O Preço da Magia

23 Episódio 23: Não Dava Pé, Ficou Infernal


Notas iniciais
Hoje a conversa de sempre vai ser nas NF, não quero empatar a leitura de ninguém depois de outro hiatus recordista =P Só tem um negócio que eu preciso muito compartilhar agorinha mesmo: CARAIO QUE SAUDADE DOCÊÊÊIS! ♥ ♥ ♥

Atena sorveu um longo gole do cantil antes que retomasse os passos apressados, esforçando-se para domar a esmagadora ansiedade que interferia até mesmo nos seus movimentos mais triviais. Respirou fundo e desacelerou o ritmo, temendo levantar alguma suspeita.

Seu rumo era arriscado. Ia em direção àquilo que julgava uma das missões mais importantes de sua existência. Se não a maior de todas, dentre a amplitude da própria imortalidade. Os orbes pareciam focados às pequenas tarefas prosaicas que exercia, porém a deusa enxergava um tempo ainda não vivido.

Cada um de seus sentidos plenamente orientados àquilo que culminaria no início — ou mesmo no fim — das mudanças que tanto lhe apeteciam. Restaurar o equilíbrio entre os deuses, impor-se mais abertamente à tirania de Zeus, e enfim fazer do Olimpo o lar igualitário que outrora fora uma promessa.

Um brilho hostil percorreu o lume de suas íris ao rememorar os últimos feitos de seu soberano, trazendo-lhe ao fundo da garganta o gosto amargo de antigos dissabores e impotências. Tão antigos que, ao tentar distinguir a sequência de fatos que culminaram naquela situação insustentável, percebeu-se incapaz.

Podia afirmar com certeza apenas um fato.

O deus do trovão precisava ser detido.

Sequer preocupado em camuflar sua tendência aos atos cruéis que o precediam, Zeus seguia ultrapassando limite atrás de limite, a cada instante menos cauteloso quanto a anunciar em alto e bom som as várias camadas de seu despotismo. O próprio senhor do Olimpo parecia engajar-se num trabalho árduo para tornar a vivência ali insuportável.

Hércules permanecia mantido em cárcere privado, sofrendo sucessivas drenagens de sua energia divina para limitar o alcance de seu poder já fraco. Até mesmo o tom luminescente de sua aura dourada esmorecia em feixes opacos, insistentes apenas pelo teor divino, a cada dia mais perto da inexistência.

Hera, aquela a quem Zeus tomara por esposa e, como tal, deveria ocupar uma posição similar à do marido no comando da morada idílica, mantinha-se no indigno papel de aia, presa aos piores caprichos do amargo cônjuge. Foi condenada a passar os dias em clausura absoluta nos aposentos do deus, isolada de todos do Olimpo. De quase todos. Aquele a quem ela mais desejava se distanciar tornou-se sua única e constante companhia durante noites que lhe pareciam frias e tão longas quanto.

É possível que para alguns falte o entendimento dos propósitos obscuros que levaram Zeus a condenar Hera a uma eternidade de solidão. Os motivos de Zeus nunca foram passíveis de um completo entendimento, porém em sua mente perversa estava evidente que Hera havia cometido um crime. Uma transgressão tão abominável aos olhos do impiedoso deus, que ele jamais poderia perdoar tendo em vista todo seu despreparo emocional.

O asco que Hera sempre nutrira pelo esposo enfim venceu o medo, e desde então seu corpo respondia ao senhor do Olimpo apenas com repulsa e, no melhor dos cenários, desdém.

O soberano das deidades gregas tentou retomar sua posição amedrontadora, fez tudo o que lhe cabia para reviver na esposa todas as nuances mais profundas de seu antigo temor, confiando cegamente que cada aspecto de sua subserviência cega se traduzia em respeito, e que o respeito demonstrava amor.

Contudo, ele veio a descobrir que na relação construída ao lado da deusa não havia qualquer traço desses sentimentos, tampouco a afeição que se espera na relação conjugal. Existia apenas náusea, entremeada a um rancor de origem imemorável.

O espírito de Hera, portanto, habitava em uma existência alquebrada, algo que apenas as deusas já compreendiam antes que Zeus tomasse posse desse conhecimento e começasse a puni-la.

