Memento Vivere - Lembre-se de Viver
10 Rabum Alal

Namor levou um tempo para entender onde estava quando despertou. Seus membros jaziam pesados, embora sentisse a textura confortável de um colchão abaixo de si e uma coberta sobre seu torso nu. Soltou um resmungo ao abrir os olhos, encarando o teto distante. O ambiente era escuro quase em sua totalidade, iluminado apenas por uma lareira e pelo luar que entrava pelos vitrais, de modo que ele só pôde enxergar os contornos dos móveis. Ouviu também um fraco tilintar metálico, um som mais próximo que o crepitar do fogo, e notou que Von Doom estava ali, ocupado com algo que Namor não entendia. Quando ele percebeu que o atlante estava acordado, aproximou-se mais da cama.
— Príncipe. — Chamou sua atenção de maneira cortês e lhe ofereceu explicações sobre sua situação atual: — Está em um dos aposentos no Castelo de Doom, na Latvéria.
— Victor. Eu já vim na sua casa antes.
Houve uma pausa. Namor não soube dizer se tal quietude foi causada pela estranheza de suas palavras, pois ele e aquele Von Doom não se conheciam de fato, ou se tratava-se de algo mais perigoso. Não foi possível tirar conclusões através da máscara de metal inexpressiva dele, fria e reta, até que ele soltou um suspiro que mais pareceu o começo de uma risada.
— Victor? Casa? — Debochou dos termos íntimos com qual havia lhe tratado, embora suas palavras não fossem ácidas. Von Doom estava entretido com a conversa, um tanto curioso. Quando Namor não achou que poderia ficar mais estranho, ele tirou a máscara de metal, revelando um rosto jovem e praticamente desprovido de cicatrizes. Havia apenas uma marca em sua pele: Uma linha queimada o lado esquerdo de sua face que atravessava da maçã do rosto, bochecha e parava próxima ao queixo. E então, um sorriso fraco enquanto segurava a máscara com as mãos. — Ele me avisou que nós dois éramos próximos, mas eu não sabia que éramos tanto. Se bem que… Sinto algo familiar em você.
Namor não conseguiu responder de imediato.
— Quem é “ele”?
— Rabum Alal.
Namor sentou-se na cama, subitamente mais energizado.
— Você conheceu o deus destruidor?
— Ah, Namor… — Sacudiu o rosto, colocando a máscara na cômoda. Foi nesse momento que o príncipe notou que, acima da superfície de madeira, repousavam ataduras, bálsamos… E que seu ombro ferido tinha um curativo. Victor tinha cuidado dele. — A verdade é pior do que isso. Prefiro contá-la uma única vez, para você e para a Cisne.
— Yabbat… Onde ela está?
— Num aposento próximo. Não queria vir até o castelo, na verdade… Mas enfim consegui convencê-la. Ela me permitiu tratar o ferimento na coxa, no entanto não me deixou examiná-la melhor e sei que existe algo mais em seu corpo do que a bala que tirei. Preciso que me ajude nisso. O que há? — Ele franziu os cenhos. — Parece um tanto… Contrariado.
— É estranho estar aqui. Eu sabia que iria me ajudar, mas… Não parece real. Você sabe quem eu sou. Falou com Rabum Alal.
E não era só isso que Namor queria dizer. Estava chocado e era difícil surpreendê-lo depois de testemunhar tantas coisas. Victor Von Doom queria ajudá-lo? Inacreditável. Não estava todo marcado, queimado e inteiramente oculto por vestes de ferro. Seria seu aliado, sem jogos, sem egos. Jamais pensou que teria tais sonhos realizados.
— Vou explicar tudo com detalhes depois, por enquanto descanse. — Ele disse brevemente, partindo em direção à porta. — Leve o tempo que precisar para se trocar. Esperarei para irmos juntos até a Cisne.
— Victor.
Ele se virou para encará-lo, seu manto verde girando junto com o corpo.
— Sim?
— É bom te ver.
Ele lhe ofereceu um meio sorriso antes de sair.
— É bom ter um amigo.
*
Namor repousou pouco. Já se sentia descansado o suficiente para logo vestir roupas novas e enfim sair de seu cômodo. Ficou grato por serem semelhantes às que o príncipe geralmente vestia na superfície, o tecido de tom de azul marinho e toque confortável. Não demorou para encontrar Victor do lado de fora e eles atravessaram um longo percurso do castelo até o quarto de sua aliada.
