Acordar lentamente e desprovida de pesadelos ainda era uma experiência incomum para Yabbat. Foi como despertar numa praia cinzenta, a espuma das ondas e sonhos tocando seus pés. Lembrava-se de seu reino natal, sua casa. Seus irmãos. Lembrava-se também do utensílio verde que captara o sangue de seus entes queridos há tantos e tantos anos, numa tentativa de trazer de volta aqueles que amava. No entanto, a Cisne Negro por muitos anos não teve acesso a uma chave para adentrar a Biblioteca de Mundos, nem tinha mais o utensílio verde — confiscado até hoje por Reed Richards em outro planeta. Agora, ela abria as pálpebras para ser recebida pela luz vermelha que adentrava as janelas. Uma última incursão, um julgamento justo de Rabum Alal.

O fim.

Restavam apenas oito horas até a colisão deste planeta com o de outra realidade.

Ela apertou a chave na ponta do pingente em seu pescoço e levantou seu torso com cuidado, sem acordar o príncipe atlante. Ambos haviam pegado no sono lado a lado na madrugada e Yabbat podia distinguir que ele ainda estava sonhando com algo salgado e profundo feito o mar. Deixou-o assim, em seu sono perfeito e provisório, e saiu da cama para se preparar para o dia. Não sabia colocar em palavras o que se passava em sua cabeça sobre a luz rubra no céu, também não queria pensar no verde da dita e famosa esperança ou no azul-esverdeado dos olhos de Namor, ocultos naquele momento pelas suas pálpebras fechadas.

Não desejava imaginar que a sensação de acordar numa praia tinha sido causada por ele, nem queria dizer o quanto era grata por isso.

Escapou da cama e vestiu roupas novas e limpas, pretas.

Em uma última olhada no imenso espelho do quarto, Yabbat encarou a cor de suas próprias íris. Em seu estado natural, sem nenhuma janela aberta para outras realidades no horizonte — fosse azul ou vermelha — ela enxergaria a escuridão de seus olhos. Imaginava que cor se tornariam quando os selasse pela derradeira vez, mas aquilo também não importava no final.

Quem sabe fosse apenas isso, o vazio.

Ela apertou mais uma vez a chave ao fim do pingente e saiu de seus aposentos.

Sua intenção não era fugir, afinal, não havia escapatória. Mas parecia cedo ainda, muito cedo. A luz da manhã era difusa, o brilho vermelho provenientes das janelas ainda era fraco. Não era uma prisioneira naquele momento, com coleiras ou correntes, muito pelo contrário: sentia-se irrevogavelmente livre. Yabbat se pôs a andar pelo castelo de Von Doom, seus passos silenciosos nos corredores longos e adornados por tapetes.

Com um pouco mais de imaginação, ela poderia sentir que adentrava a Biblioteca dos Mundos, pois o local era amplo e deveras quieto. Se parasse e tentasse prestar mais atenção, escutaria o sussurro do vento lá fora e o crepitar do fogo em um aposento próximo. O teto jazia a metros e metros acima de si, as janelas eram compridas e intrincadas por vitrais. Deparou-se com dúzias de portas de carvalho ricamente entalhadas com temas folclóricos da região, o que lhe conferia um aspecto ancestral, místico. No caminho, haviam outros objetos de madeira escura, tais como pequenas mesas e aparadores, cadeiras estofadas em esmeralda. Mas não só de pedra, vitrais e madeira era feito o castelo de Victor Von Doom: em cada esquina e em diversos corredores existiam escudos de metal na parede, além de espadas, gládios e armaduras completas.

Não demorou para notar que o castelo era uma verdadeira fortaleza, apesar de combinar o lado prático e defensivo de sua arquitetura com a robustez e elegância de um palácio. Mas é claro isso ainda era uma constatação óbvia, pois a verdadeira perspicácia era notar o que as ausências significavam. Yabbat não se deparou com um único empregado e nem mesmo máquinas, no entanto tudo estava em seu devido lugar e nem havia pó. Seria magia, então? Tal questionamento não permaneceu em sua mente por muito tempo; em vez disso, reparou que não haviam quadros que retratassem pessoas. Somente paisagens locais, passagens mitológicas e, curiosamente, ilustrações detalhadas de botânica. Nenhum ancestral, parente ou retrato do monarca da Latvéria. Nenhuma foto sequer, nem uma única passagem da infância, adolescência ou juventude no verão. Aquilo sim ficou suspenso na cabeça da Cisne Negro, pois as implicações do que isso poderia dizer a levavam para suspeitas, no mínimo, tristes e solitárias.

