O Preço da Magia

22 Episódio 22: Laissez Mon Âme S'envoler Loin Des Misères


Notas iniciais
*Deixai minha alma voar longe das misérias Oláá, povo do Nyah! Bom dia/tarde/noite/madrugada/e-o-caralho-a-quatro ^^ Estamos todos orgulhosos pela rapidez na postagem? Estamos siiiim, é pra comemorar. Uma rapidez dessa, bixo, a gente não vê por aqui xD Espero que estejam todas bem nessa época de fim de ano! Esses dias eu me dei conta de que logo chega o aniversário de OPdM. Dia 15/12 a fic completa dois anos, então que tal presentear a história com reviews, recomendações, favoritações e o que mais seu coração generoso mandar, oh querido leitor? xD Aliás, dois anos. DOIS ANOS DE HISTÓRIA E EU NEM FUI CAPAZ DE COLOCAR O UNIVERSO DE OUAT POR AQUI AINDA, tô muito chocada com a minha lerdeza :/ Enfim, espero que gostem, mas já aviso que se vocês esperam um capítulo mais leve pra compensar o drama do anterior, desapeguem, gatas. Acredito que, desde que postei o episódio 18, é só ladeira abaixo. Poderemos sim ter um ou outro momento mais light, mas a questão é que no geral a porra tende a ficar cada vez mais séria por aqui. Boa leitura, se for capaz! x____X

Era possível identificar o ardor dos gritos parisienses mesmo à distância do Pátio dos Milagres.

Trazido em maior potência pela direção do vento, o conjunto de urros exprimia sentimentos diversos, porém fáceis de identificar em suas tantas particularidades. Lamento. Descrença.

Ódio.

Acima de tudo, era o ódio que sempre prevalecia no asco travestido de tolerância à presença dos egípcios. Como se o fato de terem sido escorraçados para aquela morada torpe nas periferias da cidade se traduzisse num ato de extrema benevolência por parte dos parisienses. Era o ódio por suas diferenças que possuía o timbre mais elevado, mais destacado e independente.

Até que todos os demais sentimentos se unificassem naquele de consenso geral, bramindo aos quatro cantos pela cidade em revolta.

Paris finalmente acordava nas primeiras horas da manhã para se deparar com a destruição de sua catedral. De uma Notre Dame que velava apenas pelos abastados, pouco interessada em direcionar seus olhos pedantes para baixo, onde miseráveis imploravam por um tipo de clemência com que jamais seriam agraciados.

Não houve qualquer espanto quando o líder do Pátio avistou um cigano correndo às pressas ao seu encontro, o semblante de todo abalado à medida que se alternava em gritar e tropeçar numa disparada aflita.

CLOPIN! — Não havia fôlego naquele clamor, porém o medo foi um propulsor um tanto eficaz da voz que ameaçava emudecer — CLOPIN! Eles estão a caminho!

— Quem? — O líder do clã amparou o rapaz pelos ombros quando este o alcançou, e mesmo que já soubesse a resposta à sua pergunta totalmente desnecessária, teve esperanças de ouvir algo diferente do que imaginava.

— Todos... — Arfou, precisando mesclar seu relato com profundas inspirações — Todos eles, Clopin! Os soldados... Eles estão incitando o povo a vir nos massacrar... Nos expulsar do Pátio... Pelo que fizemos a Notre Dame...

Um arrepio desagradável percorreu o corpo do estrangeiro, enrijecendo-o de imediato. Por mais que aquele alarde não o surpreendesse em nenhum aspecto, as notícias eram ainda piores do que Clopin esperava. Finalmente seu povo seria exposto às consequências de sua escolha, e nenhum sentimento poderia ser mais perverso do que carregar a culpa das tantas vidas que se perderiam.

A guerra fora afinal declarada, sem mais a necessidade de pretextos para justificar os massacres diários.

— Então devemos nos preparar. Reúna os ciganos, irmão. — Segurou-o com firmeza pelos ombros ao solidificar o contato visual, mostrando-se capaz de emanar uma espécie charlatã de confiança — Temos muito a discutir antes que nos alcancem.

O cigano mais jovem assentiu num aceno rápido, retomando sua corrida para obedecer a demanda de seu líder. Ao se perceber sozinho, Clopin caminhou num ritmo vagaroso, por fim alcançando a construção de uma cabana assolada pela última visita dos soldados. As íris escuras tornaram-se aquosas quando analisou todo o cenário já desmantelado da única morada que possuíam, e dominado pela fúria o cigano socou a estrutura anteriormente comprometida, urrando um desabafo às tantas negligências que seu clã sofria.

Jamais poderiam conviver em paz com seus costumes e crenças. Os gajôs estariam eternamente presos à ignorância de sua supremacia.

Não havia compaixão, ou mesmo um lapso de reflexão, ao que fugia de seus modelos sociais. Tudo em sua cultura acabava sendo deturpado pela percepção preconceituosa de quem os julgava como sendo menos. Cada mínimo aspecto ganhando uma conotação impura. A beleza nos matizes de suas ervas medicinais a eles não passava de bruxaria, uma prática abominável. A conexão de seu povo com misticismos e espiritualidade nunca seria interpretada como além de atos pagãos e hereges, que mereciam pagar por não se adequarem ao cristianismo. Seus festejos e dança, uma arte profana que deveria ser abolida...