E logo os castigos passaram a se estender para além da relação do problemático casal.

Hera e sua apatia trouxeram consequências às demais deusas. Zeus coagia — sempre através do medo, uma vez que este era o melhor artifício que sua mente conhecia — outras divindades a cumprir seus desvarios, havendo sempre um ímpeto de fúria e descontentamento por sua parte, fosse na recusa ou no falso consentimento das deusas que se tornavam vítimas de sua soberba.

Elas, afinal, jamais seriam Hera. Jamais seriam sua escolha legítima.

Era em meio a esse cenário caótico que se dava início à tentativa de insurreição. Retomar o controle perdido e destituí-lo do monarca insano de um único golpe.

Quando deu por si, liberta de seus pensamentos tempestuosos, Atena já alcançara o ponto de encontro marcado, onde uma segunda deusa a aguardava, cheia de receios em seus grandes olhos amedrontados.

— Está preparada, Afrodite? — Atena cochichou à companheira, o olhar sempre vasculhando todo o perímetro num cuidado meticuloso. Falhar não seria uma opção. Não agora, que estavam tão perto.

— Como se prepara para algo assim? — Afrodite questionou, abalada com o papel que estava prestes a desempenhar. Criara o hábito de se maldizer por sua aparência chamativa, algo que antes ostentava com orgulho quase irritante.

— Sua coragem será bem lembrada por todas nós, minha querida, acredite! — segurou-a pelos ombros, quase um afago, transmitindo através do olhar uma infelicidade também genuína. — Eu mesma tomaria seu lugar, mas Zeus a escolheu. Parece que com você, ele sente que possui maiores chances de atingir Hera.

— Está perdendo o tempo dele e o meu... — lamentou cabisbaixa, algumas notas de sua fala chegando a tremer, e Atena preferiu não dedicar-se a definir qual sentimento prevalecia no timbre da comparsa.

Nós sabemos, mas Zeus é orgulhoso demais para se permitir perceber isso. Muito menos admitir... Ainda assim, essa pode ser nossa melhor vantagem para findar de vez com seus caprichos ao trono — mirou-a com gentileza ímpar, apertando-lhe a mão num gesto cúmplice e amável. — Contudo, jamais poderíamos obrigá-la a nada disso. Se quiser desistir, este é o momento...

— Não seja tola, Atena — o tom ligeiramente irritadiço e mais firme de sua voz surpreendeu a companheira, chegando quase a formar uma sugestão de sorriso em seu rosto — Não possuo a mesma destreza que você ou Artemis em batalha, mas também não sou uma completa inútil.

— Não me lembro de ter insinuado nada parecido... — tentou repreendê-la, mas parecia quase divertida com a súbita revolta da deusa ao seu lado — Sabe o que fazer então?

— Sim. Sei o que fazer.

— E mais importante de tudo... — diminuiu o tom de voz de modo que até mesmo Afrodite precisou se esforçar para conseguir ouvir — Haverá um momento em que Hera será levada à sua presença. A informação é que Zeus a obriga a ter contato com a amante da vez, a todo custo visando extrair alguma reação da esposa. Quando esta oportunidade chegar, será providenciado que fique a sós com ela, e então é imprescindível que não hesite...

— Estou ciente dos afazeres aos quais me comprometi, Atena. E, por pior que possa soar, não é o momento planejado junto à Hera que vem me perturbando — o embaraço de finalmente assumir aquela verdade atravessou seu belo rosto, levando-a a desviar o olhar para os dedos que se entrelaçavam de forma compulsória.

— Tente não se preocupar com isso. Armaremos o conflito antes que seja necessário se aprofundar em intimidades com ele. Basta tentar seduzi-lo e ganhar algum tempo, e tudo terminará bem. Alguns deuses estão do nosso lado, o que pode vir a facilitar as coisas caso elas saiam do controle.

— E quanto aos deuses que impuserem resistência? Ainda estamos em menor número, e nossa estratégia seria melhor aplicada se não houvesse conflito físico.

