Paralelas
3 Capítulo 2 - I Wanna Be Sedated
Notas iniciais
Devorei alguns salgadinhos que estavam guardados na cozinha da casa e passei longos minutos anestésicos em um banho bem quente e cheio de vapor. Meus músculos relaxaram como se a água levasse uma tonelada de problemas e preocupações ralo abaixo.
Fiquei na sala com Nick, sentada no chão de madeira sob um tapete branco macio e fofinho. Jogamos alguns jogos de tabuleiro e entramos em uma competição acirrada pela vitória.
A primeira hora de jogo foi inteiramente dedicada ao nosso jogo favorito de investigação, mas jogar apenas em duas pessoas não tinha a mesma graça. Não tanto quanto a última vez, quando formamos três duplas.
Depois de um tempo discutindo quem estava certo e errado – e perdendo um pouco de paciência – seguimos para um jogo de palitos que Nick claramente era ruim e tentava trapacear. E, por fim, encerramos a noite com um jogo qualquer de luta, apenas para Nick ter sua revanche.
Não imaginei que seria possível transformar uma noite com tudo para dar errado em algo agradável e descontraído. Permanecemos acordados até quase três e meia da manhã.
O dia seguinte não foi muito diferente. Perdemos quase a manhã inteira dormindo e durante a tarde passeamos pela costa da cidade, rumo a uma loja de jogo que sempre visitávamos quando íamos a Seattle.
Cada minuto que passava com Nick fora da nossa cidade era um presente. Voltava a sorrir, não tinha medo, minhas paranoias ficavam em silêncio dentro de mim e todos os meus monstros se acalmavam. Estar longe de casa me fazia voltar a ser quem era há muito tempo.
Mas nem tudo em Seattle era tão perfeito assim. Tínhamos um roteiro de lugares que visitávamos e, em todas as vezes, éramos acompanhados por mais duas ou três pessoas. A nostalgia não hesitou em aparecer como um nó forte em meu peito. Essa era mais uma das cicatrizes que nossa última viagem marcara.
Quando a lua banhava as ruas da cidade, decidimos que era a hora certa para irmos ao arcade. Caminhamos por algumas quadras iluminadas e entramos em um beco na rua vizinha para cortar o caminho.
As paredes eram pintadas de grafite, quase preto, e leds de diversas cores contornavam a porta preta da entrada. Existia uma larga janela lateral – a única daquela parede – que mostrava o hall de entrada e uma fileira de máquinas arcade clássicas.
Era oito horas da noite de uma sexta-feira e o lugar já estava visivelmente cheio. Existia uma pequena fila com cerca de meia dúzia de pessoas paradas na porta.
— Eu sei que não está todo mundo aqui, mas podemos nos divertir da mesma forma. – Nick me confortou, suas mãos em meus ombros.
Assenti com um sorriso e retribui com um empurrão no braço. Era assim que demonstrava carinho por alguém. Gostaria de abraçá-lo e demonstrar que estava feliz, apesar da situação atual, mas existia um bloqueio muito grande em mim que me impedia de me aproximar ou ter contato físico afetuoso.
— Idiota. – Respondeu com uma gargalhada.
— Vou acabar com você! – Nick rosnava com a mesma raiva com a qual soava os botões da máquina.
— Acho que não – Provoquei. Com golpes rápidos e certeiros, tirei o restante de vida que seu personagem tinha. Era sua terceira derrota seguida.
— Vamos mudar de jogo – Bateu na haste do controle com força e empurrou seu corpo para longe da máquina ao jogar as mãos contra o painel de botões.
— Foram cinco derrotas e uma vitória? — Contive uma leve gargalhada. Nick manteve um silêncio de poucos segundos e riu em seguida.
— Você sempre foi melhor nesse jogo, não é muito justo.
— Realmente. – Trocamos de corredor, deixando de lado os arcades de luta e nos dirigimos para uma máquina de matar zumbis, com armas de plástico.
Conforme a noite avançava, as músicas tornavam-se mais agitadas e carregadas com guitarras e baterias bem elaboradas. O arcade explodiu em uma animação e um coro contagiante no segundo exato em que começou a tocar I Wanna Be Sedated. Foi quando a noite havia começado e as pessoas começaram a cantar alto.
As luzes que alternavam lentamente entre azul e violeta foram substituídas por tons de vermelho e verde intensos, que piscavam no ritmo da música.
O som estava tão alto quanto as conversas. Era impossível ter um diálogo sem precisar elevar o tom de voz. Dava para ouvir os gritos frenéticos vindo de algumas máquinas de jogos quando alguém saia vitorioso.
