Meine Shuld

1 Pesadelo 1 - Arrependimento.


Notas iniciais
Enfim, mais uma história, que eu tenho interesse em começar, demorei muito tempo pra me aventurar em uma história do mundo de Evangelion, dada a complexidade do universo, mas cansei de esperar vir inspiração e resolvi colocar o que acho bom na história, conto com a ajuda dos amantes de Evangelion, boa leitura.

Quantas promessas ela já havia quebrado nos últimos dias? Não sabia. Essa era apenas mais uma que ela quebrou, e que ela continuaria quebrando, infinitamente. Ela jurou para si mesma que ela nunca mais iria aparecer em um hospital da NERV. E lá estava ela. Sentada, em um corredor, de frente para uma sala, uma sala no último andar, no último corredor, a última sala, onde só casos graves apareciam. Ela queria rir disso, com desgosto.

Sala 177.

Em seus sonhos mais intensos, em seus pesadelos, que pareciam tão reais, em sua própria desgraça, ela se fez prometer que ela nunca mais colocaria os pés na NERV, isso era do tempo glorioso em que ela era uma piloto, mas esse tempo havia acabado.

Terceiro Impacto havia acabado com tudo, mas um rapaz decidiu que isso não era o fim. Um menino, tão quebrado quanto ela, talvez até mais, havia recusado a instrumentalidade, ele havia dado uma segunda chance a todos os seres humanos que assim quisessem, mas ele perdeu a própria segunda chance.

Ela queria poder achar graça, em toda a sua vida com ele, ele nunca pensou em si mesmo, em todos os seus momentos, ele nunca havia sido egoísta, em qualquer momento de sua vida, ele nunca deixou de se preocupar com o próximo...

Nunca deixou de se preocupar com ela.

Ela sentiu os olhos ficarem úmidos, mas ela não chorou, não merecia chorar, não merecia chorar por ele, ela não merecia nada dele.

— Ele merece estar aqui. — a maldita voz em sua cabeça começou a falar em sua mente de novo, querendo-a torturar mais uma vez desde que ela saiu do mar vermelho de LCL, ela sabia que essa voz que a atormentava ela era mesma, um lado que ela queria esquecer, um lado que ela queria apagar, era um lado sombrio e egoísta, um lado que a fez esquecer as consequências de tudo, um lado que apagou sua culpa, e aumentou seu ódio e rancor.

— Não... Não merece... — ela disse lenta, quase num sussurro, para si mesma.

— Ele abandonou todo mundo, egoísta, egoísta, acabou com o mundo, mate-o, mate-o. — a voz a instigava, a encorajava a fazer o que ela fazia desde que voltaram, machucá-lo, feri-lo, quebrá-lo, usá-lo...

Ela não tinha tempo de pensar em todas as coisas que ela havia feito. Eram tantas coisas horríveis, ela só foi perceber tarde demais, quando a consequência veio a tona, quando toda a dor se tornou visível, quando a culpa chegava a escorrer em seu rosto, quando a aversão a si própria se tornou aparente quando se olhava no espelho, ela finalmente percebeu.

— Eu sou um monstro... — ela disse a si mesma. A voz em sua cabeça havia sumido agora, era somente ela com sua própria culpa. — Eu não mereço compaixão... Não mereço nada do que ele sempre estava disposto a me oferecer.

Ela se ergueu do banco do corredor, indo em passos lentos e culposos em direção ao vidro do quarto, ela não deveria estar ali, ela era proibida de estar ali. Misato a proibiu, quando ela ligou para a mais velha, e retirou o corpo quebrado e usado do seu apartamento, ela lhe proibiu de se aproximar dele, ela mesmo assim, pensou em si mesma, e lá estava ela, na frente dele...

Ela finalmente se permitiu chorar, ou melhor... Ela conseguiu chorar agora. Mas não emitia nenhum som, não queria ser descoberta, era um milagre ela ainda estar ali, ou era um milagre Ritsuke ainda não a expulsar dali, provavelmente as câmeras haviam a pegado, talvez a mulher estivesse dando um tempo ela, não sabia, ela só podia agradecer.

