Manchas no Natal
2 Capítulo 1
Notas iniciais

Uma vez me disseram que a vida é feita de ciclos, cada um com seu peso próprio força nosso limite como uma prova doentia de teste pra comprovar o quão capazes somos de suportar todas as suas adversidades conturbadas.
Não gosto desse pensamento medíocre.
Nascemos chorando, certo? Mas morremos de inúmeras maneiras diferentes. Isso não deveria ser o suficiente pra refutar essa afirmação? Não estamos aqui pra sofrer, mas pra aprender. E eu odeio que tentem me forçar a isso. Essa pressão maldita faz minha cabeça latejar.
“Roberto, você está há dias nesse quarto”.
“Só serve pra me causar decepção”.
“Poderia ao menos disfarçar?”
Poderia sim, pai, mas não vou te dar esse prazer.
— Presta atenção na porra do jogo, Roberto! — Lia berrou do outro lado da tela, furioso com a minha mente se dispersando a um canto qualquer do meu coração aflito. Naquela madrugada, jogávamos FPS.
— Sua irmãzinha não tira a boca do meu pau, não consigo me concentrar. — Abafei a voz, o provocando em um gemido irritante.
Os gritos reverberando pelo headset que deixei apoiado em meus ombros transmitiam a indignação de sempre que Lia demonstrava. Não havia passatempo melhor no mundo do que deixar ele irritado. Sempre que me acompanhava em uma de minhas muitas jogatinas pela madrugada terminava com seu grito estridente e furioso pelo discord. Se os vizinhos se incomodavam com o alarde que eu provocava pouco me interessava, mas era inegável que a companhia do brutamontes sem cérebro era afável.
— Seu pai não está aí? — O tom de voz não fez gradação, mudou da água pro vinho em apenas uma única frase. Eu odeio falar do meu pai.
— Foi em uma viagem de negócios esse final de semana. — Respondi em desgosto. Ajeitei a postura preguiçosa na cadeira, meus olhos ardiam diante das horas vidrados na tela, o colírio ameaçava acabar em seus últimos mililitros restantes na pequena embalagem de plástico.
— Não acredito que esse filho da puta te largou em casa sozinho no natal, cara. — Diferente de todas as entonações que meu amigo usava, aquela era a pior. Uma frustração de pena que me remoía.
A primeira impressão que Roberto Rissi causava sempre foi um espanto, mas ser esse cara é um mar de desgosto que me banho a cada maldita manhã nessa casa de merda.
— Vai ser muito melhor sem ele por aqui. Tô pensando em trazer uma galera pra cá. — Me desvencilhei da contínua onda de piedade que ele me inundava. Em algum momento Lia percebeu e desistiu da tentativa de me consolar. Estar longe do meu pai era libertador, jamais solitário.
— Vai chamar quem?
— O que você acha? — Sorri de canto, convicto de que ele me conhecia o suficiente pra sacar a resposta.
— Você só pode estar maluco. — Lia riu. — Ainda não desistiu?
— Você é quem nunca desistiu, Lia. Não me faça apelar. — Coloquei o headset novamente e me aproximei da tela. O round 16 começava e o personagem do meu amigo agachava e se erguia próximo ao meu. — Tá carente?
— Pensei que queria me foder, sempre que toca nesse assunto você me fode. — Gargalhei. Péssimo, era isso que ele era. Mas eu adorava os péssimos, eram mais divertidos do que as fachadas ilusórias de personalidades forjadas pra sobreviver socialmente.
Lia era, de todos os loucos, o meu favorito.
— Tá dentro? — O convidei.
— Sinto muito cara, mas minha família gosta de passar o natal aqui em casa. — Alguns segundos de “eu já esperava essa resposta” se estabeleceram entre nós e os tiros ecoando do computador, logo ele voltou a murmurar alguma besteira após morrer em game. — Acha que eles vão aceitar passar o natal aí? — Pude ouvir, de relance, o tamborilar dos dedos dele no teclado mecânico.
— Não virão, não por livre e espontânea vontade. Conhece muito bem aqueles dois idiotas. — Meu punho arrastava o mouse com liberdade e o teclar ecoando pelo quarto era apaziguador, todas as minhas ideias se alinhavam na minha cabeça conforme a munição da AK se esvaziava uma a uma na cabeça do time inimigo. Lia xingou.
