O carro do Roberto não me deixava desconfortável, mas era tão... moderno? O fato de ser rico nunca me incomodou antes, mas comecei a sentir que era uma sem teto resgatada por piedade. Não que minha condição criasse margem pra recusar sua ajuda, deveria ter agradecido desde o início pelo que fez, mas algo dentro de mim indicava a gratidão como uma fraqueza. Agradecer a ele poderia criar uma deixa pra que entendesse errado. Se ele entender errado não terá muito que o impeça de me violar. Mais uma vez me via na deplorável situação da pena misturada com o terror. Não o julgava como ruim, estranhamente queria estar próxima a ele, mas meu coração perturbado só queria que Zion tivesse respondido à mensagem... Eu deveria ter ligado? Não, jamais o acordaria com algo assim, não é culpa dele que eu seja desgraçada todas às vezes que meu irmão se aventurava nas drogas.

Ignorei completamente o silêncio que reinou dentro do veículo. A roupa do loirinho se assemelhava a um abraço, estava quentinha e com o cheiro do perfume que usava, seria errado permitir que me aconchegasse sem culpa em seu agasalho? Seria, sempre é. Eles sempre vão embora.

Fechei os olhos com força. Todo o frio exterior e as horas perdidas de sono, não só de hoje, mas de todos os dias, começavam a se materializar no meu corpo. Senti uma pontada covarde de ansiedade me elucidar. Logo desisti de suportar sozinha aquela tortura viciante que me engolia.

Estava ficando insuportável me destruir.

Desbloqueei o celular velho e abri a conversa com o Zion mais uma vez. Perdi as contas de quantas vezes havia feito aquilo. Meu coração implorava pra que ele aparecesse e dissesse que tudo iria ficar bem, assim como sempre fez.

Ele prometeu que iria me tirar de casa quando terminasse o ensino médio, mas por que tá demorando tanto? Já faz dias desde que me formei. Sempre sinto que ele esconde algo, e algo muito grande.

Parece fazer incontáveis anos que estou na mesma porra de semana.

Concentrei minha mente nas mensagens com o maldito cheiro do Roberto invadindo meu âmago caótico.

“Tá acordado?

meu irmão tá aq

vc pode me buscar?”

Aquela mensagem foi enviada uma hora da manhã. Por que o Zion não me respondeu? Ele sempre responde.

Por que ainda não aprendi? Todo mundo se cansa de você, Nay.

Sou sufocante. Tóxica. Ninguém quer ser responsável por um lixo problemático e chorão.

Minha alma acompanhava a velocidade do carro do loirinho, rápida, com sede de paz, resmungando a cada acelerada que a vida provocava. As luzes vermelhas do semáforo eram ignoradas por ele.

Me comparei àquelas luzes. Roberto era, de uma maneira estranha, ousado o suficiente pra ultrapassar todos os limites que eu impunha.

Por que o idiota do Zion não... Chega.

Não quero mais pensar que ele cansou de mim.

Tava doendo de novo. Esse sentimento nojento tava causando dor. Uma dor amarga demais pra engolir. Meu estômago se revirou. Papai estava certo em deixar o desgraçado do Jack cuidar de mim, por que perderia tempo com uma merda como eu? Era óbvio que sabia o que ele me causava e em nada mudava minha vida. Talvez fosse melhor fugir de casa pra sempre. Foda-se o ensino médio. Foda-se o Zion, por quê?

Poderia só fingir que não estou aqui, mas o cheiro do Roberto tá me ancorando nessa realidade de bosta.

— Sei que tá pensando alguma besteira grave nessa cabeça teimosa — O timbre resguardado e grave me impediu de tentar mais uma vez fugir da vida. Esse era um talento que tinha que causava ódio. Um ódio bom. A vida era mais leve quando ele tava presente. — é tão ruim assim aceitar ajuda?

— Sim. — Respondi com a menor acidez possível, o que não soou tão agradável quanto gostaria.

Voltei a observar o exterior. Mesmo de madrugada a cidade estava iluminada, o caminho pra casa do Roberto era envolto em luzes coloridas das decorações de natal, cada uma posta sem compromisso, trazendo a sensação de aconchego e cor, muitas cores, algumas fugazes como meus sentimentos, outras permanentes como minhas cicatrizes, as restantes queimadas como minhas esperanças. Mais um fodido natal e a pobre e indefesa garotinha continuava a suportar o que quer que o mundo resolvesse lhe oferecer, desde desgraças frescas a alegrias falsas.