— Morfeu já está cuidando disso, não se preocupe* — sorriu largamente, ainda orgulhosa por ter recrutado o deus dos sonhos para atuar ao seu lado e, assim, evitar um possível embate direto no Olimpo.

— Você conseguiu... — Afrodite acompanhou o sorriso de Atena, ainda perplexa — As coisas ficarão de fato mais fáceis, mas ainda assim... Prometa que tomarão cuidado... — Afrodite rogou, inquieta mesmo quando Atena anuiu, tentando transmitir convicção. Invejou cada aspecto de sua bravura, querendo para si um pouco que fosse daquela confiança, e tão logo quanto percebeu o afastamento da outra, sentiu como se o pouco de sua coragem fosse levado embora pela presença da companheira. Disposta a estendê-la um pouco mais, fez um apelo repleto de desespero, permitindo-se extravasar sua repulsa enquanto ainda fosse permitido — ...e não demorem a alardear o motim, senão eu mesma faço! Ouviu, Atena?

A deusa lhe relanceou um olhar risonho, despedindo-se com um aceno.

E nunca antes Afrodite se sentira tão solitária quanto naquele instante em que a observava partir, incapaz de notar o próprio valor ainda que tão inestimável.

Zeus envergava uma postura impaciente quando Afrodite entrou em seus aposentos. Tão grande sua arrogância, que sequer percebeu o horror nos olhos da convidada quando esta vislumbrou Hera ali presente, mal acomodada a um canto, o olhar baixo e alheio.

— Sabe que não tolero atrasos. Por onde esteve? — Inquiriu com rudeza. Apesar da notória exaltação por se sentir contrariado, não havia qualquer vestígio de desconfiança em sua voz de trovão, apenas impaciência, o que de certa forma trouxe algum alívio à Afrodite.

Ela, após um esforço feroz, obrigou-se a sorrir com recato para seu indesejado anfitrião.

— Soube que Hera nos acompanharia hoje, e por isso tomei a liberdade de empregar um pouco mais de tempo para me ornar. Talvez dessa forma ela enfim experimente a gratidão e lisonja esperadas por ter sido sua escolhida, meu senhor — apesar das palavras calmas e timbre dócil, seu coração ainda ribombava com ímpeto diante da surpresa de ver sua rainha ali, no mesmo aposento em que Zeus tencionava mais um de seus encontros infiéis. Aquele breve discurso pareceu amansá-lo, quase afagar a fragilidade de sua egolatria, e em seu íntimo Afrodite pediu que Hera e apenas Hera percebesse tamanha dissimulação. Detestava o pensamento de desrespeitá-la de maneira tão torpe, porém quando se tratava de Zeus, a melhor estratégia era fazê-lo crer na existência de uma fidelidade à grandeza que ele tão piamente acreditava possuir. — Nem todas são capazes de enxergar o privilégio de ocupar tal posição, por isso é preciso que às vezes alguém as lembre.

Zeus fitou Afrodite longamente, parecendo enxergá-la pela primeira vez além dos atributos de beleza que possuía, tão aprazíveis aos seus olhos ante uma contemplação mais superficial da deusa. Aquele breve contato íntimo, transcendendo o físico, trouxe a ela uma inquietação incontrolável, como se a violação sofrida fosse ainda mais repulsiva do que os toques do soberano.

Como se o vil deus do Olimpo, de alguma forma, compreendesse semelhanças em ambos.

Percebendo-se mais e mais desconcertada e temendo transparecer seu desagrado, Afrodite ficou de costas para Zeus, baixando a cabeça como um sinal programado de timidez.

— Sei, contudo, que não é a mim que realmente deseja... — Prosseguiu, disposta a distraí-lo com a prolixidade de seu discurso — O amor é cruel até aos mais poderosos deuses, e foi determinado que sua afeição recaísse sobre Hera, mesmo que a ela não coubesse perceber tamanho privilégio. Mesmo que esse sentimento lhe traga como recompensa apenas ingratidão. Ainda assim considero uma honra poder desfrutar de sua companhia, meu senhor, sempre que desejar tê-la para si...

