Notas iniciais
Muito obrigada a cada visualização que MnN está tendo! ♥ Gatilho: Violência . . . . Boa leitura!! Link da playlist: https://open.spotify.com/playlist/2KRMLxPjClmD8Lbodz92Vw?si=632dfbda05a9466b

Acompanhei o gotejar do sangue através de seus dedos, o braço caído em sua postura jogada à cadeira me trazia lembranças nostálgicas. O escuro agia como uma gloriosa manta que me cobria à noite. Sem rosto, sem identidade, apenas mais um serviço feito com perfeição.

— Mais um imbecil cheio de si que acabou morto antes da hora. — Meu mentor ria com gosto, não pude conter o sorriso em resposta. Mesmo diante do escuro e a mórbida face, enxerguei sua cicatriz insensata.

— Tô um caco. Vou voltar. — Anunciei, exausto. Todas aquelas malditas horas me trouxeram um baque doloroso. Minhas roupas manchadas de sangue estavam com um forte cheiro de ferro e terror. Guardei meu punhal com o carinho que uma mãe colocaria o filho pra dormir, mas qual seria essa sensação? As pessoas que já fiz dormir jamais acordaram.

— Ei, sei que tá cansado, mas deixaram essa mensagem no teu celular duas horas e meia atrás. Acho que não ouvimos por causa do... — Embora não pudesse ver, o timbre do meu amigo puxando para a lateral elucidou seu olhar para o morto. — Foda-se isso, o caso é que é a sua amiga rebelde.

— Caralho. — Murmurei, tomando o aparelho das mãos imundas dele.

Meus olhos engoliram o aparelho, desesperados pelo conteúdo da mensagem da Nay.

“Tá acordado?

meu irmão tá aq

vc pode me buscar?”

As horas que sucederam o envio eram suficientes para que o filho da puta tivesse encostado nela. Abri o aplicativo de rastreio e localizei a posição do chip que havia deixado em seu celular, um dia ela me mataria por vigiá-la daquela forma, mas diante de tudo o que sabia sobre sua vida não poderia permitir que ficasse a mercê do irmão sem um resquício de estabilidade. Eu a protegeria a qualquer custo.

Tentei desvencilhar meu pensamento sanguinário de Jack Mikalli. Não posso matar esse desgraçado, não posso matar o irmão da Nay. Ainda. Não.

— Não faço ideia do que leu, mas dá o fora logo daqui. Deixa que limpo a bagunça. — O timbre do meu mentor me trouxe de volta ao real. Tudo na porra da minha cabeça já havia imaginado formas gratificantes de destruir Jack centímetro a centímetro. Um pequeno sorriso me escapou.

— Conhece esse bairro? — Mostrei o celular para ele. O brilho da tela era a única luz além da que a lua nos proporcionava através da janela centralizada na parede ao fundo.

— Bairro de riquinhos. — A petulância em seu tom era uma das minhas desgraças favoritas. Observei o endereço novamente. O que havia acontecido? Pelo horário, seria imprudente mandar uma mensagem pra ela.

— Vou resolver isso. Se precisar de ajuda não me liga.

— Tá imundo de sangue, Zion. — Meus olhos encontraram o vulto dos dele, malditas íris repletas de podridão.

— Vou pôr mais moral assim. — Me virei e andei em direção a porta, mas sua voz me interrompeu.

— Continua sendo um moleque inconsequente. — Ele insistia nessa porra de frase.

Sou inconsequente. Mas existem coisas na vida que são impossíveis de medir. Não tô com cabeça pra julgar, apenas pra despedaçar os filhos da puta que pisassem no meu calo. Deveria ser preocupante manter esse estilo de vida? Se fosse, estava nitidamente cometendo um erro.

O frio daquela noite de inverno era perturbador. A luz fraca parecia esplendorosa. O morro em que estávamos era alto o suficiente pra me transmitir a sensação de tocar o céu, mesmo que por instantes. Abri a mochila e vesti meus agasalhos, me preparando pra viagem cruel que enfrentaria até o outro lado da cidade, atrás da pessoa que prometi proteger.

Por fora, mantive a expressão calma. Por dentro, estava pronto pra cometer um crime em larga escala.

O barulho do motor da moto deu início a minha viagem. Acelerei como se minha vida dependesse daquilo, e talvez dependesse. Não poderia encará-la depois de falhar, mas como explicaria que tipo de vida levava por aqui?

Nay jamais me aceitaria se soubesse quem eu era.

Não observei as decorações de natal, também não fiz questão de me importar com o frio que me invadia. A dor era, de suas diversas formas, lúdica. Pelo canto da visão percebi o passar de todas as irritantes cores da época, alguns sons irritantes que me preencheram com a vontade de destruí-los. Derrocar a alegria era uma péssima mania minha. Destruir tudo aquilo que toco. Todos aqueles que amo.

Eu não a destruiria. Não a Nay.

A entrada da rua principal era enveredada por árvores cobertas com o branco do inverno, a ausência de pessoas, para muitos, poderia significar medo e solidão, para mim se tratava de liberdade. Liberdade para estacionar, invadir e quebrar a cara de quem quer que estivesse com ela.

Meus ombros estavam retesados após incontáveis horas com o meu mentor. Meus olhos ainda se faziam acostumados ao vermelho, minha audição ainda mantinha seus vícios nos gritos que reverberavam por minha mente escurecida pela noite.

Quando desci da moto e chequei o endereço, percebi que estava a poucos metros da residência.

Só então, depois de sair arrastado pelo meu instinto super protetor, que percebi a situação.

O que ela estava fazendo nesse lugar? O que aconteceu no intervalo de tempo em que me enviou a mensagem?

Eu iria descobrir e nesse instante não existiriam atitudes complacentes, tampouco compaixão. Vingança nunca foi fugaz no meu peito, no entanto não poderia permitir que ela visse minha verdadeira face, deveria cuidar bem das incontáveis máscaras que cobriam meu rosto.

Ser alguém para a Nay era meu inexorável motivo de tê-la em meu coração com tanto fervor. Sei bem como é a sensação de desamparo. Jamais vou permitir que passe por isso.

Quando pus o olhar na casa em que ela estava assumi em um resmungo que levaria um bom tempo pra burlar o sistema de segurança. Isso só servia de lenha pra fogueira em que queimaria o desgraçado que a arrastou pra esse lugar de ricos mimados.