Meine Shuld
2 Capítulo 2 - Pesadelo 2 - Verdade
Notas iniciais
Honestidade é o primeiro passo para aceitação.
(...)
Asuka havia acabado de sair do centro médico de NERV, ela olhou para trás uma última vez, olhando a última janela, do último andar, era lá onde Shinji estava, ela apertou os lábios e saiu dali, ela tinha que voltar para casa, onde Misato estaria a esperando com certeza, alguém a essa altura já deveria estar dizendo que ela estava voltando para casa.
Ultimamente na última semana, Misato estava em vários lugares, menos em casa, felizmente, talvez? Ela não sabia dizer se agora ela estava feliz por estar sozinha. Shinji nunca havia deixado ela sozinha. Mesmo que ela ordenasse para. E mesmo que ele ouvisse essa ordem, ela logo ia atrás dele. As lembranças tentaram invadir ela de novo.
Ela estava andando no automático, a única coisa que ela estava fazendo direito agora era se lembrar do que Shinji fez para ela depois da praia.
Ele cuidou dela, se ofereceu de bom grado para a satisfação dela. Ele fez isso muito tempo, Shinji não deixou faltar nada para ele naquele tempo. E ela o retribuiu como uma vadia.
Agora as palavras de Akagi invadiram sua mente. Shinji estava em coma, por sua culpa, e sabe-se lá por quanto tempo, só de imaginar um mundo onde ele não estava presente, chegava a doer seu coração, seu coração podre e perverso.
— Eu preciso fazer alguma coisa. — ela disse para si mesma, entrando no trem para ir ao apartamento de Misato. E ela precisava urgentemente de um banho. Se sentia imunda.
Mas a voz em sua cabeça começou a apitar novamente, como se não pudesse ficar muito tempo fora.
— Deixe-o como está, ele não vai mais acordar, vamos fugir, abandone-o, será melhor para nós.
Asuka queria poder gritar com ela mesma, mas havia muita gente ao redor para ela bancar a louca que falava com ela mesma, era a merda de um trem lotado de pessoas. Mas a voz não cessava.
— Não era isso que você queria? Eu sei que queria, você queria se livrar dele... Ai está.
Se fosse Asuka de uma semana atrás, teria rido e concordado com essa voz doente, teria concordado que era justo que Shinji tivesse quase morrido, teria aceitado as palavras de uma Asuka doente em sua cabeça e teria simplesmente mandado tudo pro inferno e ser livre, mas ela não.
Ela não iria fugir, Shinji precisava dela, precisava que ela ficasse e fosse forte, pelos dois. Ela precisava concertar tudo o que havia feito. Ela pensou e pensou, em tudo o que ela teria que fazer para se desculpar, e continuar na sua vida.
Ela o usou por muito tempo, o machucou e magoou por muitos meses, não vendo ele como nada além de um vibrador e um servente pessoal, como era nojenta. Ela sentia desgosto de si mesma. Agora que ela finalmente havia percebido tudo o que ela fazia, as memórias que traziam a tona tudo o que ela havia feito com ele quando eram apenas ele, chegava a esmagar sua própria alma.
Ela tratou de se afastar disso, ela não merecia sentir pena de si mesma. Não até Shinji voltar ao normal, e ela pudesse ver o sorriso tímido dele, o sorriso que havia salvado sua alma muitas vezes, mas ela sempre foi orgulhosa demais para dizer isso em voz alta.
Parando para pensar nisso ela se deu conta de muitas coisas. Talvez muitos tópicos da vida dela com Shinji pudessem ter sido diferentes, se ela não se calasse a cada momento em que ele a fizesse se sentir bem, talvez agora eles pudessem ser um casal de verdade, se ela não fosse uma cadela egoísta e sangue suga, se ela não estivesse preocupada com ela mesma, talvez Shinji agora pudesse estar seguro em casa, seguro com ela.
Mas isso é algo que não vai acontecer agora, ela tinha que se lembrar do que ela fez, tinha que gravar na memória o estado em que ela o deixou. Ela havia o colocado a beira da morte, pelo seu medo de ser amada, medo de ser aceita por alguém, ela tinha medo de Shinji, porque ele tinha a capacidade de passar pelos seus muros e fazer ela se sentir bem, apenas sendo ele mesmo, e ela não podia aceitar isso.
Como era tola, como ela era burra, como era idiota a ideia de se afastar apenas por isso, agora ela podia ver todos os seus erros aparecendo na sua mente, um a um, ela teria que refletir sobre cada um deles.