Durante o caminho, a atenção de Namor foi atraída por um corredor transversal, igualmente longo e com uma imensa porta dupla ao fim, de madeira escura e entalhada. Ele não entendeu as inscrições esculpidas, mas sabia dizer quando um lugar tinha sido construído para ser sagrado. O cuidado da arquitetura, do teto inteiro tracejado e ladeado por vitrais não mentiam. Inclusive, o príncipe sentiu um arrepio na espinha, uma sensação latente de que conhecia tal egrégora… E que tinha saboreado demais de seu sabor amargo no templo de Einalia.
Victor não parou de andar e Namor não soube dizer se não notou seu assombro ou se apenas ignorou-o. Continuaram até os aposentos da Cisne e, após um toque de aviso, abriram a porta.
A primeira vista, Yabbat não estava lá e tal fato provocou um descompasso no peito de Namor. Viu a cama com dossel vazia, as peças de roupas ainda dobradas acima do baú, logo aos pés da cama. Não era tão diferente de seu quarto. Nenhum som, apenas uma lareira crepitante e sombras de velas sibilando.
Ao adentrarem no recinto, porém, viram que as portas para a sacada estavam abertas e as cortinas ondulavam com o vento frio. A Cisne Negro estava lá, encarando as estrelas gélidas no céu noturno.
Ela ainda vestia praticamente as mesmas roupas que antes, embora sem o imenso casaco. Parecia ter se recusado a aceitar coisas novas de seu anfitrião. Os olhos de Namor focaram-se no ponto onde ela sofrera o ferimento na coxa, agora enfaixado e com calça cortada naquela altura da perna. Os ombros, por sua vez, jaziam desnudos, sua pele branca tal qual a nevasca que caía no horizonte. Ela se virou para os dois, seu rosto sem demonstrar sentimentos, até que seu olhar encontrou com o de Namor. E então, ela começou a andar em sua direção, um tanto trôpega.
E aquilo também provocou um descompasso no atlante.
— Príncipe, eu…
Tanto as íris quanto as escleras dela relampejaram em azul, enquanto suas pernas fraquejaram. Ela caiu de joelhos no tapete do cômodo, murmurando em sua língua materna e ganindo de dor. Era mais um daqueles espasmos que vinham acontecendo desde que a IMA havia violado seu corpo.
— Yabbat!
Durou somente alguns segundos, mas foi o suficiente para deixá-la mole, quase inconsciente. Quem a pegou primeiro, porém, foi Victor.
— Rápido, me ajude a colocá-la no divã.
Ele obedeceu. Pegou-a pelas pernas enquanto o outro sustentou a parte superior do corpo, carregando-a até o acolchoado de veludo esmeralda do divã, próximo a uma lareira. O canto era aconchegante, com atiçador de brasas no chão e uma tela de proteção de arabescos para impedir o contato direto com o fogo.
Algo dentro do tórax se revirou quando Von Doom tirou a luva da mão direita e a segurou delicadamente pelo queixo, examinando-a com calma. Seus olhos castanhos estavam iluminados pelas chamas e concentrados em diagnosticar o que havia de errado com a Cisne, numa expressão que o príncipe só pôde contemplar. Havia ainda um nó em sua garganta, algo desconfortável, e não saber se estava assim por Yabbat ou por Victor só o deixou mais incomodado ainda.
— Ah, ave rara… — O outro disse num suspiro, sua mão ainda no rosto dela. —O que fizeram com você?
— Eu não entendo. Parecia que ela estava melhorando…
— Melhorando? Impossível. Ela é forte. Finge muito bem, mas… A dor na cabeça dela deve ser insuportável.
— O que… O que fizeram com ela?— Ele tentou ignorar quando Victor passou o dorso da mão pela bochecha da Cisne. — E como você sabe disso?
— Ela está fria.
Foi o que respondeu primeiro, um tanto aéreo. Tirou o manto verde de seus ombros e o depositou sobre Yabbat, ajeitando as bordas do tecido para cobrir bem seus ombros e seu pescoço; depois sua mão continuou sobre ela, num gesto distraído. Os dois estavam agachados e próximos do divã, Victor mais perto de Yabbat, e demorou um segundo a mais para se dirigir ao atlante:
— A IMA roubou o Cubo Cósmico de mim, ou melhor, a semente que viria a se tornar o Cubo, e eu compreendi pela anomalia dos olhos da Cisne que houve. A usaram para neutralizar os efeitos da magia dele. A natureza de ambos são opostas e só posso imaginar o que ela deve estar sentindo... Será necessário mais do que tecnologia para ajudá-la, pois ela ainda sente as Sidera Maris mesmo que a IMA esteja longe do Cubo.