...E eles, os ciganos, uma vertente indigna dos seres humanos, cuja única serventia era servir de exemplos diversos de punição. Através da existência dos egípcios, satisfaziam a perversidade natural dos homens e ainda mantinham sob rédea curta o livre pensamento da sociedade.

Faziam-na temer o desconhecido, e por consequência, repugná-lo.

A cólera destinada aos novos golpes que desferiu contra o concreto fez com que feridas se abrissem nos nós de seus dedos, tingindo-os entre rubro e cinza. Sangue e destruição. As duas sinas que marcavam a existência dos ciganos desde os primórdios de sua história.

Lutando contra o desespero ao considerar a dimensão do mal que recairia mais uma vez sobre seu povo, Clopin tentou reunir todo o foco de sua mente na tarefa de arranjar uma saída rápida àquele impasse. Lutar significaria morte. Fugir significaria mais uma desistência ao pouco que haviam conquistado. Significaria retroceder num progresso quase nulo, mas ainda assim um progresso.

Sem que pudesse evitar, pensou em Esmeralda. A menina que, na madrugada daquele mesmo dia, fora exilada para longe dos ciganos sob o grave crime de traição que ela mesma confessara. Pela primeira vez, alegrou-se por tê-la afastado do Pátio dos Milagres, e rezou em silêncio para que sua amada menina fosse mais afortunada do que aqueles que deixara para trás.

Não demorou mais do que alguns poucos minutos para que todo o clã se reunisse em torno de Clopin, aguardando pelas diretrizes que viria. O líder daquele grupo de proscritos sentiu um aperto na garganta ao testemunhar os que haviam restado de sua família...

...Cerca de um terço da antiga população de ciganos o encarava, e aquilo era tudo.

— Não temos tempo para planejamentos, então serei breve. Paris em massa está vindo para o Pátio, em busca de retaliação por sua catedral. Temos que agir antes que seja tarde... — Fitou a cigana que vinha conquistando níveis mais profundos de seu afeto, angustiado pela mera sugestão do perigo que ela corria junto aos outros — Sara, confiarei em você para conduzir os feridos para longe do confronto. Também deverão partir aqueles que não quiserem se envolver...

A boêmia lançou-lhe um olhar profundamente ofendido, a princípio parecendo sem palavras pelos lábios semiabertos, tão indignados quanto os lumes de suas íris escuras. O líder já desviava sua atenção da cigana, pronto para novas considerações antes que a mulher fosse capaz de protestar.

Ela, contudo, não se deixou ser ignorada.

— Eu não pretendo me afastar da batalha, Clopin. Pensei que soubesse.

— Não há tempo para discutir, Sara. Será de maior valia para o nosso clã se partir junto com os outros. Não foi um pedido... — Tentou soar mais rígido em sua decisão, contudo cada vez mais sentia não saber lidar com a decepção crescente demonstrada pela mulher.

— Ordem ou pedido, pouco me importa. Isso está fora de questão, sinto muito. Arranje outro. — Atestou, afastando-se do grupo a passos irritados, sequer conseguindo encarar o líder após aquela demonstração gratuita de menosprezo.

Clopin suspirou, esfregando os olhos com seus dedos calosos e ásperos. Não poderia se sentir mais exausto ou derrotado com tudo o que vinha acontecendo.

— Aqueles que quiserem partir, agrupem-se e se ponham imediatamente em movimento. Aos que preferirem lutar, armem-se com o que puderem. Não há muito tempo para nenhum de nós, então sugiro que se apressem nos dois casos. — Determinou, indo atrás da cigana que ainda caminhava veloz para longe de si. — Sara! — Chamou, contudo foi ignorado. Aumentou sua própria velocidade, notando os punhos da mulher cerrados com violência enquanto se mantinha seguindo seu curso — Sara, me escute!

Ela girou nos calcanhares, seu semblante ainda descrente e zangado. Passou a caminhar na direção do líder, disposta a confrontá-lo.

— O que foi tudo isso, posso saber? Está mesmo disposto a me dispensar com todo o desfalque que sofremos? — Seus dentes trincaram de raiva, pela primeira vez experimentando uma injustiça que provinha de seu próprio povo — Me julga tão inútil a ponto de declarar, diante de todo o clã, que serei melhor aproveitada se me afastar da batalha? Com que direito me humilha assim na frente de todos que eu respeito?

— Não se trata disso, Sara. Nunca duvidei de sua força, coragem ou habilidade...

— Tem um modo muito estranho de demonstrar isso então. Se veio até aqui tentando reafirmar sua ordem...

— Não, não vim! — Clopin a interrompeu de imediato, os olhos cheios de dor ao encará-la — Me desculpe, não devia ter falado daquela forma. Foi no impulso da minha pressa. Não a forçarei, mas preciso ao menos tentar... Acompanhe o grupo que deixará Paris, Sara. Por favor.

