Notas iniciais
Olá, como estão? Espero que bem, hoje eu tava inspirado, sei que o capítulo não tá muito grande, se assim estiver melhor, eu faço capítulos mais assim, meio rapidinhos, não cansam tanto, pq a partir de agora... O PAU VAI TORÁ! Boa leitura.

Trilha Sugerida

O vento batia em leves lufadas, algumas pétalas de ipê eram carregadas, duplas foram separadas pelo professor Hector, e era uma espécie de confronto, claro que não diretamente um com o outro, acabaria em morte na certa se fosse assim. Mas era para mostrar o potencial de batalha, como os guerreiros espartanos, o valor da batalha vinha do guerreiro. Os passos confiantes e levemente petulantes de Otávio faziam uma afronta a sua dupla adversária, Kathe, o rapaz fez com que Felícia alsace voou e ao grito de “Já” do professor, os dois correram pelo campo.

Kathe sacou seus dois revólveres, o campo antes aberto, agora estava cheio de obstáculos, entre barris, caixas de madeira, sacos com areia. Os alvos estavam espalhados por caminhos diferentes. A Garota puxou o cão das armas, conhecidas como Pacificadoras, eram prateadas e reluziam ao sol da manhã, encontrou dois alvos, eram espantalhos de saco de palha, ela atirou em um bem na cabeça mas quando foi disparar no outro, escutou o estalar alto de alguma coisa e o espantalho abriu um talho no peito. Ao olhar pro lado, Otávio estava recolhendo seu chicote.

— Um a Um, piá. — Disse ela.

— Tu que acha, guria. — Ele aponta pra trás, e ela avista mais uns dois espantalhos com o corpo marcado com o corte de chicote.

Esse desafio despertou algo em Kathe, apesar de não ser competitiva, não gostava de ficar pra trás, ainda mais quando isso significava mostrar suas habilidades. Ela agora tinha ganhado uma coisa extra, uma energia que não sabia de onde emanava, mas usaria isso para caçar seus alvos com mais precisão. Começou a correr entre os obstáculos e quando via um obstáculo, os tiros eram sempre no peito ou na cabeça.

Entre disparos e estalos de chicote, a competição atiçou a curiosidade do Professor Hector, que mesmo não demonstrando empolgação diretamente, seu olhar não parava de ver aquele baile de ação. Kathe parecia a mistura perfeita de leveza com precisão, quase como uma bailarina armada. Otávio tinha destreza o suficiente para chicotear dois alvos rapidamente sem sair muito do lugar. Ambos estavam atingindo quase todos os alvos do campo em um tempo incrivelmente curto.

Os dois chegaram do lado final do campo, um na frente do outro, esbaforidos e suando levemente. Os olhares ainda se mantinham em foco um no outro, uma competição que valeria algo tão simples, mas que agora era a comprovação de suas grandiosas habilidades. Ao olharem pro campo, tinham 10 alvos marcados com tiros e 9 marcados com chicotes. Os revólveres de Kathe só tinham cinco tiros em cada, ou seja, ela utilizou todas as suas munições.

— Guria, tenho que lhe tirar o chapéu. — Ele faz uma reverência de cavalheiro sem seu chapéu de aba larga.

— Você foi um adversário muito valoroso. — Respondeu Kathe com sua voz doce, meio cansada.

— Bem, lembre-se, te devo um favor. O que quiser e se eu puder atender, é só me falar. — Ele esticou o braço pro lado para que Felícia pousasse em seu antebraço.

— Não esquecerei disso, pode deixar. — Kathe não fazia ideia do que pedir aquele rapaz, deixaria alguma situação que pudesse usar o favor.

— Incrível. — Disse Hector indo na direção dos dois alunos. — Um dos melhores resultados da sala, a energia brotando de você é algo inexplicável. São bons caçadores, mas não se animem, ainda falta muito para evoluírem.

Eles agradeceram os elogios feitos pelo professor e saíram dali juntos, Otávio estava com um sorriso orgulhoso no rosto, notava-se que Felícia estava elogiando ele de alguma forma, já que ele agradecia e fazia carinho em sua corujinha que um dia foi sua tia e madrinha.

