Poucos pensamentos cruzavam a mente da Cisne Negro enquanto ela rumava para a porta que a levaria para Necrópoles, e depois disso, para casa. Ou melhor, para um lugar distante qualquer que passaria a chamar de lar. Seu corpo seguia seu instinto de desviar de portas inúteis e passarelas que conduziam a destinos que não lhe interessavam, muito menos preocupava-se com os sons sempre tão estranhos da Biblioteca de Mundos. Seu coração bombeava incrédulo, sua garganta apertava. Era aquilo a verde e incômoda esperança?

Era patético e quase doía senti-la. Ainda assim, ela não queria provar de outro sabor.

Teve que parar um momento para respirar fundo antes de abrir a porta quando a encontrou, mais uma da série de portas duplas feitas de pedra que se deparou na vida inteira. Suas inscrições eram elegantes, ainda que feitas por uma ferramenta primitiva. No entanto, ela não estava deslumbrada e também não era uma mulher incauta.

As tumbas da Necrópoles em Wakanda serviram de base para os Illuminati e depois para a Cabal. Os heróis tinham reconquistado o lugar e não seria surpresa alguma encontrar um deles ali, o que deixava sua missão mais arriscada. Ela poderia lidar facilmente com McCoy, Stark… porém T’Challa e Raio Negro seriam mais desafiadores de abater. Pensou um instante em Reed Richards. Certa vez, ele dissera que Yabbat lembrava-o um tanto de sua filha, Valéria. Além disso provocar certos questionamentos sobre como Valéria era, a Cisne também foi contaminada pela sugestão de familiaridade, de modo que agora já não ouvia a voz de seu pai quando recordava-se dele, mas sim de Reed. Aquilo deixou de ter importância no presente, afinal, em breve ela poderia ouvir seu pai de verdade, não as palavras tão cautelosas e tão ingênuas do cientista. Nem ele poderia a impedir de pegar o que era seu de direito.

Yabbat estava pronta para erguer suas barreiras psiônicas e lançar rajadas de energia pelos olhos quando fosse preciso, independente das consequências.

Destrancou a porta e adentrou, logo abafando o som das estrelas da Biblioteca ao fechá-la. Nada parecia ter mudado, inclusive havia uma camada a mais de pó sobre as estátuas de panteras e o chão das tumbas. Duvidava que os antigos wakandanos tivessem interesse em abrir o portal devido a confusão dos caminhos da Biblioteca e a promessa de horrores a quem tentava desbrava-la, portanto tal abertura para outras realidades permanecia oculta entre colunas e esculturas, um jazigo por si só.

Ela arqueou um tanto o corpo, flexionando os joelhos levemente para andar pelo local com o mínimo de som. Tomou cuidado para evitar a luminosidade de tochas, sempre cerimoniosamente acesas ali, e buscou os indícios de fios e equipamentos que mostravam a direção do antigo laboratório improvisado naquele local, um tanto próximo de onde ficava sua cela.

Ainda agachada, ela espiou adiante para identificar seu artefato antes de qualquer passo em falso. Supunha que estaria perto do restante de aparatos tecnológicos, onde ela ensinou o grupo dos Illuminati fabricar uma bomba com capacidade de reduzir planetas à pó. Viu telas, cabos, um contador da Incursão em andamento. Cinco horas e treze minutos até colisão. Havia uma mesa com mapas e hologramas com equações simulando a detonação do mundo por uma explosão e através dos efeitos de uma Incursão finalizada. Viu armas, canos de canhões. Adiante da mesa, numa pequena estante com tantas coisas desimportantes, estava seu dispositivo verde. Sua esperança.

A Cisne avançou.

Naquele cômodo, podia imaginar as horas que aqueles homems gastaram ao debater os impactos de destruir um planeta inteiro, dizimando vidas e a história de um povo igual a si mesmos. Qual era decisão mais ética a se tomar numa situação em que tal conceito sequer existia?

