Justiça por assinatura
26 Capítulo 25
Roberto
Perdi a noção do tempo antes de perder a paciência.
Não havia relógio. Nem janela. A luz branca não mudava. O ar continuava frio demais para esquecer o corpo, quente demais para permitir descanso. Em algum ponto, minha mandíbula travou sem que eu percebesse, os dentes cerrados por tempo demais. Afrouxei só quando doeu.
As perguntas voltavam sempre, com pequenas variações, como se alguém estivesse testando a melhor forma de quebrar uma frase.
— Onde você conheceu ela?
— Quem apresentou vocês?
— Qual é o nome verdadeiro dela?
— Há quanto tempo você mente?
Respondi as mesmas coisas. Primeiro com cuidado. Depois com cansaço. Por fim, no automático.
— Luzia.
A palavra parecia irritá-los mais a cada repetição.
— Esse nome não existe — disse um deles, numa entonação quase paciente. — Você sabe disso.
— É o nome que ela me deu.
O tapa veio rápido. Sem força suficiente para derrubar, mas preciso o bastante para marcar.
— Ajuste de tom — explicou o homem, como se eu tivesse elevado a voz. — Aqui, a gente trabalha com colaboração.
As perguntas recomeçaram.
Mudavam o verbo. A ordem. O tempo verbal. O sentido, nunca.
— Ela te procurou ou foi o contrário?
— Quem mais sabe desse contato?
— Você recebeu alguma orientação antes do encontro?
— Ela pediu algo?
Neguei tudo. Repeti. Corrigi uma palavra aqui, outra ali. Não para enganar — para sobreviver. A língua começou a colar no céu da boca, seca demais para formar frases longas.
Outro tapa. Um soco no braço. Não para machucar de verdade. Para lembrar o corpo de quem mandava.
— Você insiste em tratar isso como coincidência — disse o do tablet. — Coincidência é privilégio.
Em algum momento, comecei a responder mais devagar. Não por estratégia. Por desgaste. A cabeça pesava. O copo d’água continuava ali, intocado, como uma provocação.
— O nome dela — insistiram. — O verdadeiro.
— Luzia.
O soco veio mais forte dessa vez. O ar saiu dos meus pulmões num som curto e humilhante. Minha perna tremia sob a mesa, um movimento pequeno, traidor.
— Você está nos desafiando — disse o homem que não sorria mais. — Isso é uma escolha.
Foi ali que entendi.
Eles não queriam informação.
Não estavam cruzando dados.
Não buscavam verdade.
Queriam que eu desistisse da minha versão.
Que aceitasse a deles.
Que aprendesse a repetir o que fosse necessário para sair dali inteiro o bastante.
— Eu não sei outro nome — falei, com a voz rouca.
Silêncio.
Os dois se levantaram ao mesmo tempo. Saíram sem dizer nada.
Fiquei sozinho.
Não sei quanto tempo passou depois disso. Podia ter sido minutos. Podia ter sido horas. O corpo começou a doer nos lugares que não tinham sido tocados. A luz continuava igual.
Quando a porta abriu de novo, achei que ia recomeçar.
Não recomeçou.
— Pode ir — disse uma voz que eu não reconheci.
— Ir…? — repeti.
— Está liberado.
Nenhuma explicação. Nenhuma assinatura. Nenhum aviso.
Me conduziram até a saída como se eu tivesse terminado um atendimento comum. O mesmo corredor. A mesma porta.
Do lado de fora, o vidro espelhado devolveu uma versão de mim que parecia ligeiramente deslocada no próprio corpo. Antes que eu pudesse olhar melhor, a porta se fechou atrás de mim com um clique seco. Outra pessoa entrou logo depois, sem hesitar.
O sistema não parava.
O sol estava baixo demais para eu dizer se tinha sido dia ou noite lá dentro.
Meu carro ainda estava onde eu deixara. Entrei. Fechei a porta. Só então percebi que minhas mãos tremiam.
Não liguei o motor.
Luzia não era o problema.
Luzia era a prova.
E o sistema tinha acabado de me ensinar que não precisava de motivo para esmagar alguém. Só de disponibilidade.
Quando liguei o carro, já não era mais medo que eu sentia.
Era outra coisa.
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