Manchas no Natal
10 Capítulo 9
Notas iniciais

Horas depois a noite já cobria os céus. Debaixo do teto da casa dos Rissi nós montávamos a decoração de Natal. Não houve época em que gostei dessas arraigadas, porém, nesse ano, existia esperança no meu coração.
— Essas luzes são irritantes! — Nay resmungou enquanto tirava o pisca-pisca da caixa. A observei com lenidade sentada no tapete da sala, a maneira desastrosa com a qual manejava a decoração e o ar maldoso diante de tanta vida. A árvore-de-natal exagerada que o loiro convencido comprou contrastava perfeitamente com a malícia dela.
Ela se destacava, como se trouxesse o halloween pro natal.
— A baixinha parece que tá perdendo a guerra. — Roberto murmurou próximo a mim, me fazendo olhá-lo de soslaio. Aquele imbecil tava sorrindo como nunca. E talvez eu também estivesse. — Minha imperatriz do mal, não precisa maltratar tanto o pisca-pisca.
O loiro passou por mim, carregando uma caixa cheia de outras irritantes e coloridas, em demasia, decorações. Largando a caixa no chão e se ajoelhou próximo a Nay, calmamente libertava os pequenos braços presos nas luzes, o sorriso que demonstrava traduzia não só o seu cuidado, mas o desejo irritante de estar próximo a ela.
E isso não me irritava de verdade.
Se me perguntassem em quem confiaria a segurança dela, além de mim, essa pessoa seria Roberto Rissi.
Roberto possuía uma peculiaridade quando o assunto era a Nay. Vê-los juntos me fazia feliz, só que não era definitivo. A felicidade era envelopada em receios, medos, remorsos e arrependimentos, como se eu não pertencesse a esse mundo em que estava.
E não pertencia.
Tive medo de destruir.
Destruir os dois.
Diante da data, aos pés deles, senti que jamais poderia me entregar por inteiro a ela. Não como Roberto fazia.
Em questão de minutos, aquele lugar vazio e sem sentido no qual o loiro morava ganhava, além de tons vivos, o nome de lar.
— Idiota! — Nay gritou. Suas mãos estavam presas junto as do Roberto, ambas atadas pelo pisca-pisca.
Poderia ter rido, mas...
O barulho que sucedeu me fez emergir de qualquer pensamento amargo. A árvore grande de natal que estava próxima a eles balançou e balançou e balançou. A visão da cena era cômica, desesperadora e...
— Abaixa! — Roberto cobriu a Nay com o próprio corpo, impedindo que o impacto a atingisse.
Não atingiria. Nenhum deles. Não.
Eu não deixaria.
Nada machucaria aqueles dois idiotas. E se não estar aqui fosse a condição... Por mim, estaria tudo bem.
Consegui jogar meu corpo à frente e impedir a árvore de cair, uma de suas folhas de plástico esbarrava nos fios loiros do Roberto, o qual se manteve a abraçar a Nay.
Aquilo doía.
Meu sangue escorria lentamente pelo braço. Em que momento havia me ferido? Por que senti, naquele ato, que estava disposto a me ferir por eles? Por quê?
Todas as decorações caíram sobre nós, quando a ergui novamente, vi Nay sorrindo. O Roberto estava sorrindo. Talvez eu estivesse sorrindo, de novo.
— Acho que o natal tentou nos matar. — Comentou ela. — Vamos cuidar disso aí. — Meneou a cabeça na direção do meu ferimento, seus olhos repletos de preocupação e culpa.
Os dois me olharam, felizes.
— É, herói, salvou o nosso natal. — Roberto me parabenizou com um “joinha”, tão irritante quanto seu sorriso petulante. — Pode dar só mais uma mãozinha aqui? É tentador ficar enrolado com ela, mas tá começando a me dar câimbra.
Existia alguma maneira de ficar? Meu coração se atrelou a cada segundo, por uma irritante fagulha pertenci a eles.
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