O que ela definitivamente não esperava encontrar em um castelo nas montanhas era um cômodo anexo feito inteiro de vidro: uma estufa lotada de plantas, fontes e, se estivesse certa do que enxergava, insetos. Mais precisamente, libélulas. Agora as suas teorias de Victor usar feitiçaria no castelo eram mais concretas, já que tais espécies pareciam impossíveis de se cuidar num frio clima montanhoso.

A Cisne Negro girou a maçaneta de bronze e entrou na estufa. A sensação de familiaridade, de semelhança com a Biblioteca de Mundos, era causada além do fato de haver inúmeras portas no castelo. Yabbat se sentia guiada por algo que ela jamais conseguiria colocar em palavras e que pesava na garganta ao andar nos caminhos labirínticos da biblioteca. Ela também não saberia dizer se estava sendo conduzida para algo bom ou para algo ruim, mas sim para algo que deveria ver, independente de seu valor. De qualquer modo, era interessante como um pouco de si ainda desejava se agarrar a algo antes do fim, mesmo que fosse apenas uma sensação. Passou as pontas dos dedos nas folhagens escuras enquanto se dirigia ao centro da estufa, nomeou as plantas que conhecia, observou o zunido das libélulas e a luz vermelha que atravessava o vidro.

Quando encarou uma libélula que encostava-se na água da fonte, seu olhar cruzou-se com o reflexo de alguém que a observava.

Doom.

A Cisne não esboçou reação. Apenas tirou a sua atenção do reflexo e encarou a figura que, na realidade, estava pouco atrás de si: a armadura de metal, o manto verde sobre os ombros... O rosto, no entanto, permanecia descoberto e exibia uma face neutra e intensos olhos castanhos fitando-a. Ela não perguntou como de súbito ele havia parado ali, pois era Yabbat a intrusa. Houve uma pausa. Doom contemplou brevemente o jardim ao seu redor e o céu pálido através do vidro da estufa, depois sua voz se fez presente, próxima.

— Há mais de uma lenda sobre as libélulas aqui na Terra. — A atenção dele foi atraída por mais um inseto, um azul e tão rápido quanto os outros. — Nenhuma delas obviamente é verdade, mas existe uma crença que ainda persiste sobre elas viverem apenas um dia.

Yabbat cruzou os braços, encarou o nada.

— As pessoas acreditam em bobagens muitas vezes.

Ele meneou a cabeça, remoendo o que a resposta dela significava, e andou mais alguns passos em sua direção.

— Cisne. Namor pensou que me acompanhava no desjejum, mas… Também não a vi mais cedo. Não sente fome?

— Não.

Uma nova pausa. Os dois sabiam que conversas não seriam fáceis entre eles. Não depois de tudo e não com o que iria acontecer. Yabbat, porém, não encontrava forças para repelir a conversa infrutífera que Victor insistia em travar naquele momento e, surpreendentemente, não por causa do cansaço ou ressentimento. Ela desejava assistir aonde Doom queria chegar.

Afinal, ele havia os salvado da IMA. Cuidou de sua coxa ferida e dos efeitos colaterais do Cubo Cósmico em seu corpo. Cuidou de Namor também. Victor tinha um plano e havia lhe dado uma chave. Isso parecia que significar algo.

Entretanto, ela já havia sido enganada antes.

— Encontrou algo interessante?

— Sempre há coisas interessantes quando não se está procurando nada.

Victor sorriu com a resposta espirituosa, debochada.

— E teria eu o privilégio de saber seus pensamentos?

— E importa? — Ela ergueu uma sobrancelha, lhe oferecendo um sorriso cáustico. — Nós vamos morrer hoje. Em breve.

— Talvez seja então ainda mais importante dizer o que pensa. Ou o que sente.

