Notas iniciais
Sugestão de música para acompanhar. https://www.youtube.com/watch?v=2hJ0l64sRJc

Lembro-me exatamente como se tivesse acontecido nesta mesma manhã. Engolia uma pequena porção de mingau de arroz e aveia, seguido de um aromático chá de jasmin. E logo corria para a entrada da cidade, sentava-me sobre as pedras na beira de um pequeno riacho e esperava. Desejava com tanta força que meu pai regressasse. Estava tão exausta que tornou-se comum os cidadãos de Kanerea trazerem-me de volta à mansão, adormecida. Durante um bom tempo a rotina manteve-se a mesma. Não precisava governar, haviam conselheiros portadores da confiança e respeito do meu pai. Eu só precisava esperá-lo. Mas ele nunca regressou, e algo dentro de mim transformou-se.

"A culpa é toda deles, malditos cientistas!"

Sussurravam vozes em minha mente. Noite após noite, sono após sono. Devaneio após devaneio. Eu não sabia de onde elas vinham, ou desde quando estavam ali, mas aos poucos uma imensa ira adentrou-me. Elas tinham razão, porque fomos todos envolvidos nesta guerra desnecessária? Nós de Kanerea, e das cidades vizinhas não pedimos por isso... Por essa.. Ciência!

"Se não tivessem descoberto aqueles medicamentos, se não tivessem irritado os curandeiros nada disso teria acontecido."

Um ódio imenso e descontrolado se apoderou de mim, a rotina já não era mais necessária. Kanteru, que antes pertencia à essa gigantesca cidade guerreira, agora provavelmente tinha seu corpo devorado por aquelas bestas. Tais criaturas sanguinárias jamais apareceriam para uma guerra se todos aqueles cientistas da cidade de Tântrea não tivessem menosprezado os curandeiros. As coisas estavam bem do jeito que sempre foram, quem precisava daqueles medicamentos? A cura elemental sempre funcionou, e qualquer um poderia aprendê-la. Mas o egoísmo e a vaidade humana dos Tantreaneos os corromperam, e por culpa disto, foram massacrados, levando consigo o homem bondoso e protetor, o qual eu conhecia como pai.

***

– O exército alado seguirá em direção às árvores da luz, mantendo as bestas recuadas, enquanto que o restante deverá seguir comigo por terra, todas as passagens após os limites das cidades gêmeas devem ser destruídas, evitando permanentemente o avanço dos inimigos. — Ordenei, observando os olhares determinados, porém receosos, daquele novo exército. Já não haviam restrições, crianças e mulheres eram essenciais nas batalhas que se seguiriam. Kanerea foi deixada sob o comando de meus próprios conselheiros de confiança, um pequeno grupo de curandeiros que estavam na cidade de Manan quando o ataque à Tântrea iniciou-se. Não seria capaz de confiar nos conselheiros de meu pai, sabendo que eles mesmos eram a favor da ciência, alegando que ela era essencial para o desenvolvimento da nossa civilização. Que um dia, a magia seria usada apenas para o divertimento de multidões e para o adestramento de criaturas encantadas.

"Eles são traidores, aconselharam seu pai à tomar partido em uma guerra que não lhe pertencia."

Com o bradar dos principais comandantes de Kanerea, seguimos rumo aos limites da floresta de árvores prateadas. A jornada mostrou-se perigosa, perdemos um número significativo de crianças e mulheres que não eram capazes de suportar o imenso véu branco de neve que cobria as planícies de Hanu. Após o terceiro dia de viagem chegamos às cidades gêmeas, que agora encontravam-se vazias. Com a chegada do inverno, não era mais possível que seguissem com o cultivo das hortaliças, ervas e frutas. Por tal motivo, haviam sido realocados para Kanerea. Pensei em todos aqueles rostos. Conseguiria eu, uma jovem líder, trazer a paz à todas aquelas pessoas? Conseguiria supri-los o suficiente para que mantivessem-se até o final deste inverno? Seria capaz de evitar o avanço e combater o aumento daquelas bestas que nos aguardavam ao sul?

Ao longe pude ouvir o urro ensurdecedor das criaturas enlouquecidas, o chão tremia enquanto uma densa massa negra de corpos desfigurados aproximava-se de nosso pequeno exército. Um berro contínuo e esganiçado surgiu de dentro da minha garganta. Arqueiros puseram-se em posição, espadas rasgavam as bainhas de couro velho ao mesmo tempo que longos cajados mágicos brilhavam em resposta aos gritos de guerra. Já não havia mais tempo para pensar, o tempo era tão curto que o ato de bater em retirada nem passou por nossas mentes. Bati com os calcanhares em meu cavalo, meu longo arco de mogno contrastava-se com o imenso veludo branco sob os pés dos dois exércitos. Uma flecha e um olho perfurado, outra flecha e o líquido preto do interior das bestas manchava o chão alvo.

