Paralelas
6 Capítulo 5 - Seattle
“Você me convenceu.”
Aceitar a proposta de Sadie para passar o fim de semana em Seattle foi algo que enrolei até o último segundo, mesmo sabendo que tinha tudo a ganhar se passasse alguns dias longe de Crystal Falls.
Meu único arrependimento foi demorar para avisá-la e isso me custou ir em um ônibus diferente com uma longa viagem solitária pela frente. Ao menos, preferia estar sozinha a passar horas ao lado de alguém inconveniente.
Já estava com as passagens compradas e precisava apenas terminar de organizar minha mochila de emergência, com algumas trocas de roupa e itens indispensáveis para passar alguns dias fora de casa.
Convencer minha mãe a me deixar sair de Crystal Falls foi a parte mais fácil, difícil foi lidar com as paranoias do meu pai que insistia que soaria suspeito se eu passasse um fim de semana fora, mesmo com uma investigação congelada há meses. Mas, nada que um pouco de lábia e persuasão na dose certa não resolvesse.
Fui deixada na rodoviária pouco antes do ônibus sair e me ganhei alguns trocados de reserva, caso surgisse alguma emergência. Dali eles seguiriam até a casa da minha avó e a buscariam para passar o fim de semana com eles. Minha mãe decidiu que faria um almoço especial no domingo e queria a casa cheia.
Admito, esse foi mais um dos fatores que me convenceu a dar um tempo da cidade. Gostava dos meus tios e primos, mas não suportava passar mais de duas horas com eles. Se não brigássemos por política ou opiniões divergentes, brigaríamos por alguma história besta ou comentário que desconfortável.
Costumava ser vista como a criança prodígio da família, alguém que, mesmo oito anos mais nova que o resto dos meus primos, conseguia dialogar e ter opiniões mais convincentes do que o resto da família. Também me viam como um pequeno gênio da tecnologia, já que eu resolvia quase todos os problemas que surgiam em casa, mas bastou beijar uma garota para todas que mudassem de opinião.
Para o meu tio Joshua, foi o excesso de tecnologia e informação que me influenciaram a sentir atração por garotas. Ele tentava me “respeitar” na frente dos meus pais para evitar um confronto direto, mas não disfarçava em nada seu olhar inquisitivo.
Essa angústia me dominava quando não estava muito bem e era uma situação um tanto difícil, até aceitar e compreender que, mesmo se eu pudesse mudar algo em mim, essa seria a última delas. Gostava de quem eu era e não deixaria um babaca como ele dizer o contrário.
Enquanto vivia esse dilema interno, notei estar sozinha dentro da loja de conveniência, com o dilema de escolher um salgadinho ou outro para levar como lanche na viagem. Na dúvida, acabei optando por um chiclete qualquer e joguei um punhado de moedas no caixa, precisava me apressar antes que o motorista partisse sem mim.
Era a primeira parada há alguns quilômetros de Crystal Falls e podia apreciar o ar fresco da cidade vizinha. Corri em direção ao ônibus e me espremi na porta que se fechava tão rápido quanto eu avançava. Escorreguei no primeiro degrau e me agarrei ao corrimão.
Segui até o meu lugar e me deparei com a maré de azar de estar acompanhada por outro passageiro. Era muito incomum alguém entrar nessa parada, imaginei que isso aconteceria há poucos quilômetros de Seattle. De qualquer forma, parecia ser alguém que respeitaria meu espaço e não iria transformar essa viagem em uma disputa por território.
Seus olhos me fitarem por um longo e desconfortável momento. Respirei fundo e prendi a respiração por um instante. Não precisaria lidar com alguém querendo ocupar as duas poltronas, porque precisaria lidar com alguém que me conhecia.
— Max...? – Ouvi o sussurrar trêmulo que saiu dos lábios daquela garota. Minha expressão facial mudou completamente e minha espinha congelou no instante em que nossos olhares se cruzaram.
Cada músculo de mim travou, inerte na mesma posição. Só me dei conta de quanto tempo havia ficado sem respirar e parada encarando a Riley quando meus pulmões doeram em resposta.