Agora ele estava parado diretamente a sua frente, de modo que ela pôde notar que, além de ser mais alto do que ela, Victor Von Doom também era mais alto alguns centímetros do que Namor. Seu olhar era fixo, embora um tanto cauteloso; mas era majoritariamente curioso pela resposta da Cisne Negro, sedento por mais uma dose de sarcasmo. Isso parecia diverti-lo, como se não estivesse há poucas horas da própria aniquilação.

Yabbat optou por saciar a sede dele por uma resposta desagradável, no entanto, não da maneira que estava esperando. Inclinou o rosto e constatou:

— Você quer saber se te odeio.

Ele fechou a expressão, impactado; Depois, um sorriso floresceu em seu rosto austero, pois estava genuinamente interessado em entender mais e mais sobre a Cisne Negro.

Curioso. Consegue captar pensamentos mesmo com minhas… Precauções.

— Sim.

Yabbat concordou com um aceno, indicando que sua conclusão estava correta. O que ela não diria é que sua capacidade de telepatia não era tão abrangente, pois costumava acompanhar os pensamentos em tempo presente que eram formulados na cabeça de suas ditas... vítimas. Além disso, havia ocasiões em que não lia uma mensagem inteira, somente fragmentos.

De qualquer forma, a mensagem em Doom era clara: Sentia culpa. Queria saber se ela continuaria a detesta-lo por tudo. Mas ela notou algo mais, algo que a distraiu por um minuto, como se… Ele soubesse um segredo. Um segredo dela. Sua conclusão foi interrompida, pois logo ele questionou:

— E então?

— Meu ódio não importa.

Foi a vez dele de lançar uma expressão venenosa, certeira.

— A falta dele sim. Esperava que me agredisse, como fez com o atiçador de fogo.

— Preferiria que eu fizesse isso?

Não.

Ele riu fraco e Yabbat odiou-se por não ter nojo de tal som. Ela deu um par de passos para o lado, encarou as plantas e mais uma vez o céu. Quantas vezes tinha fitado a cor vermelha entre as nuvens em busca de solidez, de algo — qualquer coisa — e então de um fim definitivo? O que saiu de seus lábios foi uma confissão, não apenas para ele, mas para si:

— Estou ciente que não foi exatamente você que iniciou tudo isso. Uma falsa religião. Servidão. Dor. Foi uma versão de você, numa distante realidade. E também sei que você faria igual se estivesse na mesma posição, mas… — Ela cruzou os braços, ainda sem retribuir o olhar compassivo que ele tinha. — Algo me diz que não se sentiria à vontade com isso. Sentiria culpa, quem sabe. Um resto de moral que no fim apenas te incomoda.

— E isso… Te traz alívio?

— Talvez. — Descruzou os braços e soltou um suspiro silencioso. — Respeito.

— Respeito? Eu posso viver com isso.

— Nós não vamos viver muito.

Victor riu de novo e isso fez com que a expressão dela se tornasse menos séria, menos tensa. Ele estendeu a mão e perguntou:

— Está pronta?

Yabbat assentiu, retribuindo o gesto.

Sim.

*

Era notável a diferença do semblante da Cisne Negro quando ela retornou acompanhada de Victor Von Doom. Namor esperava que ela estivesse um tanto contrariada, ou talvez até mesmo triste, embora o ódio fosse mais familiar ao rosto dela. Qual não foi a sua surpresa de vê-la resignada, ainda mais ao lado de quem era o espelho de seu algoz. O atlante não conseguia decidir se sentia-se aliviado por vê-la assim ou ou incomodado por ela caminhar tão suavemente ao lado de Doom. Ou até mesmo se o motivo de seu incômodo era outro...

Para Namor, não importava se era “ele” ou “ela” ou qualquer outro pronome usado para se referir quem fisgava sua atenção, seu afeto. A novidade, e sua preocupação, era por ser ele e ela.