Afrodite sentiu Zeus se aproximar numa calmaria atípica, chegando perto o suficiente para que pudesse sentir o sopro pesado de sua respiração. Esforçou-se para não tremer quando, no instante seguinte, as largas mãos do monarca pousaram com alguma suavidade nos ombros tensos da deusa, e a voz que se seguiu pareceu mais um esforço amável do que de fato gentileza genuína.

— Muitas palavras para uma mera concubina, minha querida. Não me recordo de tê-la requisitado em busca de tagarelices. Se tencionasse preencher minhas horas com um estímulo para a mente, por certo não a teria escolhido. — Num instante quase imperceptível, os dedos se constringiram com mais força ao redor dos ombros pequenos da deusa, surpreendendo-a pela reação que aos poucos culminava em fúria — Tampouco a convoquei para conhecer seus pensamentos acerca de Hera, embora me veja na obrigação de estender um pouco este assunto. Poderá você ter a ilusão de superar os atributos de minha esposa? Ousa portar-se de forma tão lamentável perante sua rainha? — Virou-a num movimento bruto, e Afrodite temeu por si ao testemunhar os orbes que a encaravam arderem repletos de ódio. Pareciam, em algum nível, faiscar, assim como os raios que controlava — Tem a ousadia de sugerir que é mais digna? Logo aquela que me serve em nada além do meretrício? — De alguma forma que Afrodite não percebeu, Zeus avançara até seu pescoço, e no mesmo instante ela notou como seria fácil para ele simplesmente quebrá-lo. Bastaria um único gesto em qualquer ângulo que desejasse. Chegou a acreditar que ele o faria quando a pressão ali aumentou, limitando a passagem de ar a um sufoco incômodo — Acha que Hera, sua deusa, sua soberana, merece ouvi-la ladrar tamanhas sandices?

Afrodite arquejou, incapaz de verbalizar qualquer sílaba coerente.

— Mais alto e mais claro, cortesã. Crê ser melhor do que minha esposa?

Os lábios da deusa se abriram um pouco mais, numa tentativa confusa entre buscar o ar e ao mesmo tempo conseguir respondê-lo. Acabou destinando seus esforços mais urgentes na segunda alternativa, por mais que seus pulmões implorassem pela primeira.

Não, meu senhor... — Apenas um fiapo de sua voz se fez ouvir, mas pareceu suficiente ao maníaco que governava o Olimpo. Ele sorriu, porém apenas seus lábios. Os olhos permaneciam os mais frios que Afrodite já vira, e só então ela se deu conta do terreno perigoso em que se colocara, por pura tolice. Em sua insana obsessão por Hera, Zeus jamais permitiria que aquele tipo de discurso saísse impune.

— Muito bem. Da próxima vez que convocar seus serviços, espero que não esqueça a qual lugar pertence — lançou um olhar demorado à esposa, parecendo esperançoso por qualquer reação dela, contudo Hera mantinha-se imóvel. De tão apática, parecia quase um ornamento melancólico. Neste momento algumas batidas urgentes irromperam na porta, e o desagrado que trouxeram não poderia ser mais evidente. O deus rugiu, e houve uma nova pontada de raiva quando respondeu ao chamado — Está destrancada! — Anunciou, tentando recompor a própria postura sem grandes sucessos.

Hermes ingressou com notável rapidez, demonstrando ligeira confusão ao vislumbrar o abalo pálido de Afrodite, contundo não permitindo que tal percepção minasse seu objetivo principal.

— Meu senhor, temos um problema.

— Pensei ter sido claro quando ordenei que não admitiria interrupções.

— Surgiu um assunto de alta prioridade, senhor. Há rumores de uma rebelião para derrubá-lo, já a caminho de acontecer.

Todo o cenário pareceu sumir ao entendimento de Zeus, e suas feições se contorceram em algo ainda mais assustador.

— Uma rebelião? Quem lidera este absurdo?

— Tudo indica que Atena esteja no comando.

O deus do Olimpo elevou a metade direita dos lábios numa clara expressão de desprezo, parecendo esquecer-se das duas deusas ainda em seu aposento.