Por que essa época tão alegre e cheia de cor me remetia sempre ao cinza?

O bairro do Roberto era tão... chique.

Encarei os fios loiros desarrumados com curiosidade. Ele tinha sorte, disso não restavam dúvidas, mas não permitiria que a inveja tomasse meus pensamentos, ter inveja dele seria como puni-lo pelo que tem e isso é tão repugnante quanto a maldita pena que tanto odeio.

Tentei amarrar o estresse com cabos de aço, mas a cada solavanco do motor meus braços cediam ao abandono e desespero. Poderia ter me entregado de bandeja a todos os meus demônios, mas diante do cheiro do loirinho, do calor e do sentimento conflituoso que aflorava no meu peito todos os dias, Roberto fez uma pergunta.

Uma pergunta que, antes mesmo de sair, temia sua intenção. Todos os porquês que pareciam ricochetear em seu âmago não mostraram suas faces, e eu esperava que saíssem, famintos pela resposta. A minha maldita verdade de merda. Ele não... perguntou...

— E aí, com fome? — Talvez meus olhos tivessem ganhado um tom a mais de verde, largando o cinza persistente do mundo de lado. O sorriso dele puxava pra esquerda em um charme provocante, era um contexto perfeito de sua personalidade, como se o responsável por sua composição pincelasse cada detalhe com a precisão de um cirurgião enquanto um metal pesado tocava ao fundo. Tão pesado quanto o que ele parecia esconder. Ou apenas deixei levar pela influência da certeza de algo ruim sair de toda a sua energia confortante.

Balancei a cabeça com um “sim” sorridente, mas um sorriso frouxo que jamais chegaria à altura do dele. Fiquei tentada a desbloquear o celular mais uma vez, mas perdi a coragem. Não tive força por não ter uma resposta. Era exigente demais pedir pra que me salvasse mais uma vez, Zion? Você sempre me salvou de todos, até de mim mesma.

— Se você continuar com essa carinha emburrada vou me sentir ofendido. — Mais uma vez o timbre do loiro me puxava com violência pra realidade. Sempre que o Roberto abria a boca, minha mente cansada se lembrava de que o presente é o único tempo que existe.

O portão automático deu passagem garagem adentro. O carro parou, mas a voz dele não cessou. Mal reparei onde estávamos, apenas me deixei levar por sua voz descontraída.

— Tudo bem, obrigada por... — Cacete, agradecer é mais difícil do que imaginei. Quando havia sido a última vez que agradeci? Zion... Nunca te agradeci. Merda. — Por me desobedecer.

Puta merda, se eu não estivesse lá poderia jurar que se arrepende de eu ter te ajudado. — Roberto deixou a mão cair sobre a minha cabeça. Seu maldito cheiro em cada centímetro da minha pele descoberta. — Vamos, vou preparar alguma coisa pra você comer.

Observei seus olhos por alguns segundos antes que tomasse a iniciativa de quebrar o impasse que travamos. Os cinzas de suas íris eram diferentes dos tons que estava acostumada a conviver. O tom dele era vivo. O meu era morto.

— Sempre encara seus sequestradores com esse olhar de pena? Não é como se fosse me arrepender de arrastar você pra cá. — Ele resmungou enquanto dava a volta no veículo. Gostaria de pedir que não calasse a boca, que continuasse a falar e falar e falar até eu dormir. Provavelmente minha solidão estava de folga hoje, ou apenas adormecida como o restante da cidade.

Quando ele abriu a porta do carro meu coração parou.

— Tá descalça? Caralho, Nay. Acho que tu foi assaltada antes de chegar na praça. — Gargalhou baixinho enquanto tentava conter a graça por seus lábios sarcásticos. A acidez dele era diferente da minha. De alguma maneira que não compreendia, sempre me deixei corroer por ele.

Minha boca se curvou em um outro riso, respondendo inconscientemente ao dele. Contagiante, ele era contagiante. Uma doença que me deitava em seus maus lençóis.

— Não vou te deixar pisar nesse chão gelado.

Não tive tempo de reagir. Roberto abraçou meu tronco e me tirou do carro com uma força digna de elogios, não que eu fosse lá muito pesada. Soquei suas costas e me remexi em protesto, pedindo a todos os deuses do mundo que não o deixassem me soltar, por mais que minha mente traiçoeira me fizesse agir em contrapartida.