Apenas cumprimentou-os, ciente que deveria manter tais ponderações afastadas de sua cabeça. Focou-se em outras coisas, mas outras memórias vinham em ondas agridoces. Recordava-se de cada palavra atravessada lançada e discussão que tivera com Yabbat, assim como a noite anterior o deixava morno. A respiração da Cisne enquanto dormia tinha uma cadência amena, suave. Nada mais havia acontecido na noite anterior além de dormir e sonhar ao lado dela, depois de se confessar em meias palavras que jamais se concretizariam. Tudo inevitavelmente parecia escorrer como água por seus dedos sem que pudesse reagir, levando Yabbat junto.

Ao despertar pela manhã, ele temeu que a ela tivesse partido para sempre, sem que seus olhos encontrassem os dela pela última vez; mas Von Doom o tranquilizou ao garantir que ela ainda estava dentro do castelo e que a porta para a Biblioteca de Mundos não havia sido aberta. Namor era grato por Vitor ter se proposto a encontrá-la, já que sabia onde ela havia se metido no castelo. Agora, encarando os olhos de Yabbat, já não tinha certeza se era melhor se a separação não fosse súbita e sem despedidas.

Ele sabia lidar com a dor da partida abrupta, por mais difícil que fosse. Dar adeus, não.

Também não houve tempo para digerir tais sensações, pois logo o anfitrião latveriano os conduziu àquele corredor longo onde estava a porta para outras realidades. Ali pararam, contemplando a madeira escura e entalhada, além dos trincos e fechos de metal. Mesmo que toda a sequência de eventos naquela manhã seguisse uma lógica — acordar, desfrutar um desjejum, se preparar para seguida executar plano sob a luz da Incursão — era inevitável acreditar que finalmente estar ali parecia muito súbito. O fim parecia ter chegado muito depressa.

Von Doom parou a frente da porta com o Cubo Cósmico em mãos e se virou para encará-los.

— A Incursão começou há uma hora e três minutos, portanto temos sete horas e cinquenta e sete minutos para salvar este planeta e o multiverso. Aconselho fazermos isso em menos. Como lhes disse, esta Incursão está alinhada com a Terra da qual vieram. — Uma pausa. — Namor, você poderá voltar até lá, até seu povo. Só precisamos fazer tudo depressa para que o outro lado não lance uma bomba até meu planeta, do contrário não haverá lugar para voltar. Yabbat, — O olhar dele recaiu sobre ela, determinado. — Irá me guiar pelo o restante do caminho até aos Reis de Marfim.

— Eu não permanecerei na minha Terra original. — O atlante respirou fundo. Não havia sido fácil chegar em tal conclusão e ele tinha certeza que o peso daquele momento, assim como tantos outros, o acorrentaria para sempre. — Preciso de condução para o meu povo ao realizar o caminho de volta e também de todo tempo que puder me dar.

— Não seria… Muito gente? Bens materiais também, talvez algo que queira levar.

— Não. Houve uma guerra e o outro lado garantiu que não sobrassem muitos de nós. Última contagem calculou algumas centenas, contando feridos.

Victor assentiu, embora parecesse um tanto pensativo. Yabbat, por sua vez, traduziu os receios daquela decisão, proferindo avisos ainda mais nefastos:

— É arriscado depender de mim depois que atravessarmos. Não há como saber se eu voltarei ou não, mas sabemos que é mais provável a segunda opção. Mostrarei a porta de Terra para esta, para que os atlantes consigam passar. — Ela inclinou seu rosto para o latveriano. — Conjure um novelo, rápido. E que seja resistente para recriarmos um mito.

O príncipe atlante e o monarca da Latvéria se encararam desconfiados por um instante, mas logo o outro realizou um breve movimento com a mão direita para materializar um novelo de material que parecia lã. Quando Yabbat mencionou que Reed Richards havia lhe dado textos de Platão e Aristóteles, não achou que seu conhecimento se estendia também aos mitos gregos.

— Aqui está, Ariadne...

— Ótimo… — Contemplou a cor rubra da esfera, sem esboçar comentários por ter sido chamada pelo nome da heroína da antiga história. — Então abrirei a Biblioteca. Não se separem de mim até chegarem em suas portas, não importa o que vejam ou ouçam.

A Cisne Negro pegou a ponta do pingente em seu pescoço e o esticou na altura da fechadura. Inseriu a chave de maneira lenta, um tanto cerimoniosa, girou-a e, por fim, a abriu.

