O que você responderia se alguém fizesse a seguinte pergunta:

O que você acha de privatizarmos a segurança pública?

Em 2035, essa pergunta virou plebiscito. A maioria achou que valia a pena tentar. Não os julgo. Quando o caos vira rotina, qualquer promessa de ordem soa razoável. As grandes capitais já eram territórios negociados entre traficantes, milícias e acordos tácitos. A sensação geral era de que o colapso não era uma possibilidade futura, mas um evento atrasado.

Nesse cenário de convulsão social, vender a segurança foi simples. Vender a polícia, mais ainda. Priorizar os ricos veio no pacote. Largar os pobres à própria sorte foi apenas um ajuste operacional.

A proposta chegou bem apresentada: gráficos coloridos, slogans otimistas e a palavra “eficiência” repetida até parecer virtude moral. Eficiência era tudo o que importava. Tudo podia ser mais rápido, mais barato e, sobretudo, mais rentável. Bastou substituir a palavra direito por serviço e ninguém mais fez perguntas incômodas.

A segurança pública passou a funcionar por planos, como telefonia ou streaming. Você escolhia o quanto sua vida valia por mês e torcia para não precisar testar o contrato.

O Plano Básico garantia o essencial: um registro digital da ocorrência, um número de protocolo e a tranquilidade de saber que ninguém pisaria na sua casa para verificar nada. Crimes contra assinantes desse plano eram tratados como eventos estatísticos. Ótimos para relatórios trimestrais, irrelevantes para qualquer coisa que envolvesse investigação.

O Plano Intermediário incluía a presença física de um agente — quando disponível —, uma perícia apressada e a abertura formal de um inquérito. Não havia promessa de solução, apenas o compromisso de que o caso não seria arquivado nos primeiros trinta dias. Era o favorito da classe média: caro demais para ser justo, barato demais para funcionar.

Já o Plano Premium oferecia a experiência completa. Investigação dedicada, peritos qualificados, cruzamento de dados, coletiva de imprensa e, se necessário, um culpado entregue dentro do prazo contratual. A verdade era negociável, mas a resolução vinha garantida. Afinal, nada prejudica mais uma marca do que um crime sem desfecho.

Havia também os planos corporativos e governamentais, que operavam sob regras próprias. Neles, mortes não eram crimes, mas falhas administrativas, danos colaterais ou ajustes operacionais. Termos técnicos criados para evitar palavras inconvenientes como homicídio.

Quem não podia pagar ficava fora do sistema. Oficialmente, continuava protegido pelo Estado. Na prática, tornava-se invisível. Sem plano ativo, não havia crime. Sem crime, não havia culpa. Sem culpa, não havia responsáveis.

Foi assim que aprendemos que a justiça não acabou. Ela apenas mudou de faixa de preço.