– Não tenham medo, sigam em frente! — Apesar dos gritos que preenchiam o campo de batalha, pude ouvir a última frase proferida por um dos comandantes, antes que um Trasgo arrancasse sua cabeça apenas com um tapa. Como eu pude pensar que seríamos capazes de enfrentar estas criaturas? O quão cega tornei-me com a minha ira? Ao longe observei enquanto uma imensa criatura em forma de serpente pulava aos céus, agarrando um de nosso dragões e o devorando em apenas uma mordida.

"Eles sempre quiseram destruir a sua família, sempre quiseram que seu pai terminasse desta forma."

As vozes haviam voltado, e como se tivessem ganhado mãos, senti-as segurarem o meu arco, puxaram uma das flechas encantadas na minha aljava, a corda tensionou-se e logo outra flecha foi atirada. Cavalguei em direção à outra besta enquanto trocava o longo arco por uma espada curta, cuja lâmina mágica era capaz de pulverizar os inimigos apenas por um simples arranhão. Um grande círculo de Trolls, demônios, Trasgos e criaturas deformadas formou-se ao meu redor. Estava encurralada, mas não por muito tempo. Uma a uma, as bestas transformaram-se em nada mais do que uma poeira negra. Minha espada reluzia, enquanto sentia os cascos de meu cavalo pisarem com força sobre os corpos inertes das criaturas deformadas e até mesmo das pessoas que pertenciam à Kanerea.

"Eles sacrificaram-se por você, faça valer a pena. Aniquile todos!"

Desci de meu cavalo, tinha a certeza de que era pequena e veloz o suficiente para esquivar dos ataques desajeitados que eram desferidos pelo exército inimigo. Talvez este fosse o problema em ser tão desfigurado quanto uma imagem refletida na água turva, é como se eu fosse um pequeno camundongo em meio à um bando de gatos gordos e sem as patas traseiras, e eu iria tirar vantagem disso.

O cheiro de sangue podre elevava-se ao céu acinzentado. Já não havia o branco cobrindo os campos, apenas sangue. A cada segundo, mais uma dezena de corpos caía pelo chão. Os gritos logo transformaram-se em respirações pesadas e protestos agoniados. Durante quatro dias e cinco noites mantivemo-nos em guerra, embora fosse clara a desvantagem do exército kanereo, uma reviravolta surgiu ao cair da terceira noite. Percebi que os Trolls e Trasgos, nossos maiores obstáculos naquele combate, tornavam-se mais fracos à medida que matávamos as bestas menores e deformadas. Era óbvio que a força dos gigantes provinha dos Dineos, nome que carinhosamente dei à estas criaturas. Homenageando sarcasticamente a cientista Dinea. Motivo pelo qual agora eu encontrava-me ensopada em um sangue negro e de odor tão forte quanto o de cebolas estragadas.

Mantivemos o foco nos Dineos, procurando ao máximo evitarmos os maiores. Quando finalmente, ao raiar do último dia, unimos forças suficientes para expulsar as criaturas restantes para dentro das florestas da luz, onde outrora erguera-se a cidade de Tântrea. Nunca mais um ser racional colocaria os pés dentro daquela cidade, todos os artefatos, pesquisas e máquinas científicas ficariam esquecidas para sempre. Essa era a nova alvorada dos homens. Havíamos recebido uma segunda chance, e a honraríamos como forma de agradecimento à todos que deram suas vidas nestes campos. Isolaríamos a área, Tântrea seria apagada de nossas mentes e de nossa cultura. A história jamais provaria que uma cidade científica havia existido. As criaturas derrotadas dentro daquela floresta seriam obrigadas a permanecer lá para sempre, servindo de guardiãs para qualquer desavisado ou curioso que resolvesse aventurar-se pelas árvores prateadas. Tântrea agora não passaria de uma mancha negra, tal como o sangue das criaturas que matamos, nas páginas da nossa civilização.

Quando regressamos à Kanerea, sorrisos e lágrimas foram vistos por toda a parte. O povo saudava-nos em alegria e agradecimento. Imediatamente ordenei que extensas muralhas fossem construídas ao redor das cidades restantes, a partir de agora, ninguém saía e ninguém entrava.

"Isso é para o bem do seu povo, Alises."

Sorri em satisfação.

Notas finais
Então gente, o que acharam? O próximo capítulo será postado ainda essa semana, aguardem :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.