Namor ainda não entendia os detalhes, mas não precisava compreendê-los no momento. Só queria que Yabbat voltasse.
— Mas é possível?
— Sim, eu apenas teria que…
Ela piscou lentamente, recuperando o foco a cada vez que suas pálpebras se levantavam. Ergueu um pouco mais o queixo, franziu os cenhos e, quando enfim percebeu quem estava ao seu lado e quem tocava seu ombro, deu um pulo para trás. Tirou o tecido verde sobre si, seus movimentos ainda parvos. Parecia um animal acuado.
— Não me toque, necromante! Se afaste de mim! — Sua voz era carregada de ódio. Ela agarrou a mão de Namor de forma inconsciente, numa tentativa de se ancorar em algo, em alguém. Havia algo mais do que ódio. Ressentimento. — Não encoste, saia! Por favor…
— Ele está apenas tentando ajudar, Cisne.
Pressionou a mão dela de volta, da maneira mais reconfortante que conseguia. Ele só tinha a visto assim em raras ocasiões, todas envolvendo duros pesadelos. Estaria revivendo um? E por que, se só existia Victor ali? Ela havia dito “por favor”, uma súplica. Não era normal.
— Você não vê, Namor? Ele me trouxe para matar e assistir mundos morrerem. É ele.
Namor voltou seu rosto para o aliado, desta vez desprovido de qualquer simpatia por ele. Não era necessário compreender completamente o conteúdo do que ela disse para entender a gravidade da situação. Suas palavras saíram secas da garganta:
— Do que ela está falando, Victor?
Soltou um suspiro profundo, ainda encarando o tapete. Quando ele levantou o rosto, havia um brilho característico de labaredas em suas íris.
— Eu sou Rabum Alal, o Grande Destruidor.
Yabbat desenlaçou sua mão com a de Namor. Conseguiu girar e esticar o corpo para alcançar um atiçador de brasas com a mão, depois aplicou um golpe desajeitado no latveriano, mirando sua cabeça. Victor aparou o ataque com a braçadeira de metal, mas a força e a ira da Cisne Negro eram tamanhas que o golpe seguinte o desequilibrou. Talvez tenha sido o choque da situação, a violência repentina de Yabbat. O resultado foi Von Doom estendido no tapete, a Cisne sentada sobre si com a ponta atiçador prestes a perfurar sua traquéia.
Namor foi capaz de intervir antes que isso acontecesse. Segurou um dos punhos dela e arrancou o objeto de suas mãos. Ele se sentiu estranho ao fazer isso, ter que usar mais força para tirar a arma da Cisne enquanto a assistia grunhir e soltar lágrimas silenciosas de frustração. Segurou-a com um braço, com o outro apontou atiçador para o rosto de Victor Von Doom, ainda no chão.
— Lhe dou uma chance de se explicar antes que eu mesmo enfie isso em sua garganta.
Ele assentiu, as palmas expostas em sinal de rendição. Namor largou o atiçador de metal e ajudou-o a se levantar, enquanto segurava a mão de Yabbat com o braço livre. Por um momento, só silêncio. A Cisne estava atrás de si, tentando conter o próprio corpo trêmulo de ódio e de frio; já Victor andou um par de passos para trás, seus olhos fixos no fogo.
Quando os encarou de volta, suas mãos estavam envoltas em luz verde. Magia.
No segundo seguinte, o quarto havia caído em escuridão. Namor sentia-se imerso em trevas, pois o ambiente era mais escuro que as águas abissais. No entanto, Yabbat ainda estava lá e ele a puxou para mais perto.
— Antes, havia tudo, seguido por nada. Uma boca escancarada e faminta que engoliu sóis. E então… Nós nos encolhemos na noite. Essa foi a história que Yabbat lhe contou, Namor, pois essa foi a história contada à ela.
A escuridão depois foi salpicada por estrelas distantes, planetas. Era como flutuar no espaço, o vácuo abafando o ruído violento que nebulosas supostamente emitem. No centro, surgiu um sol… E ao seu lado, Destino.