Mas olhando seu estado, tudo o que ela havia feito com ele, desde que ela acordou na praia, com as mãos dele sobre seu pescoço, isso era demais pra ela.

Toda a merda que ela havia feito, finalmente mostrou o resultado, depois de meses, depois de dias e de dias, horas intermináveis, depois de todo o inferno pessoal que ela havia lhe dado, a culpa prevaleceu, e as consequências se tornaram visíveis.

Ela não podia aguentar encará-lo.

Colocando-se de joelhos no corredor, abraçou-se, em uma tentativa mais do que inútil de parar com sua dor.

Sua cabeça doía, a voz que a tanto instigou a fazer coisas ruins, havia sumido, repentinamente, agora só restava a culpa, só restava o desgosto, a vergonha, só restava os trapos de uma alma que já teve compaixão.

Ela queria gritar, mas não podia, não merecia nada além de desgosto e aversão de si mesma, sentiu-se nojenta, sentiu-se doente, sentiu-se repugnante, sentiu-se... Desumana.

Ela queria chorar, mas nenhuma lágrima descia, ela sabia que seus olhos já estavam mais escuros do que a noite, ela sabia que o azul que a embarcava no horizonte não era mais nada além de um céu escuro, cheio de nuvens.

Ela queria entrar no quarto dele, queria abraça-lo, pedir desculpas por tudo o que havia feito, queria se redimir. Mas a vida não era tão fácil. Ela riu com desgosto dela mesma, mesmo nessa situação, tudo o que ela pensava era nela mesma...

Como ela era nojenta.

O corredor era silencioso, ela nem tinha permissão de estar ali, foi uma sorte ninguém estar ali, ela tentou se levantar, mas não encontrou forças nas pernas.

Tudo o que preenchia aquele corredor, era o barulho de uma máquina, apitando em um loop infinito. Tudo o que ela podia ouvir, era uma respiração pesada, cansada, uma respiração lenta, quase parada.

Tudo o que ela havia feito todo esse tempo, levou a esse momento.

— Me perdoe.... — ela tentou chorar. — Me perdoe.... — ela queria gritar, mas não sentia sua voz tão confiante quanto antes. — Me desculpe, Shinji...

Ela queria conforto em um momento como esse, queria um olhar preocupado, uma demonstração de carinho, ela queria se sentir segura, mas não podia...

A pessoa que sempre a fez se sentir segura, estava em uma cama de hospital...

Ela o tinha colocado lá.

As memórias estavam voltando para ela enquanto ela se consumia em sua própria culpa, ela olhava para si mesma e queria vomitar de tanto desgosto.

— Fique longe dele Asuka! Está me ouvindo? Longe! — Misato havia dito isso a ela, quando ela entregou o corpo de Shinji para os médicos de NERV, os médicos que Misato havia trazido com ela, quando Asuka percebeu o que tinha feito, e havia a chamado, desesperada. Mas era tarde.

Agora era só mais uma memória infeliz, mais um erro, mais um número de erro em sua vida que já havia começado errado.

Ela ficou olhando para o teto, por muito tempo, as memórias ruins que ela tentou fugir como uma covarde estavam voltando para ela, ela iria relembrar todas elas.

Mas a voz dentro da cabeça dela, não pensava assim, aquela maldita voz, a voz que pertencia a ela mesma, não queria isso. A voz que ela ouviu todo esse tempo, a voz que a fez fazer isso tudo com a única pessoa que nunca havia mudado com ela, era culpa dessa maldita voz...

Não, estava errada, ela estava simplesmente fugindo como uma covarde da sua própria culpa. Isso estava errado, ela sabia disso, ela era uma covarde, uma adolescente imatura que havia feito coisas horríveis a um pobre rapaz, ela não tinha o direito de colocar a culpa em uma pessoa que nem existia.