A escuridão escapou do interior da Biblioteca e pareceu sugar a luz dos olhos do príncipe atlante, que reclamou e franziu a testa, enxergando estrelas ao fundo. Victor, por sua vez, apenas acionou um mecanismo em sua armadura para cobrir o próprio rosto e acionar a visão noturna, mas em realidade os dois acostumaram-se com as trevas. Yabbat somente soltou um sibilo irritado com a demora dos dois e apressou-se em trancar a porta quando a atravessaram.

No entanto, ela não chegou a tranca-lade fato e tal coisa a fez soltar um novo suspiro contrariado.

— Por que a irritação, Cisne?

— Um ou outro Sacerdote Sombrio se esgueira pelos corredores da Biblioteca de vez em quando, príncipe. E se você ou nosso amigo Victor quiserem voltar para casa, será melhor que nenhum deles tenha invadido o castelo e seu mundo. — Ela só se afastou da porta dupla, sem sela-la. — Mas devo deixá-la aberta. Pode ser uma perda de tempo tentar encontrar uma porta que leve de uma Atlantis à outra, então espero que seu povo possa esperar na Latvéria por um tempo.

Ele assentiu, depois retornou sua atenção para o espaço ao seu redor enquanto ela amarrava a ponta do novelo de lã na maçaneta. Sua pele jazia eletrizada, como se soubesse que estava num lugar errado, num lugar… Que não era exatamente um lugar em si, mas uma passagem. A gravidade lhe era estranha e as estrelas emanavam um ruído estranho, mais temeroso, intenso e desconhecido que as zonas abissais do mais escuro oceano. Pareciam olhos de algo distante e que somente se punha a observar com dedicada atenção. Ou então tratava-se de uma vã impressão, uma ilusão inútil. Ele soube admirar a beleza e o perigo iminente dos quais não estava acostumado.

Até onde sua visão alcançava, ele podia ver a escuridão polvilhada de astros, nebulosas e portas, dúzias de portas de diferentes tamanhos, materiais e infinitas cores. Só podia imaginar quais criaturas piores que Sacerdotes Sombrios fugiam vez ou outra de seus lares para infernizar os incautos que atravessavam seu percurso.

Os caminhos que conduziam as tais portas eram inúmeros e, apenas ocasionalmente, se encontravam. Não que isso fizesse mais ou menos sentido. Escadas levavam para cima e para baixo, algumas pareciam invertidas, e muitas guiadas por arcos, colunas…

Sem mais palavras, Yabbat se pôs a andar com o novelo de lã em mãos, soltando a linha vermelha aos poucos. Não parecia afetada pelo ambiente, na realidade seu corpo estava um tanto relaxado, seus olhos vítreos. Sabia o que fazer e aonde ir. Estrelas cadentes cortavam o céu conforme marchavam para seus respectivos destinos, mas nenhum deles dava atenção às luzes que rasgavam o horizonte. A Cisne só mencionava “direita” ou “esquerda” enquanto atravessavam passarelas estreitas, corredores de muros infinitos, escadas que invertiam o sentido do que era em cima e o que era embaixo.

A arquitetura do lugar mudava conforme adentravam mais afundo daquele labirinto sem saída, tornando-se se ora familiar, ora totalmente estranha. Namor reconhecera o estilo gótico do começo, depois um pouco de sumério e até modernas instalações de uma cultura aparentemente avançada. Alguns estavam preservados, outros jaziam em ruínas. Certas portas haviam sido destruídas, sobrando apenas seus alicerces e fragmentos espalhados.

A Cisne então parou.

Encarou um ponto a frente, um terreno largo e, assim como tantos outros pontos, adornado por portas imensas. O movimento de seus olhos, a garganta que engolia seco…Indícios que ela pensava com atenção, num cálculo preciso. E depois andou ainda mais, para então chegar a portal redondo de pedra e decoração conhecida:

— Aqui, Namor. — Ela lhe entregou o novelo de lã vermelha para que pudesse marcar onde estava e para onde deveria voltar. —É a porta para seu lar verdadeiro. Poderá conduzir seu povo até a Latvéria do outro mundo, e então para uma nova Atlantis.