Esperávamos para jogar um jogo clássico de naves espaciais quando Nick puxou conversa com um garoto da fila ao lado. A conversa girou em torno da camiseta de desenho que ele vestia e foi o que bastou para sermos introduzidos ao resto do grupo.
Nossas idades eram próximas. Os garotos estavam no segundo ano também, mas Galaxy – como a chamavam — era a mais velha e estava prestes a terminar o ensino médio.
Não perdemos muito tempo com a introdução. Trocamos nossos nomes – os quais a maioria já havia esquecido -, compartilhamos mais alguns interesses em comum e formamos pares para competir. Os garotos foram primeiro, em duas duplas, e eu e Galaxy iríamos em seguida. Queria que Nick se divertisse um pouco sem mim.
Fiquei sozinha com Galaxy na mesa que eles haviam reservado. De início, foi um pouco estranho e desconfortável conversar com ela, estava com vergonha. Mas logo ela conseguiu quebrar o gelo e arrancar algumas risadas que deixou meu rosto corado.
— Olha como eles se estressam – Apontou para os garotos.
Girei a cabeça para observá-los e encontrei Nick e Tyler quase espancando os botões redondos da máquina e mexendo no analógico em direções alternadas.
— Nick não gosta muito de perder. – Deduzi pela forma como ele estava reclinado na frente da tela e a velocidade com a qual apertava os botões. Era idêntico a todas as vezes em que estava prestes a derrota-lo.
— Aposto que você também não. – Constatou. Suas costas tocava o encosto almofadado de couro vermelho da poltrona e sua mão descansava sobre a mesa.
— Não mesmo. – Concordei.
— Então, você está com ele? – Seu dedo indicador contornou a boca do copo de refrigerante em sua frente.
— Ele é meu melhor amigo. – Notei um leve sorriso se formar no canto de seu lábio. Interessante.
Ouvi a gargalhada alta de Nick próxima de mim. Imagino que o seu esforço rendeu uma boa vitória contra Tyler. Logo, os garotos estavam de volta a nossa mesa, sentando-se em seus respectivos lugares.
— Prontos para mais uma rodada? – Galaxy perguntou. Sua voz estava rouca e baixa.
Olhei para ela curiosa. Do que ela está falando? Algumas mexas de cabelo branco escapavam de seu coque e pendiam sobre seu rosto. Ela era uma garota muito atraente e parecia ter saído de um jogo de videogame de fantasia qualquer.
Em poucos movimentos ágeis, ela pegou dois copos e os passou por debaixo da mesa, entregando para Tyler em seguida. O outro garoto mais baixo – Liam, eu acho – entregou um copo de soda para Galaxy que repetiu o movimento com maestria.
— O que vocês estão fazendo?
— Um pouco de magia. – Respondeu com um sorriso torto.
— Vodca misturada com refrigerante. – O garoto mais baixo respondeu, próximo ao meu ouvido.
— Não estraga a brincadeira, Liam. – Galaxy revirou os olhos e maneou a cabeça em negação.
Ela passou outro copo por debaixo da mesa e empurrou de volta na nossa direção. Liam – agora certa de seu nome – estava prestes a pegar o copo, quando a garota de cabelo branco lhe lançou um olhar ríspido.
— Deixa para ela. – Ordenou.
Ela se reclinou para trás, recostando novamente no estofado, e cruzou uma perna sobre a outra. Seus olhos não saíram de mim por um instante. Galaxy acenou com a cabeça e gesticulou com a mão para que eu pegasse o copo.
— Não precisa ter medo, o Liam já estragou a brincadeira. – Revirou os olhos.
Nick me lançou um olhar cauteloso, mas não disse nada. Hesitei por um instante. Respirei fundo e dei de ombros. Peguei o copo e virei metade de seu conteúdo de uma vez.
— Parece que alguém não está de brincadeira... – Murmurou entorpecida.
A mistura de soda com vodca desceu queimando pela minha garganta, que se fechou no instante seguinte. Tinha muita álcool para pouco refrigerante, mas o sabor ainda era adocicado. Ignorei a reação e me forcei a beber o resto da mistura sem muito rodeio.
Bati o copo na mesa em um gesto teatral e limpei o canto do lábio com a ponta do dedo. Devolvi o mesmo olhar de Galaxy, observando-a fixamente. Seus olhos azuis alternaram entre me fitar e encarar o copo vazio na mesa, a poucos centímetros de distância dela.
— Quer mais? – Reclinou-se na minha direção. Sua aproximação fez meu coração bater de forma irregular. Seu perfume cítrico ricocheteou em meu rosto com tamanha intensidade que me fez arfar em resposta.
— Daqui a pouco. – Gaguejei.