Ela sempre soube o que estava fazendo. Ela só não queria aceitar isso, mas ela teve. Ela fez isso. Ela o colocou nessa cama, ela havia quase o matado, ela havia o feito cuspir sangue, ela havia quebrado seus dedos, ela havia quebrado o radio do seu braço esquerdo, ela havia o chutado, ela havia o pisado, ela havia o queimado, ela havia o torturado, ela havia o feito se sentir a pessoa mais podre do mundo, ela havia feito tudo de ruim pra ele.

Quando na verdade, eles eram iguais. Isso a assustava, sua mente doentia só queria fugir dali, queria ir para bem longe dele, mas todas as noites, nas primeiras semanas quando eles saíram da praia, ela nunca conseguiu fugir.

Shinji havia cuidado dela, havia cozinhado como podia para ela, havia procurado comida, roupas, abrigo, havia se colocado em perigo, para o bem dela.

E como ela retribuiu isso? Era nojento apenas de pensar, a sua voz interna gritava para ela parar de pensar nas coisas boas que Shinji havia feito, mas ela iria se lembrar de tudo. Para ela finalmente entender, que qualquer coisa ruim que tivesse acontecido com ele depois do Terceiro Impacto, a culpa se concebia, inteiramente a ela mesma.

Não havia uma organização, não havia um pai que nunca estava perto para se culpar. A culpa era dela.

Tomando coragem, ela se ergueu de novo. Os olhos vermelhos, os lábios secos e a garganta seca, mas porque ela estava pensando nisso? ISSO NÃO ERA NADA!

Ela o olhou, finalmente. Havia se passado uma semana. Uma maldita semana para ela tomar coragem e encarar seus erros, encarar o demônio dentro dela.

Ela vomitou, sem um segundo de espera. Ela não havia comido muito nos últimos dias, felizmente talvez, ela só conseguia colocar sua mão em frente a boca, sua garganta doeu com isso, seu corpo reclamou, ela não havia conseguido comer...

Era mentira, ela não havia conseguido ir para cozinha quando Misato estava em casa, ela não teve coragem de encarar a guardiã nos olhos, não teve coragem de encarar a mulher que cuidou deles. Ela era uma covarde. Ela não conseguia olhar para o que havia feito sem se sentir um monstro.

Ela não tinha coragem de ver o que ela mesma havia causado. Pro inferno com tudo isso, ela se levantou de novo, os joelhos bambos. Ela ignorou a mão suja e se colocou de pé em frente ao vidro.

Ela tratou de não desviar os olhos, tratou de fazer ela mesma entender, que o que estava vendo diante de seus olhos, era sua própria culpa, e ela jamais, em nenhum momento, culparia ninguém, além dela mesma.

Ela tratou de lembrar.

Pequenos tubos, coloridos, cravados por todo o corpo dele, principalmente nos braços, ela só conseguia ver tubos e mais tubos, Shinji estava com uma pequena camiseta de hospital, com o seu dorso e sua cintura, completamente enfaixados. Ela podia ver uma pequena estaca, em volta das costelas dele. Costelas que ela havia quebrado. Seu braço esquerdo, completamente enfaixado com uma camada grossa de gesso era visível, ela havia quebrado seu braço, pisando em cima, contra a parede, ela havia o chutado, ela havia o esmagado com seus pés, enquanto tudo o que ele pedia era desculpas.

Ela voltou para suas memórias, enquanto o olhava, com ódio de si mesma. A voz gritando em sua mente não a impediu de se lembrar.

Havia sido uma noite ruim, mais uma em sua vida, ela teve uma lembrança do décimo quinto anjo. Que estilhaçou sua memória e a fez reviver todos os seus pesadelos, ela teve um sonho com a série de Evas que havia partido seu corpo em mil pedaços. E naquela noite, ela mais uma vez, não se aguentou e foi em direção ao quarto dele, abrindo a porta lentamente, lenta e silenciosamente o suficiente para uma bêbada Misato nunca a ouvir enquanto ela o usaria, mais uma vez.