Ela pegou o elevador do apartamento e foi ao quinto andar, onde morava atualmente, foi um alivio ver que o lugar havia sobrevivido a tudo. Ela pegou suas chaves e abriu a porta, a sala escura, tudo o que ela podia ouvir era um pinguim fazendo barulho, e indo em direção a seus pés. Pen Pen, sempre recebendo quem voltasse pro apartamento. Ela olhou ao redor. Ela ainda tinha coisas a fazer. Como por exemplo, limpar o apartamento, já que Shinji não podia...
Ela queria afastar a ideia de que Shinji nunca mais sairia daquela cama. Mas ela se tocou.
O que faria se ele começasse a odiá-la? O que ela faria se ele a tratasse como ela o tratou durante todo esse tempo? Alguma parte de sua mente se enfureceu com essa ideia, mas as outras logo fizeram a voz maldita sumir, se Shinji se tornasse assim com ela, ela aguentaria tudo, ela merecia isso e muito pior. Ela merecia o pior dele, ela só queria concertar as coisas.
Ela ficou pensando nisso enquanto começou a limpar a cozinha, poeira acumulada de dois dias, ela mal andava pela casa, se ocupava indo para o quarto, banheiro, geladeira, quarto. Ela imaginou tantas coisas que podiam acontece quando Shinji acordasse, ela podia cozinhar algo pra ele, claro que ela não podia se comparar com a culinária do rapaz, ele cozinhava bem demais. Ela queria poder ter elogiado sua comida, ao invés de tentar diminuir sua confiança a cada prato, lembrando disso, havia pratos em que ele havia tomado muito tempo, para ela e seu bel desejo, e ela nem ao menos tocava. Como era idiota, dava raiva de si mesma por ser tão imbecil e insensível.
Ela não conseguia mais dormir sozinha, em realidade, ela nunca conseguiu dormir sozinha, ela tinha medo de dormir sozinha, toda noite após um pesadelo, ela sempre pensou em dormir com Shinji, pedir sua ajuda, no fundo de sua mente, uma parte pequena que ela sempre ignorou vivia lhe repetindo que Shinji podia ser seu porto seguro, que podia lhe oferecer conforto, que podia ser um homem para ela, mas ela foi idiota.
Em sua mediocridade e orgulho, ela ouviu a maldita voz, que a instigou a fazer tudo de ruim para ele, a maldita voz sempre pareceu ser mais interessante de ouvir do que qualquer outra parte de sua consciência, ela sempre teve dificuldade, mas aquele dia, em que ela simplesmente apagou no quarto do Shinji, depois de ter feito o que queria, aquele foi um dia especial, ela não teve mais nenhum sonho ruim, não teve mais nada que pudesse atormentá-la. Quando acordou, a sensação de poder ficar encolhida nos braços de alguém, de poder se sentir segura e protegida, de poder se sentir amada, aquela sensação, como ela queria poder sentir essa sensação novamente, ela queria tão doentiamente poder ser segurada por ele, poder confiar nele e deixar o mundo ser o que sempre foi. Mas não...
O seu orgulho maldito sempre a privou de se confessar e de aceitar os sentimentos do rapaz. Sempre a deixou longe de qualquer interação boa entre eles, ela é culpada por isso, mas agora ela não adiantava somente se martirizar por isso, ela tinha que tomar providências. Ela tinha quê.
Ela passou tanto tempo pensando que seu corpo se moveu no automático, ela limpou quase todo o apartamento, o único lugar que faltava era o quarto de Shinji. Era o lugar que ela não havia entrado mais e nem Misato entrou ali. Provavelmente ainda estava igual a antes, a janela quebrada, e gotas de sangue seco no chão e nos lençóis. Ela suspirou e pegou o balde, depois disso, ela iria tomar um banho, e provavelmente dormiria ali. Ela não conseguiria mais dormir no seu quarto. Ela sempre ia ao quarto do garoto em busca de um pouco de conforto, e agora ela o havia mandado para longe.
Ela abriu a porta, e ficou parada. Olhando para o que havia feito, como era de se esperar, Misato não entrou ali, e nem ao menos se deu a preocupação de limpar nada. Ela só pôde suspirar pesadamente, era ali que ela havia feito o maior erro da vida dela. Ou apenas mais um dos erros que ela fez com Shinji ao longo de quase um ano. Ela sabia que Shinji havia ficado um tempo sozinho no mundo, ele nunca lhe contou quanto tempo, mesmo quando ela o batia e o machucava, ele sempre se manteve em silêncio, parando para pensar agora, deveria ser realmente algo importante. Ela poderia perguntar tantas coisas quando ele acorda-se, ela poderia finalmente responder decentemente tantas coisas, provavelmente a primeira coisa que ela diria quando ele pergunta-se se a comida estava boa ela iria responder honestamente.