— Como pode me pedir algo assim...? — Inquiriu, afetada e novamente ofendida. Deu meia volta, disposta a se afastar do líder, contudo Clopin se pôs à frente da egípcia, uma mão urgente pousando no braço da mulher.

— Ao menos escute, Sara. Aqueles que ficarem estarão condenados. Não temos a menor chance de sobreviver a mais esse ataque, principalmente após o desfalque que sofremos na última investida dos soldados. Dessa vez seremos massacrados até o último cigano, entende?

— Acha que eu não sei? Quão estúpida eu pareço a você? — Os olhos da mulher se encheram de uma franqueza sólida, sofrida. Suas narinas tremeram levemente à medida que lágrimas se formavam nas linhas inferiores de suas pálpebras, evidenciando toda a angústia que até então guardara apenas para si — Acha que eu não sei que a culpa de tudo isso é minha?

— Do que está falando? — O líder exasperou-se, a mão que descansava no braço da mulher apertando-o um pouco mais sem que ele chegasse a perceber o sutil movimento. Estava atônito com a declaração da egípcia, e o próprio peito se contorceu ao perceber a transparência de sua aflição.

— Não se faça de desentendido, Clopin. A ideia ao ataque à catedral foi minha. Desde o começo fui eu que incitei os ciganos a isso. Condenei todo meu povo por um capricho, um impulso... por querer me vingar pela forma como sempre nos trataram. E então você me diz que logo eu devo fugir? Que mereço viver enquanto meu clã morre por culpa dessa minha necessidade infantil em revidar na mesma moeda? Por ser burra o bastante para agir como se nossos lados pudessem competir de alguma maneira justa? Não, Clopin. Se tem alguém que merece passar pelas consequências, sou eu.

— Por Júpiter, Sara... — Puxou-a para um abraço, envolvendo-a com força em seus braços. Estremeceu ao sentir os soluços da mulher contra seu peito, mesmo naquele momento não deixando de reconhecer a força daquela que vinha despertando tantos sentimentos em si. Daquela que, por sua mera presença, era capaz de abrandar um coração tão cheio de inquietudes. Pousou um beijo gentil na altura da raiz de seus cachos, sentindo-a se aconchegar com mais empenho, em busca de alento — Nada do que acontecerá é sua culpa, por favor, entenda isso. Todos que estiveram no ataque à catedral foram por vontade própria. Nenhum homem ou mulher foi obrigado a investir contra Notre Dame, e muito menos desconheciam os perigos de revidar dessa forma. Estamos todos muito cansados, Sara. Nossa miséria é alimentada dia após dia, e já não existe mais como inventarem novas formas de nos degradarem. Graças a você, pudemos de fato incomodá-los — Sorriu de leve ao sentir que o pranto da mulher paulatinamente se abrandava, e deixou que uma de suas mãos passassem suaves pelo cabelo comprido da boêmia —, pudemos mostrar que existimos e somos capazes de atos de resistência, quer eles gostem ou não. Eles podem até dizimar todos os egípcios que cruzarem seus caminhos hoje, minha cigana, mas continuaremos vivendo em Paris como uma lembrança incômoda. Sempre que olharem para a catedral, o maior símbolo de seu cristianismo e de sua intolerância conosco, lembrarão do que fizemos. No fim das contas, os soldados não conseguirão nos expulsar de todo, e por isso devemos ser gratos a você. A esse seu espírito tão livre e bravo, que tantas vezes me ajudou a conduzir a liderança do nosso clã. E é por isso que gostaria que partisse e ousei pedir... Não suportaria vê-la nas mãos desses soldados. Já perdi minha filha, não aguentaria perdê-la também...

— Não, Clopin. — Sara ergueu o rosto, encarando-o com gravidade — Não ouse me comparar à Esmeralda. Não ouse me enxergar como uma protegida sua.

— Eu não a vejo dessa forma, você deve saber. Mas nem por isso preciso gostar de vê-la se colocando num perigo inútil, que não trará benefício algum ao clã. E o motivo disso você também deve entender. — Sussurrou, limpando a umidade do rosto feminino como uma carícia.

— Acho que entendo. Assim como também acho que você compreende as razões pelas quais não posso abandonar meu povo nesse momento, e muito menos o homem que amo.

Houve uma breve falha no ritmo cardíaco do cigano, um tempo irrisório em que ele se permitiu admirar o semblante honesto da boêmia. Sem que pudesse evitar, sua atenção voltou-se para a boca levemente entreaberta da mulher, permitindo uma visão parcial de seus incisivos. Quando se deu conta, já a beijava, pela primeira vez entregue àquele sentimento puro que se contrapunha a tantas tragédias.

Prensou-a contra um dos casebres, permitindo-se saborear algo doce antes que o amargo novamente se alastrasse, como uma regra cruel nos momentos derradeiros de suas vidas. Clopin percebeu Sara aprofundar seus lábios à medida que puxava o corpo do cigano contra o seu, e de bom grado permitiu, ele mesmo incapaz de evitar os contatos mais íntimos.

