O Corte no Vidro

3 Terceira Noite: Perigo


Acordei desesperada, atônita, com medo. Respirei fundo ao perceber que tudo no quarto estava normal e já era manhã. O sol brilhava intenso como sempre, os raios iluminavam completamente cada canto do quarto, sem nem uma parte sequer escura. Consegui me acalmar. Sentei na cama ainda, e olhei para o quadro da moça triste que pendia sobre a cabeceira. Ela já não parecia tão triste. Eu não tinha certeza, mas parecia séria, quase como se fosse culpada de um crime oculto. Neguei a afirmação para mim mesma e fiquei tentando criar coragem para levantar da cama tão confortável... Nem precisei esperar tanto, pois dei um pulo ao ver sangue nos lençóis. Corri para o banheiro, estranhando o período do mês. Estava tudo limpo, o sangue não vinha de menstruação. Molhei meu rosto então, e ao me ver no espelho, o terror me paralisou. O corte estava ali no meu braço, fino, comprido, uma lembrança ruim de um pesadelo. Próximo ao meu ombro esquerdo, como no meu sonho, estava o corte provocado pelo corvo. Eu mal conseguia respirar tentando entender o que estava acontecendo.

Desci para o majestoso café, mas estava com medo. Não sabia se contava para minha avó, pois estava começando a ficar com medo de tudo. Da floresta, da casa, do meu quarto, das borboletas, dos morcegos, do corvo, do corte no vidro que crescia e se definia, do corte misterioso no meu braço, do meu tio, da minha avó e de tudo! Eu não sabia no que podia confiar ou em quem. Fiz como fazia os dias anteriores, dei bom dia e me sentei à mesa, para desfrutar os infinitos sabores que suntuosamente havia ali.

— Como foi a noite, querida? — minha avó perguntou, entre um pedaço de pudim e outro.

Pensei por segundos.

— Foi tranquila. Descansei bastante.

— O que houve com seu braço? — meu tio perguntou.

Olhei e vi o sangue transpassando a blusa. Eu havia me certificado de que não estava mais sangrando. O corte devia ter acontecido, de algum modo, durante a madrugada. Horas haviam se passado, pela manhã já estava seco e se fechando. Mas, de alguma maldita e inexplicável maneira, tinha voltado a sangrar.

— Na verdade... — hesitei — Eu não sei dizer o que aconteceu. Eu acordei e encontrei sangue na cama e depois vi o corte no braço. O que você acha que pode ter acontecido, vó?

Ela pensou por instantes.

— Acho que você teve a infelicidade de encontrar uma agulha minha. Eu dei alguns ajustes nos lençóis, antes de você vir. Acho que esqueci alguma agulha e nem percebi. Desculpe querida. Vou trocar seus lençóis.

— Não, vó, pode deixar que eu mesma faço isso...

— Eu insisto — ela sorriu docemente.

— Tudo bem.

Continuei comendo, pois estava com uma fome descomunal, que só percebi no final da conversa. Depois de satisfeita, minha avó me deu curativos. No banheiro, tirei a blusa que tinha a manga completamente ensopada de sangue. Respirei fundo ao espremer a roupa suja de sangue na pia, e fiquei perplexa com aquele corte tão fino que sangrou demasiadamente de maneira inexplicável. Limpei com água e algodão e vi a linha tênue de um lado ao outro do meu braço. Depois de minutos naquilo, finalmente parou de sangrar o suficiente para que eu colocasse o curativo e mais algodão. Vesti uma blusa limpa e fui passear pela fazenda. Não quis andar muito, estava me sentindo fraca, parecia que havia perdido muito sangue, mas não tinha certeza. Andei até o limite mais próximo da floresta negra, e parei diante dela, contemplando seu ar sombrio. Não conseguia ver nada de dentro das árvores. Estavam muito próximas às outras, apenas com trevas ao fundo. O som matinal da floresta era suave e o cheiro do orvalho era entorpecedor. Fiquei com os olhos fixos na copa das árvores, tentando ver os pássaros de quem ouvia os cantos ou qualquer outro animal que emitia um som estranho. Pareceram minutos, mas ouvi minha avó me chamar para o almoço.