— Localize Ares! Ordene-o que reúna o exército e me encontrem no local da confusão! — determinou de pronto, imaginando as variadas punições que infringiria aos traidores, em especial à Atena. Com o pensamento a mil, apressou-se em direção à saída, até que novamente a voz de Hermes o freou.

— O que devo fazer com as duas, senhor?

— Apronte uma pequena guarnição para vigiá-las em separado e afastá-las do conflito. Em especial Hera! — decretou com urgência, e no segundo seguinte não se encontrava mais à vista.

Os três ficaram em silêncio por um instante a mais, ainda temendo que pudessem ser ouvidos, quando Hermes enfim ousou quebrar a quietude instalada.

— Vocês não têm muito tempo. O prazo de ação a partir daqui será limitado, por isso é crucial que sejam o mais rápidas possível — sussurrou, fechando a porta e deixando as duas deusas a sós.

— Sinto muito que tenha se envolvido nas loucuras de Zeus... — Hera falou pela primeira vez, ainda de cabeça baixa e um tanto inerte. Seu tom de voz neutro sequer parecia sentir coisa alguma, quanto mais a empatia que tentava expressar por Afrodite.

— Não é necessário, minha senhora — sentiu a própria voz ainda engasgada, levando a mão ao pescoço e massageando-o. — Esse encontro foi exaustivamente planejado, e eu me sinto mais em paz por receber de Zeus sua violência do que sua luxúria. Existe sim uma trama para tirá-lo do poder, mas o que ele não imagina é que a traição maior virá daqui de dentro. Mas para que tudo dê certo, precisaremos da sua contribuição.

Hera se consentiu olhar para a outra pela primeira vez, finalmente esboçando alguma reação desde sua chegada. Para Afrodite, no entanto, a feição da deusa da fertilidade se mantinha a mais enigmática possível. A convivência com Zeus por certo reprimira muitos aspectos de sua personalidade, criando em si os meios necessários para aprimorar sua capacidade dissimulativa, e assim permiti-la sobreviver naquele ambiente abusivo da melhor forma.

— A que você se refere? — Hera inquiriu, mesmo desconfiando da resposta. Receava, acima de tudo, estar diante de uma armadilha. Afinal, já caíra em tantas...

— Ao único ponto fraco de Zeus.

Hera estudou o timbre apressado e quase deprimido da deusa, perguntando-se se era prudente confiar em qualquer ser do Olimpo que não fosse ela mesma ou Hércules. Acabou gastando mais tempo do que gostaria analisando o espectro de hematoma que seria formado no pescoço de Afrodite após a agressão de seu detestável esposo, e se sentiu um pouco mais próxima dela por aquela pequena evidência tão compatível às suas várias lembranças de abusos. Foi novamente dominada pela compaixão de testemunhar outra vítima de Zeus, e sem uma percepção consciente, deixou que sua guarda baixasse a uma postura mais receptiva, embora ainda resignada.

— Refere-se a mim, imagino? — questionou, sabendo estar certa antes mesmo de receber a confirmação silenciosa de Afrodite, que numa expressão tomada por pesar deu início a um assentir consternado.

— Não existe outra forma, infelizmente. Teremos que tomá-la por refém — anunciou, surpreendendo-se com o momentâneo riso da rainha diante daquela fala.

— Tirar-me do meu cativeiro não fará de mim uma refém. Ajudarei da melhor forma que puder, contudo tenho um ou outro pedido.

— Basta dizer, senhora...

Hera posicionou a mão em punho sobre o peito, projetando-a para dentro da própria carne e demonstrando no semblante o desconforto daquela ação. O punho afundou-se um pouco mais entre os seios quando enfim emergiu, seus dedos antes vazios agora preenchidos pelo coração de um dourado luminescente.

— Liberte Hércules assim que possível. E de forma alguma permita que ele consiga se apoderar disso... — Ofereceu à deusa a versão de seu coração que representava todo o livre arbítrio que quase nunca tivera, abrindo mão do controle de sua alma. A única coisa que lhe restara, ainda que um tanto restrita.

Com os dedos ligeiramente trêmulos, Afrodite recusou de imediato aquela oferta, detestando tamanha responsabilidade.

— Não acho que esta seja uma medida necessária...

