão fora de controle que podia sentir minha mente se desprender facilmente da realidade e se enfiar em um mundo qualquer, fosse em um universo fantasioso que havia visto em jogos ou livros ou em realidades extremamente medonhas e vazias. Dissociação era o mecanismo de defesa que havia desenvolvido e era uma merda.
Você está pronta? Recebi mais uma sequência de mensagens de Nick me apressando.
Relutante, levantei-me da cama e fui atrás da mochila que havia preparado mais com algumas peças de roupa e meus itens de sobrevivência para passar alguns dias fora da cidade. Arrastei-me para fora do quarto, exausta. Meus músculos reclamavam a cada passo que dava em direção a escada e minha respiração falhou algumas vezes.
Que saúde invejável.
Dormir durante a tarde não era uma das minhas atividades favoritas – apesar de passar a maior parte da madrugada em claro também – simplesmente por despertar no meio de uma crise ocasionada por um pesadelo, mas hoje foi só um dia em que o cansaço me venceu.
A campainha tocou em disparada e em uníssono com os gritos que vinham do lado de fora.
— Não estou te ouvindo! – Respondi alto, mesmo sabendo que ele não seria capaz de me escutar com aquele barulho todo.
Enrolei propositalmente para terminar de descer as escadas e rodopiei algumas vezes entre um degrau e o outro quando Nick se esgueirou pela janela para me observar.
— Para de brincar e vem logo! – Reclamou.
Ele ficou ainda mais impaciente com minha demora para destrancar a porta e sair de casa, mas a careta que fez em resposta foi tão cómica que foi impossível conter a risada.
— Para que tanta pressa? – Indaguei em tom de deboche – Chegaremos lá de um jeito ou de outro. – Tranquei a porta e guardei a chave no bolso da calça.
— Por que o motorista já está esperando tem algum tempo?! – Apontou para o carro azul marinho estacionado do outro lado da rua, em frente à sua casa. Dentro do carro estava um homem de cerca de cinquenta e poucos anos, parcialmente calvo e carrancudo me encarando de volta.
— Vai levar só isso? –Ele pegou a mochila das minhas costas gentilmente e a levou até o porta-malas aberto.
— Sim. – Repassei mentalmente mais uma vez os itens que havia separado. Entrei no carro e me sentei na janela atrás do motorista, saindo de seu campo de visão.
Nick mal se acomodou ao meu lado e bateu a porta, quando o veículo grunhiu em uma arrancada repentina, expressando com clareza a impaciência do motorista por nossa demora.
— Sua culpa – Recriminou-me em voz baixa.
— Desculpa.
Recostei-me no banco de couro e tornei a esfregar o rosto com a palma da mão, na tentativa de espantar o cansaço que insistia em me dominar.
Tentei prestar atenção na música que estava tocando na rádio, mas country não era um dos meus estilos favoritos e não demorou para que eu começasse a ficar incomodada com o silencio e a situação tensa no ambiente.
— Não vai demorar muito – Tentou me acalmar ao perceber minha inquietação em menos de cinco minutos dentro do carro.
— Eu sei, já fiz esse trajeto milhares de vezes com você.
Era comum fugirmos de Crystal Falls sempre que tínhamos a oportunidade, isso porque a cidade sempre foi muito pequena, sem vida e sem graça. E pensar em passar alguns dias em Seattle era reconfortante.
— É bom sair um pouco – Comentei.
— Você passou por momentos difíceis – Observou. – Merece um pouco de paz.
Concordei com um suspirar profundo.
Queria apenas me afastar um pouco do caos que aquela cidade havia se tornado nos últimos meses e um breve momento como um adolescente comum, fazendo coisas comuns e vivendo trivialidades irrelevantes.
— Vocês formam um belo casal. — Pela primeira vez durante o percurso, o motorista se manifestou. Sua voz era rouca e grave, similar à de um fumante assíduo.
— Obriga... – Nick mal terminou o agradecimento quando o interrompi abruptamente.
— Não somos um casal.
Fomos amigos próximos, por tantos anos que havia perdido as contas, mas depois do acampamento Nick desenvolveu um lado ainda mais protetor. Evitava me deixar muito tempo sozinha e estava sempre disposto a me ajudar em minhas atividades. Ele era uma pessoa incrivelmente gentil e atencioso e isso ficava nítido na forma em que me olhava.