— Riley? – Minha voz rompeu o silêncio agressivamente. – O que você está fazendo aqui? – Trinquei o maxilar, parte de mim ficou feliz em ouvir a voz de Riley e por ela estar ao meu lado, mas a outra parte sentiu uma onda súbita de receio.
— Estou indo para Seattle... – Respondeu com uma longa pausa no final – E você? – Ela me fitava com um olhar ansioso, podia ver sua mandíbula rangendo lentamente.
— Acho que para o mesmo lugar que você. – Não contive um sorriso sem graça ao perceber que mexia os dedos impacientemente – Você está bem? – Peguei meu celular no bolso e fingi ler uma notificação qualquer para interromper nossa troca de olhar.
Era a primeira vez que havia me aproximado de Riley em meses e não fazia a menor ideia de como reagir. Não conversávamos muito, ela sempre foi a pessoa do outro lado do refeitório, do outro lado da sala, na quadra... ela pertencia a um grupo de pessoas que gostavam de se socializar, mas sem furar a própria bolha e eu não fazia parte desse meio.
Não sabia muito bem o que esperar dela, parte de mim acreditava que ela não reagiria mal e se afastaria, como o resto da escola – exceto meus amigos mais próximos -, mas, a julgar pela sua reação espontânea, ela estava com medo e desconfortável comigo ao seu lado.
— Sim, e você? – Desviava o foco entre o celular e ela com certa frequência e, assim como eu, ela se esforçava para soar descontraída. Riley não era muito boa mentindo e seu rosto corado a delatava.
— Bem. – Riley se encolheu ainda mais em seu assento quando minha perna esbarrou na dela sem querer.
Uma onda de arrependimento me assolava sempre que me lembrava que não tentei salvá-la na noite da campina. Se tivesse saído das sombras daquela arvore e me arriscado, ela saberia que aqueles boatos não passavam de mentira. Mas não foi o que fiz, claramente.
Tantas histórias absurdas circulavam pela cidade, mas as mais criativas estavam nos corredores daquela escola, ainda mais depois que vazaram a única prova que tinham contra mim. O que era? Alguns desenhos e uma carta de suicídio, que não passava de uma versão barata e adolescente de Romeu e Julieta escrita no meu ponto de vista.
Junta esses dois fatores e inclui o fato de que passava horas jogando e você tem o clichê mais aceitável de assassino estudantil: “Jovem escreve carta suicida e desenha a forma como planejava assassinar seus colegas de turma”, era o título perfeito para a manchete sensacionalista que eles queriam.
A falta de qualquer evidência concreta despertou uma histeria em massa e o pouco que eu havia feito era mais do que o suficiente para me odiarem e disseminarem uma caçada silenciosa contra mim.
Rabiscos e frases mal escritas não bastavam para me condenar de nada e isso instigou a cidade inteira a ficar de olho em mim. Eles queriam um pequeno deslize, qualquer motivo plausível para concluírem sua “justiça”.
Por mais desgastante que fosse, sabia que meu inferno logo teria um fim. Precisava suportar mais dois anos naquela escola medíocre, enviar minha inscrição para qualquer faculdade da Califórnia ou Nova York e esperar uma carta de aceitação. Mas, se desse tudo errado, tinha um plano B que me levava diretamente para o Quebec. Então sim, era fato que, em pouco tempo, estaria livre daquelas pessoas e daquela cidade podre.
Enquanto minha mente discorria sobre meus planos, tentava fitar a estrada escura, porém me pegava encarando Riley de tempos em tempos. Era bom vê-la cheia de vida, com as maçãs do rosto avermelhadas e com a mesma expressão emburrada que tinha toda vez que estava inquieta com algo, não passou de sorte o que ela teve na campina.
Aquele momento foi um mar de confusão... O mundo parecia congelado em seu eixo, o tempo não passava, as gotículas de ar inertes em uma queda interrompida. Cada sentido despertou como se em frenesi, minha mente parecia viajar mais rápido que o tempo.
Não me culpava por nada naquela noite e não teria feito nada diferente, nem mesmo a morte do Ben me fez tão mal quanto o que eu tinha deixado de fazer.
Escutei os passos pesados daquela pessoa, alguns galhos se quebraram próximo a mim e a respiração falha e ansiosa de alguém. Minhas pernas travaram e só pensei em me esconder.