Ele franziu os cenhos, mais uma vez adiante do portal de Einalia. Só a lembrança do que havia passado e sentido diante do portal há poucos dias o fazia ranger os dentes de frustração. Desejava gritar. Esmurrar algo. Se desfazer em pó por não ser o rei que a deusa, tão sádica, requisitava. Não era um rei digno para que a deusa lhe permitisse passar. Entretanto, em vez de se deixar entrar em colapso, ele passou as pontas dos dedos nos desenhos da porta e questionou a Cisne:

— Não entendo. Não temos a chave, assim como da outra vez. E o Cubo não nos ajudou.

— Está errado, Namor. — Victor se aproximou, a luz do Cubo Cósmico iluminando o metal inexpressivo de sua máscara. — Eu posso consertar isso.

— O Cubo tem um custo. Não acha melhor se conservar para os Beyonders?

— Não acredito que sairei disso vivo, independente de ter mais ou menos energia. Mas posso cuidar desse problema para você. É meu amigo, certo?

As coisas eram mais complicadas que isso, embora Namor não tivesse forças para contrariá-lo naquele instante. Lhe ofereceu um meio sorriso.

— Às vezes acho que sou seu único amigo, Victor.

— Mais um motivo, então.

O som metálico de sua armadura ecoou ao direcionar-se para frente do portal de pedra e moldura de abalone, adiante de Namor e de Yabbat. Ele ergueu o braço e liberou o poder do Cubo, obrigando intensa luz azul se expandir pela escuridão feito uma nebulosa. Assim como Namor, seu corpo físico ardia em se livrar logo daquela situação, da dor e da energia que o uso do artefato causava, mas diferente do príncipe atlante, Victor Von Doom tinha plena maestria em administrar seu sofrimento e direcioná-lo para fins que lhe interessavam.

Ele grunhiu. Proferiu palavras em um idioma que Namor não conhecia. Seus pés levitaram como se o peso da armadura não existisse, assim como seu manto verde tremulava mesmo sem vento. Um intenso raio azul e verde irrompeu do Cubo e atingiu o centro do portal. Houve um estalo. Doom voltou ao chão de joelhos, sua respiração ofegante. Nada parecia ter acontecido por diversos segundos até que o estalo se tornou um longo ruído e o portal de Einalia finalmente se abriu.

Namor virou-se para encarar a visão do Templo por dentro, o limo que crescia nas pedras e no cheiro de água salgada que lhe preenchia os pulmões. Seu lar. Engoliu seco, impressionado e ofendido. Aquele Victor, aquele Destino, era honrado aos olhos da deusa. Isso lhe parecia inadmissível, uma vergonha, um insulto.

E era sua salvação naquele momento.

Virou-se para Doom, que havia tirado a máscara de metal e permanecia no chão, auxiliado por Yabbat. A pele dele estava salpicada de suor nas têmporas, mas o mais preocupante era a antiga cicatriz em seu rosto, agora reaberta e sangrando sem motivo aparente. Ele limpou o sangue com a ponta de seu manto, durante todo o processo argumentando que estava bem — embora a Cisne não tenha perguntado ou demonstrado mais apreensão que o necessário.

Namor engoliu seu ego por inteiro, sentindo cada ponta e aresta em seu esôfago.Aproximou-se do latveriano e o ajudou a se levantar, para em sequência apertar sua mão com respeito. Sua intenção era abraçá-lo, mas foi capaz de se conter. Sério e honesto, disse:

Obrigado.

Doom assentiu com um sorriso contido e breve, depois logo voltou a máscara em seu rosto.

— Você precisa ir agora. Não podemos perder tempo — Respondeu, sucinto. No entanto, ainda tinha tato, sensibilidade. Encarou rapidamente Yabbat e Namor, logo emendando. — Vou dar-lhes licença.

Antes que qualquer um deles pudesse mentir e falar que tal coisa não era necessária, Victor já estava metros adiante, deixando a Cisne Negro e o Príncipe de Atlantis a sós, como tantas outras vezes. Ela foi a primeira a quebrar o silêncio:

— Cuide bem desse novelo de lã. É a sua passagem para sua nova casa.