Beijaram-se por mais tempo do que parecia sensato, ambos vivendo com intensidade a completude de um instante finito, que jamais se repetiria entre aquelas almas condenadas ao extermínio.

Sara tornou a abraçá-lo, experimentando a estranha sensação de libertar angústias antigas ao mesmo tempo em que abrigava novas. Em breve, tudo estaria acabado. Ao mesmo tempo em que esse fato soava deprimente, trazia também certo alívio.

Que suas almas fossem capazes de ascender para longe das misérias da Terra.

— Podemos fazer mais... — A boêmia abstraiu, arrancando uma expressão duvidosa de Clopin. Encarou-a, esperando por alguma explicação à sua fala — Se estão vindo atrás de nós, não devíamos simplesmente esperar. Já que nos querem todos mortos, talvez seja hora de montarmos nossa própria pira...

Clopin não pôde evitar a mescla de ternura e tristeza que o invadiu ao observar cada detalhe na expressão decidida da mulher. O cigano mais uma vez a cingiu com seus braços, temendo o momento em que precisasse soltá-la.

E ali permaneceram por um tempo a mais, ambos plenamente conscientes de que aquilo, mais do que tudo, significava um adeus.

Minutos mais tarde, sob as orientações enérgicas de Clopin e Sara, todos no Pátio se encarregavam de construir uma barricada com os destroços de suas próprias casas, ladeando com restos de madeira as cercanias do Pátio em todas as possíveis entradas, incluindo à barreira todo e quaisquer pertences que ajudassem a alimentar o fogaréu. Dentre eles, roupas e plantas medicinais secas eram as alternativas mais vistas.

Tochas já se consumiam com a ardência do fogo, apenas à espera do mais leve sinal. Quando identificaram o som de galope ainda ao longe, cada cigano tomou sua posição junto à barricada, ateando fogo em todos os parcos bens materiais que conseguiram juntar.

Não havia nada, afinal, que pudessem levar daquele mundo.

As chamas sobre a madeira tiveram um início tímido, apenas exalando um crepitar acanhado que ameaçava se extinguir ao menor sinal de adversidade. Não demorou, contudo, para que as labaredas fossem encorpando em meio ao território ganho, e logo o Pátio dos Milagres se encheu de luz e calor.

Como em um de seus festejos.

Os soldados ocupavam a linha de frente, elegantes e orgulhosos em suas montarias, avançando rápido nos vários anseios de genocídio. O ritmo, contudo, refreou diante da visão do incêndio provocado, que apenas ganhava força. Mesmo sob o elmo, foi possível aos ciganos identificar a expressão raivosa dos servos da coroa ao sentirem a intenção de recuo dos cavalos.

— AVANTE! — O novo capitão dos arqueiros bradou, incitando o próprio puro-sangue inglês de pelagem tordilha a obedecer aquele comando. O animal respondeu com um relincho desagradado, ousando dar alguns passos em ré. O medo estalava em conjunto com o fogo dentro de seus olhos de presa. Insatisfeito, o soldado lançou o chicote nos glúteos do animal, berrando ainda mais alto para que sua montaria seguisse em frente.

Houve alguns galopes na direção certa, porém assim que o cavalo sentiu o calor do fogo aumentar freou com brusquidão, empinando aterrorizado. O cavaleiro caiu da sela quando o equino se sustentou apenas pelos cascos posteriores, e no instante seguinte o animal já fugia, tomando a direção oposta ao Pátio dos Milagres.

Aquele breve instante criou um verdadeiro caos entre os civis que estavam atrás. O puro-sangue inglês, dominado por temor, derrubou alguns parisienses em sua corrida desenfreada, chegando a pisotear um dos homens que caíra.

Todo o alvoroço serviu apenas para estressar ainda mais os cavalos, cada um passando a demonstrar níveis alarmantes e iguais de medo. Relinchos e ameaças de que empinariam se tornaram frequentes, e outro animal da guarda real resolveu abandonar o cenário, girando o corpo num movimento tão precipitado que o soldado desequilibrou-se e seu corpo tombou parcialmente, o pé esquerdo preso no estribo fazendo com que o cavaleiro fosse arrastado à mercê do galope de sua montaria.

— DEIXEM OS CAVALOS! — O capitão novamente berrou, ensandecido pela raiva dos primeiros acontecimentos desfavoráveis. Aquele dia deveria ser de todo glorioso, porém até isso os malditos egípcios arruinaram — Desmontem, seus inúteis, antes que todos sejam derrubados!

Seguiram a ordem de seu superior, este fitando a comunidade cigana com ainda mais fúria do que de costume por trás da cortina de fogo.

— O que estão esperando? Atravessem logo, ou são tão covardes quanto suas montarias? — Ordenou, porém ele mesmo não parecia muito disposto a ultrapassar aquela inusitada barreira.

Um de seus subordinados tomou a frente. Querendo agradar seu superior, ergueu a espada à medida que corria rumo aos estrangeiros. Os outros o acompanharam logo em seguida, passando pelo calor insuportável das labaredas em saltos trépidos. Vendo que os soldados atravessaram incólumes, os parisienses os seguiram, içando tochas, forcados e facas.

