Manchas no Natal
5 Capítulo 4

O tempo ao lado dela parecia apressado.
Enquanto Nay se espreguiçava sobre o balcão da cozinha, admirando com olhos curiosos e repletos de sede todo o espaço ao nosso redor, continuei a preparar uma refeição especial. É o famoso ditado da sociedade moderna: ganhe a garota pela barriga.
— Por que tá sozinho? — Senti os olhos apagados devorarem minhas costas enquanto cortava alguns legumes.
— O que você acha? — Virei o rosto suavemente em sua direção, fitando o semblante cansado e sonolento que insistia em se esconder no meio do meu agasalho. Pensar que estava com meu cheiro por seu corpo me excitava, aquele olhar apático pelo qual meu coração queimava em paixão. — Ainda tá com frio? Quer uma coberta?
— Não, tá tudo bem. Sua roupa é bem quente. — Precisei de coragem pra tirar meus olhos dela. Permiti que apenas meus ouvidos e imaginação seguissem aquela conversa. Nada seria mais gratificante do que vê-la comer algo que preparei. — Posso responder sem medo de te magoar?
— As palavras não são tão fortes pra mim. Gostaria de te ver tentar me magoar. — Meu coração não era tão forte quanto gostava de assumir. Quanto mais alto, maior o tombo. Quanto mais forte, maior a pancada. Quanto mais resiliente, maior o temporal. E dentro do meu peito choviam águas tão ácidas quanto meu humor.
Meu maior problema sempre foi permitir que a podridão do mundo me batesse com força.
Apanhar. Revidar. Esse era meu vício.
Apanhar.
Revidar.
Revidar.
— Teu pai é um babaca, né? — O timbre ríspido me lia vagarosamente, permitindo que analisasse algum resquício de comportamento que pudesse ocasionar, no entanto, não daria isso a ela. — Deve tá aliviado por não ter que suportar ele no natal.
Eu gargalhei.
— Se me importasse com a atenção do meu pai você teria me magoado profundamente. — Jamais perderia a oportunidade de ver a Nay argumentando.
— Mas não liga. E parece que seu papaizinho também tá cagando pra você. — De relance, ouvi ela se levantar e caminhar em silêncio até mim. Nay me encarou cortar os alimentos, receosa quanto às próximas palavras.
— Seria grosseiro perguntar por que disse isso? — Reparei em sua boca sorridente pelo canto dos olhos. Os lábios finos molhados me desconcentravam.
— Tá de putaria com a minha cara? Roberto, não tem um mísero pisca-pisca nessa casa! — Aquelas palavras me cortaram. Larguei a faca sobre a bancada e direcionei minha atenção exclusivamente a ela.
— Amanhã nós dois vamos até o shopping e vamos encher essa porra de sala vazia com decorações de natal, tão coloridas que te farão vomitar arco íris por dias!
— Do que tá falando, idiota? — A voz dela me fez rir. Seus olhos cravavam em minhas íris enquanto minha mente traiçoeira me dizia para lhe beijar.
— Você não é a única a fazer observações óbvias. — A diferença de altura entre nós era pouca, mas suficiente pra que ela erguesse o queixo na minha direção. Dei um passo à frente no desespero de tê-la mais próxima do meu coração. — Fica comigo esse final de semana. Sei que não quer voltar pra casa.
— P-por que eu faria isso? — Ela se manteve firme, mas sua voz hesitou por um breve momento. Hesitar diante de alguém imposto é, de diversas formas, uma fraqueza que permite lhe explorar cada insegurança. Não falhe essa voz na minha presença, Nay.
— Isso é um sequestro, não vou te levar de volta até o natal acabar. — Deixei minha mão acariciar sua nuca, expressar a ela o que nutria em meu peito seria avassalador, no entanto, ,na presença de seus olhos mórbidos, meu coração gritava com veemência que existia algo tão belo quanto a vida.
Os lábios finos se abriram pra me responder, mas uma curva, mas uma maldita curva, impediu que continuasse.
— Tá com cheiro de queimado... — Nay balbuciou. Arregalei os olhos. — Idiota! A panela! — Gritou.
Fui rápido em tirar a panela do cooktop e conferir se havia queimado algo, por fim desligando o gás. Resmunguei baixinho enquanto um pouco da fumaça escapava.
— Merda! — Gritei.
Nay começou a rir.
Uma risada que me fez perceber o quanto queria incendiar o mundo se isso a fizesse feliz.
— Por que tá rindo, palhaça? — Deixei que minha felicidade por estar em sua companhia dominasse. Minha chuva interna me transbordava e, pela primeira vez, o cinza não era um incômodo.
— Você é um desastre. — Ela respondeu.
— Tu tá me distraindo, é difícil prestar atenção na porra do fogão.
— Deixa que te ajudo. — A mão pequena encostou na minha, tirando o cabo da panela dos meus dedos. — Melhor do que te assistir incendiar a casa inteira.
— Se pôr fogo comigo, não vai precisar assistir.
Ela sorriu mais uma vez. Se continuasse sorrindo com tanta naturalidade não conseguiria me impedir de a beijar.
— Tudo bem. — Seu timbre me lembrou de que não poderia. Diferente do carnal, meu âmago pedia que Nay me completasse não por uma noite, mas pelo quanto julgasse necessário saciar meu desejo.
Merda de obsessão.
— Tudo bem o que? — Insisti.
— Quero passar o natal com você.
Sabe a solidão? Aquela mesmo. A que estava no meu peito durante toda a porra da vida? Se desmanchou, como se feita em aquarela e banhada por toda a persistente torrente que me recaía. Diversas manchas surgiam em meu peito, tão coloridas quanto as cores dela.
Aquele momento foi mágico, mas também desapareceu em instantes. Um ruído surgiu na porta principal, poucos metros da cozinha. Nay se recolheu atrás de mim. Senti uma onda de ansiedade me invadir e a olhei, receoso.
— Fica escondida, vou checar. — Ela anuiu, se afastando.
O destino tem maneiras estranhas de nos levar a alguém importante. Todas as suas tentativas podem passar batidas se fecharmos os olhos e não permitirmos que nos acessem. Sim, nos acessem. Somos, na arrasadora maioria da existência, inacessíveis. São poucos os que permitimos se aventurarem por nosso “Eu”.
Essas experiências que o destino prepara são resquícios da vida proposta em nosso intrínseco viver. A consciência é uma sentença dolorosa, no entanto, a solidão do pensar é a parte boa da solitude e, como tudo na vida, possui um limite. Suportar, mediante a ébria solidão, se resume a decair, e para permitir que a vida seja elucidada das sombras do nosso âmago, somos destinados a encontrar — os pedaços fora do peito que faltam — nos outros o nosso “Eu”.
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