A conclusão não era fácil ou tampouco agradável, mas era inevitável e estava refletida acima da mesa, num segundo marcador vermelho em contagem regressiva, faltando vinte minutos para seu término. O objeto era pouco pesado, poderia ser carregado por qualquer pessoa. Seu maior peso residia em seu significado, sua dor.

Era uma bomba. Uma devoradora de mundos.

E iria engolir o planeta de Doom de uma só vez.

Antes que Yabbat pudesse pegar seu dispositivo e afinal sair, ela ouviu vozes e sentiu pensamentos exaltados aproximando-se. Estava tão absorta em ver a bomba e calcular seus impactos que não houve tempo para simplesmente fugir e, mesmo que tivesse corrido, teria sido vista. Ela apenas foi capaz de esgueirar-se até uma das colunas de sustentação das tumbas, ocultando-se atrás dela.

Ouviu Reed, T'Challa e mais uma voz que não reconheceu. Havia mais passos, porém, o que a fez concluir que existia uma quarta pessoa em silêncio. Talvez Raio Negro.

— Eu não vou fazer isso!

O desconhecido disse mais uma vez, sua voz enfim perto. Yabbat não acompanhava a violência e a rapidez dos pensamentos do grupo, mas notou que estavam todos no mesmo ambiente. Provavelmente encaravam o mesmo objeto.

— Você tem que fazer. Só precisa teletransportar isso até lá e voltar. Não estamos pedindo que acione a bomba, Kurt. Sabemos que é difícil.

Reed e seu tom manso, persuasivo. Mal parecia que estava ordenando um homem aniquilar outro planeta.

— Eu não posso, eu…

— O outro planeta pode parecer com o nosso, mas não é. — T’Challa e sua decisão de rei. Havia sido afiado pelas rodadas das Incursões e já não se permitia temer pelos rasgos em sua dignidade. — Há menos pessoas lá, pelo menos metade do que o nosso mundo. A conta é simples. Ou somos nós… Ou são eles.

Houve mais um grunhido, uma reclamação indistinta. O tal Kurt, pelo visto, poderia se teletransportar e largar a bomba. Conveniente e ágil, se não fosse a dificuldade em convencê-lo.

— E não é uma opção definitiva. — Reed voltou a argumentar. — Estamos trabalhando em uma arca para tirarmos as pessoas da Terra quando outra Incursão acontecer, rapaz. Não terá que fazer isso de novo.

Kurt riu sem humor, apenas acidez.

— Vai ser bem definitivo para o outro planeta. — Uma pausa. — Se eu me recusar… O que farão comigo? Vou desaparecer sem nenhuma resposta, assim como Namor?

Oh. Uma pessoa que sabia sobre o suposto desaparecimento do atlante, que naquele exato momento conduzia seu povo de um planeta para outro.

— Namor estava com a Cabal, um grupo que todos sabem bem que tinha prazer em fazer justamente isso que você hesita: destruir mundos. E se você não teletransportar essa bomba nos próximos minutos, nosso planeta explode antes da Incursão terminar. A bomba não foi feita para ser desarmada.

A constatação do rei de Wakanda foi uma sentença. Era matar ou morrer. Yabbat conhecia aquela questão e também era familiar com a escolha que a maioria dos seres tomava frente a tal pergunta. Podia sentir as dúvidas correndo pelos pensamentos do desconhecido, dúvidas que transbordavam e simultaneamente deixavam tudo mais claro. Ela sabia o que o estranho Kurt iria optar e não havia nenhuma novidade em sua decisão.

A Cisne Negro também tinha uma escolha a ser feita. Poderia pegar apenas um objeto daquela tumba antes de correr para a porta e desaparecer na Biblioteca de Mundos. Um único objeto para aproveitar sua oportunidade, seu elemento surpresa. Ela espiou brevemente seu utensílio verde por detrás da coluna, repousando na estante. Quis chorar, gritar. Odiava-se pela decisão que havia tomado, ciente que a dor, mais do que nunca, a acompanharia até no fim de sua existência.