— Vocês sabem o que é uma Incursão. Dois mundos de realidades distintas se alinham e permanecem nesse estado harmônico por pouco tempo. Se nada for feito, em oito horas os dois planetas colidem e seus respectivos universos são destruídos, contraindo mais o restante do multiverso.
Conforme ele narrava, ilusões coloriam o vácuo com representações fiéis do que acontecia na realidade. O horror do azul, a violência do vermelho. Gritos, Sacerdotes Sombrios, Cartógrafos, naves. E o verde de seu manto, que ele havia vestido de novo.
— As Incursões começaram com o nascimento de Rabum Alal, é verdade. Mas Rabum Alal só nasceu porque há um mal pior: os Sinnu Sarrum, os Reis de Marfim. Os Beyonders, Namor.
Ele engoliu seco. Sabia o que aquilo significava:
Que não havia solução.
— Pelos deuses.
— O desejo deles é a obliteração total do universo, de todos os universos… Para que moldem tudo de novo à sua maneira. Ou só satisfazer sua curiosidade mórbida. E para cumprir tais caprichos, os Reis de Marfim espalharam fragmentos dessa ogiva que desencadeia a morte de tudo. Essa bomba, essa… singularidade, está dentro de um homem em cada universo, e será detonada em breve. O Homem Molecular.
Eram nomes que Namor conhecia pouco e, no caso dos Beyonders, certamente não por experiência própria. Já havia ouvido falar dos Beyonders, talvez em conversas esparsas junto aos Illuminati, antes que eles tentassem se matar. Criaturas onipotentes, escondidas em cantos terríveis do Multiverso… E que nenhum mesmo deles, nem mesmo Raio Negro, desejava encontrar.
Então era isso. Os Beyonders haviam implantado uma bomba em Owen Reece, o Homem Molecular, e queriam ver o fim absoluto.
— E onde Rabum Alal entra nessa história? Onde você se encaixa?
— Rabum Alal é Victor Von Doom, um dos Destinos do Multiverso. Ele percebeu o que estava acontecendo e compreendeu que a maneira de restaurar a ordem do universo seria caçar cada Homem Molecular e matá-lo, pois assim a obliteração dos Beyonders não atingiria tudo. Seria…Menos destrutivo. E isso o levou às Cisnes Negros.
A maré de informações inundava a cabeça de Namor de cólera, nojo.
— Você criou uma religião.
— Cisnes Negros... — Prosseguiu com cuidado. Parecia difícil narrar o restante e talvez Von Doom estivesse tão abismado com o que outra versão dele podia fazer quanto Namor. — São mulheres que fugiram de todas as probabilidades de morte. Não tem destino. Elas estão fora das possibilidades cogitadas e seriam perfeitas para a execução dos planos de Destino, mesmo que não se compreenda a sua real natureza. Por isso que os experimentos com o Cubo Cósmico doeram tanto. O artefato é um estilhaço do poder dos Beyonders que chegou a meu planeta por mero descuido. Tem uma força oposta da sua, Yabbat. De algum modo, as Cisnes não são afetadas pelos os Reis de Marfim.
— São sobreviventes. Você as cegou e as transformou em assassinas. — Ele lembrava-se da dor de Yabbat ao narrar seus próprios horrores. — E tudo ainda continua a morrer.
— Não eu... Mas um dos eus no Multiverso. — Se justificou. — Ele, o real Rabum Alal, contou o necessário para outros Dooms que pudessem entender, aqueles que tinham meios de agir, de modo que preparassemos para qualquer eventualidade, inclusive a chance… A ínfima chance de resolver esse caos antes, dada a oportunidade. Foi dessa forma que eu soube de tudo, que eu soube de vocês.
Yabbat deu um passo à frente, sua figura branca em contraste com a escuridão do vazio. Não estava comovida com o que ele narrava. Na realidade, Namor poderia jurar que viu o brilho de uma lágrima de fúria escorrer pela sua face, rápida demais para que pudesse concluir se era verdadeira ou não.
— Eu matei esse homem em sacrifícios infinitos, mas tudo continuou a morrer. E então matei mundos, sem que nada aconteça. A destruição é real e você é só um homem! Não há escapatória. A roda é implacável, mesmo seja Rabum Alal apenas um nome.
— É necessário um deus para matar outro e foi isso que Destino se tornou.
