Roberto

Dirigi sem destino por alguns minutos. Não porque estivesse perdido, mas porque precisava de tempo para o corpo entender que estava livre.

Fisicamente, pelo menos.

O volante parecia distante demais das mãos. O banco duro. O mundo continuava rápido demais para alguém que tinha acabado de sair de um lugar onde nada se movia. Cada semáforo vermelho parecia pessoal. Cada farol no retrovisor, uma ameaça ensaiada.

Parei o carro numa rua lateral qualquer e desliguei o motor.

Peguei o telefone.

O número estava ali, salvo do jeito mais simples possível. Sem nome completo. Sem sobrenome. Só Luzia. Tinha sido assim desde o começo. Fácil de apagar. Fácil de negar.

Toquei em ligar.

Chamou uma vez. Duas. Três.

Caixa postal.

Respirei fundo e tentei de novo.

Nada.

Abri a conversa. A última mensagem ainda estava lá, trivial demais para o que tinha acontecido depois.

Podemos sim, mas irei me atrasar um pouco. Estacionei longe.

Ri sem humor.

Claro que tinha estacionado longe.

A ficha caiu aos poucos, como tudo naquela noite. Não tinha sido um engano. Não tinha sido excesso de zelo. Tinham me seguido até ali. Tinham me observado. Tinham esperado eu sair do carro.

E agora sabiam meu nome. Meu rosto. Meu padrão.

Estar livre não significava estar fora.

Significava estar marcado.

Encostei a testa no volante por alguns segundos. O cansaço veio pesado, tentando me dobrar por dentro. Funcionava quase sempre. Pessoas cansadas aceitam qualquer versão que prometa descanso.

Mas algo tinha mudado.

O medo ainda estava ali, quieto, ocupando espaço. Só que não era mais o dono do lugar. Por baixo dele, uma raiva densa começava a se organizar. Não explosiva. Útil.

Eles tinham me batido para ajustar tom. Me interrogado para me ensinar silêncio. Me soltado para ver se eu aprendia.

Eu tinha aprendido outra coisa.

Se eu já estava dentro, não fazia sentido fingir neutralidade. Neutralidade só funciona para quem ainda pode escolher não ser visto.

Peguei o telefone outra vez e escrevi, sem saber se ela leria.

Se conseguir ler isso: eu não te conheço como Luzia. Só conheço como alguém que me colocou no meio de algo grande demais para fingir que não existe.

Apaguei. Reescrevi. Apaguei de novo.

Não mandei nada.

Ainda não.

Liguei o carro e, dessa vez, soube para onde ir.

Havia coisas que eu conhecia melhor do que deveria. Sistemas internos. Rotinas administrativas. Gente que confiava demais em protocolos antigos. Arquivos que ninguém revisava porque estavam enterrados sob camadas de legalidade.

Coisas concretas.

Se eu ia atravessar isso, não seria com discurso. Seria com algo que pesasse o suficiente para não ser ignorado.

Engatei a marcha.

Não estava fazendo isso por coragem. Nem por justiça.

Estava fazendo porque já tinham me puxado para dentro.

E, a partir daquele ponto, a única escolha real era decidir para quem eu ia entregar o que sabia.