Memorizou bem o caminho que fizera da porta até ali e deixou seu esconderijo. Os quatro homens não tiveram tempo de reagir, pois num átimo de segundo a Cisne Negro projetou um campo psiônico esférico entorno da bomba, para em seguida expandi-lo com velocidade e violência suficientes para arremessar cada um deles contra as paredes e móveis daquele laboratório. Ouviu bramidos e vidro estilhaçado, o som dos eletrônicos entrando em curto. A parede psiônica havia quase os esmagado. Yabbat somente correu até a bomba e a rapinou da mesa, escapando por pouco entre gritos e xingamentos.

Se Reed se esticasse com sua curiosa habilidade elástica, ela seria presa novamente. Se Raio Negro sussurrasse em protesto, metade de Necrópoles deixaria de existir — e Yabbat junto. Se o infeliz Kurt a alcançasse, poderia ser teletransportada para outro lado daquele planeta ou até mesmo para o outro; e se T’Challa viesse ao seu encontro, ele daria o seu máximo para atravessar suas garras de vibranium no pescoço dela. Para evitar tais destinos, a Cisne girou seu torso enquanto corria e lançou uma longa rajada de energia, esperando que o calor de seus olhos secasse as lágrimas que haviam escapado de seus cílios.

Mais gritos, o barulho mastigado de eletrônicos estilhaçando-se e estalos de faíscas. Mesmo momentaneamente cega, não era difícil encontrar o caminho de volta, pois além de não ser um trajeto longo, tinha o memorizado. O ruim era manter o equilíbrio enquanto corria com a bomba nos braços, com a certeza de escutar xingamentos ao fundo e alguém a alcançando. Ela sabia que agora estava perto da porta, mas quem a perseguia também aproximava-se num ritmo dolorosamente ligeiro. Decidiu jogar-sem contra a superfície dura do portal, chocando seu ombro contra os entalhes na pedra para abri-la rápido. Sem passar sequer um segundo após ter caído no chão da Biblioteca de Mundos, Yabbat ergueu as mãos e sustentou uma barreira de energia psiônica na abertura da porta.

Logo veio o som do impacto de um corpo contra o escudo. Depois arranhões. Ela gastou um tempo para recuperar o fôlego, depois a visão. Através da transparência da barreira, pode enxergar o rei de Wakanda esmurrando e esbravejando com a mais pura ira. Em outros tempos, ela poderia até sorrir por mero escárnio, mas nesse instante Yabbat somente o encarou, sua face desprovida de emoções. T’Challa foi o primeiro com quem ela teve contato ao chegar naquela Terra e agora era o último. A Cisne levantou-se com calma, aproximou-se da barreira e proferiu:

— Ana sintum alaku.

E então selou a porta, trancando-a.

*

O tempo não estava ao favor de Yabbat, mas ela não evitou gastá-lo enquanto encarava a bomba em sua mão, observando a contagem regressiva se contrair mais e mais. O objeto pesava seus braços e ela derrubava lágrimas sem soluçar, num choro quase inexpressivo, inteiro silencioso.

A Incursão não havia parado. A roda continuava a girar, a fome de Rabum Alal

insaciável. Ela sentia isso, apenas sabia. E isso também significava que, o que quer que Victor Von Doom tivesse planejado, não tinha dado certo ainda.

E Namor? Foi capaz tirar seu povo de lá, seguindo a lã vermelha?

Engoliu seco. Aquelas questões flutuavam em sua cabeça, misturadas a dor e ao remorso. Poderia ter sido egoísta, pois teria o mesmo trabalho ao pegar seu dispositivo verde. Depois disso, desapareceria em uma dessas portas sem olhar para trás, para sempre. Ou até a morte finalmente alcançá-la num novo turno dessa roda implacável.