— Você nos escravizou com mentiras! Foi capaz de pedir sangue e morte por uma chance que jamais existiu.
— Não há lugar para dignidade em nenhum de nós! Minhas mãos estão tão sujas quanto as suas. Eu não aprovo o que houve, o que…— Estalou a língua, frustrado com o fato de não existirem termos adequados para a situação, por não existirem desculpas o suficiente para tudo. Namor ouviu a palavra “dignidade” e só lembrou da rejeição da deusa Einalia. — O que eu fui capaz de fazer enquanto tantos conheciam o verdadeiro fim. Vocês mataram mundos, Rabum Alal fez pior. Eu assisti e não intervi.
— Por que não me deixou morrer? — A voz dela, antes um grito enraivecido, passou para um tom miúdo, fraco, esganiçado. — Por que me deixou ter esperanças? Tudo morre. E tudo permanecerá morto.
E então a ira e a tristeza de Yabbat de repente faziam ainda mais sentido. Era como ela mesma tinha dito: o fim era palpável, cada vez mais próximo… E por mais que Victor Von Doom fosse… Bem, fosse Doom, o que Yabbat e Namor enxergavam agora era um homem. O príncipe achava que a Cisne havia se referido à seu deus falso como um “ser de carne vestido de verde” numa metáfora com a cor da esperança, mas não podia ser mais literal.
Tudo o que ela tinha feito, o que tinha sido condicionada a fazer, parecia inútil. Como enfrentariam Beyonders?
Mas tal pergunta implícita não abalou Destino. Ele parecia tentado a consolar a segunda lágrima que escorreu dos olhos da Cisne Negro, no entanto sabia que precisava convencê-los com argumentos. Sua face era dura como se estivesse usando ainda a máscara de metal.
A ilusão do espaço e estrelas cedeu alguns graus, tornando os contornos dos móveis do quarto e o fogo da lareira nítidos de novo. A cor vermelha, porém, ainda estava acima dos três.
— Em poucas horas, uma nova janela da realidade se abrirá sobre esta Terra e o ponto de Incursão será aqui, na Latvéria. O universo com qual estaremos alinhados será o mesmo pelo qual saíram.
— Então haverá mais morte. — Namor o cortou. — Os Illuminati não vão permitir que este planeta sobreviva em vez do outro, Victor. Reed e os demais estão além do ponto de redenção, mesmo que a Cabal não esteja mais lá. Vão detonar esta Terra.
Houve uma pausa. O príncipe pensava na Atlantis que conhecia, no seu povo sem seu rei. Duvidava que conseguisse sair deste novo planeta para retornar ao seu lar, e duvidava mais ainda que os heróis daquela Terra se preocupassem com os atlantes.
Onde quer que olhasse, não encontrava saída.
Destino inspirou fundo.
— Há uma chance.
Ele fez um breve gesto no ar, energia esmeralda acompanhando seus movimentos, e parou com a mão direita segurando um longo pingente. Em sua ponta, indo e vindo feito um pêndulo, havia um chave de prata. Era fina e com um desenho simples, embora de aspecto ancestral. Foi capaz de fazer os lábios de Yabbat tremerem e imediatamente Namor entendeu: era uma chave da Biblioteca, um artefato que permitia às Cisnes acessarem praticamente todos e quaisquer mundos. Uma chave-mestra. Ela engoliu seco e deu mais um passo à frente, alternando o olhar entre Von Doom e o objeto nas mãos dele.
— Eu tenho uma chave e uma porta, mas eu nunca consegui me guiar pela Biblioteca. Sei que os Sinnu Sarrum estão confinados em sua própria linha temporal, algo fora do multiverso, e eu poderia entrar em sua dimensão para destruí-los. — Nesse momento, Victor encarava diretamente a Cisne Negro. — Tentei invocar algo que me levasse até eles e recebi o Cubo Cósmico. O Cubo, por sua vez, a trouxe até mim. Talvez seja um tanto narcisista de minha parte, embora eu também seja o Grande Destruidor em outra dimensão... O que sei é que não consigo sem você, Cisne. Eu preciso que me ajude a matar o que deve morrer.
Namor esperava que o resto de instinto de autopreservação de Yabbat a obrigasse recusar a oferta. Navegar pela Biblioteca de Mundos para trazer o povo atlante para este mundo era um plano menor e já era arriscado, mas o que Victor Von Doom sugeria era tentar matar um deus.