— Ter a posse do meu coração será o cenário mais ameaçador a Zeus. Somente assim poderemos realmente ter alguma vantagem ao enfrentá-lo. A possibilidade de minha vida estar nas mãos de outra deusa o fará hesitar, ainda que por pouco tempo. Zeus me quer miserável, não morta, embora eu tenha minhas dúvidas sobre qual seria sua escolha tendo o trono sob ameaça. Ainda assim, qualquer dianteira pode ser o diferencial para a vitória, e em seu lugar eu não estaria disposta a dar nenhuma chance para a derrota.

Novamente, Hera ofereceu o contorno pulsante à outra deusa, que dessa vez apenas expressou uma feição discordante, porém tomou para si o coração, convencida de que a deusa do Olimpo estava certa em suas considerações.

— Afrodite...

— Sim, minha senhora?

— Se por algum momento parecer que Zeus tomará posse deste coração, esmague-o. Sequer vacile. Entendeu? — A deusa que supostamente reinava no Olimpo fitou a outra com ardor, porém Afrodite apenas objetou com um olhar assustado e indisposto àquele plano — Prometa, Afrodite.

Sem nenhuma resposta anunciada, a deusa do amor apenas concordou com profunda tristeza, ciente de que aquele seria um cenário um tanto plausível caso fracassassem.

Zeus não pôde conter o fluxo de ódio que o contaminou à medida que se deslocava rumo ao cerne da confusão.

Jamais fora desafiado de tal forma, e faria o inimaginável para que todos os envolvidos se tornassem um terrível exemplo do que significava traí-lo. Para que, jamais, cogitassem tamanha ousadia uma segunda vez.

Faria questão de se encarregar pessoalmente disso.

Sua fúria cresceu num grau ainda mais alarmante quando percebeu Ares, o impulsivo deus da guerra, desacordado e dominado por Atena, a divindade que também representava a guerrilha, porém nominava-se com mais propriedade como deusa da sabedoria.

Zeus, assim como Ares, a julgava fraca por recorrer ao confronto físico apenas quando todos os outros meios houvessem fracassado. Utilizava-os como último recurso, sempre prezando muito mais pelas estratégias do que propriamente pela ação da batalha.

Hoje, no entanto, Zeus experimentaria o enorme deleite de fazer com que a deusa provasse a ineficácia daquele método.

Um sorriso cheio de ojeriza cruzou seus lábios ao perceber que Atena era a única dentro de seu campo visual. Certamente tinha a forte crença de que, tendo Ares na posição de refém, Zeus recuaria ou ao menos cederia a alguma de suas exigências.

A estúpida deusa, achando-se tão esperta e superior, sequer compreendia que Zeus via Ares como nada além de um peão sobre o tabuleiro. Facilmente descartável, como todos ali.

Como todos que não fossem sua esposa.

"Parece que Hermes não cumprirá minhas ordens, afinal..." — pensou enquanto ainda dedicava-se a observar Ares em toda sua inutilidade. Apesar dos sentimentos malignos apossando-se de seu corpo, o deus do Olimpo sorriu.

— Serei misericordioso, deusa. Solte Ares, e lhe providenciarei uma morte rápida, quase indolor — mentiu, e sabia que o brilho sádico em seus olhos traía suas palavras. Mas aquilo pouco importava. Queria apenas a cabeça de Atena como troféu, não importando os meios para consegui-la.

— Infelizmente terei que declinar de sua generosa oferta, meu senhor — soou prática, a voz limpa e elevada demonstrando nada além de confiança. Aquela postura irritou Zeus ainda mais, como a própria Atena imaginou, pois ele apenas sabia lidar com as respostas aversivas que causava — Até mesmo porque misericórdia nunca fez parte do seu feitio.

— Vai desejar arduamente não ter me desafiado, criatura pérfida! — bradou no início do próprio descontrole, já com um de seus raios em mãos, pronto para lançá-lo em ataque certeiro. Vendo-a portar um semblante ainda sereno, o deus infligiu mais força e irritação à sua fala — Chegou mesmo a pensar que Ares fosse motivo suficiente para me impedir de um revide? De fato crê que eu, no pior dos cenários, ao menos atenuaria meu poderio a fim de poupá-lo? Se ao menos tivesse demonstrado mais cautela e providenciado um exército ao decidir me enfrentar, talvez este impropério sucessivo de tantos descuidos tivesse durado pouco mais do que este inútil diálogo... — conjecturou, pronto para lançar sua arma faiscante e mortal sobre a deusa.

