Contam as lendas antigas, que este reino já foi próspero. Os campos verdejantes estendiam-se até que a visão perdesse o foco. As terras férteis e produtivas erguiam-se desde as praias até os altos picos gelados dos montes Hannah. Ao sul havia uma grande cidade, erguida sobre imensos e robustos troncos das árvores da luz. Ela era conhecida por seu notável progresso em uma nova magia não elemental, chamada de ciência.

Outra próspera cidade foi fundada ao norte dos campos de cultivo. Esta erguida sobre imensas rochas que encontravam-se ao pé do vulcão Morinor, conhecido por sua lava mágica, que ao invés de queimar, devastar e engolir planícies inteiras, produzia um líquido de valor inestimável para os magos, feiticeiros e curandeiros da época. Tal substância era chamada de Mori-Mori, a matéria básica para realização de feitiços, encantamento de objetos para manipulação elemental e dizem que podia até trazer os mortos de volta à vida.

Outras pequenas cidadelas ergueram-se ao sudeste e noroeste das planícies férteis de Hanu. Tudo corria bem, os camponeses e cidadãos eram felizes e sempre contavam com grande fartura em suas casas. Todo o reino dividia de bom grado seus recursos. A cidade ao sul, chamada de Tântrea, contribuía com seus avanços científicos, descobriram a cura para mais de trinta doenças diferentes em apenas um ano de pesquisas, tudo graças ao comandante de pesquisas Tantreon e sua esposa Dinea. A cidade erguida ao norte, conhecida como Kanerea, governada por Kanteru e sua filha mais velha, Alises, oferecia proteção mágica à todo reino, utilizando de armas encantadas até invocação de criaturas místicas e poderosas, como Golens e Dragões. E até mesmo estas criaturas de uma dimensão diferente, conviviam em paz com os habitantes do reino. As cidadelas menores, eram as responsáveis pelos mantimentos de todo o reino. A caça, pesca e a confecção de vestimentas ficava por conta das cidades de Ronor e Manan, enquanto que os meios de transporte, utensílios domésticos e as armas utilizadas pelo exército mágico eram do dever de Apename e Lictis. O reino ainda contava com outras três cidades gêmeas, responsáveis pelos vegetais, frutas e ervas medicinais. Akon, Alon e Agon, respectivamente. Tudo corria perfeitamente, em harmonia. Não havia egoísmo entre os cidadãos, os recursos eram fartos e acessíveis à todas as classes.

Mas nenhum equilíbrio pode ser mantido apenas com o bem, uma balança não se sustenta apenas por sorrisos e atitudes gentis. Com o avanço da ciência, a classe mágica conhecida como curandeiros elementais, sentiu-se menosprezada. Por que as pessoas iriam à procura de suas curas através das cores, do ar e até do fogo, quando podiam simplesmente ingerir os tais "medicamentos" criados pela cientista Dinea? Enquanto que as magias elementais demoravam de quatro a oito dias para apresentarem seu avanço em relação às doenças, a nova invenção resolvia o problema em no máximo três horas. A inveja e desprezo tomaram conta das mentes e alma destes curandeiros, através de sua compreensão mágica, invocaram e até mesmo transformaram seu corpos, em grandes bestas sedentas por morte e destruição, Trasgos e Trolls. Uma guerra foi iniciada. As robustas árvores da luz eram fortes, mas não o suficiente para resistirem à exércitos de criaturas desfiguradas e com um único objetivo em mente: Destruir o povo de Tântrea. E passado o primeiro mês, foi exatamente o que aconteceu.

O sangue que escorria da copa das grandes árvores já estava seco, o cheiro pútrido enchia as cidades próximas de medo, os cidadãos de Ronor e Apename largaram seus afazeres, e mudaram-se em direção à Kanerea. E logo foi a vez de Manan e Lictis. O reino já não contava mais com a fabricação de vestimentas para o inverno que aproximava-se, as carroças não eram construídas, nem as armas que eram necessárias ao exército mágico para poder combater ao grande aumento repentino de bestas enlouquecidas por morte, criadas pelos curandeiros. Para poder suprir o exército que marchava em direção ao sul, o líder de Kanerea implorou que as cidades gêmeas mantivessem o cultivo até que o primeiro dia de neve chegasse, sendo assim, ofereceu-lhes proteção redobrada. apesar do medo, as cidades irmãs mantiveram o cultivo e abastecimento de Kanerea, que agora encontrava-se abarrotada de cidadãos que já não produziam mais.

Durante os três primeiros meses, o exército mágico manteve-se firme, toda semana recebiam um farto carregamento de alimentos, e poucas armas encantadas que os antigos habitantes de Ronor e Manan puderam confeccionar sem o auxílio de suas ferramentas. Infelizmente eram armas simples, como espadas, machados e arcos de madeira. Os magos esforçavam-se para invocar a maior quantidade possível de criaturas e bestas defensivas, mas já previam a cruel fatalidade que se aproximava, com a chegada do inverno, o vulcão Morinor não produzia Mori-Mori, deixando-os sem sua matérias básica para a criação de encantamentos e conjuração de magias. E com o rápido avanço do exército de bestas criadas pelos curandeiros, o estoque de Mori-Mori esvaia-se rapidamente. Até que um dia...

– Não há mais nenhuma gota, nenhuma mísera... — Disse o jovem soldado, fitando as orbes cinzentas de Kanteru, engoliu a última frase, prevendo o urro de raiva que seria liberado da potente garganta do homem à sua frente, porém, este apenas virou-se, encarando as árvores prateadas ao longe.

– Eu falhei, meu amigo, não pude proteger o reino de tanta maldade humana. — Abraçou sua filha, Alises. Depositando um selo em sua testa. — Cuide bem do povo, se eu não regressar, saiba que vejo uma grande líder em você. — Desfez o abraço que unia os dois. Kanteru caminhou até seu cavalo e com um grande urro, tal qual um urso, seguiu seu rumo até as árvores da luz.

– Pai... — Lágrimas escorreram lentamente pela extensão aveludada do rosto de Alises. — Você tem que regressar... Eu não... não consigo... — Sussurrou para si mesma, e logo recompôs-se. Ajeitou as vestes e seguiu em direção à mansão de sua família.

Não importava o que seu pai esperava dela, mesmo sabendo que não poderia, era sua obrigação cumprir. Chegou na sacada a passos curtos, mas velozes, olhou os rostos curiosos lá em baixo, fitando-a receosos.

– A guerra não é uma opção, porém, a morte não é uma escolha. Devemos resistir. Camponeses, tornem-se guerreiros. Crianças, tornem-se corajosas. Mulheres, emparelhem-se com seus defensores. Nosso reino não sucumbirá. — A multidão explode em um mar de gritos e aplausos, alguns assoviam e até criam pequenos gritos de guerra.

E foi assim, com apenas dezessete anos que tornei-me líder de um reino inteiro. Tinha certeza de que quando meu pai voltasse, ficaria imensamente orgulhoso ao ver todos a salvo, ao ver como resistimos e como nos mantivemos acima do exército de bestas desfiguradas.

Mas com o passar do tempo, ele nunca regressou, e algo dentro do meu ser começou a mudar.

Notas finais
Então, é bom voltar a escrever ♥Sinto-me feliz e inspirada, tenho certeza que essa história irá render bons momentos. Mas já aviso, ela é compriiiiiida, e cheia de ironias, estejam preparados, futuros e queridos leitores!E saibam que ela vai ganhar uma versão em quadrinhos, mas nada muito complexo, apenas alguns "fillers". Por isso, aguardem :3