A comida que ele preparava era maravilhosa, mesmo que caseira. Ela ficou divagando por um tempo, tanto tempo que ela foi trazida de volta a realidade quando sentiu um aperto nos ombros. Ela olhou com os olhos caídos temerosa que fosse algum demônio para levar ela ao inferno pelo que havia feito, mas não.
Era sua guardiã, ou pelo menos era no papel de antigamente, agora ela era uma das responsáveis pelo funcionamento das instalações da NERV. Subindo de cargo estamos nós?
A expressão de Misato foi se intensando quando ela virou o rosto para dentro do quarto do garoto e viu a destruição, naquele dia, uma semana atrás mais ou menos, ela simplesmente pegou o corpo dele, nem ao menos se indagou a olhar para a outra ruiva. E nem ao menos teve muito tempo de ficar em casa, e quando estava, Asuka fazia questão de ficar longe dela, e ela não tinha cabeça para ir atrás da ruiva agora, ela tinha coisa mais importantes pra se importar, como por exemplo Shinji. Que estava em um estado lastimado. Mas agora, ela estava ali, e ela fez com que Asuka deixa-se o balde, Misato percebeu que a menina havia dado uma geral na casa, agora que Shinji não estava.
— Depois eu vou te ajudar a limpar o quarto dele, você não vai conseguir fazer isso sozinha. — ela pegou na mão da menina, a levando para cozinha, ela havia ligado a luz e puxou uma cadeira para se sentar. — Sente-se, precisamos esclarecer muitas coisas. — Asuka havia visto Misato muitas pouca vezes séria, com esse tom de voz, curiosamente, era nesses momentos de seriedade que o assunto sempre era Shinji, ele era importante pra ela, não, era importante pra elas, só demorou tempo demais para descobrir isso, de uma maneira bem ruim.
Asuka engoliu a seco, era esse o momento, o momento de definitivamente largar o orgulho fora. Mas ela ainda sim sentia medo, medo de que Misato a abandona-se quando soube-se das barbaridades que ela havia feito. Ela simplesmente não queria nada disso para ela, só queria poder ficar com ele, trilhar um caminho para ele de novo, era somente isso, seu único e honesto desejo, um desejo do fundo do coração.
Ela só queria a redenção. Mas isso não seria fácil, ela sabia, ela percebeu isso, os olhares que ela recebia na NERV lhe diziam tudo. Todos os médicos dele sabiam quem o havia colocado ali. Ela respirou fundo e se sentou devagar, desta vez, olhando diretamente para o rosto da guardiã. Essa mulher em sua frente não era Misato, era outra mulher, uma mulher que tinha voz imponente e um semblante sério, Asuka notou que agora ela seria tratada como uma antiga piloto.
— Desde quando voltamos, eu estava notando muitas coisas fora do lugar. — Misato começou com a voz séria, lentamente, querendo-se fazer entendida a todo momento, estava funcionando. — Um dia, quando você estava na escola, e Shinji ficou em casa por indisposição, quando ele foi ao banheiro, notei um hematoma em suas costas, ele me havia dito que havia caído, mas foi você que fez isso, não é ? — ela perguntou olhando para os olhos de Asuka, que agora havia começado uma leve tremedeira em suas pernas, ela queria parar com isso, mas ela tinha que responder, respirando fundo ela tomou a fala.
— Sim, fui eu, naquele dia eu... — ela foi interrompida quando Misato ergueu a mão para fazer ela parar, ela se silenciou.
— Não quero explicações dos seus motivos Asuka, quero apenas que responda minhas perguntas objetivamente, estou clara? — perguntou Misato, colocando as mãos em frente ao rosto.
Asuka assentiu simplesmente, tentando se controlar para não desabar. Sua máscara estava começando a cair. Ela tinha medo de ser afastada dele depois que tudo isso acabasse.
— Todas as marcas de meses atrás, a queimadura no braço dele, quando ele alegou ter se queimado enquanto cozinhava, você jogou água fervida nele, não? — perguntou ela, esperando a resposta.
Asuka sentiu uma fina camada de água se esvair de suas orbes quando ela lembrou do acontecido. Naquele dia ela havia tido um pesadelo com a sua mãe, no corredor em que ela havia cometido suicídio, logo quando ela queria contar a mais velha que ela iria se tornar uma piloto de EVA. Ela não se sentiu bem no dia, e pediu para Shinji fazer algo para ela. Então ele começou a preparar um frango assado e arroz branco com calda e farinha, um dos pratos que ela gostava de comer quando ela era menor, Shinji sempre fazia isso maravilhosamente bem as vezes em que ela pedia, ela nunca agradeceu, mas seu humor estava tão podre, que quando Shinji havia deixado queimar sem querer, ela se irritou com ele, pegou a panela e jogou nele, ele conseguiu desviar, mas o braço ficou enfaixado por umas semanas.