^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

Trilha Sugerida

Enquanto isso, em um lugar remoto do Brasil

Na mata fechada do Pantanal Brasileiro, uma expedição estava dando resultados sobre algo escondido no meio do nada. Um grupo de pastores belga de pelagens inteiramente negras, farejaram algo na mata, e alertaram com seu latidos, então se apresenta uma figura atrás deles, alguém usando um sobretudo fechado e preto, usava luvas de couro também escuras, sua pele era extremamente pálida, assim com as olheiras pesadas lhe davam um ar mortificado. Os cabelos eram longos e pretos e os olhos em um tom violeta estranho.

— Bom trabalho, meus filhos. — Ele dizia para os cães que ficaram sentados de forma séria. — Finalmente, achei você.

— Achou, Luison? — Perguntou um homem vindo logo atrás.

Esse homem tinha um tamanho robusto enorme, era gordo e tinha apneia que fazia ele roncar quando estava ofegante, tinha uma aparência meio estranha, seu nariz era achatado e de narinas abertas, usava um tapa-olho de couro, suas roupas eram maltrapilhas e meio sujas, tinha um cinturão com dois facões de fêmur de boi, bem primitivo mas que ele amava.

— Meus filhotes acharam algo, aquilo dali. — A voz de Luison era mórbida e forte.

Em uma clareira da mata, perto de um lamaçal pantanoso, tinha uma construção antiga feita de pedras pesadas e pouco polidas, cheias de musgos e vinhas de trepadeiras, no topo dessa pequena construção em forma de pirâmide estava um vaso de barro tampado com desenhos feitos por Alquimistas Nativos, era uma filactéria de algum ser. Luison se aproximou da construção, sendo seguido de seu irmão.

— Ao-Ao, ali está o nosso próximo passo. — Comentou Luison aos pés da construção.

— Um vaso? Nós andamos esse tempo todo, pra pregar um vaso? — Ao-Ao não estava entendo a situação.

— Não, pança de tonelada, viemos atrás da prisão de Jurupari. — Aquele homem fúnebre soltou um sorriso. — Nós filhos de Tau, passamos anos e anos sendo escorraçados por todos os Deuses. Assim como Jurupari.

— Uai, e ele tá preso num vaso? Sei não, irmão. E se for falso?

— Falsa é sua esperança, vamos libertar Jurupari, nós começaremos um mundo novo, com mortes pra mim, carne pra você e para ele, o Caos absoluto. Fora que nos vingaremos daqueles que nos amaldiçoaram, os Deuses.

— Gostei da parte de carne, então vamos soltar logo esse homem, deve tá apertado por demais ali dentro. — Comentou Ao-Ao se aproximando do receptáculo, mas logo foi repelido com força para trás e jogado no lamaçal.

— Ai meu pai, porque todos os meus irmãos são uma porta? Tirando o metido do Jaci Jaterê, o resto só serve pra enfeite. — Luison foi se aproximando da construção, tirando bolso cinzas de morto queimado e pulverizou na direção do vaso. — OS RENEGADOS! OS INJUSTIÇADOS! OS QUE FORAM AMALDIÇOADOS PELOS DEUSES! UNÍ-VOS EM UM ÚNICO PROPÓSITO, O FIM DOS TEMPOS!

Enquanto falava isso, uma energia emanava dele, as cinzas perfuravam a filactéria de barro, Luison estava soltando pequenas fagulhas em fogo verde escuro, o vaso foi se rompendo, como um Deus menor, ele tinha poderes muito mais fortes do que qualquer encantamento humano. Até que o vaso se rompe em cacos em uma explosão gigantesca e sonora.

De lá brotou um ser do meio de cinzas escuras, pele morena escura, pintas douradas desenhadas pelo corpo, um cocar de penas negras assim como um colar com essas mesmas penas de corvos, urubus e condores, uma saia de de couro de onça negra, seu corpo era mais forte. Quando abriu os olhos e respirou fundo, sentiu a liberdade.

