Memento Vivere - Lembre-se de Viver
13 Olhos Vazios

A paz não durou muito para a Cisne Negro. Talvez apenas não fosse seu estado natural. Sentiu mãos puxando os ombros de seu corpo fraco, seu peso içado. Ela piscou os olhos primeiro com confusão, depois tentou focar melhor onde estava. E a resposta não foi esclarecedora o suficiente: estava sendo levada às pressas para fora do Portal dos Beyonders naquele exato segundo.
Tentou balbuciar uma pergunta, mas sua boca não foi capaz de se mover direito. Foi colocada no chão com delicadeza, ouviu o som das portas batendo, vozes discutindo brevemente e energia. Cheiro de queimado. Nesse ínterim, conseguiu erguer o tronco para tentar entender o que estava acontecendo:
Namor segurava o portal do universo dos Beyonders enquanto Victor selava os trincos estourados através de magia.
— O quê…? Como?
Victor se virou para ela, oferecendo-lhe um meio sorriso cansado e manchado por sangue.
— Uma porta não seria capaz de impedir Destino.
— Ele usou feitiçaria, Yabbat. — Namor resumiu. — E eu usei meus punhos.
— Deveriam…
— O quê? Ter de deixado lá? Sim, assim como você deveria ter saído conosco antes. O latveriano assentiu, concordando com o príncipe.
— De fato, parece que nós três somos péssimos em tomar decisões.
Namor soltou um suspiro rápido e ergueu a sobrancelha:
— Eu bem já sabia, Cisne. Nunca parece que você tem algo vil na cabeça. Até que arma um caos que nem os Beyonders poderiam prever.
— Parem de discurso! — Yabbat não teve tempo nem paciência para achar a conversa adorável. Estava mais preocupada com as rachaduras na superfície de marfim das portas e a sensação iminente de destruição. Levantou-se rápido, ainda que um tanto trôpega, e alcançou a mão de Namor com seu braço esquerdo. Com o direito, pegou a mão de Victor e começou a correr num ritmo incerto. — Seus tolos, deveriam ter deixado a porta trancada!
As portas de marfim vieram abaixo. A Biblioteca de Mundos havia entrado em colapso. O chão tremia, se despedaçava e rugia. Ao tirar a Cisne da rota da morte, Namor e Victor mal tinham ideia de que condenavam o restante. Corredores torciam-se, degraus de escadarias simplesmente viravam pó. Yabbat olhou para trás por cima do ombro enquanto corria, vendo o rastro de destruição que se alastrava mais rápido que eles conseguiam fugir.
Pararam de súbito quando uma rachadura atravessou o caminho e abriu uma profunda fenda no chão. O fio vermelho da lã, aquele que Namor traçara para achar o retorno para a Latvéria, pendurou-se em direção ao abismo. A Cisne rangeu os dentes, apertou mais as mãos de Namor e de Victor ao seu lado. Em seguida, conduziu-os para outra direção.
Os pensamentos do atlante estavam tão acelerados quanto seu coração, mas ele não ousou questionar o caminho que percorriam agora. Se não voltariam para o corredor do palácio de Doom, para onde iam? Ele apenas pressionou um pouco mais seus dedos de modo que seus olhares se cruzaram por um segundo. Namor não disse nada, nem um único protesto, depositando portanto sua confiança integralmente em suas mãos. A Cisne sabia o quanto tal confiança custava, como era cara e rara.
Viraram a primeira a esquerda e depois a segunda à direita. Após um corredor e escadas abaixo, depararam-se com um portal conhecido, redondo e de pedra escura com borda de abalone. Os três soltaram as mãos ao encarar a superfície esculpida, de costas para o caos que se seguia na Biblioteca.
O príncipe engoliu seco.
— Outro Portal de Einalia.
— Sim. Dá para a sua Terra. Sua nova Terra, digo.
Namor encarou Victor, que se apoiava para recuperar um pouco de fôlego. Com uma breve troca de olhar foi capaz de entender o que o príncipe atlante queria dizer e logo se adiantou em responder:
— É magia antiga, sabe disso. Eu precisaria do poder do Cubo para abrir essa porta, ainda mais agora que estou sem energia.