— Sim, eu fiz isso. — ela respondeu depois de refletir esse evento em sua cabeça. — Sinto muito, me desculpe Misato, eu não queria. — novamente foi mandada parar.
— Ainda não mandei você pedir desculpas. — Misato disse friamente, erguendo sua voz uma oitava. — Agora, algo que eu realmente não quero acreditar que você fez, mas preciso ter certeza.
Asuka agora derramava suas lágrimas e fungava alto, grunhindo em uma dor interior, ignorando a voz interior dela que gritava em seus ouvidos para fugir dali e abandonar tudo.
Misato ficou alguns segundos olhando para o nada. Até que se virou para Asuka, uma expressão mais calma dessa vez, como se estivesse se mandando controlar-se.
— Eu notei que havia alguns preservativos na lixeira, uns meses apareciam um ou dois, em outros pareciam ser bem numerosos Asuka. — ela sabia que os dois haviam entrando em uma rotina sexual entre eles, ela podia se importar menos. — Eu preciso perguntar, eu não queria Asuka, não queria...
Asuka queria fugir dali, esconder sua vergonha, se esconder em um lugar e sumir do mundo, queria se matar, mas não podia, ela colocou na sua cabeça que ela iria encarar as consequências de tudo o que havia feito. Senão fizesse isso, não seria digna de estar com Shinji.
— Ele concordou em fazer sexo com você, Asuka? — perguntou a mais velha, dessa vez tendo um foque em seus olhos, o rosto da mais nova, não desviava sua atenção dela, queria sua resposta.
Asuka não sabia como responder isso. O que ela poderia fazer? Mentir, dizer que ele concordou? Não, isso era errado, uma mentira enorme, algo que Shinji não merecia. Ela respirou fundo, e com uma voz quase menor que um sussurro respondeu a mais velha.
— Eu... O forcei a transar comigo...
Misato apertou seus punhos, seu primeiro impulso era de se erguer e pegar a garota pela garganta, matá-la, ver o último suspiro de Asuka Langley e mandá-la para bem longe do menino que ela via como filho, mas ela se controlou, ela não era assim. Misato tomou uma lufada de ar, Asuka podia perceber que ela estava muito, muito irritada e estava tentando o seu melhor para não ir para a ignorância.
— E por que? — questionou Misato, se colocando de pé agora.
Asuka manteve os olhos nela, não desviando, mas tomando o seu tempo para responder. — Eu tinha pesadelos, Misato. — ela começou, trêmula, Misato não se incomodou. — Pesadelos tão reais, tão presentes na minha vida, que parecia que eles estavam ali para me assombrar, pesadelos tão intensos que tudo o que eu queria era morrer, para não ter que reviver as partes mais profundas do meu passado. — ela respirou, ofegante apenas de lembrar disso. — Sonhava com minha mãe, naquele maldito corredor, ela estava ali para mim, com uma corda no pescoço, pendurada no teto, não me deixando sair depois, era assustador para mim, também tinha pesadelos com a série de produção em massa dos EVAS, nos meus sonhos, eles me seguram, eles esmagam meu corpo, depois eu sou colocada na minha EVA, não consigo fazer nada além de sentir novamente, a sensação infernal e desumana, de ter meus órgãos arrancados do meu corpo, a maldita tremedeira quando aquele anjo de merda me fez lembrar de tudo isso. Eu sempre tenho esses sonhos, repetidas vezes... Então...
Ela parou um tempo, Misato a essa altura estava ao seu lado, fazendo com que Asuka a olhasse de cima, a mulher estava a dois passos dela, os punhos apertados.
