Notas iniciais
Esse agradecimento é em especial a minha Vampirinha, Mandy, e ao Leitor de uma autora só, coxinha ♥ (agora já era, cê sabe) . . . Fico imensamente feliz por cada visualização nesse conto! . . Paylist: https://open.spotify.com/playlist/2KRMLxPjClmD8Lbodz92Vw?si=9ae740e670a54d23

Por um instante tão miserável quanto a minha existência senti uma incoerente vontade de abraçar o Roberto. Acompanhei com o olhar quando se afastou casa adentro e retornou com um revólver. O barulho que sucedeu a arma engatilhada fez um arrepio covarde percorrer meu corpo.

Desbloqueei meu celular rapidamente, Zion ainda não havia me respondido. Algo tão ruim quanto o medo que escondia sob a carne surgiu do externo. Naquele lugar estranho, com alguém que não conhecia tão bem, tive medo de perder o pouco que tinha.

O loiro me encarou uma última vez antes de seguir, seu sorriso não esteve presente naquele momento e me incomodou mais do que gostaria.

Os minutos tão cruéis se esvaíram. Roberto já não estava mais comigo. Tinha todos os cantos do recinto pra me distrair, mas nada se fazia tão definitivo quanto o humor dele. Além da estranha sensação de proteção que sua presença trazia, seu cheiro impregnado em meu corpo atava minhas mãos de lhe esquecer por qualquer milésimo de segundo que respirasse.

A sensação de solidão se intensificava conforme o silêncio se fazia dominante. Aquele ambiente, vazio de qualquer emoção, trouxe à tona o estranho sentimento de vácuo que meu peito ignorava, aquele que buscava em mim algo a mais do que a carne e o sangue.

Eu preferia o silêncio do que o barulho caótico que surgiu na entrada da residência. Meu coração pulou, drástico, quando os sons de queda sucederam a ausência de ação. Meus pés se moveram convictos de que poderia fazer algo por ele. Estar de olhos fechados pro mundo nunca fez o meu estilo. Sempre tive preferência pelo conhecimento, por mais aleatório que fosse, podendo seguir desde o desabrochar de uma rosa até o processo de decomposição de um cadáver.

Tive atenção a cada passo, cautelosa quanto a situação que se desenvolvia. Um cheiro familiar me invadiu. Uma mistura de ferro e perfume masculino. Atrás da parede que dividia o cômodo da sala e da cozinha, testemunhei Roberto em um impasse com uma outra figura, essa coberta pelo preto de suas roupas e uma máscara bizarra, mas os fios de cabelo que escapavam pelo capuz do agasalho eram do...

— Como entrou? — O timbre do Roberto era grave, intenso, repleto de um tom que jamais esperei que proferisse.

— Seu sistema é uma droga. — Argumentou o homem vestido de preto. Aquela voz... Aquele tom...

Observei as duas silhuetas, ambas apontavam suas armas de fogo, uma mísera fagulha derramaria sangue no carpete do loiro. O aspecto de morte e vida surgia diante dos meus olhos conforme meu coração testemunhava uma tragédia antecipadamente.

— Tá de sacanagem, seu marginal de merda? Não mete essa. — Quando as íris cinzentas do Roberto se banharam com decisão, minha voz tomou força própria, um palpite burro e imprudente, no entanto necessário. Conhecia aquele cabelo, a voz e o cheiro. Esperei por ele a madrugada inteira. Em algum lugar da minha existência, a vida também.

— Zion? — Engoli a minha hesitação e arrisquei tudo: a minha vida e a do Roberto. Quando meus olhos cruzaram com os dele senti cada átomo do meu corpo ceder à gravidade. Era ele. Tive certeza quando testemunhei seu olhar sobre mim.

— Nay... — Ele continuou mantendo a arma apontada pro Roberto, ignorando completamente o fato da barbárie que aquilo poderia resultar. — Você tá bem?

— Zion? Seu cuzão do caralho! Por que continuou a apontar a arma pra mim? — Roberto contestou a estranha atitude dele, mas pra mim isso não importava.

Quando as armas se abaixaram corri pra abraçar o Zion. O cheiro de sangue presente não me impediu de afundar meu rosto em seu peito, sentir cada batida do seu coração e me afogar em cada gota de sua presença reconfortante. Doía imaginar minha vida sem ele. Não conseguia mais enxergar cores sem sua paleta única de tons. Zion criava toda a beleza que eu enxergava em viver.

— Me desculpa. Tive alguns assuntos pra resolver. — A sua justificativa não me importava. Talvez não significasse nada porque o loirinho tinha impedido o pior de acontecer. Talvez por se tratar dele. Talvez porque eu quisesse tê-lo a cada minuto.

— Tá, tá. Chega! — A mão do Roberto me afastou dos braços do Zion. Nossas pupilas se encontraram e um rubor desconexo tomou conta do olhar dele. — Criei esse alarme e não tem como um trombadinha qualquer desativar. O que pensa que tá fazendo?

A diferença entre a altura de ambos se tornou nítida quando se encaram, irritados. Zion era alguns centímetros mais alto, mas a pose do loiro impunha sua convicção. Meu coração cedia, mais uma vez, ao timbre do Roberto.

— Por que ela tá aqui? — Zion anuiu a cabeça na minha direção.

— Por que você tá aqui?

Ter deixado que se matassem teria sido menos constrangedor?

Com certeza resultaria em uma notícia vergonhosa.

Por que sentia como se duas partes de mim resolvessem se unir contra meu todo?