— Somos melhores amigos, na verdade. – Nick respondeu em tom ameno.
Sempre fui o tipo isolado, presa em meu próprio mundo e no meu círculo restrito e minúsculo de amizades, mas os poucos que sobraram foram graças a Nick, que servia como ponte intermediária. Mas era fato que a única pessoa que considerava um amigo de verdade era ele, só ele.
Ostentava um status de antissocial, porém depois de passar um tempo de recuperação numa clínica psiquiátrica, insana e louca se tornaram ótimos adjetivos para me descrever e isso não é uma informação que você gostaria que seus colegas soubessem.
— Quem sabe até o fim de semana as coisas não mudem? – O motorista insistiu em sua ideia.
Era até que compreensível que duas pessoas saindo da cidade, no meio da noite, visivelmente preparados para passar um fim de semana fora, transmitisse a ideia de algo a mais, mas esse não era o caso.
— Acho que não. – Respondi.
— Então temos algum problema aqui. – Disse. Rangi os dentes algumas vezes, incomodada ao me dar conta que o motorista tentava me observar pelo retrovisor.
— Por quê? – Inquiri. Desloquei-me alguns centímetros para o lado, saindo novamente de seu campo de visão.
— Nada não. – Deu de ombros.
Permanecemos alguns minutos em total silêncio. Nick estava mexendo em seu celular e ria de tempos em tempos e eu fitava a rua escura e as árvores que passavam como borrões pelas janelas do carro.
— Olha só o que Matt mandou – Nick estendeu o celular na minha direção no instante em que deu uma gargalhada alta.
Soltei uma leve risada e maneei a cabeça em negativo. Adorava as piadas e as montagens grotescas que ele fazia com alguns personagens do nosso RPG.
— Entendi qual é o problema. – O homem a minha frente tornara a falar.
Nick franziu o cenho e o fitou de lado, curioso e a espera da conclusão.
— Você não é o tipo que gosta de mulheres. – Não escondeu o deboche e certa repulsa na voz.
Imagino que ele estivesse prestando atenção na nossa conversa, procurando motivos que justificassem o nosso não relacionamento, e chegou nessa conclusão assim que viu a reação de Nick e ouviu o nome de Matt.
Babaca.
— É, parece que não encontramos mais nenhum jovem hétero nos dias de hoje. – Resmungou baixo. Ele fuzilava Nick com o olhar, através do retrovisor central.
— Qual é o seu problema? – Inquiri. As maçãs do meu rosto queimavam de raiva.
— Calma, gatinha, não precisa se estressar. – Riu baixo.
A postura séria e reservada que o homem ostentava desde o momento em que começamos o trajeto foi substituída por ameaçador e invasivo.
Fechei as mãos em um forte punho e trinquei os dentes. Agora era minha nuca que entrara em combustão.
— Gente assim estraga a cidade. – Riu com desdém.
Nick mantinha o cenho franzido e alternava o olhar entre o motorista e eu, confuso.
— Você é muito idiota.
— O que você está fazendo? – Nick indagou rapidamente.
— Quero descer no acostamento.
— Essa é uma via deserta, não tem por que descer. – O homem retrucou – Melhor controlar os seus hormônios, não vai demorar muito.
— Quero descer, agora. – Trinquei o maxilar com mais força.
Foi então que Nick percebeu minha alteração e encostou em meu braço, tentando me acalmar.
— Como quiser, gatinha. – Provocou-me mais uma vez.
Em uma freada brusca que me jogou para cima de Nick, o motorista estacionou o carro e me lançou um último sorriso malicioso antes de sairmos.
Nick pegou nossas malas no porta-malas e as colocou no chão. Apesar de não ter relutado com a minha decisão de descer no meio de uma estrada deserta, ele não havia entendido muito bem o real motivo por trás de tudo aquilo.
— O que aconteceu? – Suas mãos tocaram meus ombros por um breve momento. Fitei seus olhos claros por um breve momento e notei sua preocupação comigo, mas também certa recriminação.
— Ele é um babaca – Repliquei. Não queria entrar em detalhes.
O veículo saiu em arrancada dali e guinou na pista, retornando pelo caminho que viemos.