— Finalmente… FINALMENTE LIVRE! — Gritou ele em euforia. — Quem me libertou da prisão?

— Eu, Luison, filho de Tau e Kerana. — Disse o homem de forma gentil. — E você é Jurupari, filho do Deus Sol, Guaraci e a Deusa da Lavoura, Ceuci.

— Sabes tanto de mim, e sei tão pouco de você, mas já gostei de você pelo simples fato de me libertar. — O Índio foi descendo a construção até ficar diante de Luison.

— Sou vosso aliado, sei que queres ir atrás de vingança daqueles que te prenderam aqui. — Luison apontou para seu irmão Ao-Ao jogado no barral. — Aquele é meu irmão, pouca inteligência, mas uma força descomunal de um colosso. Juntos somos um trio bem forte, não achas?

— Muito forte, mas sei de alguém que pode ajudar muito mais, só que não sei se ele ainda está no plano dos mortos ou se já reencarnou. — Disse Jurupari. — Preciso achar esse ser, pois com ele, nossa vitória seria certa.

^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

Enquanto isso, Na sala do Diretor Euclides…

O homem estava com um canário da terra em mãos, escutando o doce canto daquele ser, amava pássaros de todos os tipos, se considerava um Observador de Aves que em muitos anos de pesquisa, o fez admirar os mais diversos cantos e reconhecê-los. Só que o canto foi interrompido com uma invasão meio brusca a sala, a porta se abriu sozinha e isso assustou o diretor. Só que quando ele encarou um pouco sobre sua mesa, viu que a criatura era miúda e a escrivaninha obstruiu a sua visão.

— Jaci, que susto me deste. — Comentou o diretor meio engraçado, mas notou o olhar de pavor de seu guardião. — Ocorreu algo?

— A fogueira de Angra… Ela está rubro negra, suas chamas avermelharam e solta uma fumaça preta como se queimasse corpos de pessoas. — Jaci estava apavorado e andando de um lado para o outro na sala. — Cinco anos de paz e agora, esse sinal de caos.

— Tens certeza disso, Jaci?

— Se não tivesse, não teria vindo lhe alertar, senhor. — Retrucou Jaci. — Esse é um péssimo sinal, algo grande está por vir. Fomos alertados pelos Deuses.

— Escute, Jaci, sem pânico no instituto, eu farei de tudo para que essa informação seja passada aos alunos da forma mais branda possível, não podemos deixar o medo se instaurar no nosso instituto. — O Diretor pega sua varinha e uma cartola do chapeleiro perto da porta, e sai junto de Jaci.

^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

Trilha Sugerida

Jardim das Araucárias

O Professor Moacir estava guiando os alunos para o lado de fora do Instituto, no caminho que levava até a catedral dos clérigos, na metade do caminho se encontrava uma floresta de araucárias, árvores imponentes e de copa aberta, ali dentro da mata, havia uma lagoa grande de água cristalina, uma pequena gruta escura, era um oásis escondido, fora que ali tinha uma lavoura de ervas e outras hortaliças que Moacir se orgulhava de ter.

— Alunos, prestem atenção, aqui é o nosso lar. — Ele encara todos. — Viemos da terra, somos dela e temos que tratá-la bem. Esse local foi criado pelo meu antigo professor, o Irani, e hoje é do instituto também.

— Tem como pescar? — Perguntou Poraquê olhando para o lago. — Vejo alguns peixes aqui.

— Claro, tem uma boa variedade de peixes de água doce, tem de tilápia até pacu, nós incentivamos que as práticas de caça e coleta comuns de nossas tribos continuem aqui, pois elas são fundamentais para nossa sociedade.

— E se planta aqui também? — Questionou uma das alunas.

— Ervas e alguns tipos de plantas e raízes, temos mandioca, alface, erva mate, funcho, camomila, macela, entre outras. — Moacir foi andando até chegar perto da gruta. — Alunos, é dessa gruta que sai suas caças, basta deixar uma oferenda para as Comadres Fulozinhas, e elas tratam de soltar alguma caça.