— Então... Eu queria apenas parar de me sentir como um lixo, eu queria paz Misato... Eu só queria poder afastar todas essas coisas de mim, eu não encontrava maneira ou coragem para pedir ajuda, para nenhum dos meus amigos, não consegui pedir ajuda para Hikari, não consegui pedir ajuda para você, e não consegui aceitar a ajuda e o cuidado de Shinji, eu sempre o afastava de mim quando ele queria apenas me ajudar, eu sempre o machucava quando quem estava precisando de ajuda era eu, eu sempre o empurrei pra longe... Apenas para ir atrás dele em busca de um conforto... — ela podia sentir sua garganta inflamar, era difícil de respirar, era difícil de colocar seus pensamentos em ordem, era tanta coisa que ela manteve em seu peito, que quando ela começou a falar tão abertamente, pela primeira vez em sua vida, ela não conseguiu parar, ela precisava colocar tudo o que sentia a mesa. — Eu entrava no quarto dele. Eu o mandava não gritar, o mandava não falar nada pra você, senão eu o espancaria ainda mais... Era só uma ameaça vazia, eu o machucaria de qualquer forma Misato... — ela sentiu uma forte anciã de vômito em seu ser, mas ela não tinha para colocar fora. — Eu colocava minhas mãos em sua boca, para você não o ouvir enquanto eu estava em cima dele, eu fiz isso Misato... Naquelas vezes, eu só queria me livrar dos meus pesadelos... Não me importando com a pessoa que me ajudava a aliviá-los, mesmo que de uma maneira podre imoral... Eu disse coisas horríveis para ele Misato. E ele nunca argumentou ou gritou contra nada do que eu dissesse, ele simplesmente... Pedia desculpas para mim, por tudo... Uma parte da minha mente, me dizia pra parar com isso, para me entregar aos meus sentimentos e enterrar o meu rancor por ele, um rancor que nunca deveria ter existido, um rancor que Shinji não merecia, eu era burra demais pra pensar nisso... Eu sempre escutei minha mente quando era pra causar dor e sofrimento a ele... Misato, eu descubro agora que eu o amo... Depois de tudo isso, eu o amo, perdidamente, eu só quero... Só quero ficar perto dele... Quero poder abraça-lo, quero poder lhe dar o carinho que ele sempre me deu, mesmo que eu nunca tivesse o agradecido por nada do que ele me fez quando eu sai daquela droga de mar vermelho, eu nunca consegui retribuir nenhum cuidado. Pelo contrário... Eu só o machuquei, todo esse tempo, eu não fui nada além de um monstro.
Ela continuaria, ela com certeza não pararia, ela tinha que se confessar, tinha que dizer seus pecados, aconteça o que acontecesse, ela iria se livrar do seu maldito orgulho. Mas ela não conseguiu. Sentiu um forte soco se conectar com seu rosto. Não, era um tapa, um tapa com toda a força que Misato tinha, ela caiu de sua cadeira, lágrimas ainda escorrendo de seus olhos, ela tentou falar, mas sua garganta ardia tanto que parecia que nenhuma palavra sairia dela depois disso, ela respirou fundo, para se acalmar, ela havia confessado boa parte de tudo o que havia feito, mas não sabia se ela teria coragem de continuar agora. Mas naquele momento, pareceu tão bom... Dizer tudo tão abertamente, parecia tão saudável, não viver em prol de um orgulho de merda.
Quando ela iria se colocar de pé, ela não conseguiu, ela sentiu um peso de um corpo maior sobre seus ombros, ela ouviu um barulho de choro. Um choro quase igual a de uma criança, Misato havia a puxado para um abraço caloroso, um tipo de abraço que ela tinha reservado para Shinji, um abraço de conforto, um abraço que era pra afastar todo o mal. Misato grunhia em seu ouvido, soluçava, ela apertou os seus braços em torno do corpo da menor, Asuka não sabia o que fazer, ela esperava que Misato a batesse, ela merecia, ela esperava qualquer coisa, mas ela não esperava isso.
Hesitante, ela moveu os próprios braços em torno do corpo da mais velha, tentando receber qualquer coisa boa que Misato estivesse disposta a oferecer.
— Me desculpe Asuka... — Misato dizia em seu ouvido, uma parcela de culpa de tudo o que havia acontecido entre os dois jovens, se concebia a ela, a sua irresponsabilidade como guardiã, uma falha como pessoa, ela os deixou sozinhos, ela tinha confiança na força de Asuka, estava errada, a garota havia quebrado depois de tudo o que passou na série EVA e na luta contra o décimo quinto anjo, Misato pensou que ela iria conseguir superar, e tudo ficaria bem, mas não... Era somente uma desculpa dela, ela também era culpada. — Me perdoe também, Asuka. — ela chorava no ouvido da menor, com a voz mais honesta que Asuka havia escutado da mais velha. — Me desculpe por pensar que você não precisava de ajuda, me desculpe por ignorar os seus gritos a noite... Eu sei... Os pesadelos são terríveis, agora eu entendo...
Asuka não conseguiu superar o gemido de dor que escapou dela, era como se seu coração tivesse se aliviado de uma carga de peso muito grande, ela retribuiu o abraço de Misato com toda a força que ela possuía. Ela começou a chorar também, ela começou a chorar alto, ela queria tirar tudo de ruim que havia em sua alma, queria tirar todos os pensamentos ruins que se abrigavam em sua mente, ela queria se ver livre do demônio dentro dela. Queria destruir a parte que havia feito tão mal a uma pessoa que ela sabia que amava agora.