E provavelmente morrer no processo.
Mas ela não recuou. Estava a frente de Doom, sua falsa e simultaneamente tão real divindade.
— É o verdadeiro fim, não?
A face de Victor relaxou um pouco com a pergunta dela, seu tom gentil ao responder:
— Sim.
Ela pegou a chave.
A ilusão invocada por ele se desfez completamente, deixando os três de volta ao imenso quarto no castelo de Doom na Latvéria. As chamas da lareira continuavam a crepitar indiferentes ao que houve e ao que aconteceria no futuro, o vento ainda uivava do lado de fora. No entanto, a realidade provocava mais horror no príncipe atlante do que ele jamais admitiria.
Era o fim de todas as coisas que ele conhecia.
O fim de quem ele aprendera a amar.
*
Yabbat concordou em receber um breve tratamento de Victor Von Doom, antes que ele e Namor se retirassem de seus aposentos. Foi mais indolor que ela considerou que seria e, na verdade, a sensação fria das luvas metálicas de Destino em seu rosto passou longe de ser ruim. Ele examinou bem seus olhos, de modo que ela pôde encará-lo de volta e quase ser sugada para dentro do calor de suas íris castanhas. Não soube dizer o que ele procurava ali, logo quando a alma da Cisne ainda jazia com a cor tão preta quanto as próprias pupilas, mas Victor lhe ofereceu um sorriso discreto antes de soltar sua face. Parecia que tinha visto muitas coisas, todo o seu passado e cores que a atormentavam: vermelho, azul e verde. Depois, lhe avisou que a etapa seguinte seria incômoda e pediu sua permissão para prosseguir.
Foi mais doloroso admitir para si mesma que primeiro encarou Namor antes de consentir. Talvez tenha sido apenas um instinto tolo, uma busca por apoio. De qualquer modo, o latveriano injetou uma substância um tanto amarela, um tanto dourada em suas veias e lhe deu uma dose de algo insípido para beber numa taça de bronze.
Ela quase vomitou quando sentiu algo rastejar dentro de seu corpo, algo que parecia tentar procurar uma saída para fora de sua pele.
Um brilho azul doente escapou sob a forma das lágrimas que ela não queria chorar, mas Victor segurou seus ombros no divã e sussurrou que tudo ficaria bem. Em realidade, ela se sentia um tanto humilhada. Ali estava seu falso deus, ou melhor, uma cópia sua de outra dimensão. Deveria odiá-lo, assim como uma parte egoísta de Yabbat ainda queria odiar Namor.
Mas ela não conseguia. Não tinha mais forças para odiar nenhum deles.
Mais lágrimas azuis escorreram em sua face e evaporaram pouco depois, retornando para sua origem: O Cubo Cósmico, repousado numa mesa de centro.
Ela sentiu tanto alívio, embora muito cansaço. Sabia que o fim chegaria quando acordasse pela manhã, pois Victor lhe avisou que partiriam pela porta da Biblioteca de Mundos antes do amanhecer... Mas não estava nervosa, ao menos não naquele momento. Suas pálpebras estavam pesadas.
Não demorou muito mais para que eles partissem de seu quarto.
Mas ela não conseguiu dormir, não com o peso terrível e ao mesmo tempo insignificante da chave em seu pescoço, apoiada agora em seu torso.
A Cisne estava enrolada em pelo menos duas camadas de cobertores grossos e lareira já não passava de um amontoado de brasas pálidas quando ouviu um toque na porta. A pessoa, no entanto, não esperou sua resposta e aquilo só poderia significar uma única pessoa:
Namor. Ele adentrou o quarto e fechou a porta atrás de si, caminhando sem cerimônias para onde Yabbat estava. Sem um sorriso parvo, sem uma explicação.
— Príncipe. O que está fazendo?
Por um instante, ela acreditou que o atlante simplesmente não tinha ouvido. Depois, não soube o que pensar quando ele apenas direcionou-se até o lado vago da cama.
— O que acha que estou fazendo, sua tola?
Deitou-se ao seu lado, cruzando os braços em seguida. Passou a encarar o teto do dossel, simultaneamente entediado e entretido demais. Escorreram-se minutos em silêncio e a Cisne não estava em condições de quebrá-lo. Namor foi o primeiro a falar, seu tom de confissão dita, paradoxalmente, como quem não quer dizer nada demais. Suas palavras, no entanto, carregavam uma verdade pesada.