— Yabbat, eu… — Ele aproximou-se do portal, tocando os detalhes com as pontas dos dedos. Abaixou a cabeça e fechou as pálpebras, seu rosto torcido, pesaroso. Pensava em como era um rei incapaz, vergonhoso. De novo, ele se recordava das palavras dela: O que é uma chave para quem está de frente com uma porta fechada? — Como vamos abrir isso? Não temos uma chave. Nem o Cubo.
— Bom, príncipe… Você parece ser o suficiente.
Ele ergueu o queixo a tempo de ver luzes azuis preenchendo os entalhes e símbolos atlantes. Tirou sua mão da pedra, aguardou o portal se abrir com um rangido úmido. Há muito tempo tal portal não era aberto, talvez centenas de anos. A expressão do príncipe era de choque, enquanto Yabbat não pôde deixar de sorrir de lado. Ambos lembravam-se como era estar do outro lado da estrutura de pedra, respingando sofrimento, dúvidas e memórias amargas para uma porta que não de abria. Agora, podiam enxergar o lado oposto do templo, o espelho de obsidiana e as ânforas.
Estalos próximos quebraram o momento de encanto. Não muito distante, o chão estilhaçava-se em lascas e a aniquilação avançava num ritmo faminto, já quase aos pés dos três. Namor puxou Yabbat e Victor para dentro do templo num movimento único, desesperado, de modo que desequilibraram-se, caindo sentados. O portal fechou-se logo a tempo de escaparem da morte instantânea. Para o temor deles, a pedra rachou e soltou um som arranhado, craquelado, mas não muito mais do que isso.
Minutos inteiros escorreram junto com uma goteira próxima até que percebessem que não corriam mais perigo. Estavam vivos. E tinham impedido a destruição do multiverso.
A respiração presa de Yabbat escapou de sua garganta, já Namor soltou uma gargalhada nervosa, genuína e selvagem. Victor somente deitou-se no piso frio, dizendo palavras vagas sobre cansaço e dor. Fechou os olhos e simplesmente apagou, exausto.
Yabbat não lembrava-se da última vez que simplesmente não sabia o que pensar ou nem mesmo compreender o que estava sentindo. Era óbvio que seu corpo estava anestesiado de tanta tensão, os joelhos ainda tremiam enquanto encarava o portal fechado, as luzes de seu mecanismo enfim apagando-se. Então era isso, tão excruciante e tão súbito? Incursões haviam se encerrado, o azul doente e o vermelho sangue não tingiriam o céu de novo? Rabum Alal não engoliria tudo, nem os Sinnu Sarrum?
Não havia resposta. Ela não abriria o portal de novo para espiar a destruição e nada parecido já havia acontecido antes, em lugar algum.
Um dia, o universo encontraria seu fim, talvez pelo curso natural de eventos ou uma catástrofe artificial. Tudo morre. E ela, que esperava também encontrar seu epílogo naquele momento, não processava que seu coração ainda batia vivo dentro do tórax. O que era ela agora que tudo o que a construiu se fora?
Uma mulher que fugiu de todas as probabilidades de morte, dissera Victor ao explicar o que eram Cisnes Negros. Sem destino.
O começo de um pensamento, de uma sensação, a inundou. Era algo familiar e a sufocava, quase espremendo lágrimas dela. Yabbat recordou-se do dia em que fugira para a Biblioteca de Mundos, o dia em que a sombra de Rabum Alal passou pelo seu mundo e Sacerdotes Sombrios tomaram a vida de todos.
Só havia seguido seu instinto ao escapar e não fazia ideia do que fazer. Viver era incerto. E ela… Era só uma menina com uma chave no pescoço.
Antes que o ambiente ficasse completamente escuro, Namor se levantou e acionou o mecanismo de luz do templo, o fogo lunar. Após um leve tranco, duas das esculturas de serpentes acenderam-se, pois a terceira tinha despedaçado depois da última visita do príncipe e da Cisne. Ele não disse nada por um tempo, só encarou o latveriano desmaiado e sentou-se ao lado de Yabbat, seu ombro encostado com o dela.
