O Corte no Vidro
2 Segunda Noite: Atenção
Pela manhã, os raios de sol estavam ainda mais radiantes ao atravessar a cortina da janela. Abri os olhos tão preguiçosamente e aquela parecia a melhor manhã de todas após a melhor noite de todas. O quarto inteiro estava amarelo por causa da cor intensa da cortina, e eu sorri satisfeita com a beleza que contemplava. Mas não havia me esquecido dos morcegos, então após me vesti, molhar o rosto, fui para a cozinha onde minha avó já tomava café com meu tio.
— Bom dia — em coro.
Sentei, ela me deu suco, café, bolo, outro pudim, torta de maçã, frutas...! Eu estava realmente com fome, então depois de vinte minutos tive espaço na boca para falar. Mas antes que falasse, ela perguntou:
— Como foi a noite, querida?
— Terrível!
Ela pareceu surpresa e assustada.
— De madrugada apareceram uns morcegos no meu quarto, mas a janela e a porta estavam fechadas!
— Ah — meu tio falou —, não se preocupe filha. Esses morcegos são de casa já. Eles entram por brechas que tem na casa... Casa velha, sabe como é? Ainda vou arrumar.
Eu queria ter ficado aliviada com o fato de não ter nada sobrenatural, mas acho que me senti pior ao saber daquilo. Continuei comendo como uma esfomeada, e era tudo tão assustadoramente delicioso... Minha avó me disse que ficasse tranquila, que os morcegos não me fariam mal, que eram frutíferos etc. Durante o dia, acompanhei vovó em suas simples atividades do dia. Na preparação do almoço — nas tantas coisas que ela fazia para o almoço de somente três pessoas — e depois do almoço, cuidei do jardim com ela. Um lindo e enorme jardim no fundo da casa, com rosas vermelhas, brancas, amarelas... Copos de leite e até lírios, e ainda outras que eu jamais vira. As cores inundaram meus olhos e gastei toda a tarde ali.
Na tardinha, entramos na casa e eu a ajudei de novo na preparação do alimento. Na minha mente repassa as cenas da tarde. Além do jardim magnífico, observei a floresta ao fundo. Era sombria, nebulosa, aterrorizante e ainda assim, encantadora, quase que chamava meu nome, pois eu sentia o desejo de explorá-la e não me sentiria mal se me perdesse naquela escuridão de árvores. O cheiro das folhas e madeira molhada me drogava, e o som dos animais e cantos de pássaros me fazia delirar. Sentia que estava cumprindo a minha missão de descanso que tinha ido buscar naquele lugar.
O jantar foi quase um banquete. Teve vinho até. Comi como uma condenada, como se cuidar de flores levou de mim muita força e energia, e eu precisava recuperar. A sobremesa foi sorvete de tantos sabores. Provei um pouco de cada, tomei sorvete como não fiz a vida inteira. Minha avó abria um sorriso enorme a cada elogio meu, pois os sorvetes era ela mesma quem fazia. Havia os preparado antes da minha chegada. Depois de completamente cheia, agradeci pelo jantar maravilhoso, ainda conversamos um pouco sobre a família. Contei que eu já não morava com os meus pais, e estava trabalhando há dois anos, tinha meu apartamento e estava pensando em encontrar alguém. Ela me disse que tivesse cuidado nessa escolha. Mas que se eu escolhesse certo, não me arrependeria pelo tempo que esperei e pelos nãos que eu teria de dar. Então me retirei para dormir. Notei que meu quarto parecia intacto, ou seja, meu tio não havia vindo para arrumar as tais brechas para que os morcegos ou coisa pior entrassem.
Antes de deitar, dei uma boa olhada no quarto. Pensando nos morcegos, imaginei o que poderia ter lá. Vi o quadro da moça triste, que parecia mais triste do que eu me lembrava. Aproximei-me da janela, para espiar a noite, mas ao ver como as folhas das árvores balançavam, imaginei o vento frio que bradava lá fora. Contentei-me apenas em observar a rachadura no vidro, que estava me incomodando por parecer ter aumentado desde a última vez que vi. O sujo preto estava fincado dentro, como se fosse a tinta do contorno de um desenho. Passei as cortinas vermelhas como sangue, para não ver a noite sombria; apaguei a luz e me deitei, pensando nas flores lindas e relembrando o cheiro de madeira que vinha da floresta, quase podia senti-lo dentro do meu quarto.
Sonhei. Estava em um milharal, um campo enorme, sem limites. Era tudo amarelo-queimado e alto, eu mal podia ver o céu, apenas pequenas partes azul vez em quando. Andei desesperadamente, procurando uma saída, pois eu mal conseguia respirar. Nesse trajeto, bati numa coisa e quando percebi o que era, gritei, mas depois me acalmei. Era um espantalho. Era simplesmente o mais assombroso espantalho que eu já havia visto. Vestia trapos sujos e escuros, os olhos eram buracos negros e tinha um sorriso horrendo costurado; tinha feno como cabelo e por cima um chapeuzinho de palha surrado. Mas o pior era o corvo pousado acima de sua cabeça, de olhos vermelhos grudados em mim. Estremeci, mas ele permaneceu imóvel. Comecei a me afastar e ele me acompanhou com a cabeça. Antes que eu me virasse para correr, o pássaro negro voou na minha direção e beliscou meu braço, provocando um corte horrível, que começou a sangrar sem parar. Sangraram também minhas forças. No meu sonho, morri.
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