Mas… Não conseguiu, simplesmente. Por que não? Ela já havia dado às costas para pessoas e mundos antes. Era imoral assim como tantos disseram, vil. Assim como tanto precisou ser no passado. Então por quê? Seus dentes rangiam, os dedos tremiam.

Não importava mais e nada mudaria sua decisão. O resultado era aquele, a Cisne Negro parada e derrubando lágrimas na Biblioteca de Mundos.

Todo o verde da esperança veio e se esvaiu de suas mãos, líquido e venenoso.

Então ela soube. Ou talvez sempre soubesse de fato e por isso escolheu o que escolheu. Não iria viver como Doom lhe recomendou antes de adentrar no lar dos Sinnu Sarrum, é claro que não. Muito pelo contrário, iria atrás de seu fim. Narrara seu próprio destino inúmeras vezes e era tolice acreditar em outra coisa. O fim era tudo o que havia vivido e era tudo o que desejava ver quando o multiverso se reduzisse a nada. Não esperaria por ele, como tanto já havia feito.

O tempo era pouco e escorria, o que a motivou a correr. Atravessou atalhos pelos corredores, aproveitou da gravidade tão estranha da Biblioteca. Antes de retornar ao portal dos Beyonders, no entanto, ela desejava fazer uma última parada.

E isso a levou ao portal de Atlantis.

Namor conduzia uma idosa e duas crianças pela linha vermelha, instruindo-as por gestos e em sua língua materna seguirem em frente, na mesma direção em que outros atlantes percorriam. Elas trajavam roupas leves, mas ainda pingando água salgada em suas peles azuis, e traziam consigo poucos pertences. Já havia sobrado pouco por causa da guerra com Wakanda, de modo que só itens essenciais e que pudessem ser levados em mãos serviam de bagagem. O que todos usavam sem exceção eram aparelhos em suas guelras, um respiradouro capaz de converter o oxigênio e a umidade do ambiente em água para atlantes, já que sua espécie não conseguia aguentar mais do que dez minutos na superfície.

Demorou alguns segundos para que o príncipe percebesse sua presença e quando isso ocorreu, seu rosto torceu-se em surpresa e confusão. Talvez um pouco de alívio também, embora este último sentimento não tenha durado muito.

— Cisne! O que está fazendo aqui e não com Victor? O que houve?

Ela não respondeu imediatamente, raciocinando. Então Victor realmente não tinha voltado ainda. Talvez nem estivesse mais vivo. Ela encarou mais atlantes no portal de Einalia.

— Quantos mais faltam?

— Só mais algumas famílias. Meia dúzia, no máximo.

— Você vai precisar de mais tempo, então.

Namor deu um passo adiante.

— Quer logo dizer o que houve? — Os olhos dele enfim repousaram no contador de tempo do objeto que ela trazia nas mãos. Sua conclusão foi instantânea e certeira: — E por que raios você tem uma bomba?!

— A outra Terra estava prestes a explodir seu novo lar, príncipe. — Evitou falar de seu sacrifício para impedir que tal coisa acontecesse. Não era necessário. — E eu até jogaria essa bomba na outra Terra para que eles perecessem, mas você precisa de mais tempo para seu povo atravessar. Portanto, irei até os Sinnu Sarrum.

Ele engoliu seco, irritado, de modo que a linha de sua mandíbula mexeu-se por pura tensão.

— Eu vou com você.

— Não é uma decisão inteligente. Não tenho tempo para me repetir, você sabe que eu não vou voltar! Se vier comigo, não saberá retornar para o seu povo.

O príncipe se virou, deu mais uma série de instruções para os atlantes que restavam, e rompeu o fio do novelo de lã apoiada no chão. Depois, amarrou a ponta em um entalhe do portal. Agora, além do segmento que conectava a Latvéria ao portal de Einalia, Namor poderia usar o novelo de novo para traçar um novo caminho. Poderia retornar sem a Cisne.?

— Não se ordena a um rei o que fazer.

— Que rei? Você é um príncipe.