Havia se tornado algo comum, ambos ficaram sozinhos no mundo, por um tempo, pouco menos de um mês, mas foi tempo o suficiente para Asuka ganhar péssimos hábitos em relação ao rapaz. Ela tinha desejos, toda mulher tinha, desejos libidos, e ela precisava terminar com esses desejos.

Ela se lembrou de que quando ela abriu a porta, Shinji estava acordado a essa hora da noite, colocando alguns curativos em seu pulso, cortesia de Asuka, que havia o prensado contra a parede da cozinha uma vez, e o forçou a beijá-la. Asuka havia adquirido o hábito de querer fazer tudo com ele, mas ele não podia retribuir, não podia sentir nada, não podia dizer nada, ele deveria ser usado, como uma boneca, um nome que ela havia dado a Shinji logo depois da praia, boneca de multi uso.

Shinji naquele dia nem ao menos havia percebido sua presença, e isso a incomodou, ela o chutou para o fuuton, uma cama que ela ordenou ele a fazer se sempre deixar pronta quando ela quisesse ir ali. Shinji sempre a obedeceu, talvez uma parte da mente dele lhe atormentava para fazer o que ela mandasse, como um pedido de desculpas.

Asuka lembrando-se disso se sentiu doente. — Estupro se tornou tão normal... — ela disse pra si mesma, os olhos sem foco algum, ela olhava para Shinji naquela cama, mas ao mesmo tempo olhava para ele em suas memórias, olhava para o que ela havia feito com ele. — Me lembro de ter sido eu a te acusar disso... E no final das contas, fui eu quem realmente usou você... — ela sentiu vontade de vomitar só de lembrar.

Em suas memórias, ela jogou ele na cama no chão, ordenando que ele deixa-se os pulsos de qualquer jeito. Ela se lembrou do jeito assustado que ele encarou ela, mesmo no escuro, Shinji podia ver o quão irritada ela estava.

— Sou uma cadela, uma vadia egoísta que não merece nada do que ele me ofereceu. — Asuka disse a si mesma conforme ela lembrava o que havia feito, aquela foi a primeira vez que ela realmente se descontrolou com ele.

As lembranças ainda vindo.

— Tire a roupa... — ela se lembrou de ter ordenado ao pobre rapaz. — Mais rápido!— ela ordenou de novo, Shinji estava com as marcas das unhas dela nos pulsos ainda, ela havia cravado com todas as forças dois dias atrás, ela tratou de ignorar isso.

Shinji já estava acostumado a fazer isso, ele sabia que esse era o uso que ela havia achado pra ele, brinquedo sexual. Asuka o encarou de cima para baixo, ainda o olhando com raiva. Um nojo escorrendo nitidamente no rosto.

— Seu porco imundo... — ela queria ignorar ela mesma na memória, tudo o que ela havia dito para ele, ela queria se matar, mas se ela fizesse isso, ela o deixaria nesse estado, o deixaria quebrado, assumindo que se ela morresse, ela só iria fugir, como uma covarde, ela continuou imersa na própria mente. — Você sempre se aproveita do meu corpo... Seu... Nojento, pervertido, imundo... Verme... — ela sempre o ofendia sem motivo, sempre descartava seus esforços, tudo o que ele fez para mantê-la bem após o último impacto, ela nunca reconheceu nada disso.

Ela retirou sua blusa naquela noite, ela não estava usando sutiã, os seus seios estavam frente com o rosto de Shinji, Shinji tentou tocá-los mais uma vez. Mas quando ele movimentou sua mão para fazer isso, Asuka segurou seu pulso, bem onde estava machucado, e apertou ali, fazendo Shinji dar um gemido de dor, com a segunda mão, ela colocou em frente a sua boca, para não fazer barulho.