— Eu realmente cantei para você, aquela vez em Atlantis.
— Por que?
Girou seu corpo para vê-la melhor.
— Porque odeio ver seu rosto branco marcado de sono.
Yabbat gargalhou.
— Você não vai ter que se preocupar mais com minha insônia. —Sorriu, mas a face dele contraiu-se. Houve uma pausa e a mente dela viajou em questões que antes eram distantes, agora tão próximas. Era quase como sentir vertigem ao observar o abismo e não conseguir deixar de contemplá-lo. — Você acha que vai doer? Ou que... Que vou simplesmente deixar de existir?
Namor entendeu do que ela estava falando. Do plano. Dos Sinnu Sarrum. De sua morte inevitável. Ela suspirou e comentou em seguida:
— Assisti muitas criaturas morrerem, matei outras mais. Há quem grite e sofra, há quem só feche os olhos. Então a dor da morte ainda me parece um mistério que só entenderei quando passar por ela.
— Eu... Eu não sei, Cisne. Os atlantes veem de outra forma, mas os humanos têm uma lenda sobre sereias... Que elas se tornam espumas do mar quando morrem.
— Que bobagem. — Suspirou, entre o deboche e o anseio. — Parece tão sem sentido. E pacífico. Eu poderia morrer assim, já que aparentemente eu sou uma sereia de penas, não?
Ela esperava arrancar um sorriso tolo dele, algum pensamento estranho sobre plumas, espumas e a derradeira morte de sua tão estranha e detestável aliada. O príncipe voltou sua atenção o dossel da cama, como se fosse muito difícil encará-la.
— Não posso dizer que ficarei feliz com sua morte.
— Não vai ter tempo de sentir. Seu povo precisa de você. Agora que Doom planeja eliminar os Sinnu Sarrum, não há necessidade de obliterar a outra Terra. Você poderá só voltar para seu lar.
— Escolherei entre ruínas, pelo visto. Houve uma guerra contra Wakanda, lembra? Ainda vou trazer os atlantes para cá, onde não há perigo e onde ninguém sabe de nossa existência.
— Mesmo que abandone outras pessoas amadas? — Ela sabia que existiam entes queridos na outra Terra, mesmo que não fossem de sangue. Amigos. E Sue, por quem ele tinha tremenda devoção. — Tem a escolha só de continuar de onde parou.
— Eu parei num ponto onde fui traído e deixado para morrer. Não preciso disso. Há coisas que não podemos retomar... Precisamos apenas começar de novo. Mesmo que machuque.
Ela assentiu.
— Um brinde ao meu fim e ao seu recomeço, então.
A Cisne virou seu corpo para o móvel ao lado da cama e pegou uma taça, levantando-a para o alto. Bebeu um gole e passou para Namor, que parecia precisar de uma boa dose de álcool para acalmar os nervos. Seu rosto se torceu numa expressão enojada ao engolir.
— Isso não é vinho.
— Eu não disse que era. — Deu de ombro e pegou a taça de volta. Victor não havia lhe permitido tomar nada forte depois do procedimento para retirar os experimentos da IMA, mas lhe concedeu uma jarra de suco de uva sem açúcar da região. — E por que você não consegue dormir, príncipe?
Ele demorou mais para responder essa pergunta. Seu ombro estava colado com o dela, sua pele morna e macia. Namor fechou os olhos e seus pensamentos eram uma maré salgada e doce ao mesmo tempo. Indecifráveis. Quando abriu as pálpebras, se limitou a dizer:
— Você sabe o porquê.
Ela engoliu seco, pois entendia.
E aquilo, aquela miríade de sentimentos traiçoeiros, belos e não ditos, jamais se tornaria real.
Apoiou sua cabeça no travesseiro, próxima do ombro dele. Fechou as pálpebras, permanecendo em silêncio. Passaram-se longos minutos, talvez uma hora inteira. Namor ainda estava desperto, ela podia sentir por sua respiração e por seus devaneios agitados. No entanto, ele achava que Yabbat finalmente havia pegado do sono.
Foi quando começou a narrar coisas em sua língua nativa, palavras que se misturavam e pareciam uma canção. Não conhecer o idioma somente tornava seu som ainda mais encantador e logo sua mente foi levada para longe da cor e da dor vermelha que ela assistiria uma última vez no céu.
No que restou da madrugada, Yabbat dormiu bem.
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