— Me solta, idiota! Não tô sem as pernas. Isso é ridículo. — Por que pedi aquilo? Não queria que soltasse de verdade, mas por que era tão difícil dizer a verdade?

— Para de mentir, baixinha. — O frio logo se fez tão presente quanto o calor dele. O som do carro trancando ecoou.

A casa dele era grande, formas geométricas retas e angulares, vidros e mais vidros pela fachada, um revestimento 3d brega, mas que casava perfeitamente com a tinta branco-acinzentada. A garagem possuía um jardim de fachada curto, o caminho traçado por pedras e vegetações na lateral esquerda, enquanto a direita mostrava um muro interrompendo a composição.

— Mentir? Não tô mentindo! — Deixei que as palavras escapassem enquanto admirava tudo ao nosso redor. Por mais que fosse tão linda, a casa do Roberto parecia uma... gaiola? Por que muros tão definitivos?

— Claro que tá! Você tá sorrindo! — Roberto virou o rosto, sua face a centímetros da minha. Tive vergonha de que reparasse no meu semblante fracassado e cansado. Diferente de sua vitalidade, meu aspecto mórbido era angustiante. Beleza não era uma característica de alguém como eu. Encarei o chão. Jamais seus olhos. Se continuasse a olhar poderia corromper seu cinza com a minha sujeira rotineira. Estragar o Roberto...? Como poderia?

— Lembrei de uma coisa. — Minha cara deveria queimar diante de tantas mentiras.

— Por isso tava rindo? — Roberto insistiu. Como aquela praga era teimosa.

— De mau gosto. — Comentei na tentativa de fazer ele esquecer, mas logo percebi meu erro: apagar fogo com gasolina.

— Adoro piadas de humor negro. Pode me contar todas que tiver nessa cachola maldosa. — Aquele maldito sorriso continuava a me incomodar. Por que ele parecia tão interessado no meu pior lado? O que há de tão belo no pior que lhe atraía?

Desde sempre pareceu ver beleza no meu caos, como se fosse tão mágico quanto contos de fadas. A beleza da minha feiura era tão diferente? Ou era apenas diferente? Ele gostava do diferente ao ponto de se iludir comigo?

— Por que você me mandou mensagem? — Direta e reta, como sempre fui. Meu peito martelava a ansiedade de sua resposta.

— Tava pensando em você. Não imaginei que fosse me responder na hora.

— Tem certeza de que não é um problema eu ficar por aqui? — Se ele dissesse não, com que cara iria ficar? Tava longe demais de qualquer lugar que conhecesse.

— Se quiser voltar pra sua casa, te levo. Mas posso te persuadir a ficar se disser que cozinho bem? — A comida dele? Será que era tão boa quanto seu perfume?

— Não sou um animal pra você atrair com comida. — Mas estava com fome. Minha última refeição havia sido a horas, além da maldosa ansiedade revirando meu estômago. — Sua comida deve ser uma lavagem.

— E você, porquinha, vai comer de lamber o prato! — Assim que seu timbre permitiu aquelas palavras escaparem, imaginei seu sorriso.

Esse sentimento no peito era diferente de muitos outros que experimentei. Seria desastroso me entregar a esse encontro que o destino nos proporcionou?

Diferente de baratas na mochila e brigas pela instituição de São Carlo, agora tínhamos algo em comum: a solidão.

Minha solidão poderia acompanhar a dele? Solidão com solidão resulta em companhia? Ou em uma solidão em dobro? Ou quem sabe ao quadrado?

— Obrigada. — Agradeci.

— Não ouvi. — Roberto provocou. Estava próxima do ouvido dele, era impossível, mas mesmo assim resolvi descarregar todos os meus anseios em um grande e espalhafatoso...

— Obrigada! — Berrei com todas as minhas forças, torcendo pro estrago ser tão grande quanto o que existia no meu peito.

— Você me faz sair de casa de madrugada, me obriga a te carregar e te alimentar e agora resolveu acordar meus vizinhos? Meu presente de natal veio mais cedo esse ano. — Naquele momento não sabia mais qual risada era qual.

Meu riso entonava com a sua gargalhada petulante. Senti que, naquele ato, encaixávamos nossas partes quebradas na tentativa esperançosa de completar um ao outro, mesmo que por um momento...

Por um pequeno e restaurador momento...

Mas eu tinha cacos demais sobrando. Quanto tempo levaria pra colar cada um?