Shinji sempre teve medo dela, quando ela estava desse jeito. Em realidade, ele sempre teve medo. Asuka havia mudado depois que ele a encontrou na praia. Ele nunca teve coragem de perguntar, e ele sabia que se perguntasse, nada seria bom para ele.

— Não ouse me tocar, você é desprezível... — ela havia dito muito perto de seu rosto, ela lambeu seu rosto todo, lambendo sua bochecha, ela soltou o pulso dele, e jogou seu short fora, ela estava agora de pé, e havia retirado sua roupa intima, ela puxou as calças dele para fora e o deixou tão nu quanto ela, ela pegou um preservativo, ela segurou o membro dele, como muitas vezes, ela havia pegado para aliviar a si mesma. Os seus hormônios sempre estavam disparados quando ela ficava muito tempo longe dele. Era até irônico, ela o expulsava, para ir atrás dele, mais uma vez. — Fique parado, em silêncio... Não ouse me tocar, se você me tocar, eu te mato! — ela repetiu isso na mente, essa foram exatamente as palavras que ela havia dito naquele dia.

Ela colocou o preservativo nele e se colocou na altura da cintura, olhando para baixo, se ajeitando em cima dele, finalmente tomando o que ela queria.

— Você é tão melhor quando não faz nada. — ela se lembrou com ódio de si mesma por dizer isso, ela era uma cadela egoísta, uma mentirosa, uma hipócrita, ela nunca havia dado permissão para ele buscar um pouco de conforto, nunca deu permissão para ele tentar tocá-la e ganhar o próprio prazer, como todas as vezes, ela só se preocupou com ela estar satisfeita, e logo ela sairia.

Shinji só podia colocar as mãos em frente a boca, o rosto vermelho, tentando ao máximo não fazer barulho enquanto Asuka fazia seu próprio negócio. Asuka sempre buscou pelo prazer com ele, e ela descobriu que usar ele para isso era muito bom. Sempre foi isso, depois que ela tinha seu próprio Orgasmo, ela não se preocupava se ele tinha tido o seu, ou se havia aproveitado, mas dessa vez Shinji não se aguentou e chegou ao ápice mais rápido do que o comum, Asuka havia também, ela sentiu sua cintura tremer, ela subiu e desceu umas últimas vezes, agora com as mãos em volta do pescoço dele, o olhando nos olhos, tentando entender o porque de ela ainda precisar dele, mas ela nunca achou uma resposta, ela estava cansada, seu interior doía, e ela ofegante se deitou ao lado dele, apagando com ele, naquela noite.

Quando ela acordou naquele dia, ela se sentiu confortável, segura, tranquila, era uma sensação tão boa, e ela não entendeu, ela não havia tido nenhum pesadelo, nenhuma serie de Eva veio a atormentar naquele dia, ela só queria entender, o motivo disso. Ela piscou seus olhos, ela sentiu dois braços finos, com um aperto forte em seu corpo, a prensando contra outro corpo. Foi quando ela acordou que ela havia entendido. Ela havia adormecido, no quarto de Shinji, e agora ele a estava tocando, estava a segurando contra ele.

Um tremendo ódio surgiu, uma raiva incontrolável se desprendeu de seu corpo. Quando ela o encarou dormindo com um rosto tão pacifico. Todas as coisas ruins vieram a sua mente, a sua voz interna começou a atiçar novamente.

— Mate-o, quebre-o, ele te abandonou, te deixou para morrer. — a voz mesmo nas lembranças dela sempre pareciam a comandar.

Asuka rangeu os dentes. Em um surto de raiva ela gritou com todas as forças que ela tinha, acordando Shinji, ele ficou assustado, ele tentou falar com ela. Mas ela não quis escutar, quando se levantaram, ela o empurrou para uma das paredes do seu quarto com força, fazendo ele bater a cabeça, o quarto dele possuía uma janela de vidro pequena, sem hesitação nenhuma, ela o pegou pelos cabelos e grudou seu rosto na janela de vidro, ignorando qualquer coisa que ele estivesse dizendo.