Ele lhe ofereceu um meio sorriso, sua sobrancelha arqueada numa expressão ácida e triunfante. Yabbat se lembrava da resposta que o atlante lhe deu numa conversa semelhante anterior. Seu rei. Só pode comprimir os lábios e franzir a testa. Um tolo, era isso o que ele era.

— Nós não temos tempo para discutirmos, passarinho. Já pedi para meu povo fechar as portas quando fizerem a travessia. Agora, me guie.

Sem mais palavras, os dois passaram a correr.

O contador registrava um tempo dolorosamente curto quando enfim chegaram àquele espaço mórbido e vazio do portal que levava aos Beyonders. Apesar de fechado, jazia ainda destrancado. Namor não pareceu intimidado com a magnitude da estrutura, nem mesmo pelo marfim. Só largou o novelo de lã vermelha ao chão, um tanto incerto como proceder.

— Acredita que… Victor ainda esteja vivo?

— Impossível dizer. Apenas abrindo a porta para descobrir. Namor, — Disse ela, num atípico momento de paciência. — Você está ciente de que, ao abrirmos esse portal, nós morreremos.

— Apenas provavelmente. — Ele respondeu num tom de desafio, como quem pode anular a morte usando apenas os punhos.

Muito provavelmente. — Rebateu, num último aviso. — Tem certeza?

— Yabbat, — O príncipe soltou um suspiro. — Se eu der as costas e partir, isso não impedirá o fim de tudo. Passará um tempo, talvez pouco tempo, e meu novo lar será acometido por mais uma Incursão. Se houver uma mínima chance de evitar que isso ocorra… Então é meu dever tentar. Eu devo isso aos meus súditos.

A Cisne assentiu com cautela e abriu o portal.

*

Depois que adentraram o portal cheio de luz, Yabbat e Namor tiveram a sensação de serem sugados e depois de simplesmente despencarem no vazio absoluto. O atlante esticou os braços para segurar a Cisne junto de si, usando seu poder de vôo para desacelerar a queda súbita, e ela, por sua vez, projetou um chão de energia psiônica onde pudessem pousar com cautela, sem detonar a bomba antes de seu tempo.

Quando Yabbat ergueu o rosto para conferir o ambiente ao seu redor… Mal poderia descrever o lugar com poucas palavras. Havia o vermelho de um lado, avançando com fome e violência. O azul infectava tudo de cima para baixo, cortando o céu como um raio. Era possível enxergar mundos diferentes à distância, planetas cemitérios e outros em colisão… E então ela viu a cor verde. Uma miríade de pontos esmeraldas no horizonte, no alto e abaixo de si, todos disparando feixes de luz que zuniam feito estrelas. Seria Von Doom e todas as suas versões? Estaria ali Rabum Alal? E onde jazia o Victor que conhecera? A Cisne parecia ter entrado dentro de um caleidoscópio que girava incessantemente, abrindo cores e realidades que chocavam entre si.

— Estão atirando em um único ponto, no centro. — Namor murmurou, segurando-se firme no chão criado pela Cisne. — Mas… não vejo nada.

— Olhe de novo.

Ele franziu os cenhos, concentrando-se para enxergar o que ela via. De início, havia apenas o nada: uma grande massa escura e amorfa contrastando com toda a cor e o caos ao seu redor. As estrelas verdes — os disparos — pareciam ser absorvidos, poucos cruzavam o espaço sem luz. Nesse instante ele entendeu. Os Beyonders residiam ali, no vazio.

Antes que pudessem dizer qualquer coisa ou até mesmo pensar na melhor maneira de jogar a bomba até o meio, um dos pontos verdes no horizonte colidiu contra os dois, arremessando-os rumo ao espaço em outro senso de gravidade. Ela tentava conjurar um novo piso de energia, mas a velocidade que seus corpos adquiriram junto ao astro esmeralda era grande demais para garantir um pouso seguro. Já o atlante tinha dificuldades em controlar seu vôo com o peso da Cisne e da bomba. Grunhiu xingamentos e gritou, sem sucesso.