Tinha centenas de horas salvas em jogos de sobrevivência e em RPGs e talvez isso tenha me ajudado a ter reações instintivas tão rápidas, mas, apesar disso, nenhum deles havia me preparado para o real terror.
Desde o momento em que me afastei de Carl, quando ouvi o som do primeiro tiro, meus sentidos ganharam uma amplitude de alcance inumana e me movimentava sorrateiramente. Entrei em uma trilha secundaria, evitando o caminho principal e foi quando eu vi.
Recordava com exatidão o vislumbre hipnótico que aquele corpo me despertava. Ele vestia uma roupa preta, tão larga que simulava um manto a distância, e usava uma máscara branca com respingos de sangue em sua face.
Ele se esgueirou para uma sombra e esperou que sua próxima vítima estivesse quase a seus pés, para agarrá-lo pela gola do casaco e atirar em sua têmpora esquerda.
Não demorou para uma voz romper o silencio daquela ultima morte. Ouvi passos rápidos vindos de uma trilha não tão distante de onde eu estava e então a voz de Carl chamando por Riley.
O atirador correu em direção aquela voz, sem hesitar.
— Riley! — Carl chamou de novo, agora, mais próximo a mim. A garota não demorou para surgir em meu campo de visão, estava preocupada e seu rosto não escondia a expressão de pavor que sentia.
Ele entregou a Riley uma mochila e ignorando qualquer reação ou sentimento da garota, retomou seu caminho pela trilha. Os movimentos do atirador eram tão silenciosos que passou despercebido pelos dois.
Vi sua morte eminente antes mesmo do tiro soar, quis me jogar em sua direção para salvá-la, mas meu senso de autopreservação repeliu qualquer comando que meu cérebro mandava.
Ela estava de costas para o atirador, mas eu via com clareza a arma empunhada e apontada em sua direção. Ela girou quando ouviu o estalar da arma sendo carregada quando aconteceu.
O som de um tiro seco.
Um grito sufocante se formou no fundo da minha garganta. Aquela sensação de soco no estomago não parecia nada perto do que meu corpo sentiu. Lágrimas rolaram e aqueceram as maçãs congeladas de meu rosto e um suspirar longo e silencioso escaparam pelos lábios entreabertos.
Olhei para o lugar onde deveria ver o corpo de Riley, mas não a encontrei ali. Galhos secos quebraram no instante que o tiro ecoou. Em um salto súbito, o vulto de uma pessoa empurrou a garota para fora do campo de visão do atirador.
Um estrondo veio do local onde eles caíram e o atirador parou. Carl encarou os respingos da máscara branca e antes mesmo que compreendesse o que era, correu para bem longe dali.
O assassino deu mais alguns passos em direção ao pequeno barranco que tirara Riley de sua vista, mas ele parou quando os gritos de Carl atraíram outros alunos e professores para a região.
Não estavam muito longe daquela campina, as vozes vinham de diversos cantos a oeste dali e, apesar de ter a arma, talvez nosso assassino não levasse a melhor se fosse cercado.
Ele correu para leste e sua roupa preta o ajudou a se camuflar nas sombras que a copa das arvores faziam naquele gramado.
orcei meus pés a caminharem até o local da queda, atônita. Ao fundo ouvia os gritos de Carl narrando o que viu, mas foi o som repentino de galhos se partindo a poucos metros de mim que me assustou.
Escorreguei no pequeno barranco de menos de meio metro até o corpo inconsciente de Riley. Uma pequena poça de sangue se formou próximo a sua cabeça.
Girei seu corpo cuidadosamente, apoiando suas costas no chão e procurei por lesões em sua cabeça. Não existia nenhum ferimento visível em seu rosto, exceto calo que surgiu no topo de sua testa.
O sangue vinha de um corte profundo em seu antebraço. Estremeci quando o líquido quente tocou a ponta dos meus dedos. Sem pensar, rasguei um pedaço da manga de seu moletom preto e improvisei um torniquete.
Um solavanco do ônibus me despertou dessa lembrança antiga. De volta ao agora, notei que meu subconsciente estava se esforçando para não fazer movimentos desnecessários. Esperava que ela se sentisse menos confortável e pudesse ter uma viagem decente.