— Yabbat…

Ela interrompeu sua frase com um gesto com a mão. A Cisne não queria ouvir palavras amenas, principalmente quando estava tão próxima do fim. Isso provocou um rasgo em Namor, pois ele sabia que, mais uma vez, ela estava certa. Seriam palavras ditas em vão. Ele rangeu os dentes e cerrou um dos punhos, o peso do novelo vermelho insuportável.

A despeito de tudo isso, ela sorriu:

— Talvez eu só me transforme espuma do mar.

— Ora, não se faça de sonsa.

— Não seja estúpido.

Os dois riram de maneira fraca e sem graça. Mais uma vez, ele se via na posição impotente de desejar se lançar passo adiante para um abraço forte, inquebrável; de mantê-la segura e ouvir sua respiração cadenciada enquanto seu sono era recheado de sonhos gentis. E nada disso aconteceu.

Ao menos ele pôde observar olhar dela um tanto suave, sua expressão tranquila. Talvez ela soubesse de tudo. Yabbat lia mentes, certo? Queria saber o que ela pensava agora. Se achava a situação tão irônica quanto ele. Mais ainda, queria saber se era recíproca a dor que sentia no peito.

Ninguém, no entanto, mencionou assuntos tão fundos.

— Adeus, príncipe.

— Adeus, passarinho.

A Cisne Negro lhe deu as costas, caminhando em direção à Victor Von Doom para em seguida os dois seguirem adiante, até o fim. Mesmo com o tempo escorrendo pelos dedos, Namor dedicou alguns minutos para vê-los desaparecer no horizonte escuro.

*

Caminharam o restante do percurso em silêncio, mesmo em meio a urgência. Subiram escadarias circulares e, gradativamente, a quantidade de portas começou a diminuir mais e mais até que só restasse uma num imenso espaço vazio, a qual jazia no centro. Victor Von Doom, mesmo com um ferimento reaberto no rosto momentos atrás, foi capaz de destilar uma análise crítica, circundando o portal:

— Eu esperava um aviso dantesco, um alerta para me afastar. Tochas e cerimônias, talvez. Ou algum tipo de impedimento, como uma besta.

— Quem vem aqui sabe o que vai encontrar. Avisos são desnecessários. — Yabbat refletiu, aproximando-se mais do portal de proporções absurdas.

Os questionamentos de Victor tinham sentido num primeiro momento, mas era só pensar mais a fundo para entender que não existiriam cerimônias para os Sinnu Sarrum, ou os Beyonders. Toda Cisne conhecia o caminho até eles, pois além do senso que guiava cada uma delas até sua porta de destino, a maioria também havia visto Cartógrafos na Biblioteca. Eles, arautos dos Sinnu Sarrum, viajavam vários lugares e muitos voltavam àquele mesmo lugar, o mesmo portal.

E nenhuma Cisne gostaria de adentrar tal covil.

Eles eram absolutos. Agora ela sabia que eles eram o tudo que dava início ao fim. Não precisariam de avisos, tampouco de feras para guardar seu lar. Yabbat tocou a lateral do portal, passando as pontas dos dedos na sua superfície lisa, polida. Imaginando como seria afinal morrer, ela concluiu:

— Mas, ao menos o portal é feito de marfim.

— Você tem um senso de humor interessante, Cisne. — Ele riu brevemente. — Me questiono o tamanho da criatura dona desse marfim todo. Deve ser titânica para que uma única presa seja o suficiente pra esculpir um portal.

A Cisne concordou, depois de afastou um tanto do portal. Independente do tamanho da criatura, provavelmente tinha sido abatida há eons. Ela franziu a testa, a mão esquerda sobre a chave no pingente e uma ideia incômoda em sua cabeça.

— A porta está destrancada. Acredita que eles... sabem que estamos aqui?

— Não sei dizer. Suspeito que sim, mas devem estar ocupados. Minhas versões alternativas vieram enfrentá-los, ou ao menos as que sobraram, inclusive… Rabum Alal.

— Como? Somente eu lhe trouxe aqui.