Os dois teriam que esperar Victor despertar para voltar para a Latvéria, quem sabe num portal mágico que servisse de transporte para os atlantes também. Pela exaustão dele, isso talvez levasse um tempo.
— Queria poder esfregar isso na cara de Reed. — Namor disse, sua voz áspera e vitoriosa. Parecia descrente com o desfecho daquela jornada, mas cogitava celebrar com seu povo e imaginava cenários onde se exibia para todos os seus desafetos, em especial o cientista Richards. — Toda aquela desgraça de ética fajuta, falso moralismo. E fomos nós que impedimos o fim precoce de tudo.
A Cisne assentiu, concluindo:
— Os piores.
— Os piores.
A expressão dela afinal desanuviou-se de tão absurda que eram as reações e pensamentos de Namor. Ele, quem sabe para poupar um pouco da sanidade de sua psique, tratava a situação como uma vitória de uma competição. De repente, ele era uma figura mitológica, um herói como Odisseu. Ao menos não tinha demorado mais de vinte anos para encontrar seu lar, tal qual o personagem grego.
De qualquer modo, ela não podia tirar o mérito do atlante:
— Afinal seu plano deu certo. — Ela murmurou e ele então focou-se apenas na voz dela. — Encontramos Victor. Uma chave. E seu povo está num lugar seguro.
— Sim, sereia de plumas. Foi simples, um plano perfeito. — Brincou, seu tom leve. Não poderia ter sido mais desastroso, apesar do final. — E você não virou espuma do mar.
— Isso nem deveria ser uma preocupação sua.
Namor até então mostrava um sorriso ladino, mas a expressão de seu rosto adquiriu uma tonalidade profunda, quase serena, ao encarar diretamente Yabbat. Ela conhecia aquela maré de devaneios doces e salgados, coisas mergulhadas em zonas abissais que queriam emergir na superfície. Ele inclinou seu torso em sua direção, tocou a lateral de sua face.
Para sua própria surpresa, Yabbat não recuou.
— Seus olhos, Cisne. Estão vazios.
— Pensei que comentaria mais do que minha apatia depois de nossa jornada, príncipe.
— Não, Yabbat. — Ele riu fraco. Não tirou a mão morna de sua pele, só deslizou seus dedos até segurar seu queixo com delicadeza. — Estão vazios mesmo, sem íris ou pupilas. Como pérolas.
Silêncio. A Cisne engoliu seco, sua boca trêmula. Não importava-se com a constatação sobre seus olhos, pois perder a cor deles era um preço barato a se pagar na decadente história que tinham atravessado. Afinal, estivera disposta a pagar com a vida. Talvez fosse o custo mencionado de usar o Cubo Cósmico... O que realmente alfinetara seu interior era o som das palavras de Namor em seus ouvidos, o toque em sua pele.
Os dois tinham retornado àquele momento na noite passada, quando ficaram lado a lado no quarto sem conseguir derramar mais palavras. De novo, sentimentos traiçoeiros e não ditos.
Yabbat compreendia-os inteiramente, apenas… Não parecia real. Seu coração martelava dentro de si, o dele também.
— Por que me salvou?
Ele estava tão perto e poderia ter dito, explicado. Talvez tornasse tudo real e palpável, de modo que Yabbat pudesse acionar a parte lógica de seu cérebro. No entanto, o atlante somente lhe deu outro meio sorriso, o que a fez lembrar que o oceano guardava para si muitos segredos e nem todos apareciam na praia. Respondeu:
— Eu não te odeio.
— Tão habilidoso com as palavras, príncipe…
Namor avançou sobre ela; primeiro lento, cauteloso, depois decidido e firme. Seus lábios encontraram-se com os dela com vigor, movimento. De repente, os marinheiros e viajantes incautos não pareciam mais tão sonsos ao se afogarem em beijos de criaturas do mar. Yabbat não protestou em deixar-se levar pelo perigo inebriante da sensação do corpo dele contra o dela e retribuiu como pôde. Isso só o fez segurá-la mais forte, como se ela pudesse — ou quisesse — se desfazer em pura água e escapar por seus dedos.
Quando enfim afastou-se dela, ainda docemente segurando sua nuca, ele lhe ofereceu mais uma de suas expressões detestáveis e debochou:
—Tola.
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