Ela não sabia por quanto tempo ambas ficaram assim, chorando, agarradas uma a outra, tentando se livrar da culpa que residia em ambas, não sabia mesmo. Mas foi tão bom, poder sentir o calor do corpo com outro, era tão bom, a sensação do aperto forte, era algo que elas não queriam perder. Ficaram muito tempo, soluçando, derramando suas lágrimas, tentando se redimir uma com a outra. Ficaram assim até que Asuka sentiu os braços de Misato aliviarem um pouco o aperto. Ela começou a acariciar a cabeça da ruiva. Como uma mãe, Asuka queria começara a chorar de novo.
— Temos muito... O que fazer ainda. — disse Misato lentamente, tentando recuperar a própria postura. — Shinji ainda está muito machucado, ferido, tanto sua mente e quanto o seu corpo, precisavam de cuidado, você entende? — ela pegou no rosto da garota, fazendo uma leve passagem de mão em seu rosto, a alisando. — Meu garoto... Meu pequeno garotinho, eu nunca o vi tão mal Asuka...
A culpa esmagou o coração dela, mas ela não queria interromper a mais velha. Ela sentia que não tinha o direito de fazer isso.
— Preciso que você me prometa Asuka! — ela disse muito séria. — Você nunca mais, em sua vida, nunca mais mesmo vai machucá-lo! Tem que me prometer por si mesma, e pelo bem de Shinji, que você nunca mais vai força-lo a fazer nada que ele não queria fazer. Que nunca mais vai fazê-lo voltar para aquela cama, você consegue prometer isso?
Asuka ouviu tudo atentamente, ela tinha que fazer isso, ela tinha que fazer as coisas bem, tinha que se redimir, e começaria aceitando isso, ela jurou para si mesma, ela nunca mais o machucaria, nunca mais.
— Eu juro! Juro por mim mesma, juro por você, e juro por Shinji! — ela exclamou, as lágrimas corriam. — Eu nunca mais irei machucá-lo, nem fazer nada de ruim para ele.
Misato assentiu, era isso que ela precisava ouvir, ela pegou o telefone. E discou o número de Akagi, ela tentou ser o mais breve possível na ligação. — Akagi, aconteceu algumas coisas, e nós iremos nos atrasar uma hora ou duas, mas iremos ai depois, tudo bem? — ela ouviu a reposta positiva da loira e desligou o telefone, Asuka não havia entendido nada. — Vamos, vamos limpar o quarto dele, tomaremos um banho, e voltaremos para o hospital.
Asuka apenas assentiu, não queria perguntar o motivo, ela apenas aceitou que as coisas com Misato poderiam ser concertadas com seu comprometimento, era melhor deixar assim, ela pegou o balde e Misato pegou uma vassoura e colocou um pano molhado.
Demoraram cerca de uma hora para limpar os cacos de vidro, limpar os lençóis e tirar o colchão da cama de cima, e tirar o futon do quarto, depois limparam o piso e as marcas de sangue que estavam na parede, nenhuma das duas disse nada enquanto isso.
Logo após isso, sentindo que o quarto estava arrumado, ela colocou o colchão de volta e puxou a mais nova para um banho, ambas estavam precisando disso. — Vem garota, não vou ficar te esperando acabar pra mim tomar um banho, vai ser mais rápido assim. — Asuka não argumentou nada contra, apenas tirou a blusa amarela e o short branco, deixando suas sandálias no tapete após a porta do banheiro, Misato havia feito umas modificações no banheiro, era mais espaçoso e a banheira e o chuveiro eram maiores. Misato preparou a água quente enquanto Asuka deixava seus braços cruzados sobre o peito.
— Não precisa ter vergonha do seu corpo Asuka, eu tinha seios parecidos quando eu tinha 16 anos. — disse Misato, nem precisando olhar para Asuka para saber que ela tinha vergonha, bom, ela provavelmente estava olhando para os dela, era normal ela diria. — Pronto, pegue a esponja, vou lavar suas costas primeiro.
A ruiva fez como ordenado, e se sentou no banco. — Eu, só não entendo porque estamos voltando pro hospital agora, aconteceu alguma coisa? — a voz da ruiva demonstrava curiosidade. Ela havia acabado de sair. Mas Misato não lhe contou, ela apenas respondeu que nem mesmo ela sabia, mas Akagi lhe disse que era urgente.
Ambas se arrumaram, o carro de Misato estava estacionado em frente ao prédio, se despediram do pinguim e foram a toda velocidade para o hospital.