— Como você é tão bom? Porra, Roberto, desliga esse programinha aí. — Zombou.
— Sinto muito, campeão, sou bom em tudo. — Lia riu, abafado, antes de resmungar novamente.
Por ser bom em tudo o mais difícil sempre me instigava, não necessariamente precisava ser difícil, impossível ou qualquer merda nessa linha de lógica, mas o diferente. Algo gritante, fora do eixo, com um toque peculiar de personalidade, e isso era o que Nay significava pra mim. Ela inteira não fazia sentido e sempre me vi obcecado por suas feições, sua maneira excêntrica de agir e os olhos pacatos que me encaravam como se soubessem exatamente quem era, o que estou pensando e o que farei a seguir. Encarei o celular ao lado do teclado mais uma vez, hesitante em mandar uma mensagem.
Os sons do jogo estavam abafados no meu headset, pude ouvir a contagem inicial antes do round 17 se iniciar e, titubeando como um covarde, continuei a matutar a ideia de lhe convidar.
— Tá na sua tela, Roberto, caralho! Volta pro game, porra. — Pisquei em choque, voltando a atenção pra tela. Encaixei a mira sobre a cabeça inocente que passava pela base do nosso lado do mapa e disparei, atirando mais algumas vezes no corpo caído, um gesto de pura humilhação. Como eu amava aquele ato filho da puta.
Logo voltei a pensar na Nay. Filho da puta é uma palavra que se encaixa na personalidade dela. Merda.
Me escondi no jogo e peguei o celular, ignorando completamente a voz grave de Lia no discord, me chamando pra ajudar. Resolvi mandar uma mensagem, ciente de que ela não me responderia.
“Ei baixinha
tá tudo bem por aí?”
“Meu irmão chegou em casa drogado
tô com medo”
Era a primeira vez que falava sobre seu irmão comigo sem empecilhos e voltas irritantes. A forma com a qual abriu o jogo diretamente me preocupou. Por que ela estava com medo? Por que estava acordada a essa hora?
“O q tá acontecendo?”
“Ele tá com os amigos nojentos dele
vou sair de casa
não quero ficar aqui”
“Tá maluca porra?
são 2 hrs da madrugada”
“Aqui dentro é bem pior do que lá fora”
— Fecha esse pornô, cara. Tamo tomando um amasso sem você. — A voz de Lia me trouxe um pouco de lucidez.
Algo começou a alfinetar minha intuição — que ela era, além de Lia, minha melhor amiga -, nesse momento indiciava o que poderia estar por trás da estranha mensagem que acabei de trocar com a baixinha.
O que mais me preocupou foi, além do conteúdo suspeito da mensagem, a abordagem direta que me entregou. A baixinha não era assim. Isso foi, de todos os males, um soco na boca do meu estômago.
— Vou ter que sair, desculpa. — Abruptamente me levantei, fechando o jogo e sendo engolindo pela escuridão do quarto. O resquício da voz do Lia desaparecia suavemente conforme me afastava do computador. A neve do lado de fora caía lentamente tornando o frio aconchegante e maldoso. Pra onde a baixinha iria?
Não me preocupei em desligar o PC, apenas acendi a luminária de tom amarelado e quente e vesti minhas roupas rotineiras, mas garanti uma camada a mais de tecido. Meti a mão na franja irritante que ameaçava cair diante do suor que escorria por todas as horas defronte à tela.
“Tô indo aí”
“Vc não sabe onde eu tô
idiota”
“Então me conta
caralho”
Vi que ela estava digitando e então... parou. Que raiva, ela parou.
“Se vc não desembuchar vô até a sua casa dar uma surra na porra do teu irmão até não sobrar mais nada”
“Saí pela janela
vou até a praça”
“Q praça, Nay?”
A essa altura já rodopiava a chave do carro em meu dedo indicador, brincando na tentativa de aliviar a ansiedade que transbordava pela ponta dos meus dedos a cada digitada que me entregava a ela.
Deixei meu quarto virado de pernas pro ar e ignorei completamente o fato de que Lia ainda gritava pelo headset, provavelmente me xingando de nomes inimagináveis.
