Devido à hora em que fomos dormir, os dois decidiram ir até o shopping na parte da tarde. Haviam pessoas e mais pessoas naquele lugar, sentia que estava em um mar caótico de desespero por comprar e comprar e comprar.

Todas as luzes natalinas e os tons respectivas do vermelho começavam a me frustrar. Tinha vida demais naquele lugar.

— Vamos nas lojas de cima ver uma roupa pra ela primeiro. — Sugeriu Roberto, animado com o nosso “passeio”.

— Não preciso de roupas. Gosto de usar as suas camisas. — Assumi, encolhendo-me em seu agasalho emprestado. Jamais diria o motivo: tem o cheiro dele.

— Não, ele tem razão. Você precisa de roupas. — Zion interveio, me fazendo olhá-lo de baixo. Não queria que gastassem um único centavo comigo, eu não merecia, não merecia eles.

— Não precisa. É sério. — Ser teimosa era uma característica da qual não me orgulhava, mas vinha bem nessas situações como se me desafogasse do compromisso de aceitar qualquer coisa por educação.

— Não perguntamos se precisa. Se não vier com a gente, traremos qualquer coisa e vai ter que usar. — Provocou Roberto. — Vou pegar umas cores bem gritantes.

Senti que eu era só mais um peso pra eles, um tipo nojento de responsabilidade.

— Ei — O timbre do Zion me chamou atenção, soando como um leve cochicho. — Não fica pensando muito nisso, tenho dinheiro suficiente pra te dar uma vida melhor, comprar roupas não vai ser problema.

Aquelas palavras me reconfortaram de formas inimagináveis. A primeira coisa em que pensei: ele manteria sua promessa. A segunda: queria minha presença em sua vida. A terceira: por que caralho esse coração tá batendo tanto? Se comporta, merda!

Ele só queria me ajudar por causa do meu irmão. Não tem nada além disso. Se tivesse, eu saberia.

Andamos pelo shopping juntos. Aqueles dois idiotas me mantinham no meio como um muro, evitando estarem próximos, me colocando na situação de intermediária da estranha briga que tinham.

Entramos em poucas lojas. Zion e eu observamos algumas peças enquanto o Roberto misturava amontoados de roupas no braço. Tudo era tão chique... Todos estavam tão animados... O que tinha de tão bom no natal?

— O que o Roberto tá fazendo? — Perguntei em baixo tom, curiosa.

— Pelo jeito que tá agindo, parece que quer tirar todas as peças que você possa gostar da loja pra que continue usando as roupas dele. — Zion respondeu com certo desgosto, porém, por baixo de uma suposta raiva, enxerguei diversão. A diversão que o Roberto carregava pra todo lugar que estivesse.

— Não acredito. — Ri, aproveitando a cena.

— Que idiota. — Zion murmurou, contendo a risada.

Passamos algum tempo observando o Roberto esconder as roupas, mas logo uma das atendentes o interrompeu, furiosa com a desarrumação que provocou.

— Corre! — Roberto tomou minha mão, me arrastando pra fora da loja. De relance, vi o Zion encarando a atendente, perplexo com a atitude do loiro.

— Tá maluco? — Perguntei ofegante enquanto o acompanhava, não soltei sua mão durante a corrida.

Quando ele se virou pra me responder, senti todas as nuvens pesadas abrirem passagem em meu peito. A única coisa que pude enxergar naquele instante foi seu sorriso, o jeito ácido que puxava pra esquerda e a alegria estampada em seus olhos.

— Só queria te roubar um pouco. Zion vai me matar pela distração. — Assumiu, risonho.

— Você fez de propósito? — Perguntei, aturdida. Cessei o correr e encarei ele com julgamento. Estávamos bem distantes da loja, em um dos muitos corredores daquele lugar imenso.

O cenário repleto de cor, vida e nuances de vermelho e verde destacavam os fios loiros de seu cabelo, que contrastavam também com seus olhos cinzas. As pessoas por trás de seu sorriso desapareciam, apagadas por sua presença.

— Aqui. — Não reparei em uma sacola que carregava e, quando me entregou, não contive o riso amargo da sua brincadeira infantil. — Paguei por isso, não se preocupa.

Abri a sacola com a curiosidade aflorando por cada centímetro da minha mão. Não fazia ideia da cara que estava fazendo, mas quando percebi do que se tratava me entreguei completamente ao sorriso que vesti.

— Tive que garantir que o Zion não iria encontrar algo tão “você” antes de mim. Só que isso também é bastante “eu”. — Ele observava com dedicação a minha reação, mas pelo semblante despreocupado percebi não aguardava nada espalhafatoso da minha parte. Senti que me conhecia melhor do que pensei.

A blusa que havia me dado era de manga longa, no centro do peito, bem próxima do coração, uma palavra escrita:broken.

— O que isso significa? — Perguntei. Mesmo que o estilo fosse justamente certeiro, algo naquela palavra solta me intrigou. Diferente dos óbvios que a vida pudesse trazer, ele jamais foi um deles.

— Tem uma música que gosto muito. Mesmo que a letra seja um pouco enigmática, consegui tirar a essência que me permitiu enxergar meu eu com mais humanidade. Todos temos partes quebradas, pra preencher esse vazio que provocam precisamos substituir as peças. Às vezes, perdemos essa essência humana pra insanidade do mundo, entretanto saber que máquinas não sangram torna nítido que somos seres vivos, que sangramos, e é nos outros corações humanos que encontramos a solução. Não importa se tá quebrado, sempre haverá alguém disposto a realocar suas peças até te montar de novo.

Entendia as palavras dele. Eu estava quebrada e com partes demais pra colar. Roberto parecia compreender meu âmago como ninguém, mas mesmo assim existiam partes de mim que fugiam do meu controle e uma delas...

— Seu filho da puta! Da próxima vez que fizer qualquer gracinha vou garantir que nunca mais dê esse sorriso idiota! — Zion se juntou a nós, sua face estava suada e a voz ofegante, no entanto, mesmo com as atitudes questionáveis do Roberto, ele estava feliz. Por baixo de toda aquela pose de raiva ele sorria.

Uma dessas partes era o Zion.