Estava embriagada pelo seu olhar e a forma como ela se portava. Sua autoconfiança e o jeito despojado de se expressar e gesticular complementavam a hipnose que estava sofrendo naquele instante. Trinquei o maxilar, precisava recuperar meu controle.
— Você quem manda – Sorriu gentilmente e afastou-se de mim. – Alguém mais? Aproveitem, ainda tenho bastante escondido. — Os garotos renderam-se a mais um copo e até Nick se permitiu provar um pouco daquela “magia”.
Terminado aquele round, Liam ficou na mesa e nós seguimos para a nossa próxima competição. Como incentivo, quem perdia precisava beber um shot de vodca pura. Galaxy queria fazer valer a pena a dificuldade que foi conseguir comprar aquela garrafa e entrar com ela escondida.
Consegui manter um recorde de quatro vitórias consecutivas, até jogar contra Galaxy que, em um piscar de olhos, me derrotou com maestria. Sua proximidade e a forma como eu me senti ao seu lado foi um grande fator decisivo para me desestabilizar nos momentos chave.
Três partidas depois e a vertigem alcóolica se manifestou. Antes de começar a perder o controle, decidi que era a hora de dar um tempo e parar de tentar derrotar Galaxy. A forma como ela ficava a cada nova vitória me deixava com uma vontade insana de empurrá-la e depois agarrá-la. Respirei fundo, estava indo longe demais.
— Acho que vou tomar um ar. – Encostei no ombro de Nick, capturando um pouco de sua atenção enquanto jogava, e o avisei.
Segui para a saída cambaleando um pouco. As luzes não iluminavam muito bem alguns corredores e foi difícil enxergar alguns degraus que surgiam pelo caminho.
Fui abraçada gentilmente por uma brisa fria no instante em que pisei na rua. Apreciei o arrepio que irradiou da minha espinha até os meus braços e me rendi ao calafrio, em resposta ao contraste de temperatura. Ri baixo com a ideia de comemorar um clima fechado que era o motivo de ódio de muitas pessoas.
— Quanto mais cinza o céu, melhor. – Completei meu pensamento em voz alta. Chutei alguns pedregulhos na base da calçada e enfiei as mãos nos bolsos do casaco.
Uma nova lufada de ar frio ricocheteou em meu rosto e senti uma nova onda de arrepios percorrer meu corpo. A bebida havia me deixado um pouco mais sensível do que o habitual.
— Aproveitando o clima? – Uma voz grave e suave surgiu há poucos metros de mim.
— Sim. – Resmunguei baixo.
— Aqui é um bom lugar.
— Definitivamente.
Respirei fundo o ar fresco e enchi meus pulmões com uma boa dose de felicidade. Abri os olhos após mais uma inalada daquele ar e olhei para a direção de onde vinha a voz, encontrando Max encostada na parede grafite do Arcade.
— Desculpa. – Disse sem jeito, com a voz falha. — Por ontem. Não queria ter reagido daquela forma. – Tentou ser mais clara.
— Tudo bem, não foi nada.
— Você me pegou de surpresa. Não esperava encontrar alguém da escola, muito menos sentada ao meu lado.
— Você também, então estamos quites.
— Não queria te assustar. Sei que sou a última pessoa que qualquer um gostaria de ter por perto. – Ela suspirou, podia sentir a frustração em suas palavras.
— Um pouco exagerado, não acha? – Não iria admitir minha ansiedade e a paranoia que permeou meus pensamentos durante quase uma hora de viagem, ela não precisava daquilo.
— Ninguém gosta de mim, não precisa fingir. Nem ser legal comigo – Seu meio sorriso carregava uma dose seca e ríspida de verdade.
— Não estou fingindo.
Max revirou os olhos e maneou a cabeça negativamente, incrédula com as minhas palavras.
— As pessoas também não gostam muito de mim. – Murmurei baixo.
Parte de mim queria mostrar para ela que não éramos tão diferentes nesse quesito e que ela não estava sozinha e parte de mim tinha receio de se aproximar mais dela, mas tinha alguma coisa em Max que me atraia como um imã.
— Sendo assim, bem-vinda ao clube – Deu uma piscadela e estendeu a mão para que eu a apertasse em resposta.
— Muito obrigada – Abri um sorriso largo e retribui o aperto de mão firme. Seu toque era macio, apesar de alguns calos nas pontas dos dedos, e gélido.
Essa era a primeira vez em meses que conseguia trocar uma dúzia de palavras com Max sem que um clima extremamente estranho e desconfortável tomasse conta de nós. Ou que as paranoias da campina invadissem minha mente com força.
Nunca fomos tão próximas na escola, fazíamos parte de grupos diferentes de pessoas, mas partilhar alguns gostos em comum te aproximava de pessoas que você nem imaginaria e ela era uma dessas pessoas.