— COMO OUSA ME TOCAR?! EU LHE AVISEI SHINJI! EU DISSE QUE TE MATARIA! — ela gritou com ele, em uma raiva pura e sem qualquer pensamento. Ela o jogou no chão, o encarando, ignorando todo o sangue que começava a escorrer pela testa dele, ele caiu acabado, não tinha força para revidar, não tinha força para nada.

A única coisa que Shinji pôde fazer, era soltar a sua última frase, a frase que o colocaria no corredor da morte por uma Asuka, que não tinha mais nenhum pensamento, além de machucá-lo.

— Eu só... Queria... Te tocar... — Shinji havia dito essas palavras com o maior esforço possível. Mas o que aconteceria a seguir ele não poderia revidar.

Para quem tivesse visto isso, foi um chute muito forte, poderoso demais. Foi um chute vicioso. Desferido para machucar. Para dar conta do recado, para acabar com tudo. Asuka começou a chutar o lado esquerdo do seu corpo, ignorando a nudez, ignorando a dor na ponta do seu pé, ela simplesmente continuou a chutá-lo, e a chutá-lo novamente, viciosamente, enquanto gritava para que ele pudesse ouvir, gritando o máximo que podia, para colocar essas palavras no fundo da mente dele, para nunca esquecer.

— ME TOCAR? SEU INÚTIL! VOCÊ É UM HOMEM INÚTIL! UM LIXO PARA TODOS NÓS! VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE ME TOCAR SHINJI! E AINDA SIM, VOCÊ ME TOCOU! EU DISSE QUE TE MATARIA, EU DISSE. — ela parou de chutar por um instante, Shinji tentou tomar uma lufada de ar, mas ele sentiu uma dor em seu peito, que o impediu de puxar ar para o pulmão, ele sentiu uma coisa faltando em sua costela, um de seus ossos havia partido, e estava em seu pulmão, ele podia sentir, dentro dele mesmo algo o perfurando. Quando ele pensou em tentar se levantar, ele sentiu outra dor ainda maior.

Asuka havia erguido seu pé, e sem qualquer senso de misericórdia ela pisou em cima do seu lado esquerdo, terminando o serviço. E ela continuou pisando enquanto gritava, gritava novamente.

— VOCÊ ME ABANDONOU! ME DEIXOU PARA MORRER! VOCÊ FICOU SENTADO, NAQUELE MALDITO ELEVADOR, ENQUANTO ELES ME DESMBEMBRAVAM! VOCÊ NUNCA ME SALVOU DAQUELE ANJO! VOCÊ NUNCA FEZ NADA MIM! VOCÊ ME ABANDONOU TODAS AS VEZES QUE EU PRECISEI DE VOCÊ! MORRA SHINJI! MORRA! MORRA E ME DEIXE LIVRE DE SUA DOENÇA!

Como um decreto final de sua crueldade que ela não havia pensado por um segundo. Ela havia aplicado uma pressão muito forte com seu pé, em cima do pescoço de Shinji, que não pôde se defender. Ele não conseguia falar aquela altura, não conseguia pedir por ajuda, não conseguia pedir desculpas pelo que havia feito, não conseguia.

Asuka o vendo de cima, ainda estava irada, pensando em tudo o que o décimo quinto anjo havia a feito passar, e Shinji nunca havia feito nada sobre isso, ele a havia abandonado!

Shinji, ao chão, não podia fazer nada, seu corpo parecia te perdido a movimentação, ele não conseguia pensar em nada, sua mente foi levada a um lugar branco, uma imensidão branca, ele sentiu dois braços envolverem suas costas amorosamente, quase com um carinho maternal, e ele se permitiu apagar-se, permitiu levar a sua mente para um lugar, um lugar longe do próprio corpo.

Passou-se alguns instantes, Asuka começou a se acalmar, talvez alguma coisa dentro dela, que não fosse a voz interna dela a fez se sentir diferente, enquanto o encarava o corpo de Shinji, ela podia ver o espaço faltando no corpo do lado esquerdo de Shinji, havia um pequeno buraco, ela havia feito isso, ela.

