Justiça por assinatura
12 Capítulo 11
Diana
A noite estava chuvosa quando dirigi até o antigo escritório do Tony. Antigo no sentido mais literal possível: o lugar tinha sido oficialmente desativado anos atrás e, desde então, funcionava como depósito de tudo o que o sistema preferia esquecer. Casos não solucionados. Equipamentos obsoletos. Pessoas fora de catálogo.
Tony era investigador antes dessa merda toda da privatização. Ainda guardava a esperança — quase religiosa — de que um dia tudo voltaria a ser como antes. Eu nunca tive esse luxo.
— Como vamos fechar as contas esse mês, Diana? — Sofia perguntou, encarando o vidro embaçado do carro.
Ela já estava remoendo isso desde a ligação da viúva.
— Não sei, Sossô — respondi. — Mas a gente sempre dá um jeito, não dá?
Olhei para ela tentando sorrir. Não funcionou. O olhar dela estava preocupado de verdade. E com razão. Se eu perdesse a licença e os honorários do caso do José evaporassem junto com a pensão da viúva, nossa renda virava estatística.
Mesmo assim, havia algo ali que eu não conseguia evitar.
Eu gostava de saber que tinha incomodado.
Era uma sensação perigosa. Quase eufórica. Como coçar uma ferida só para ter certeza de que ainda dói.
O caminho até o depósito foi longo e silencioso. A chuva batia forte no para-brisa, transformando os postes em borrões amarelados. Quando chegamos, estacionei o mais perto possível da entrada.
Descemos correndo do carro até a porta, desviando das poças, o casaco já inútil contra o temporal. Entramos rápido.
O cheiro veio primeiro: papel velho, poeira e café requentado. Depois, Tony.
Ele estava sentado atrás de uma mesa antiga, dessas de metal cinza, com gavetas que nunca fecham direito. À frente, uma pilha de arquivos físicos. Papel de verdade. Um luxo ilegal hoje em dia.
— Oi, Tony — dissemos quase em uníssono.
Ele levantou os olhos devagar.
— Oi, meninas. — Olhou para cada uma de nós com atenção excessiva. — Certeza absoluta de que não foram seguidas?
— Tony — respondi, fechando a porta atrás de nós —, não dava pra ver um metro à frente do carro com esse temporal. E eu ainda dirigi em círculos por um tempo. Não me formei ontem. Tá tudo limpo.
Ele não pareceu totalmente convencido, mas assentiu.
— Ótimo. — Fez um gesto para as cadeiras. — Sentem. E falem baixo. Mesmo aqui.
Sofia se sentou primeiro, inquieta. Eu permaneci de pé por alguns segundos, observando o lugar. Prateleiras cheias de caixas sem identificação. Um quadro de avisos vazio. Nenhuma câmera. Nenhum terminal ativo.
Um lugar fora do tempo.
— Então — Tony começou —, vamos organizar isso antes que eu me arrependa de novo.
Sentei-me, finalmente.
— Avaliação de nivelamento — falei. — Da minha licença.
Sofia virou o rosto rápido.
— Já?
Tony fechou os olhos por um segundo.
— Era questão de tempo.
— Também suspenderam a pensão da viúva — continuei. — Em análise.
Tony soltou um riso curto, sem humor.
— Claro que suspenderam.
— E antes que você pergunte — acrescentei —, não foi coincidência.
Ele me encarou com mais atenção agora.
— Quem mais sabe do caso?
Hesitei. Por meio segundo apenas.
— Paolo.
O nome caiu pesado na sala.
Sofia franziu a testa.
— O Paolo?
Tony ficou imóvel.
— Nível A — continuei. — Noventa e quatro vírgula oito por cento de resolução. Encontrou comigo por acaso. — Fiz aspas no ar. — Disse para eu largar o caso.
— E você? — Tony perguntou.
— Continuei respirando — respondi. — O que, considerando o contexto, já foi uma resposta.
Tony se levantou e começou a andar pelo espaço apertado.
— Isso confirma o que eu temia — disse. — Esse consórcio não está só limpando erro. Está testando alcance.
— Testando em quem não tem plano — Sofia completou.
— Em quem não gera ruído — corrigi. — José da Silva. Henrique. Marcos. Laura.
Tony parou diante da pilha de arquivos.
— Esses nomes — disse, passando a mão pelos papéis — nunca deveriam aparecer juntos.
— Mas aparecem — respondi. — Sempre com laudo bonito. Sempre com pressa. Sempre com a mesma justificativa.
Sofia cruzou os braços.
— E agora estão apertando o financeiro. Licença. Pensão. Honorários.
— Eles não querem que você pare — Tony disse. — Querem que você canse.
Assenti.
— Só esqueceram de uma coisa.
— O quê? — Sofia perguntou.
— Eu já estava cansada quando entrei nisso.
O silêncio se espalhou pelo escritório por alguns segundos. A chuva martelava o telhado como um lembrete constante de que o mundo lá fora continuava funcionando normalmente.
Tony voltou a sentar.
— Se vocês seguirem com isso — disse, sério —, não vai ter protocolo, não vai ter pedido formal, não vai ter rastro digital.
— Nunca tem — respondi.
— Vai ser papel, cópia, memória e gente que ainda lembra como as coisas funcionavam antes.
Sorri de canto.
— Por isso estamos aqui.
Ele respirou fundo.
— Então vamos montar isso direito. — Empurrou um dos arquivos na minha direção. — Porque depois desse ponto, não tem volta.
Olhei para Sofia. Ela assentiu, apesar do medo evidente.
Voltei-me para Tony.
— Nunca tem.
E, pela primeira vez naquela noite, senti que o sistema tinha cometido um erro real.
Tinha nos colocado na mesma sala.
Fale com o autor