Não conseguia compreender ao certo, apenas especular. Outras versões de Doom precisariam de outras Cisnes ou então de outras formas mais obscuras para chegar até os Beyonders. Victor, por sua vez, não estava minimamente surpreso com a pergunta, mas não se dispôs a explicar detalhes.

— Cada um se comprometeu de uma forma. — Resumiu. — E eu agradeço, Yabbat.

Ela assentiu. Não iria cavar a questão, pois também não importava. Era isso. Adentrariam o portal na tentativa de impedir o término definitivo do multiverso. Talvez morressem em vão. Estava pronta para sentir seu coração bombear uma última batida, estava pronta para fechar as pálpebras para sempre. Com Doom ao seu lado, ela ergueu a mão direita em direção à porta para abri-la, mas foi impedida pelo braço dele.

Ambos se encararam.

— É o fim. — Ele afirmou, embora não fosse novidade para nenhum deles. — Mas não precisa fazer parte disso.

— É para isso que fui criada.

— Não. — Continuou a segurar seu braço do firmeza, sem chegar ao ponto de machucá-la. Yabbat endureceu o seu olhar e ele nem ameaçou a ceder um passo, o Cubo Cósmico em sua outra mão. No fundo, ela não entendia o ponto dele é só desejava terminar logo com isso. — Você nasceu em um bom lar, tinha família e vida. E você deseja-os de volta.

A Cisne Negro necessitou resgatar a força na voz. Lembrar coisas tão antigas, tão caras à sua memória e ao seu coração, fazia sua garganta esquecer sua aspereza. Tal fato não se estendia, porém. Vinha logo a dor, a ira.

— Qualquer possibilidade disso acontecer foi enterrada.

— Yabbat, eu sei do dispositivo. Do sangue que coletou dos seus irmãos. Que quer trazê-los à vida.

— E então sabe que isso foi roubado de mim.

Doom abaixou o braço dela gentilmente, agora segurando sua mão.

— Eu sei que poderá pegá-lo de volta.

— Não me conte bobagens. — Sorriu sem humor. — Nós não temos tempo para isso.

— Você me chama de necromante por que sou versado nas artes místicas. Pois bem, logo quando a curei dos efeitos do Cubo, eu… Vislumbrei seu passado. Você sabe disso, sentiu na mesma hora. É uma arte complicada e fui além. E eu sei o que ocorre na outra Terra, Yabbat. Sei onde Reed Richards arquivou seu dispositivo.

Ela não respondeu imediatamente, apenas piscou. Não queria isso. Aquela esperança tola que tanto, tanto desprezava. Ainda assim, a pergunta escapou de sua boca:

— Onde?

— Necrópoles, Wakanda. Onde nós dois sabemos que existe uma porta para a Biblioteca lá.

— Nas tumbas. — Ela concluiu, recordando-se do lugar e sua antiga cela. Depois a razão lhe alcançou, de modo que sacudiu a cabeça levemente, tentando se desfazer dessas ideias. — O que está fazendo? É o fim e não há mais tempo.

— Rabum Alal lhe tirou tudo. Eu não posso devolver tudo a você, mas posso lhe dar uma escolha. Ache a porta. Pegue o utensílio. Use-o.

A garganta de Yabbat apertou-se ainda mais, quase deixando sair um soluço. Ela rangeu bem os dentes para não permitir que lágrimas descessem de seus cílios, mas seus ombros tremiam com as possibilidades do que Doom implicava. Imaginava seus irmãos, especialmente Dadingra, vivos. Seus entes queridos num planeta distante, talvez, longe de toda a dor.

— É melhor correr. Foi bom conquistar seu respeito, Cisne. Só… — Ele se interrompeu, depois soltou a mão dela. — Eu poderia dizer mais algo, mas acho que chega de recomendações e ordens.

— Sensato da sua parte. Você não é um deus.

Ela podia quase ver o sorriso de Victor Von Doom por debaixo daquela máscara de metal.

Viva, Yabbat.

A Cisne Negro já tinha lhe dado às costas e começado a correr pela Biblioteca quando ouviu o portal ser aberto com um longo som, para em seguida ser fechado com um súbito estrondo.

Notas finais
* Namor é pan. * E sim, dei hints de um trisal XD