— O que será que é tão importante pra Akagi nos chamar quase a meia noite? — perguntou Asuka para a guardiã, ela estava usando uma camiseta branca comprida e uma calça, e o tênis escolar costumeiro. — Será que tem algo com Shinji? Será que ele está bem? Estou ficando preocupada. — Asuka colocou a mão em seu peito, e se Shinji não estivesse melhorando no final das contas? E se tivesse acontecido algo ruim ? Se ele não estivesse mais aceitando os tubos, ou as maquinas deram defeito? Ela não sabia, apenas uma coisa dentro do seu ser lhe alertava que: Ela não queria que nada de ruim acontecesse com ele, nunca mais.
— Também estou preocupada, é por isso que estamos acelerando. — Misato com certeza iria ignorar qualquer lei de trânsito antigamente, mas felizmente, não havia tantos carros como antes.
Não demoraram muito para chegar em frente ao hospital. Asuka apertou os lábios e foi indo na frente, Misato trancou o carro e foi logo atrás, fizeram a checagem do hospital, nesse horário, somente entrava os parentes ou responsáveis por um paciente. Asuka passou pelo hospital como irmã de Shinji.
Quando iam entrar no elevador que os levariam até o último andar, Akagi surgiu na frente de ambas. Impedindo-as de irem adiante.
— Akagi, ai está você. — disse Misato se aproximando, Asuka a olhando séria. — O que houve? Você me ligou de repente e disse que precisava vir para cá.
Akagi suspirou lentamente. — Que bom que vieram, é importante. — ela colocou as mãos nos bolsos de seu jaleco. — É sobre Shinji. — a mera menção do nome do rapaz foi o suficiente para causar uma reação nas duas, algo havia acontecido com ele?
— O que houve com ele? Aconteceu alguma coisa com Shinji? — perguntou Asuka exasperada. Akagi apenas a olhou, isso era preocupação? Misato apenas assentiu quando ela olhou para a amiga.
Ele acordou, mais rápido do que imaginávamos. — disse Akagi, um sorriso alegre se alastrou pelo rosto antes cansado e triste de Asuka, o mesmo para Misato. — Mas, existem algumas complicações no momento, e precisamos conversar sobre o que faremos com ele. — ela começou a andar até o elevador. Asuka voltou a sentir seu coração bater muito rápido? Complicações, o que estava acontecendo?
— Não estou entendendo nada Akagi, me diga o que você sabe! — exigiu Misato, Akagi rolou os olhos para ela, e depois para a mais nova, ambas a encarando com seriedade. — O que está de errado com ele agora?
— Bom Misato, acho que é melhor você perguntar o que não está de errado. — disse Akagi entre dentes. — É um caso grave, ele acordou cerca de duas horas e meia atrás, ele tentou se levantar, a sorte que era o momento em que eu estava verificando-o com as enfermeiras, nos o sedamos novamente, mas antes disso, tentamos nos comunicar com ele, ele não está conseguindo falar no momento, sua garganta parece que foi fechada e precisamos fazer uma cirurgia na região de sua traqueia para retirarmos tudo o que está impedindo ele de falar e de respirar pela boca. — explicou a loira, Asuka sabia o que era isso, ela havia pisado na garganta dele aquele dia. — E curiosamente, ele consegue nos entender, estamos fazer questões de sim e não, ele só consegue piscar o olho para responder. Fizemos uma série de perguntas para ele, e eu resolvi perguntar se ele queria ver alguém. Ele piscou duas vezes dizendo que sim, então resolvi chamar vocês.
Asuka podia sorrir um pouco agora, pelo menos Shinji estava acordado agora, era uma notícia boa. Mas Misato se manteve em silêncio. — Não é só por isso que você nos chamou aqui, você não é sentimental Akagi, diga o que é.
Asuka encarou sua guardiã, esquecendo a alegria por uns instantes e se concentrando na Akagi, até que chegaram no último andar, ambas não esconderam a surpresa quando viram uma dúzia de médicos e enfermeiras indo em direção ao último quarto, o quarto 177 de Shinji.
— Fizemos uma rápida análise nele. — começou Akagi. — Tínhamos noção de que ele havia quebrado uma costela, e tínhamos noção de um pedaço estava muito afastado, indo em seu pulmão, não poderíamos ignorar suas dores e começar um procedimento cirúrgico porque ele simplesmente não aguentaria o processo, ou melhor, o seu corpo não aguentaria o processo cirúrgico e ele provavelmente... Morreria. — palavras que doeram no fundo da alma de Asuka, ela queria correr dali e ir vê-lo, precisava estar do lado dele nesse momento, precisava estar com ele. Mas ela tratou de ouvir até o fim. — Mas depois dessa última análise, descobrimos que simplesmente não podemos esperar um mês até ele ficar um estado um pouco melhor para iniciar um processo de cirurgia, então, tomei a liberdade de preparar umas coisas, e só irei fazer isso se eu tiver sua autorização.