“Tô indo pra praça perto da escola
não quero que vc venha
sei me virar”
“e eu perguntei sua opinião?
Tô indo pra lá
Se estiver mentindo, já sabe onde vou parar”
“...ok”
O lado bom e talvez um dos poucos de se ter um pai rico, ausente e viúvo é justamente a liberdade que se ganha, exceto pela presença sufocante que insiste em despejar sobre mim dia após dia. Que irônico. Minha liberdade e minha rebeldia andam de mãos dadas. De mãos dadas? Andam trepando violentamente na cara do meu velho.
Minha euforia em descer as escadas coincidia com o meu anseio em a encontrar o mais rápido possível.
O ínterim até ligar o carro e sair acelerando pela fria madrugada era torturante. Meus olhos se atentavam a cada esquina na esperança de a encontrar, mesmo que meu cérebro dissesse que a lógica era inexistente naquele comportamento. Não havia formas de ela estar por essas ruas, eram consideravelmente longes de sua casa.
Nay e eu morávamos afastados. Ela morava perto da Instituição de São Carlo enquanto eu residia em um bairro de riquinhos espalhafatosos próximo do centro da cidade. Mas essa distância grande entre nós foi encurtada pela minha urgência em lhe ver e garantir que estivesse inteira.
Olhei a hora pela tela do celular rapidamente, 10 minutos se passaram desde que havia recebido sua mensagem. Presumi que já estava na praça a essa altura e isso apenas serviu pra me deixar mais inquieto.
Alguns longos e curtos momentos depois cheguei até meu destino, mas sem sinal dela. Sai do carro e, com a chave em mãos, liguei pro contato “baixinha”. Tocou e tocou e tocou e caralho!
Onde aquela pirralha irritante tava metida?
— Meu celular tá no silencioso. — O timbre único surgindo por trás de mim me assustou, me forçando a virar em um pulo abrupto pra encarar a garota.
— Puta que pariu, desgraça, de onde tu saiu? — Contive o nervosismo que ameaçava sair, meus braços tremiam pra lhe abraçar. O que se passava com seu irmão? Por que ela tinha tanto medo dele? As hipóteses que se passaram pela minha cabeça diante das mensagens me deixavam irritado. Se fosse o que pensei temia que a morte não fosse o suficiente pra fazer “justiça”.
— Eu te disse que saí de casa, Roberto. — A voz dela continha alguma coisa diferente que não fui capaz de identificar e me senti amargurado. Os cabelos castanhos gritavam em contraste a neve pálida.
Retirei meu agasalho e a vesti, no processo ela soltou a mochila surrada, observei um pouco o volume curioso de coisas que ela carregava. Nay aparentava ter colocado uma coberta de forma abrupta na mochila, socando com força até fechar o zíper. A urgência que a organização de suas coisas explicitava me enfureceu: ela havia saído de casa às pressas. Me abaixei pra pegar seu pertence enquanto ela se encolhia na minha roupa em uma tentativa fofa e engraçada de se esquentar.
—Não, é... — Hesitei diante das íris verde-acinzentadas. Ela usava roupas curtas pra uma noite fria, assim como aparentava tremer diante da luz que bruxuleava dos postes velhos da praça. — Não importa. Entra aí. — Sinalizei com a cabeça pro carro, ela me observou, curiosa. — Se te serve de consolo, meu pai não está em casa, tô sozinho o final de semana todo.
— É inapropriado pra uma moça entrar no carro de um cara e ir até a casa dele às... — Ela desbloqueou o celular e o guardou no bolso do short novamente. — 3 horas da manhã. — Por que ela estava de short?
— Não vou te devorar, só não quero que se meta em problemas.
— Você é problema. — Os cabelos presos em um coque desarranjado entregavam que estava dormindo, sua face estava ligeiramente “amassada”. Mais uma vez tentei elucidar o que acontecia sob o teto que habitava.
— Se não entrar nesse carro por boa vontade vou te sequestrar à moda antiga. — Sorri, provocando um pequeno sorriso desistente nos finos e trêmulos lábios.
O sorriso dela me derrocava suavemente.
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