Só você para me fazer pensar em como me portar, Stevenson.
Era um momento adequado para puxar conversa e reconquistar sua confiança, tentar me explicar ou só jogar conversa fora. Tinha tanta coisa que ficou mal explicado, mas não fazia sentido retomar esse assunto quando estávamos saindo de Crystal Falls.
Limpei algumas notificações do meu celular, rodei o feed das minhas redes sociais, respondi até algumas mensagens antigas enquanto lidava com meu conflito de ideias, mas nada silenciou a voz no fundo da minha mente que insistia em aproveitar o breve momento que o destino me deu.
Enfiei o celular no bolso do meu casaco e me dei por vencida. Não tinha nada a perder e dificilmente Riley conversaria comigo novamente, então por que não ter uma nova última conversa com ela? Claro, não terminaria o que gostaria de ter dito no dia da campina, estava muito distante de retomar aquele diálogo, mas poderia encerrar nossa história de uma forma diferente.
— Está pensativa? – Perguntei alto, não lembrava que havia colocado os fones de ouvido.
— Um pouco. – Respondeu de forma mais gentil, seus músculos ainda rígidos.
— Gostaria de compartilhar? – Puxar assunto estava um pouco mais difícil do que o esperado, Riley nunca foi tão de poucas palavras como agora.
— É muita melancolia.
— Melhor ainda – Girei o corpo em sua direção e apoiei o rosto em uma das mãos, queria parecer descontraída.
— Você é estranha. – Em outros momentos isso soaria como um elogio, mas na atual circunstância e vindo dela foi como levar uma facada no estomago.
— Geralmente as pessoas não gostam de assuntos assim. – Explicou-se rapidamente.
— Bem, não sou uma pessoa muito normal. – Foi inevitável a rápida mudança na minha expressão fácil e pelo reflexo da janela consegui notar uma careta fechada. Respirei fundo e voltei à estaca zero.
Revirei os olhos em derrota e me ajeitei novamente em meu assento. Recoloquei os fones de ouvido e deixei uma playlist qualquer tocando. Queria silenciar meus pensamentos e aceitar que nunca mais teríamos aquelas conversas animadas e discussões acaloradas sobre nossos jogos e quadrinhos favoritos, mas eu não sabia lidar muito bem com derrotas.
Na realidade, poderia dizer que não sabia quando era a hora certa de parar de me humilhar e era muito comum pensar que deveria insistir nas coisas, independente do que fosse, até esgotar minha última oportunidade. Persistência era o segredo do meu fracasso.
Soltei uma forte lufada de ar, frustrada, cansada e irritada com cada uma das minhas divagações e tentativas frustradas de retoma aquela conversa, fosse com super-heróis, música ou qualquer outra merda interessante.
Não quero que você tenha medo de mim. Dizia em alto e bom som, apenas na minha mente. Eu me importo com você. Não, muito exagerado e sentimental para uma primeira vez em meses. Não vou te machucar. Perfeito, agora é só falar em voz alta.
Minha mandíbula amorteceu em resposta a tensão e o meu ranger constante de dentes, só queria um impulso para cuspir aquelas palavras, mas nada aconteceu.
Notei que a última coisa que estava fazendo era oferecer uma viagem descontraída para Riley. Do contrário, meu rosto estampava uma culpa que não tinha e minhas reações apenas reforçava isso.
Deixando de lado esse caos tempestuoso, dediquei parte da minha atenção em responder as últimas mensagens de Sadie, que estavam pendentes havia uns dez minutos.
Peter e eu vamos para o píer daqui a pouco para esperar você, imagino que esteja chegando. Olhei rapidamente para fora e, a julgar por pequenos pontos de luz que via no horizonte, estava há poucos quilômetros da cidade.
Sim, falta menos de trinta minutos. Respondi rapidamente e troquei de música para uma que sempre ouvia quando precisava lidar com meus conflitos internos.
Maneava a cabeça milimetricamente no ritmo, mas o único músculo que, de fato, se mexia era meu coração frenético. O palpitar intenso e doloroso em cada som mais grave, a ansiedade e mãos trêmulas quando a música alcançava ápices mais agudos... Estava entrando em uma hipnose sonora que encurtou e transformou vinte minutos em cinco.