Clopin correu de encontro a um dos guardas, usando sua própria tocha para desarmá-lo. Aproveitou a ponta incandescente para queimar a mão que segurava o cabo da espada, e no instante em que a arma caiu, passou a golpear o peito do homem repetidas vezes, disposto a levá-lo novamente à barricada. O cigano era notavelmente dotado de maior força física, e logo seu intuito foi concluído. Derrubou-o no cerne do fogo, usando a tora inflamada para manter o inimigo ali sem muita possibilidade de escape.

Partiu para o caos da batalha em seguida, pouco se importando com o desespero de sua primeira vítima que, arrastando-se para longe do ardor, continuava queimando graças à armadura envolvendo seu corpo. Berrou quando tirou o elmo e sentiu porções da própria pele grudadas no aço, desprendendo-se de seu rosto num estado quase liquefeito.

O líder do Pátio analisou brevemente a situação. A desvantagem numérica era gritante, e não dispunham de quase nada em prol de sua defesa. Logo nos primeiros segundos daquela batalha o clã já sofrera algumas baixas inevitáveis, e com sorte bastariam mais alguns minutos para que todos estivessem rendidos ou mortos.

Exasperou-se com aquela percepção tão imediata. O embate entre eles mal começara, e já via ao longo do Pátio vários de seus irmãos executados, a maioria por ferimento das espadas a serviço do rei. Seu clã parecia ainda mais indefeso do que animais conduzidos aos processos de abate. Tão desproporcional que sequer podia se definir aquilo como uma batalha. Era, em todos os sentidos, uma chacina. Apenas com os civis a luta parecia um pouco mais balanceada, mas ainda assim, não havia qualquer equilíbrio.

Despertou do rápido devaneio quando notou um parisiense correndo alucinado em sua direção, carregando no brilho mortífero de suas íris a promessa de um fim. Brandia o mais alto possível uma faca, disposto a enterrá-la no crânio do líder daquela escória. O estrangeiro de pronto segurou o pulso que o ameaçava com o objeto cortante, percebendo a feição de puro ódio tornar-se nada além de dor à medida que pressionava o local com toda a força que possuía. Socou-o bem na boca do estômago, fazendo-o largar a arma e a tomando para si.

Enterrou a faca na lateral do pescoço daquele que tentara matá-lo, e surpreendeu-se ao ver Sara pulando ao seu lado. A mulher olhava fixamente para um ponto atrás de si, e assim que se estabilizou naquela nova posição, golpeou um soldado que pretendia ferir Clopin pelas costas. A brutalidade do baque na altura de seu nariz gerou um estalo inconfundível do pescoço se quebrando. No mesmo instante o servo da coroa tombou, sem vida.

— Nunca mais me queira longe das nossas lutas, Clopin. Pelo seu próprio bem.

— Se houver uma próxima, estará nela com certeza! Aqui, Sara, quero que fique com isto — Tentou dar-lhe a faca, porém a cigana negou, mostrando-lhe a ponteira que improvisara em sua própria tora.

— Prefiro armas de longo alcance... — A cigana principiou num tom inicialmente leve, porém no segundo seguinte sua expressão se tornou aterrorizada pela cena que se seguiu.

A última mulher do clã, além dela mesma, tinha o abdômen transpassado por uma longa lança e, ainda viva, era direcionada ao fogo pelo soldado que a ferira.

— Queime, bruxa! Assim já vai se acostumando ao inferno que te espera! — O membro da guarda real gargalhou, chegando a atrair a atenção do restante da batalha. Os gritos de desespero da estrangeira ecoaram Paris adentro, notas de pura angústia pela tortura a qual era submetida. Logo o odor fétido de carne em combustão impregnou em todo o espaço, e a aparência outrora bela da egípcia se distorcia em queimaduras irreconhecíveis, até que o silêncio anunciou sua partida.

Apesar da pele que se retorcia, sua última expressão ainda se evidenciava no mais acentuado horror.

Só então Clopin se deu conta de que eram os últimos pagãos ainda vivos, átimos de segundo antes de seus inimigos. Uma multidão de parisienses e soldados destinou a atenção à dupla e seus passos, tão lentos quanto perigosos, direcionavam-se a encurralá-los nos últimos meandros do trajeto de suas vidas. Pareciam solenes por enfim concluir aquele objetivo.

Em seus semblantes se evidenciava o orgulho de finalmente concluir uma tarefa inconveniente.

Sara e Clopin escoraram-se junto a uma das poucas construções que ainda não desabara por completo, um ao lado do outro, tentando definir quem seria aquele a lhes tirar o último sopro de vida. Largaram as precárias armas quase que num movimento combinado, dando espaço para que suas mãos se entrelaçassem num último movimento cúmplice.

— Chegou a hora, meu cigano... — Murmurou, a voz conseguindo soar tranquila apesar do frenesi que o coração fazia ao ribombar em seu peito, intuindo que dava suas últimas batidas. O líder de todos os ciganos mortos nada disse, apenas apertou os dedos que se emaranhavam aos seus, confortável por ao menos aquele toque.