A última vez que conversamos foi naquele dia.
Enquanto aguardava o ônibus sair para o acampamento, ela havia reparado na camiseta que vestia com a estampa do meu jogo favorito e puxara assunto para elogiar a protagonista e enaltecer a necessidade de mais projetos como aquele.
Aquele assunto rendeu uma boa conversa que nos manteve imersa e entretida até embarcarmos e seguir viagem, cada uma se sentando em seu respectivo lugar, separadas. Imagino que se não fosse com Nick e ela com uma de suas amigas, conversaríamos por mais algumas horas infindáveis.
— Sair de Crystal Falls é como tirar um enorme fardo das costas. – Admitiu em um suspirar.
Ela não parecia estar tão tensa hoje como ontem. A conversa tinha um tom mais agradável e amigável e seus músculos pareciam mais relaxados. Mas, não podia afirmar se ela estava mais confortável comigo ou se era influência de um cheiro bem familiar que senti vindo dela logo que sai do arcade.
Abri um meio sorriso e maneei a cabeça. Ponderei que a segunda opção fosse a mais viável, e a respondi com uma risadinha baixa:
— Até parece que somos felizes de verdade.
— Não é? – Retribuiu com um sorriso largo. – Não sei como aguenta aquela merda toda. – Afastou-se alguns centímetros da parede e esticou os ombros. Ouvi seu pescoço estralar ao se alongar.
— Todos sofreram de alguma forma... – Max deu de ombros. Sua expressão mostrava que ela tinha uma opinião diferente da minha.
— Estamos no mesmo arcade em Seattle, mas ainda assim pertencemos a grupos diferentes. – Observou com um olhar intrigado. Pela primeira vez, ela se virou na minha direção e recostou a cabeça na parede, olhando fixamente em meus olhos.
— Escola grande – Debochei. – Meus amigos são mais introvertidos e isolados.
— Hmm... Acho que não. – Murmurou em um tom engraçado. – São deslocados. – Arqueou a sobrancelha. Ela realmente estava puxando um assunto tão trivial comigo?
— O que você fumou? – Franzi o cenho. Não que Max não fosse assim, nas outras vezes que conversamos consegui perceber uma pessoa extrovertida e que gostava de conversar bastante, mas não conseguia afastar a imagem recente do ônibus.
— Nada. – Revirou os olhos com um meio sorriso, contido por um bico. – Sophie não se parece nada com nenhum de vocês. Ela é muito fashionista e tendenciosa, mas é tão insegura que justifica bem o porquê não se integrar em grupos que são mais a cara dela.
— Muito obrigada. – Não contive o tom ofensivo com o qual a respondi. Mas a forma como ela jogou aquelas informações fez tanto sentido que era impossível não concordar.
Isso me lembrava diretamente algumas vezes em que Sophie implorou para mim e para Harper descobrir algumas informações de Raphael, ou qualquer outro garoto que a interessava. Chegava a ser vergonhoso as vezes em que ela atropelava algumas palavras por estar sem jeito ou como ela enrolava algumas mexas de seu cabelo loiro com as mãos trêmulas, numa vaga tentativa de disfarçar seu nervosismo. Não que, as vezes, eu não fosse igual.
— Raphael é o garoto bonitinho que gosta de ler alguns livros e bom em matemática, o esnobe. – Ignorou minha reação e continuou sua análise – Sophie é totalmente apaixonada por ele, mas sua insegurança a impede de contar para ele diretamente.
— Parece que alguém gosta de observar as pessoas.
— Essa última parte é óbvia, especialmente depois daquela cena com você e a Sophie no refeitório. – Suspirei fundo ao me recordar daquele dia. O começo do fim. – De qualquer forma, Nick faz mais o tipo de Sophie. – Senti uma onda de calor percorrer minha espinha e minha respiração ficar mais pesada. Imaginar essa cena me deixou nauseada. Max me fitou curiosa.
— O estereótipo perfeito da garota frágil e seu protetor.
— E eu? – Perguntei em tom seco. Quanto mais imaginava um relacionamento entre os dois, mais sentia meu corpo esquentava e mais meu coração batia de forma irregular.
— Imprevisível. — Soltei uma forte lufada de ar. Esperava muito mais do que uma única palavra para me descrever, apesar de ter sido certeira e bem apurada como se ela acabasse de deferir uma faca contra mim.
Apesar da minha nítida reação e de um misto de frustração e pesar em meu olhar, Max não conteve uma gargalhada e posicionou-se de frente para a entrada do local.
— Você é muito densa, Riley. – Com um último sorriso e uma expressão serena, Max empurrou a porta vermelha e seguiu de volta para dentro do arcade.
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