Vai se foder.
Os músculos do meu maxilar resmungaram de dor em resposta aos últimos minutos em estive tensionada.
— Você não deveria se importar com ele. — Comentou logo no início da nossa caminhada para o norte. – Agora estamos no meio do nada... – Suspirou fundo, frustrado.
— Sei que não deveria me importar com muita coisa – Disse ríspida.
Permaneci em silêncio e com um olhar não muito amigável a maior parte do trajeto. Chutava todos os pedregulhos que encontrava pelo caminho e novamente tentei fazer a maldita contagem que minha psicóloga tanto insistia em momentos como esse.
— Eu sei, mas você poderia tentar não levar tanto para o lado pessoal.
— Nick... – Parei de caminhar para encará-lo. – Deixa pra lá – Suspirei derrotada.
Poderia continuar aquela discussão a noite inteira se quisesse, ou até chegarmos no posto mais próximo, que estava a cerca de vinte minutos dali, como também poderia tentar deixar de lado e seguir aquele caminho da forma mais confortável o possível.
Era fato que não teria desistido dessa conversa tão fácil se fosse qualquer outra pessoa, mas Nick sempre foi tão próximo e tão bom para mim que seria injusto descontar nele o que estava sentindo.
— Não precisa ser tão ruim assim. – Tirei o celular do bolso da calça e coloquei uma playlist de música alternativa para ouvir conforme andávamos.
Foi a forma que encontrei para amenizar meus demônios interiores e evitar um conflito maior.
— Você sempre nos coloca em situações complicadas – Resmungou com um riso baixo.
— É o meu dom. – Dei uma piscadela e voltei a caminhar. – E você que decidiu ir de carro até Seattle, dessa vez.
— Meus pais não queriam que pegássemos ônibus. Estão paranoicos, ainda.
Dei de ombros com um meio sorriso.
Os pais de Nick sempre foram muito atenciosos com o filho e comigo também. Sentia-me parte da família Davis como a filha mais nova que sempre sonharam e nunca tiveram.
— Eles iriam nos matar se descobrissem que estamos caminhando numa estrada a essa hora da noite.
— É melhor nem comentarmos o que aconteceu...
— Sim, se não nunca mais sairemos sem eles de Crystal Falls. — Senti um pesar com a ideia de ficar presa naquela cidade até me formar no colegial e ter a sorte de ir para alguma faculdade longe dali.
A caminhada não durou pouco mais do que vinte minutos até avistarmos as luzes do posto de gasolina onde pegaríamos um ônibus que nos levaria até nosso destino.
Nos acomodamos em um banco de metal na frente da loja de conveniência enquanto Nick comprava um par de passagens pelo celular.
Por sorte, não precisaríamos esperar muito para seguir viagem.
Passei aquele tempo trocando de música repetidas vezes – porque nada naquela playlist estava me agradando – e rindo com Nick pelas mensagens que Matt nos mandava. Era quase um pedido de socorro, simplesmente porque ele não queria ir para o Canadá com os pais naquele fim de semana.
— Demos sorte – Comentou quando o ônibus despontou no horizonte da estrada. – Antes do previsto.
Assim que o veículo estacionou, duas pessoas que estavam dentro da loja de conveniência se posicionaram na lateral da porta, aguardando o sinal para embarcar.
Nos posicionamos logo atrás das duas senhoras e embarcamos em sequência, procurando nossos respectivos lugares, que, por azar, era separado um do outro.
— Esse é o meu lugar – Nick se acomodou da melhor forma que pode no espaço apertado entre o passageiro ao seu lado e o banco vazio. – Espero que você tenha mais sorte – Resmungou.
— Que merda não ficarmos juntos.
— Ninguém quer ficar em Crystal Falls.
— E quem quer? – Rimos baixinho.
— Poderíamos seguir viagem até Vancouver e fazer companhia para o Matt na casa dos avós. — Sugeriu com a sobrancelha arqueada.
— Seria uma péssima ideia – Mordi o lábio inferior, franzindo o cenho.
Nossa presença provavelmente transformaria o feriado de Matt um pouco melhor, ou mais suportável, porque ele odiava as reuniões de família que aconteciam frequentemente, mas acredito que seria extremamente desconfortável para o resto da família dele a presença de dois estranhos.