— Afastem-se! Eu faço questão de cuidar desses dois! — O capitão dos arqueiros se pôs à frente, tirando das mãos de um parisiense o forcado que vinha usando como arma. Só então reparou nas mãos intimamente enlaçadas, de súbito interessado — São amantes, por acaso? — Riu-se ao receber a comprovação de seu questionamento através dos olhares frios que ambos lhe lançaram, como se de fato estivessem em sincronia.

— Faça logo o que veio fazer... — Clopin respondeu-lhe, em seu íntimo se consentindo o egoísmo de desejar ser morto primeiro. Disposto a incitar que a violência recaísse em si, cuspiu na face do capitão. Este, contudo, sorriu, apoiando-se ao forcado numa postura despreocupada.

Tirou um lenço do bolso do uniforme, limpando aquela afronta numa estranha calmaria.

— Continua a me desafiar, cigano... Não me parece uma atitude muito inteligente atiçar o próprio carrasco, a menos que realmente queira morrer... — Anunciou, num movimento rápido e certeiro enfiando as três pontas do ancinho abaixo dos seios de Sara, que arregalou os olhos em surpresa e dor.

NÃO! — Clopin rugiu, amparando o corpo em queda da mulher que amava. Seus olhos escuros buscaram pelos do cigano, e os lábios se abriram numa tentativa de transmitir suas últimas palavras a ele. Contudo, o único fruto gerado por seu esforço foi expelir uma grande quantidade de sangue pela boca, acompanhado do som de engasgos e, por fim, um último sufocar — Sara, me perdoe! — Abraçou-se à mulher, um corpo que já não exprimia vida — Logo estaremos juntos, minha querida! — Beijou-lhe a testa, acomodando-a com cuidado no chão e se erguendo para receber sua sentença. Fitou o capitão com intensidade, esperando pelo golpe fatal, pouco se importando se sofreria torturas antes de finalmente deixar aquela existência.

Encararam-se por algum tempo em silêncio, até que o capitão fingiu espanto.

— Ah, você espera que eu o mate, cigano, é isso? — Fez a pergunta óbvia, simulando um entendimento afetado — Bom, não creio que este seja o melhor caminho. Veja, estive pensando, e percebi que é importante sobrar ao menos um com vida. — Sorriu repleto de maldade ao testemunhar a expressão desnorteada do estrangeiro — Assim você poderá contar aos outros pagãos imundos o que acaba acontecendo quando tentam se instalar em Paris. Quando atacam nossa fé. Podia ter sido a garota a sobreviver, é verdade, não foi muito cavalheiresco de minha parte, mas você me pareceu tão vivaz enquanto me confrontava que eu não me senti preparado para dar cabo disso... — Largou a forquilha num gesto teatral, limpando as mãos em seguida — Mas também acho importante que esse evento não passe totalmente em branco, é claro.

Pôs-se a espancar o cigano, seus golpes contidos ao ponto de não deixá-lo inconsciente, porém suficientes para compensar a fúria que o egípcio lhe causara ao dirigir tamanha insolência a si, uma autoridade. Um parisiense nascido numa das mais prestigiadas famílias, e portanto intocável à escória daquele tipo.

Precisou de enorme autocontrole para cessar os movimentos de seus punhos e chutes, parando apenas por uma única motivação. Sabia que, para o pagão, conviver com o peso de todas aquelas perdas seria ainda pior do que a mais dolorosa morte.

E estava absolutamente certo naquele aspecto.

Ela perambulava sem rumo certo pelas vielas da Île de La Cité, pouco atenta ao seu entorno. Embora o alcance de sua visão fosse bem abrangente, não havia absolutamente nada que a interessasse. Ao menos não nos últimos tempos.

Djali esfregou o focinho úmido na pata dianteira esquerda, sentindo uma forte coceira naquela região, porém indiferente ao incômodo. Seus gestos eram apenas praxe de antigos costumes. Desde a última vez que vira Esmeralda, nada fora capaz de alertar seus sentidos e interesse, salvo as raras vezes em que algum odor no ambiente se assemelhou ao de sua humana. Nesses momentos ela se posicionava numa postura alerta, aguçando olfato, visão e audição apenas para se frustrar em seguida.

Em nenhuma dessas ocasiões encontrara qualquer vestígio da bípede que desde sempre cuidara de si. Sabia que a amava, mas nunca chegara a assimilá-la, em nenhum sentido. Os humanos em geral representavam um verdadeiro desafio ao seu entendimento de mundo, mas nunca imaginou que se enganara com a ligação compartilhada entre si e sua fêmea de postura ereta. Jamais poderia imaginar que um dia seria abandonada ou ferida por ela, como ocorrera. Ainda mancava pelo chute de Esmeralda, porém não era o hematoma que realmente lhe doía.

Mas nunca, de fato, conseguira compreender aquela espécie, quanto mais seus propósitos.

