Justiça por assinatura
13 Capítulo 12
Diana
Acordei decidida a resolver uma pendência logo cedo. Não era coragem. Era falta de opção.
Liguei para a viúva antes das nove. Pessoas como ela ainda acreditam que problemas graves respeitam horário comercial. O telefone tocou três vezes antes de ser atendido.
— Dona Consuelo — disse, sem rodeios. — O José deixou algum computador, caderno, pasta… qualquer coisa que não tenha ido parar oficialmente nas mãos dos investigadores?
Houve um silêncio do outro lado. Não longo. Mas pesado.
— Eu escondi pouca coisa — ela respondeu por fim. — Demorei pra perceber que eles não estavam investigando nada… só recolhendo. Mas ainda ficaram algumas pastas. E o notebook antigo. Eles levaram só o novo. Achei que era procedimento.
Procedimento. Sempre essa palavra.
— Tem mais alguma coisa? — perguntei.
— Acho que sim… alguns pen drives. Não sei do que se trata. Nunca mexi nisso. — A voz dela falhou. — Eu devia ter desconfiado antes.
— Não devia — respondi, automática. — Você confiou. Isso não é erro. É o que esperam que as pessoas façam.
Ela respirou fundo.
— Diana… você vai me ajudar, não vai? — disse, de repente. — Você não vai pegar isso tudo e sumir, né?
A pergunta veio crua. Sem rodeios. Sem verniz.
— Dona Consuelo — respondi, firme —, eu prometo que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance.
A promessa não era só para ela. Era para mim.
Desliguei.
Não podia julgá-la por desconfiar. Nem a polícia era confiável. Por que eu seria?
Sofia já estava pronta para sair quando cheguei à sala. Mochila no ombro, celular no silencioso, aquela concentração específica que ela só assumia quando sabia que o risco tinha passado do aceitável.
— Vamos em dois carros — falei. — Eu vou até a casa da viúva. Você encontra seu informante.
— E depois a gente troca — ela completou.
Assenti. O meu carro já tinha circulado demais. Endereço demais. Olhos demais.
— Qualquer sinal de confusão — acrescentei, encarando-a com seriedade —, você aborta e vai para um lugar seguro. Sem heroísmo.
— Eu sei — ela respondeu. — Não é minha primeira vez fazendo isso.
Era verdade. Mas era a primeira vez que eu a colocava num jogo dessa magnitude.
— Ok — disse, porque não havia mais nada a dizer.
Saí torcendo para que tudo desse certo. Para nós duas.
A casa da viúva ficava numa rua tranquila demais para alguém que tinha acabado de perder o marido. Casas iguais, muros baixos, plantas cuidadas. Um bairro onde o tempo parecia andar mais devagar por acordo coletivo.
Estacionei a uma quadra de distância. Costume antigo.
Dona Consuelo abriu a porta antes mesmo de eu tocar a campainha. Estava arrumada demais. Como se tivesse passado a manhã tentando impor ordem a algo que já tinha saído completamente do controle.
— Entra — disse, abrindo espaço.
A sala cheirava a produto de limpeza recente. Limpeza nervosa. A que não remove nada, só mascara.
— Eles vieram três dias depois do enterro — ela começou, antes mesmo de eu perguntar. — Dois homens. Um dizia ser da seguradora, o outro… o outro não dizia nada. Só anotava.
Andei pela casa com cuidado. Não por respeito. Por atenção.
— Disseram que era padrão recolher equipamentos eletrônicos — ela continuou. — Que ajudaria a entender o estado emocional do José.
— E você acreditou.
Ela assentiu, envergonhada.
— Levaram o notebook novo. O celular. Um HD externo. — Engoliu seco. — Não devolveram nada.
— E ninguém nunca devolve — murmurei.
Ela me levou até um pequeno quarto que servia de depósito. Caixas empilhadas, roupas antigas, papéis que nunca tinham encontrado um destino definitivo.
— É isso — disse, apontando para uma caixa de papelão simples, escondida atrás de um ventilador quebrado.
Ajoelhei-me e abri.
Pastas de papel. Anotações à mão. Receitas médicas. Extratos. Protocolos impressos. Um notebook antigo, grosso, com a carcaça arranhada. E três pen drives sem identificação.
Coisa demais para alguém que “não tinha nada de errado”.
— Ele começou a anotar tudo depois que aquele plano de segurança entrou em vigor — ela disse, observando de longe. — Disse que era só pra se organizar melhor.
Plano de segurança.
Guardei a informação.
— Eles mexeram aqui? — perguntei.
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Esse quarto eu tranquei. Disse que era bagunça minha.
Bagunça. Outro luxo.
Fechei a caixa com cuidado.
— Dona Consuelo — falei, levantando —, isso aqui é importante. Muito mais do que eles gostariam.
— Isso prova alguma coisa?
Olhei para ela.
— Prova que o José desconfiava. E que alguém se deu ao trabalho de impedir que isso viesse à tona.
Ela sentou-se devagar no sofá, como se aquela constatação tivesse peso físico.
— Eles podem voltar? — perguntou.
— Podem — respondi. — Mas agora vão encontrar menos do que antes.
Levei a caixa comigo.
Ao sair da casa, senti aquela sensação familiar. Não era medo. Era confirmação.
Não tinham levado tudo porque não sabiam exatamente o que procurar.
Ainda.
Entrei no carro e fui até o porta-malas.
A caixa pesava mais do que eu esperava. Não pelo tamanho, mas pelo conteúdo acumulado — papel demais, memória demais. Apoiei-a no chão por um segundo antes de erguer de novo. Ao colocá-la no porta-malas, ouvi o barulho seco dos pen drives batendo entre si, um som curto, plástico, quase insignificante.
O encaixe não foi perfeito. Precisei empurrar a caixa um pouco mais para o fundo, forçando o espaço entre o estepe e uma mochila antiga. A tampa fechou só na segunda tentativa.
Fiquei alguns segundos com a mão apoiada no metal, sentindo a vibração do carro ainda desligado.
José da Silva tinha tentado deixar rastros.
Agora, eles pesavam.
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