Ela puxou uma folha de seu bolso, muito dobrada, Misato a pegou e começou a ler junto com Asuka. Os olhos de Misato começaram a perder o brilho, Asuka havia saído do elevador, estava olhando os médicos e enfermeiras passarem e entrarem na porta, ela ainda não havia conseguido observar Shinji, não havia conseguido encontrá-lo ainda, havia muitas pessoas na frente da porta e no vidro.
Misato terminou de ler. E entregou a folha para ela, puxando Asuka para perto. — Se eu concordar com isso, Shinji, ficará bem? — Asuka não estava entendendo. Mas Akagi a chamou.
— Estamos discutindo a melhor maneira de operar Shinji, Asuka. — começou a loira. — E a única solução viável, pode ser muito perigosa, mas são as únicas chances viáveis.
Ela só queria entender. — Por favor, me explique, o que está acontecendo com Shinji? — perguntou Asuka preocupada até a morte.
— Não podemos retirar os detritos da costela quebrada que está nele agora, é simplesmente impossível no momento, para fazermos isso com sucesso, teríamos que esperar um mês para que seu corpo estivesse melhor, estamos usando um tratamento que descobrimos um pouco tempo atrás estuando o oitavo anjo, o mesmo anjo que havia capturado Shinji no passado, descobrimos propriedades medicinais no tecido dele, propriedades muito boas, e pretendemos fazer um tratamento intensivo usando esse novo conhecimento. — explicou a loira. — O que estou querendo dizer, é que usaremos um pedaço de anjo, para tratarmos a ferida dele, o mais rápido possível. Não podemos esperar um mês, eles simplesmente não irá aguentar um mês, todo seu sistema respiratório está interditado, ou pelo menos grande maioria, é por isso que estou pedindo para você assinar isso. — uma enfermeira entregou a mulher uma prancheta, com um contrato embutido. — Se não tentarmos isso, Shinji não vai conseguir respirar eventualmente, mesmo com todos os tubos, ele ainda fadiga e falha.
Asuka queria se encolher, se sentia medíocre, mas o abraço de Misato a impediu de colapsar ali mesmo, a mais velha a manteve perto de seu abraço carinhoso. Akagi esperava sua resposta.
— Eu só quero que meu filho fique vivo, eu só quero meu menino de volta pras nossas vidas. — disse Misato honestamente, Akagi apertou os olhos, nunca havia visto um pedido tão sincero da amiga, o garoto significava muito pra ela, ela suspirou.
— Eu sei que o menino é importante pra você, Misato. — disse Akagi, estendendo a prancheta. — Então, você precisa assinar. Nesse exato momento, ele está lutando para respirar, e não podemos ajudá-lo a melhorar isso, estamos apenas... Prolongando seu tempo, em palavras curtas e frias.
Misato não demorou mais nenhum segundo, ela assinou e entregou para amiga. — Salve meu filho, Akagi, eu te imploro...
Akagi tomou a folha, e olhou nos olhos da amiga, nunca falou tão séria em sua vida, nem para Gendo ela usou esse tom, era um tom firme, um tom confiante, um tom que iria garantir qualquer coisa. — Eu prometo Misa, ele ficará bem.
Asuka só podia tentar se manter firme... Ela havia causado isso tudo. O que ela podia fazer além de rezar e esperar pelo melhor? Não sabia, quando ambas estavam indo embora, pois achavam que esse era o motivo da chamada, Akagi as chamou novamente.
— Vamos ao quarto dele... Acredito que Shinji, queria dar uma última olhada em vocês, antes da cirurgia. — a loira explicou.
Ambas ficaram estáticas alguns segundos, não sabiam o que sentir, elas apenas concordam, os médicos deram passagem para ambas, e deram toda a privacidade possível quando entraram na porta. Havia poucos médicos na sala, e todos estavam tampando a visão de Shinji.
Asuka se aproximou da cama, fazendo volta em uma enfermeira que estava observando uma das máquinas ligadas a ele.
Asuka podia seu coração ser esmagado brutalmente. Era culpa dela, era tudo culpa dela. Shinji era apenas uma casca do que já havia sido um dia, e a culpa era dela, e somente dela. Ela apenas tentou sorrir o melhor que pôde, quando observou apenas um olho aberto, a observando, com uma expressão cansada, claramente cansada.
Ela sentiu seus olhos arderem e sua voz começou a falhar. Mas ela não recuaria.
— Oi Shinji... — ela começou. — Consegue me... Ouvir?
Shinji piscou duas vezes, por um segundo, um segundo miserável de sua maldita vida de merda, ela jurou, por tudo que era mais sagrado, ela pensou ter visto um pequeno sorriso surgir no rosto pálido dele.
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