— Então elas criam animais aí dentro? — Poraquê parecia perdido.

— Meio que é algo mágico e místico, fazemos isso só nos finais de semana, se conseguirem caçar, fazemos uma festa só dos Alquimistas para comermos em comunhão, se não conseguirem caçar, o animal fica livre nas matas.

— Isso parece interessante.

— Professor Moacir? — Era Hector, estava um pouco esbaforido. — O Diretor mandou chamar você e os alunos. Parece que preteou os olhos da gateada.

— Por Sumé, então vamos, todos organizados e em fila, por favor.

No meio do caminho, o grupo de alquimistas encontrou os clérigos, seminaristas e noviças. Um dos clérigos se desprendeu do seu grupo e foi na direção do grupo de Alquimistas, ficando ao lado de Poraquê que assim que viu quem era, bufou impaciente.

— Anauê, Poraquê. — Era Amorim com seu jeito gentil e hiperativo. — Aprendi esse cumprimento dos nativos.

— Amorim, o que você quer? — Disse Poraquê só olhando pra frente.

— Não posso ser gentil? Criar novas amizades? — Amorim continuou andando ao lado de Poraquê. — Fora que notei algo diferente em você.

— Minha cara de “pouco me importo”?

— Não, estás usando a manta que te dei, mesmo que seja em forma de saiote.

Poraquê tinha vestido a manta de Amorim, só que como uma saia ou algo do tipo, as calças que haviam lhe dado parecia prender suas pernas ao caminhar, pelo menos com a manta estava mais livre em movimentos e ainda lhe protegia.

— E o que tem? Quer que te agradeça por ter feito algo simples?

— Não precisa… — Ele abaixou a voz. — Bem, só espero que tenha gostado. Vou voltar pro meu grupo.

Amorim ajeitou seu colete social e aos poucos foi andando de volta para o grupo de clérigos. Poraquê ficou quieto por um tempo, não gostava de ser grosseiro, mas não fazia questão de passar a mão na cabeça, muitos tinham que entender que seu jeito sério e meio frio vinha das cobranças do seu pai, um Cacique forte e decidido, respeitado e temido por muitos pelo seu jeito de ser. Então foi criado a ser um cara durão, que mesmo sendo justo, não era alguém que tinha a sensibilidade ou manejos sociais mais suaves.

Seu avô tinha esse lado mais humanizado, mas também era tradicionalista e nunca mostrou um lado mais “doce” ou sensível, era a imagem do homem na tribo, ser sério, frio e só mostrar sentimentos a mulher que ama. Poraquê se sentia mal por agir assim com Amorim, mas não queria falar isso abertamente.

Depois de um tempo, todos estavam já na área das cabanas, já avistando a fogueira em labaredas altíssimas em um vermelho quase sangue, algo surreal, e também expelia uma fumaça preta pesada, densa e que parecia ser algo tenebroso. Os murmurinhos e sussurros foram criando um barulho quase que alto, mas o Diretor levantou sua varinha e um bloco de terra começou a subir diante dos pés dele e ele ficou mais alto do que a massa de pessoas à sua frente.

— Alunos, sei que chegaram a pouco tempo, que isso é algo diferente, mas peço a compreensão de todos nessa hora. — Euclides chamou a atenção de todos. — Essa fogueira está aqui desde a criação desses prédios, ela nos indicava os perigos que poderiam nos atingir, e lutamos bravamente para que nada acontecesse ao Instituto Pietro di Castiglia. Mas temo por tempos tortuosos, esse tipo de chama é o pior tipo que temos, é a chama de Vingança Divina, alguma entidade se voltou aos Deuses de origem indígena.

— Então porque convocou a parte católica? — Questionou a Madre Olga.

— Madre, deixe de ser caxias. — Disse o Padre Licurgo. — Perdão pela intromissão, diretor, prossiga.

— Te respondendo, Madre Olga. — O Diretor encarou a mulher mais velha. — Se uma guerra divina começar, nem os poderes de outras religiões poderão ajudar. Será o fim de tudo que um dia conhecemos como mundo.