— Shinji? — ela havia chamado seu nome, com autoridade, esperando que ele se levanta-se. Mas nada havia acontecido, como ela queria voltar no tempo, como queria. - Ei idiota, eu mandei levantar! — ela fez menção de puxar o corpo dele para se levantar, talvez um pouco de culpa estivesse surgindo dentro do seu ser, não sabia. Mas quando ela deu o primeiro passo em direção a ele, ela estacou com o que viu.

O lado esquerdo de Shinji, onde ela havia o chutado, começou a mudar, uma imensa bola vermelha se formou naquela região, até ficar rocha, quase como se estivesse infeccionada, Shinji tentava respirar, mas a dor que o corpo dele estava sentindo, que a cada tentativa de respirar, sangue começava a escorrer dele, Asuka assistiu com horror a pele de Shinji começar a azular, ela assistiu tremendo, assustada quando Shinji, ou talvez o que sobrou dele, tentou se levantar sozinho, mas não conseguia, Shinji tentou respirar, mas não consegui, ele sentiu uma queimação em todo o seu sistema respiratório. Ele sentiu sua glote tremer, ele começou a cuspir seu sangue a cada vez que respirava, ele uma hora tentou respirar com tanta força, e falhou, então uma imensa quantidade de sangue se prendeu na boca dele, ele começou a se engasgar com o próprio sangue, levando as mãos ao pescoço e os dedos na garganta, numa tentativa falha de voltar a respirar.

Asuka sentiu seu corpo passar por um arrepio elétrico, naquele momento, não havia nenhuma voz, a instigando a machucá-lo, não havia ninguém além dela mesma, que estava assistindo tudo o que Shinji estava passando, assistindo os resultados da sua fúria desenfreada.

Ela sentiu lágrimas começaram a sair de suas orbes, começou a sentir-se nojenta, ela havia feito isso, ela havia feito Shinji desse jeito. Shinji continuava a tossir incansavelmente, Asuka observou o seu globo ocular começar a escurecer, ao invés de se tornar branco, ele começou a ficar com os olhos vermelhos, e o aperto de suas mãos na garganta começou a ficar ainda mais forte, ele ainda lutava por ar.

Ela correu do quarto, ela só conseguia pensar que ela não devia ter feito isso, ela cometeu um erro, um erro terrível, um erro que custou caro, ela correu para a cozinha, indo em direção ao telefone, ela só pensou em um número que ela podia discar.

Quando a ligação foi atendida, ela nem ao menos deixou Misato falar nada, ela explodiu em palavras.

— Misato... Eu fiz uma coisa horrível, venha para casa rápido. Shinji está morrendo, por favor, traga médicos... Shinji está morrendo! — ela podia sentir a voz embriagada pelo choro, como ela tinha coragem de chorar num momento como esse?

Misato tomou meia hora de tempo para chegar no apartamento, Asuka nesse tempo ficou em frente a porta de Shinji, vendo-o se contorcer de dor.

— O que foi que eu fiz.... Shinji... Eu não queria...

Sua mente voltou ao tempo real, deixando aquilo de lado, isso era apenas uma memória, ela havia feito muitas coisas parecidas, ela havia o usado para seus prazeres incontáveis vezes. E a última ela... Simplesmente havia cruzado os limites de tudo.

— Ele merece morrer... - a voz apitou em seus ouvidos.

Asuka queria se mandar pro inferno.

— Ele merece viver mais do que qualquer um. — disse a si mesma, a voz não parou.

— Ele nos abandonou, nos deixou para morrer! — a voz a instigou a ficar com raiva novamente.

— Está errada, ele nunca me abandonou, eu que o deixei sozinho. — Asuka se relembrou dos momentos pós impacto.

— Ele deveria ficar sozinho, ele matou a todos nós. Ele nunca se importou conosco!