Durante a tarde descansei. Senti-me sobrecarregada mentalmente. Fiquei deitada na cama, pensando no corte no meu braço. Minha avó já havia trocado os lençóis. Antes de deitar, vasculhei cada canto do quarto, mas minha atenção se deteve novamente a somente dois pontos: o corte no vidro da janela e o quadro da moça triste. O corte, cheio de algum sujo preto, de fato formava um desenho. Parecia uma árvore velha, de galhos secos, e mais sombria que a floresta inteira. Depois levei os olhos ao quadro da jovem tristonha. Eu poderia jurar que ela estava diferente. Não estava triste ou séria. E eu não conseguia dizer que expressão era aquela, só sabia que me dava medo.

Sobre o meu corte, pensei na coincidência com meu sonho. Mas lembrei de que sonhos às vezes são formas de explicar o que está acontecendo. Algo estava me ferindo na madrugada, de alguma maneira minha mente procurou uma explicação para aquilo. Eu não consigo entender a precisão que a mente faz isso, como se pudesse adivinhar o que vai acontecer e então preparar todo um contexto que vai explicar o acontecimento, como se já soubesse. Nada explicava isso, e meu medo só aumentava.

A noite caiu furtiva e novamente a minha fome monstra estava ali, gritando na minha barriga. Apressada, me direcionei a sala de jantar, onde meu tio e avó estavam tranquilos, esperando por mim. Provavelmente eu era a única que estava apreensiva com os acontecimentos inexplicáveis. Meu apetite não foi abatido então comi como fazia desde o primeiro dia. Nessa noite não conversamos muito. Eles não estavam sérios, apenas pensativos. O fato me incomodou um pouco somente. Eu estava muito concentrada na torta gelada de baunilha e chocolate que estava servida como sobremesa. Satisfiz-me, agradeci meu jantar sempre divino e me retirei. Sentei numa poltrona vermelha e macia para ler algum dos livros na estante. Peguei um dos livros e vi que era de Edgar Allan Poe. Ao ver o nome “O corvo”, perdi o fôlego por um breve momento. Mal pude respirar em seguida. Li o poema e meu coração se acelerou, minha respiração perdeu o ritmo. Fechei o livro e corri para meu quarto. Pensei que diabos estava acontecendo, por que malditas coincidências? Eu odiava coincidências.

Abri a janela e espiei o terreno, e vi como a noite estava negra, sem estrelas ou lua, tão escura quanto a cortina da janela, que dançava com a brisa fria que vinha de fora. Fechei-a, vi o corte no vidro e dei um passo para trás. Definitivamente era uma árvore, mas tinha um desenho minúsculo em um galho da árvore. E eu podia jurar que era um corvo. Passei as cortinas negras como a noite para não ver nada do cenário aterrorizante lá fora e peguei um livro de romance alegre e iluminado para ler até que o sono viesse, ou que fosse uma hora conveniente para dormir.

Um barulho muito forte me despertou. Alguma coisa havia caído, ou se chocado contra outra. Não sabia. A luz ainda estava acesa, nem havia percebido quando caía adormecida por cima do livro. Com os olhos estreitos, tentei ver algo diferente no quarto, mas nada parecia anormal. Ouvi um ruído vindo do chão, como se algo estivesse se rastejando no assoalho. Meu coração rasgou meu peito. Vagarosamente, saí de debaixo dos lençóis e me inclinei para fora da cama. Era um endiabrado de um corvo se debatendo ali dentro, perto da minha cama, no chão escuro e frio. Ele morreu assim que pus os olhos no animal. Peguei a chave do meu carro que estava no criado mudo e corri para fora do quarto. Corri para fora da casa, que não estava trancada por algum estranho motivo e entrei no meu carro, deixando todas as minhas roupas e minha mala para trás. Saí o mais depressa que pude, acelerando até o máximo que meu carro aguentava. Depois eu explicaria a minha avó os motivos de minha saída surpresa, mas eu não poderia ficar um minuto sequer a mais naquele lugar de tormenta. Enquanto chorava e dirigia na estrada para casa, um corvo ainda se chocou no para-brisa do meu carro. Perdi o controle, bati numa árvore imensa na beira da estrada. Acordei no milharal, e milhares de corvos voam por sobre mim e feriam meu corpo inteiro; cortes horríveis que sangravam initerruptamente.

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