Sempre lhe pareceu errada a existência de um animal sem pelos, sem presas ou chifres. Criatura inútil esta, incapaz de sobreviver ao frio ou à perseguição de predadores... Animais barulhentos e espalhafatosos que sequer conseguiam executar um ritual de acasalamento efetivo. Sua humana era um exemplo claro, cheia de falhas nesse quesito. Praticamente todos os dias a bípede se expunha a uma roda variada de machos e até mesmo fêmeas, tentando chamar a atenção deles com movimentos de seu corpo e sons estranhos, porém mesmo após todos os seus esforços, ao fim eles a rejeitavam, tomando caminhos distintos. Djali chegara a interceder por sua humana algumas vezes, urinando nos panos que cobriam seu corpo para ensiná-la as regras corretas de como iniciar um acasalamento, mas nessas ocasiões a bípede sempre demonstrava desagrado, e aos poucos a cabra foi desistindo de corrigi-la. Era mesmo um animal estranho e pouco inteligente o ser humano, sempre demandando grande paciência em seu manejo.

Mas, apesar de tantas diferenças, a cabra sempre fora vivaz, curiosa, e acabou se deixando cativar pelas peculiaridades dos costumes da humana. Muito fugia ao entendimento de Djali, porém ela sabia de algumas coisas. Sabia que aprendera a amar a bípede com devoção incontestável, disso não restava dúvida. Sabia que ambas faziam parte de um conjunto, ou ao menos costumavam fazer.

E sabia, acima de tudo, que a queria de volta.

No início, acreditava que apenas ela providenciava todos os tipos de cuidados ao segundo membro de seu rebanho, porém aos poucos foi descobrindo que Esmeralda também zelava por si, e sempre fora assim. Talvez tenha falhado em reconhecer a importância da humana ao longo do tempo, não sabia... Devia ter feito algo muito errado para que a bípede resolvesse abandoná-la.

Ainda caminhando, Djali chegou aos limites do Pátio dos Milagres, estranhando as mudanças no local. Ele não cheirava mais a verduras frescas, e sim a sangue e resíduos desagradáveis. O som constante e escandaloso que o rebanho de humanos sempre fazia ali, agora se resumia a nada além de um atípico silêncio.

Não se importou. Queria apenas o alento de um ambiente conhecido. Devia bastar o lugar em que crescera junto com a sua humana. Graças à sua humana.

Identificou a baia que por toda a vida dividira com Esmeralda, embora estivesse diferente. Completamente destruída desde a última vez em que ficara ali, mas também não chegou a se incomodar com a mudança. Aconchegou-se junto à entrada, e só por estar ali sua solidão pareceu disposta a abrandar. Ao menos naquele local poderia sonhar com a fêmea humana mais claramente. Se conseguisse se concentrar, seria capaz até mesmo de apreender um resquício de seu cheiro.

Djali passou a língua ressecada pelo focinho anormalmente seco, incapaz de lembrar a última vez que bebera água ou comera algo. Não parecia importante. Sentia-se desidratada e desnutrida, é verdade, mas o real vazio ia muito além de seu corpo. E nada mais poderia importar além do vácuo de uma existência.

Sentiu um odor conhecido, levemente modificado, que em outras épocas a traria alegria.

O humano que sua Esmeralda tanto prezava entrou em seu largo campo visual, caminhando agitado em sua direção e parecendo surpreso em vê-la. Também gostava muito daquele bípede, mas não poderia demonstrá-lo agora. Não tinha forças e nem ânimo.

Clopin sentou ao seu lado, e Djali piscou longamente quando sentiu a carícia em seu queixo. Tentou fingir que o afago vinha de sua humana, mas não conseguiu. Nada se comparava à delicadeza e ternura com que ela a tocava. O homem falou, e a cabra reconheceu o nome daquela que amava acima de tudo. Fitou-o com a sombra de seu antigo interesse, ciente de que não podia oferecer nada muito além de sua nova apatia.

Onde está Esmeralda, Djali?

Mais um carinho, dessa vez com os dedos ligeiramente trêmulos. A cabra sentiu com nitidez a preocupação do humano, e chegou a se contaminar com uma parcela daquele sentimento.

Não me diga que ela também se foi...

Seus olhos escuros a fitaram com seriedade, e ela pôde prever o arrepio que o acometeu. Os olhos de Clopin encharcaram-se, e a cabra concentrou-se naquele detalhe como uma fonte de distração. Sempre achou engraçado como às vezes gotejava certa quantidade de líquido no rosto dos humanos, vez ou outra. Acreditava que aquele era um mecanismo para umedecer seus focinhos sempre secos, porém parecia nunca dar certo. A mira dos bípedes era mesmo terrível.

Cheguei perto de desistir, Djali. Só não tirei minha própria vida porque tenho esperanças de reencontrar Esmeralda. Sabe onde ela está, querida? Pode me levar até ela?

A cabra ajeitou o rosto, respirando profundamente em busca de qualquer resquício do perfume daquela que a criara. Não havia odor mais delicioso do que aquele, e esperava jamais esquecer seus componentes.

Ela está em Montfaucon*, Djali? Por isso você veio para cá, sozinha?