Yabbat esperava uma explosão, uma vez que a objeto em suas mãos estava prestes a ser detonado. Nada ocorreu, pelo contrário: subitamente seu corpo ficou leve. Flutuava. De maneira instintiva, sua mão livre encontrou a de Namor, que pegou com firmeza seu braço de volta enquanto ambos pairavam sem peso. O astro verde, um corpo luminoso, empalideceu até voltar sua forma original, com contornos e formas. Era Victor Von Doom e o Cubo Cósmico na palma de sua luva metálica.

— Vocês não deveriam estar aqui.

Ele tentou soar imponente, mas sua voz estava exausta. Parecia prestes a desfalecer. Yabbat foi rápida em conjurar um novo piso de energia e logo Doom desabou de joelhos no chão psiônico, apoiando logo o Cubo ali. Namor correu ao seu encontro e tirou máscara de seu rosto para facilitar a respiração do latveriano. Assim como na outra ocasião em que usou o artefato, a cicatriz em sua face tornava a sangrar.

— Você morrerá assim.

— Isso não importa. Cada um de nós está tentando manter a integridade da realidade. — Victor se explicou, referindo-se a si e aos inúmeros Dooms. — Cada coisa em seu universo, enquanto Rabum Alal precisa atingir o centro deles.

Yabbat crocitou:

— Mas não está adiantando. Se continuar desta forma, então todos morreremos em vão.

Era uma verdade incômoda que provocou um momento de silêncio. Yabbat encarou a bomba, o Cubo e em seguida para o espaço vazio adiante.

— Namor, leve Victor até o portal. Vou posicionar a bomba o mais próximo possível dos Beyonders.

— É insanidade.

— Sim, de fato. Victor disse que as Cisnes Negros não são afetadas pelos poderes dos Beyonders. Talvez eu seja a única que consiga chegar mais perto.

Von Doom considerou, no entanto Namor parecia deveras contrariado.

— A bomba em si não passará de um arranhão… — O latveriano argumentou. — Mas posso fazer um último feitiço simples. Algo que deixe tanto a bomba quanto o Cubo no ar.

Dito isso, ele gesticulou brevemente e os objetos pararam no ar, sem gravidade. Yabbat encarou-os com um pouco de desdém, observando os segundos se esvairem do temporizador da bomba. Victor estava subestimando o poder de alcance dos dois itens. Precisavam ficar mais próximos para causarem real efeito nos alvos. Eram ferramentas rudimentares demais para se enfrentar deuses, mas… O próprio Destino disse que o Cubo era um fragmento do poder dos Beyonders. Aquilo era, então, esperança, a melhor que tinham no momento.

E só havia uma pessoa para colocá-la no lugar.

O príncipe atlante não estava convencido e Yabbat foi forçada a concordar que ele tinha um ponto:

— Nós não sairemos daqui se não nos ajudar com as plataformas de energia psiônica. Victor está fraco para conjurar magia. Você terá que voltar conosco.

Mesmo que houvesse lógica no argumento, Yabbat lia detalhes a mais nas entrelinhas. Nem ele, nem Victor queriam deixá-la morrer, embora não admitissem agora com todas as palavras. Foram acometidos por aquele sentimento estranho e irracional que também lhe acometera quando foi forçada a escolher entre seus familiares e o destino de um mundo; seu dispositivo verde ou a bomba.

Era o ímpeto de querer fazer o certo? Não soube dizer.

Só não quis mais discutir.

— Só vamos logo.

Ela podia ouvir as realidades entrando em colapso atrás de si, um som fragmentado e desconexo. Fazia esforço para carregar Victor com toda aquela armadura, mesmo que Namor estivesse auxiliando a levá-lo pelo outro ombro; e seu cuidado tinha que ser redobrado, já que era ela quem forjava o chão de energia psiônica. Os segundos pareceram infinitos até chegarem ao fim daquele percurso, passando pelo portal.