No último segundo, porém, o timbre sereno de Atena novamente o desconcertou.

— Descuido foi subestimar-me ao ponto de assumir que minha real investida se deu sobre Ares. Descuido, meu senhor, foi confiar Hera aos cuidados de Hermes e deixá-la na presença de Afrodite — seu sorriso foi pacífico, uma perfeita antítese da nova expressão turbulenta de Zeus.

— O que está insinuando? — Apesar da ira injetada em seus olhos, a voz do soberano despontou mais opaca do que nunca, quase sem força, e a percepção daquele breve sinal de fraqueza serviu como um novo propulsor para alimentar sua fúria. Mataria Atena. Aos poucos e por último, para que ela pudesse testemunhar com os próprios olhos a ruína dolorosa de seus cúmplices, e a cada padecimento, alimentar a certeza de que seu tratamento seria ainda pior.

Zeus apertou o raio com mais força entre os dedos, e precisou de cada fiapo de seu autocontrole para não lançá-lo sobre a deusa imediatamente, antes que obtivesse maiores respostas.

— Pensei ter me feito entender. Hera está conosco, a captura de Ares não passou de uma distração. Estratégia, no fim das contas, é realmente tão ou mais importante do que a batalha em si... — troçou, satisfeita com a irritação e instabilidade que apenas cresciam no semblante do tirano. Seus arroubos explosivos e impensados eram sempre uma vantagem a quem soubesse explorar tamanha volubilidade.

Acima do que todos acreditavam, Atena sempre enxergou que a mente fraca de Zeus era o caminho mais eficaz para conseguir contrapor o poder de sua força física. No todo, não passava de um alvo quebradiço, de intuitos tão corrompidos quanto sua alma.

Afinal, nenhum corpo é robusto o suficiente quando a mente é limitada.

— Vai se arrepender, deusa. — grunhiu com extremo desprezo, percebendo alguns músculos tremerem pelo descontrole de seu emocional — E se algo acontecer à Hera, dedicarei minha imortalidade a tornar a sua ainda mais miserável.

— O nome é Atena! Deusa da sabedoria e das batalhas que merecem ser travadas — elevou-se em posição ainda mais ereta, desafiando-o com a lança que era uma de suas companheiras em embates. Nesse instante, novos rostos se revelaram, aproximando-se de sua líder e também determinando seus nomes com propriedade, já fartas pela forma inferior e sexualizada com que Zeus sempre as tratara.

Como se todas não passassem de meras deusas inominadas, cuja existência tinha por desígnio agradá-lo.

Éris! Deusa da discórdia! — seu sorriso bem aberto demonstrou a amplitude de sua satisfação quando se colocou ao lado de Atena, sendo seguida pelas demais companheiras.

Deméter! Deusa da agricultura!

— Eos! Deusa da aurora!

— Héstia! Deusa do fogo!

— Gaia! Deusa da Terra!

— Métis! Deusa da prudência!

— Artemis! — anunciou à medida que fechava o ciclo, inserindo uma flecha no arco e de pronto ajustando Zeus à mira perfeita de seus orbes focados — Deusa da caça!**

— Hera — a voz inesperada veio detrás do deus do Olimpo, firme como há muito tempo não soava. Manteve-a constante mesmo quando Zeus virou em sua direção, fitando-a com irritação descrente. Ao lado da esposa prostrava-se Afrodite, amparando entre os dedos a forma de um coração dourado e luminoso que ele de imediato identificou — Deusa do casamento, da vida e da mulher. Dons que, ao seu lado, tornaram-se maldições.

Ele desviou o olhar da esposa, dedicando sua total atenção ao conteúdo na mão esquerda de Afrodite.