— Não, ele não nos matou, SEELE matou a todos, Shinji nos deu uma segunda vida.

— ELE MENTIU! ELE NOS ABANDONOU!

Sua cadela egoísta, nós que o deixamos para morrer, e no final das contas, voltamos para os braços dele, e ainda sim, ele nos aceitou, nos aceitou mais uma vez, para nós o machucarmos, suma da minha mente! — Asuka disse alto demais, ela agora podia ouvir passos de salto indo em direção a ela, ela não queria nem olhar.

Os passos cessaram. A pessoa estava ao seu lado agora, lhe observando. Asuka não demonstrou surpresa ao ver Akagi. A mulher que era sua médica, sua técnica em Evangelion e era cientista.

— Estou surpresa em você ter coragem de estar ali. — contra as regras do hospital, ela puxou um cigarro e um isqueiro e começou a fumar ali mesmo, Asuka não havia dito nada, se mantinha em silêncio. — Pensei que Misato havia proibido você de vê-lo.

Asuka fungou, em um choro silencioso.

Akagi nunca foi muito sentimental, ela acreditava que isso atrapalhava tudo, e estava certa. — Olhe Asuka. — ela colocou a menina de pé mais uma vez. — Olhe para o que você fez. — ela a fez encarar Shinji na cama de hospital. — Você o deixou em estado catatônico, um coma leve, e induzido, sabe-se Deus até quando ele vai ficar olhando para o nada.

Shinji não iria acordar? Não! Ele tinha que acordar, ela tinha que falar com ele, ela tinha que pedir desculpas, eles iriam se acertar, e as coisa ficariam bem! Ela tinha que pedir desculpas, implorar por seu perdão, ele a perdoaria... Não é?

— Posso imaginar o que se passa pela sua cabeça Asuka. — Akagi a despertou. — Mas está errada garota. — ela virou o rosto de Asuka para ela, Asuka nunca viu uma mulher lhe olhar com olhos tão frios quanto esta em sua frente. — Você é um monstro, você quase matou a única pessoa que te acompanhou depois do Impacto. E você ainda tem coragem de aparecer em sua frente? Faça-me o favor.

Ela soltou o rosto da mais nova, que foi ao chão de novo. Ficou parada por alguns instantes, colocando os pensamentos em ordem. E ela encontrou sua própria força e se colocou de pé.

— Eu sei eu mereço ouvir tudo, mereço o pior de todas as pessoas, não vou fugir disso, é o meu pecado, meu mártir. E agora... — ela se afastou em passos lentos, mas não antes de olhar uma última vez para Shinji antes de se afastar. — É meu dever concertar os meus erros... Eu irei fazer o que for preciso... Pra ter ele novamente.

Dizendo isso. Ela se afastou dela, descendo a escada e indo em direção ao elevador. Ela só queria ir para casa, Misato devia estar em casa, ela sabia que uma hora ou outra, elas teriam que ter uma conversa, tudo bem... Ela aceitaria tudo.

Ela tomaria tudo. Ela é a culpada. Mas ela não queria ser separada dele... Ela queria apenas a chance, de ficar com ele mais uma vez. Ela sabia que uma hora os amigos de Shinji iriam bater em seu apartamento, pedindo por explicações, pedindo satisfações de onde o pobre rapaz estava, ela não sabia o que faria na hora, mas ela teria que lidar com isso agora.

Tudo o que ela queria era poder concertar tudo, queria se livrar da enorme culpa que a rondeava a todo momento. Queria poder fazer tudo bem de novo...

Mas ela agora pensava sobre isso, alguma vez na vida, ela esteve bem com ele?

A resposta a fez tremer internamente. Eles nunca estiveram em bons termos. Ela nunca deixou isso acontecer, sempre deixou a culpa de seus problemas em cima dos ombros do único homem que havia dito com certeza que amava ela.

Notas finais
E foi esse o capítulo, opiniões construtivas bem vindas.