Namor puxou o latveriano pelo seu manto esmeralda, pois Doom ainda tinha as pernas bambas e caiu de joelhos no piso da Biblioteca do outro lado. Ambos mal pareciam acreditar que estavam fora daquele inferno, mesmo que não soubessem se a bomba seria capaz de resolver tudo. O príncipe o ajudava, murmurou palavras amenas que Yabbat não conseguiu prestar atenção. Ela apenas queria gravar aquela última imagem em seus olhos.

Ela deu um passo para trás, para dentro do portal dos Beyonders, com as pontas dos dedos repousadas delicadamente nas bordas dos portões. Não hesitava, não era isso. Apenas aguardava o momento certo e ele enfim tinha chegado. Namor notou o movimento e virou o pescoço em sua direção, intrigado. E então arregalou os olhos, pois entendera sua intenção, e gritou seu nome, tarde demais. A Cisne fechou o portal e trancou-a com a chave pendurada em seu pescoço.

Ela demorou um tempo para tirar a chave do trinco, porém. Podia sentir o impacto de um soco que o príncipe atlante desferira na superfície da porta, ouviu-o chamando seu nome outra vez. Mas era o fim. Ela havia trancado o universo atrás de si para partir.

E então ela correu ao ponto onde havia deixado a bomba e o Cubo Cósmico, usando seus poderes para criar plataformas psiônicas para chegar até lá. Após juntar os dois objetos em mãos, alternou sua atenção para o espaço vazio dos Beyonders, um local sem luz ou forma. Raios atravessavam o horizonte junto com as rajadas de energia dos Dooms, de modo que já era possível enxergar as silhuetas daquelas criaturas longas.

O temporizador da bomba marcava três minutos. Ela voltou a correr, desviando das explosões de cores e astros que cruzavam seu caminho. Podia sentir o calor aumentando, a gravidade se torcendo. Chegou o mais próximo que podia dos Beyonders, aqueles que ela conheceu por Sinnu Sarrum, os Reis de Marfim, por muitos e muitos anos. Daquela distância, suas íris e pupilas testemunharam janelas da realidade para inúmeros planetas e passados, ruínas e nebulosas. Pôde ver a silhueta trajada em verde de Rabum Alal, a figura imensa que já tinha visto uma vez na vida, enquanto ele conjurava forças tais quais a de um deus para esmagar a onipotência de seus inimigos.

Ela projetou uma esfera psiônica para a bomba e a lançou para frente, mirando-a no centro, e usou os poderes do Cubo Cósmico para arremessá-la ainda mais rápido, ainda mais perto dos Beyonders.

Assim como Namor e Victor ao utilizarem o artefato, ela sentiu o calor incandescente emanando do Cubo e de seus lampejos de energia. Se antes tinha gritado e chorado pelos experimentos da IMA com o Cubo, agora parecia se desintegrar completamente. Apesar da dor, ela ardia mais para que o item também explodisse e junto todos que estavam dentro daquele universo. A Cisne manteve os olhos bem abertos, mesmo que estivesse perdendo os limites do corpo e da consciência.

Era o final e ela desejava assistir. Já aceitava a aniquilação e a morte, pois eram seus deuses; agora aceitava a sua própria morte e a de quem precisava, enfim, morrer.

Houve um lampejo onde os Beyonders estavam, uma oscilação nos pontos verdes — os Dooms — ao seu redor. Silêncio. A bomba tinha atingido seu alvo. O Cubo fragmentava-se em suas mãos. E em seguida um clarão irrompeu para todos os lados, um vazio branco e luminoso que varreu todo o espaço e arremessou a Cisne em direção ao nada.

Antes de fechar as pálpebras, ela pode observar as cores no céu. Azul. Vermelho. Verde. Até traços e amarelo e púrpura. Uma existência cheia de matizes e horrores para uma garota desprovida de cor. Naquele segundo, ela pôde sentir um pouco de paz.