— Ninguém poderia pegá-lo contra a sua vontade... — constatou num estado quase meditativo, recordando-se do momento em que tentara tirar à força o coração de Hera e foi impelido por magia protetora. — Consentiu a ela o controle de si mesma para ajudar a me destruir?

— Não se faça de ofendido, Zeus. Minha lealdade nunca foi sua para que a questione agora.

— Sabe quem pagará por isso, não sabe? — alterou o tom para a instabilidade habitual, apelando para a ameaça que mais assustava a deusa — Acabarei de vez com esta subversão, e Hércules será o primeiro a sofrer as consequências de seu desrespeito.

Hera, pela primeira vez, não esboçou qualquer reação emocional à menção do filho. Seus sentimentos estavam nas mãos de Afrodite, bem longe de suas manifestações físicas.

— Hércules já sofre as consequências. Desde o dia em que nos tomou por pais.

— Insolentes! — lançou o raio com força na nuvem que os amparava, o estrondo familiar chegando a lhe proporcionar alguma espécie de conforto. Num movimento rápido, tirou o coração de Cronos da aljava em que conservava os raios, a voz potente chamando o nome do pai com propriedade. Sua melhor cartada em meio ao cenário desfavorável — Cronos! Bana imediatamente estas deusas atrevidas para longe do Olimpo! Agora! — ordenou, e mesmo o deus do tempo não estando fisicamente presente no local, no mesmo instante um vórtice púrpura materializou-se no centro da confusão.

A força de seu magnetismo desestabilizou o equilíbrio de algumas, que por pouco não foram sugadas pelo portal.

— Segurem-se! — Atena bramiu com urgência, alcançando o pulso de Gaia antes que a deusa acabasse perigosamente próxima à abertura — Artemis, agora!

Antes mesmo que o comando fosse finalizado, a deusa da caça soltou a flecha como haviam planejado assim que Zeus recorresse ao pai, a ponteira da arma atravessando o exato centro do coração de Cronos, cessando seu avançar a míseros centímetros do peito de Zeus.

No segundo seguinte, o coração divino se desfez em partículas mínimas, sucumbindo como um punhado de areia exposta ao vento, e quase tão imediatamente quanto, o portal desapareceu como se jamais houvesse se formado ali.

Estático, Zeus ainda encarava boquiaberto o local em que a passagem sumira, apenas retornando ao presente quando a ponta da lança de Atena comprimiu seu pescoço. A voz da deusa, de tão exultada, de tão liberta, exprimiu e representou o sentimento de vitória de todas.

— Pronto para ouvir como as coisas serão daqui por diante?

Notas finais
*Morfeu é o deus dos sonhos e da sonolência, então já dá pra imaginar como ele lidou com a situação, né? hehehehe **Gente, duas cositas pra esse ‘asterístico’ xD: primeiro, citei apenas algumas deusas gregas nesse momento para não ficar uma lista interminável e maçante, mas ainda ter seu significado para a cena. SEGUNDO E MAIS IMPORTANTE: Essa fic NÃO segue as lendas da mitologia grega (devia ter feito esse comentário há muitos capítulos atrás, mas ok, hehehe). Esqueçam quem é filho(a) de quem, quem tretou com quem e essas porras todas. Lembrem que nessa categoria a história segue o universo do desenho da Disney, porém com problematizações e me livrando da versão "conto de fadas". Então pra quem gosta dos mitos verdadeiros, não me julguem pela suruba que vem acontecendo na categoria Hércules, a única coisa que ela segue da mitologia propriamente dita são os deuses citados e a representação de suas divindades, só isso. E pela enésima vez, mil desculpas pela demora. Os dois últimos episódios dessa fic fizeram eu me sentir uma criatura muito perversa e precisei me afastar um pouco, sem contar o bloqueio criativo que rolou desde que comecei a formular esse capítulo. Bom, eu sei que esse não foi um episódio que se diga "Minha nossa, mas que beleza de episódio", mas espero que tenha dado pra matar a saudade da história. ATÉ PORQUE ZEUS SE FODEU NAS MÃOS DAS MINA, MERMÃO, então acho que podemos dizer que eu ressurgi a fic esse ano com CHAVE DE OURO (aquela pessoa que tenta coloc