— Fato. – Concordou. – É melhor você ir para o seu lugar. – Apontou para um homem que aguardava a liberação do caminho em pé no corredor, há poucos passos de mim.
Tirei minha mochila de seu colo para que ele ficasse um pouco mais confortável – se é que seria possível – e segui três filas para trás, encontrando meu lugar vazio na janela.
O passageiro sentado ao meu lado levantou-se prontamente para que eu pudesse me acomodar e logo retornou ao seu lugar.
Recostei as costas em meu lugar e coloquei os fones de ouvido. Procurei outra playlist, dessa vez com um gênero diferente, e deixei tocando, enquanto desenhava alguns jogos da velha na janela.
Contornei com a ponta do indicador alguns orvalhos que escorriam pelo vidro e mantive o pensamento distante, em algumas lembranças aleatórias da última vez que havia ido para Seattle.
Os pais de Nick nos levaram de carro até a cidade e depois seguiram viagem para São Francisco, onde passariam as férias na casa dos avós do garoto.
Nick, Matt, Sophie e eu passamos as noites daquele fim de semana inteiro em algumas hamburguerias temáticas da cidade e jogando nossos jogos de tabuleiro.
Eram lembranças boas e extremamente nostálgicas de uma época não tão distante, mas que, para mim, dificilmente voltaria a acontecer, devido a fissura que foi aberta em nossa relação.
Sophie apenas me suportava, mas deixava nítido seu desconforto quando estava perto de mim. Matt agia naturalmente, mas não continha algumas piadas de mal gosto e brincadeiras que tocavam em algumas feridas minhas. Isso acabava sendo desconfortável, na maior parte do tempo, mas para não magoar Nick e estragar nosso jogo, acabava tolerando e fingindo que não era comigo – por mais que corroesse meu interior.
Os minutos seguintes passaram rápido enquanto mantinha o foco nas gotas de chuva que escorriam pelo vidro. Estava inquieta e impaciente, ansiosa para acender a lareira da casa de Nick e me jogar no chão da sala, de frente para algum tabuleiro qualquer ou um jogo que me distraísse.
A parada não havia demorado muito e logo as últimas pessoas embarcaram. Levantei-me na esperança de encontrar dois lugares vagos – mesmo sabendo a resposta — e deparei-me com Nick fazendo uma careta desconfortável com a inquietação do homem ao seu lado.
Não contive a risada e me diverti com a cena. Parece que alguém estava com azar aquela noite e essa pessoa não era eu.
Antes de voltar para a minha posição recostada na janela, um cheiro amadeirado invadiu minha narina e preencheu meus pulmões. De relance, observei primeiro a touca cinza que encobria algumas mexas cabelo castanho médio desgrenhado e, após terminar de vestir seu xadrez vermelho, consegui reconhecer o rosto com algumas sardas ao redor dos olhos.
— Max...? – Sussurrei quase inaudível ao reconhecê-la.
Não sabia se ela havia ouvido seu nome ou se tinha reparado que alguém a observava, mas logo nossos olhos se cruzaram e ela empalideceu em resposta. Seu corpo se retesou por um momento interminável de silencio que permeou nossa troca de olhares desconfortável.
— Riley? – Indagou surpresa. – O que você está fazendo aqui? – Por mais que tentasse parecer gentil, não conseguiu disfarçar o tom inquisitivo em sua voz.
— Estou indo para Seattle... – Retribui no mesmo tom. – E você?
— Acho que para o mesmo lugar que você. – Forçou um meio sorriso. – Você está bem? – Perguntou desviando o olhar para o celular que retirara do bolso da calça.
— Sim, e você? – Observava atentamente cada reação de Max, não disfarçando certa ansiedade.
— Bem. – Olhou para mim de relance mais uma vez antes de voltar sua atenção para o celular.
Encolhi meu corpo o máximo que pude e afundei no banco duro daquele ônibus. Senti uma pancada de enjoo em meu estomago junto de uma sensação de culpa.
Muitos boatos correram depois daquela noite, alguns mais perversos e outros complacentes, mas a verdade é que o nome de Max estava em quase todos eles, de um jeito ou de outro. Fosse como uma possível cumplice, fosse como a responsável, não pouparam esforços nas historias inventadas.
