Diana


O trânsito estava parado. Não congestionado — parado mesmo. Daquele tipo que não se explica por acidente, obra ou chuva. Apenas um acúmulo organizado de gente obedecendo regras que já não fazem sentido.

Buzinei uma vez. Só por reflexo. Ninguém se mexeu.

O rádio falava qualquer coisa sobre índices, previsões e uma cidade que insistia em funcionar mesmo quando claramente não estava. Desliguei. O silêncio era mais honesto.

O telefone vibrou no suporte do painel.

Sofia.

— Fala — atendi, sem tirar os olhos do carro da frente, que claramente tinha desistido da vida.

— Boa tarde pra você também, raio de sol — ela disse. — Tem um homem aqui em casa.

— Se ele estiver vendendo plano funerário, manda subir dois andares e pular da janela.

— Oficial do governo — ela corrigiu. — Uniforme limpo, postura rígida e aquele olhar de quem já decidiu que você é um problema antes mesmo de te conhecer.

Suspirei.

— O que ele quer? E me diga que não trouxe papel.

— Não trouxe papel. — Pausa. — Trouxe uma intimação.

— Ah. Então trouxe papel invisível.

— Avaliação de nivelamento — ela continuou. — Da sua licença.

Ri. Uma risada curta, quase educada demais para o absurdo.

— Claro que trouxe.

— Segundo ele, é randômico — Sofia acrescentou, sem convicção alguma.

— Evidente. — Apertei o volante. — Totalmente aleatório. Igual blitz em rua de rico às três da manhã.

— Ele disse que, se você não tivesse feito nada de errado, não tinha motivo pra se preocupar.

— Frase clássica — respondi. — Manual básico do funcionário que veio exatamente porque eu fiz algo certo demais.

— Ele sabia seu nome completo — ela continuou. — Sabia sua categoria, sua taxa de resolução e mencionou “atividade recente”.

— Olha só — murmurei. — Que memória seletiva eficiente.

— O que você quer que eu faça? — Sofia perguntou.

— Nada. — Fiz uma pausa. — Anota mentalmente a cara dele. Gente assim sempre volta.

— Diana…

— Relaxa, Sossô. — Dei um sorriso que ela não podia ver. — Se o sistema resolveu me avaliar, é porque eu passei em alguma coisa sem pedir permissão.

O aparelho voltou a vibrar antes que ela pudesse responder.

Outro número.

Atendi.

— Diana? — A voz da viúva veio hesitante. — Desculpa ligar assim… eu não sabia com quem falar.

Encostei o carro no acostamento. O trânsito não ia sentir minha falta.

— Aconteceu alguma coisa?

— A pensão não caiu esse mês — ela disse, rápido demais, como quem tem medo de perder a coragem. — Achei que fosse atraso, mas liguei… disseram que está em análise.

Análise. Palavra confortável. Cabe em qualquer desculpa.

— Você recebeu alguma notificação? — perguntei.

— Não. Só disseram que é procedimento padrão. — Ela respirou fundo. — Eu… eu não vou conseguir pagar seus honorários agora. Não até isso se resolver.

Havia vergonha ali. E confusão. Nenhum cálculo.

— Não é sobre o dinheiro — respondi, automaticamente.

Mas era. Não o meu — o deles.

— Eu só queria que você soubesse — ela continuou. — Não quero que pense que estou desistindo.

Fechei os olhos por um instante.

— Eu sei — disse. — A gente conversa depois.

Desliguei.

O telefone ficou pesado na minha mão. Não pelo que tinha sido dito, mas pela sincronia impecável das coisas.

Avaliação randômica.

Pensão em análise.

Honorários suspensos.

Ninguém tinha me mandado parar.

Tinham feito algo muito mais eficiente: estavam me atrasando.

Voltei para a pista quando o trânsito finalmente começou a andar, lento e obediente. Cada carro avançava na mesma cadência, como se alguém tivesse decidido que aquela era a velocidade aceitável para todos.

Em casa, o e-mail já me esperava.

Assunto: Notificação de Avaliação de Nivelamento – Licença C.

Abri.

Texto polido. Linguagem neutra. Datas disponíveis. Nenhuma urgência explícita. Nenhuma acusação. Apenas a lembrança gentil de que minha autorização para exercer não era exatamente minha.

Fechei o notebook sem responder.

José da Silva tinha morrido uma vez.

Agora, estavam tentando matá-lo de novo — não o corpo, mas tudo que poderia provar que ele existiu.

Sentei-me no sofá e fiquei ali por alguns minutos, ouvindo o prédio respirar. Elevadores. Portas. Gente indo e vindo, cuidando das próprias urgências.

Eles achavam que eu ia escolher.

Ou a licença.

Ou a viúva.

Ou o tempo.

O erro deles era antigo.

Nunca fui boa em escolher entre opções que só existem para me conter.

Levantei-me, peguei o tablet e reabri o arquivo do caso.

Se o sistema queria me cansar, tinha escolhido o método errado.

Eu já estava cansada quando entrei.