Ela relanceou um novo olhar para Clopin, já habituada aos ruídos. Os humanos passavam o dia inteiro vocalizando, algo que também não lhe fazia grande sentido, mas de certa forma era reconfortante. Daria tudo para ouvir o timbre de sua humana mais uma vez.

Minha menina... Como pude permitir que fosse embora?

O macho humano afundou o rosto nas patas inúteis da frente, por um tempo apenas exprimindo sons que a cabra reconhecia como tristeza. Talvez ele já soubesse de sua bípede. Talvez compartilhassem a mesma angústia.

Ela encostou a cabeça junto ao homem, querendo ao mesmo tempo consolar e receber conforto com o simples gesto. O contato teve o poder de acalmá-lo aos poucos, o que lhe pareceu um tanto injusto consigo. Apenas sua humana poderia trazer-lhe de volta o espírito que perdera ao ser abandonada.

— Se nem mesmo Esmeralda está aqui, já não há nada em Paris para nós. Acho que ela gostaria que fosse embora comigo, Djali. Teremos que recomeçar, mas nada pode ser pior do que este lugar.

A cabra virou o rosto, desinteressada. Sabia interpretar muito bem os sinais de sua Esmeralda, e reconhecia a urgência no balido do homem, assim como sua postura pronta para abandonar o local, e não tinha a menor intenção de sair dali.

Clopin soltou o ar pela boca, de leve mostrando os dentes. Djali levou muito tempo de sua vida para entender que aquele gesto não se tratava de um rosnado ou ameaça, mas sim que demonstrava agrado por parte dos humanos. Sequer tinham cauda ou rabo para manifestar a felicidade e evitar tamanho equívoco. Eram animais confusos, realmente.

— Você vai esperar por ela, não é, pequena cigana? Se por acaso encontrá-la, diga que eu sinto sua falta, está bem?

O homem tocou os lábios na testa da cabra, fazendo aquele barulho de estalo que ela também não abrangia o significado, mas adorava quando vinha de Esmeralda.

— Se cuide, Djali!

A cabra o viu depositar alguns grãos e folhas ao lado de sua boca, e aquele gesto Djali compreendia perfeitamente bem. Fazia parte do ritual em que os humanos ofertavam alimento às criaturas mais bem dotadas de inteligência. Ela ignorou a comida, reposicionando o corpo para longe da oferenda enquanto o humano se afastava, mais apressado do que nunca.

Piscou preguiçosamente, aquele gesto de Clopin fazendo-a recordar a primeira vez que vislumbrara sua humana. Conheceu Esmeralda também num desses hábitos da oferta de alimento, e desde então jamais se separaram.

Fechou os olhos, quase capaz de reviver toda sua lembrança numa perfeição nítida.

“— Pobre cabritinha... — A humana havia dito, acariciando o pescoço do pequeno animal enquanto ele se arrastava fracamente para o úbere totalmente ocupado da ama de leite. Sua mãe havia morrido, ela vira, e logo em seguida foi colocada na baia de outra cabra com cria — É um refugo. Vamos, pequena. Se não tomar logo seu colostro, será a única da ninhada a não vingar.

Afastou com delicadeza o filhote mais robusto do teto da cabra adulta, dando espaço para que o diminuto animal pudesse sorver seu primeiro leite. O teto da mãe adotiva, contudo, era grande demais para a boca miúda do filhote pouco desenvolvido. A humana logo percebeu a dificuldade e passou a segurar o queixo do animal, ordenhando com cuidado o leite para dentro de seus lábios famintos.

A gentil humana adotou uma rotina de visitá-la várias vezes num mesmo dia, sempre a ajudando nas dificuldades da amamentação e sanando seu apetite cada vez mais voraz. Não demorou a encorpar como o resto das ninhadas, e a cada visita de Esmeralda, Djali se tornava mais ansiosa por vê-la.

Aprendera a amar aquela bípede desde então, e prometeu que jamais a esqueceria.”

Diante daquela doce lembrança, Djali soltou uma respiração pesada, aconchegando-se no alento de uma memória distante que lhe trouxe um misto de conforto e tristeza. Disposta a continuar visualizando a imagem terna de sua humana, permaneceu com seus olhos fechados...

...Manteve-os assim, para nunca mais abri-los.

Notas finais
*Montfaucon é uma espécie de catacumba parisiense em que se aglomeravam vários corpos. É citado no livro (se não me engano) e também no musical, mas eu confesso que não sei se realmente existiu, se alguma das Notre-Dametes daqui (sim, estou falando com vocês, Anánke e Elvish Song :v) souberem, agradeceria por essa informação, já que minhas pesquisas foram frustradas. Vocês podem não acreditar, mas eu também me machuco com esses capítulos. Mas mesmo me machucando, infelizmente é o meu estilo de escrita, o jeito é aceitar mesmo. É praticamente um “Arrriba: ame-a ou deixe-a” -_-‘ Podem me xingar, minhas lindas. Depois dos episódios 21 e 22 eu realmente estou sentindo a necessidade de ser xingada :’( Boas festas de fim de ano a todas ♥