Pelo reflexo da janela, via seus músculos tensos e sua mandíbula rígida em um semicerrar de lábios. Ela me fitava de tempos em tempos e todas as vezes que nossos olhares se cruzavam eu fingia estar olhando algo muito além daquele ônibus, perdido em meio as arvores daquela rodovia.
Ela abria alguns sorrisos e maneava a cabeça, mas seus músculos permaneciam rígidos. Parecia desconfortável comigo ali e imaginava que fosse por ser uma conhecida de seu inferno particular
Tentei respeitar ao máximo seu espaço e não encostar nela, porém em alguns momentos era inevitável nossas pernas não se tocarem.
Max guardou seu celular no bolso de seu casaco xadrez e afundou a cabeça no encosto da poltrona. Ouvi um sibilar baixo escapar de seus lábios e seus ombros relaxarem pela primeira vez desde que me sentei ao seu lado.
— Está pensativa? – Tirou um dos fones de ouvido e rompeu o silencio entre nós de forma inquisitiva, porém gentil.
— Um pouco.
— Gostaria de compartilhar?
— É muita melancolia. – Disse o primeiro sentimento que vinha em minha mente quando pensava a respeito dos últimos meses. Era melhor do que falar que estava pensando em tudo o que falavam sobre ela.
— Melhor ainda – Virou para me olhar.
— Você é estranha – Deixei escapar e trinquei o maxilar em resposta.
Não era para ter falado isso.
— Geralmente as pessoas não gostam de assuntos assim. – Tentei me explicar, mas ela já não me olhava mais da mesma maneira dócil e sim com represália.
— Bem, não sou uma pessoa muito normal. – Franziu o cenho e arqueou uma sobrancelha em resposta.
Max revirou os olhos e torceu o lábio em um meio sorriso.
Quanto mais desconfortável aquele assunto se tornava, mais minhas paranoias ganhavam força e idealizavam uma nova cena de crime protagonizada pela garota ao meu lado.
O que ela vai fazer? Matar o motorista e nos jogar de uma ribanceira? Suspirei frustrada.
Ela deu de ombros e colocou novamente seu fone de ouvido, tornando a olhar para os bancos a sua frente e emergir em seus pensamentos.
Trinquei o maxilar e recostei o rosto na janela do ônibus, evitando contato visual pelo resto da viagem, até chegarmos em nosso destino.
Ficamos naquela situação desconfortável pelo que pareceu uma eternidade, até chegarmos em Seattle. Max foi uma das primeiras a se levantar e seguir para a saída e uma longa fila se formou atrás dela.
Aguardei até o último passageiro desembarcar antes de me levantar e caminhar atrás dele. Nick me esperava do lado de fora há algum tempo, podia ver a impaciência e preocupação em seu olhar.
— O que foi?
— Não sabia que estava ao lado de Max. – Disse sem rodeios – Foi tudo bem?
— Sim. Ela não é muito de conversa. – Não contaria os detalhes daquela viagem para ele e o quão desconfortável eu estava por ter me sentido uma estupida conversando com ela.
— Como você está? – Suas mãos pressionaram meus ombros gentilmente – Foi tudo bem, mesmo? – Encarou-me preocupado.
— Está tudo bem, Nick. – Tentei acalmá-lo com um breve sorriso.
— Tudo bem.
Nick afastou-se de mim e caminhou em direção a alguns taxis. Pude vê-lo conversar com dois motoristas antes de acenar para mim e me chamar para junto dele.
— Bom fim de semana, Riley! – Max acenou ao passar por mim.
Ela seguiu para a faixa de pedestres no cruzamento logo atrás do taxi onde Nick me aguardava, nervoso, a fuzilando friamente.
— Você que precisa relaxar. – Constatei ao ouvir seu ranger de dentes.
— Não acredito que ela está aqui. – Exalou uma forte lufada de ar frustrado.
— Só releva, como você sempre faz.
Entrei no taxi, exausta e faminta. Só queria chegar logo na casa de Nick e esperar que esse dia acabasse de uma vez, para que, enfim, pudéssemos aproveitar o feriado e deixar o caos de Crystal Falls de lado, ao menos por alguns dias.
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