Antes mesmo do ônibus estacionar à beira do píer, eu já estava de pé, próximo a porta de saída. Riley se assustou com meu movimento brusco e a senti me encarar pelas costas. Curiosa ou assustada? Não importa, Max. Fechei as mãos em um punho cerrado, decidida a dar o fora o mais rápido dali.
O frescor daquela noite penetrou minhas narinas e espantou a angústia lancinante. Prometi manter Crystal Falls longe de mim pelos próximos três dias e não permitiria que nada me afetasse, nem mesmo ela.
— Onde você está?— Atendi a ligação de Sadie, a procurei no perímetro ao meu redor, mas tudo o que enxergava era uma fila solida de taxis e motoristas de aplicativo aguardando seus respectivos passageiros.
— Acabei de descer do ônibus, em que lugar vocês estão? – Estiquei-me na ponta dos pés para observar além dos capôs brancos sem sucesso.
— Do outro lado do cruzamento, não tinha onde estacionar por aí.
— Perto da loja de presentes? – Avistei uma loja de lembrancinhas da cidade do outro lado da rua, imaginei que os encontraria por ali.
— Sim! — Ela desligou a ligação ao me avistar e acenar para mim.
— Está tudo bem, Nick. – A voz de Riley se destacou na pequena multidão.
— Tudo bem. – Uma voz masculina respondeu. Provavelmente era Nicholas Reed, seu segurança particular em período integral e um dos empecilhos que nos afastava.
Procurei a origem da voz e os encontrei em um pequeno aglomerado de pessoas, próximo ao outro cruzamento que me levaria até a loja de presentes. Nicholas se afastou de Riley e foi chamar um taxi, ela estava sozinha de novo. Impulsivamente, meus pés me guiaram até ela.
— Bom fim de semana, Riley! – Falei alto o suficiente para que Nick também ouvisse.
Nicholas sempre foi um pé no saco, um grude, o senhor perfeito – porém com um quê autoritário e controlador – que estava à disposição de Riley para o que ela precisasse, exceto naquela porra de noite.
— Agora não é hora! – Murmurei em voz baixa, não quebraria minha promessa para resmungar teorias conspiratórias. – Mas quem da nossa idade chama taxi hoje em dia? – Revirei os olhos.
Sadie estava em cima do capô de um conversível preto, sentada com as pernas cruzadas e Peter estava encostado na porta do motorista, de braços cruzados e uma careta forçada de raiva.
— Finalmente! – Ela saltou em meus braços e me abraçou com força. – Nem acredito que te fiz mudar de ideia. – Não gostava muito de abraços ou contato físico exagerado, mas Sadie tinha tanta ternura e carinho que era impossível recusar.
— Não foi você quem me convenceu. – Cumprimentei Peter com um soco em sua mão assim que me desvencilhei de Sadie. – Minha família me obrigou. – Completei.
— Sua consideração por mim é memorável.
— Você sabe que não vivo sem você, né? – Brinquei, mas ela sabia que era verdade. Sadie era tudo o que eu tinha.
— Por onde vamos começar? – Peter abriu a porta de trás para nós e se sentou no banco do motorista.
— Pelo Arcade, sem dúvidas. – Era o meu lugar favorito em Seattle e iria para lá todas as noites desse fim de semana, se ninguém reclamasse.
— Vamos para lá amanhã. – Disse após se acomodar ao meu lado no banco de trás. – Hoje a noite é dia de ir ao Joe’s. Ross e uns amigos estão nos esperando lá.
Assenti em silêncio. Comer algo mais consistente e calórico era o que eu precisava.
Peter fez um retorno pela rua que eu havia acabado de cruzar. Observei através do vidro escuro o pequeno aglomerado de pessoas que aguardavam os carros estacionarem para embarcar e prosseguir viagem até o destino final.
Riley estava dentro do taxi, na faixa à direita, esperando para fazer uma conversão. Iriamos para caminhos opostos, como de costume. Mas era ótimo ver aquele sorriso frouxo. Era bom vê-la viva e esse era o único lembrete que gostaria de ter de Crystal Falls pelo resto da noite.
Fale com o autor