Instituto Pietro di Castiglia - Interativa
5 V - A Revolta dos Rejeitados
Notas iniciais
Era mais um dia, mas todos notaram a chegada daquele rapaz de aparência estranha, parecia uma cavaleiro do mundo antigo, de cabelos castanhos curtos bem alinhados, olhos claros em tons verdes, sua roupas eram limpas e de aparência nova, um colete de couro escuro, um capa aveludada escura, uma camisa branca de linho, calças de algodão e botas de cano preta. Vivia apoiando a mão no pomo de sua espada estilo Claymore que estava em sua cintura, seus passos ecoavam pelo local, quem foi receber ele era o professor Hector.
— Perdão a minha vinda tardia. — Disse o rapaz de forma cordial.
— Recebi a carta de vosso pai. — Disse Hector. — Como vai o velho lobo do mar?
— Casado e tranquilo, minha mãe cuida dele muito bem. — Respondeu. — Espero não ter perdido muita coisa.
— Perdeu, alguém superou seus históricos de disparo, Antony. — Hector viu o olhar surpreso do rapaz. — Dez disparos em um intervalo de menos de um minuto, e sem errar um disparo.
— Céus. — Os dois foram andando pelos corredores de mármore e pedras escuras das parede. — E quem foi esse Caçador? Queria ter visto tal performance.
Antony Fernando de Carter Alvarenga era um dos filhos com pais de títulos nobres da Marinha Inglesa, sua mãe era filha de comerciantes de Rio Grande, no Condado de Santa Catarina. Seu pai foi atacado por corsários na costa de São Paulo, tendo seu barco apreendido e sendo preso, cooperou com a coroa Brasileira no caso do Pirata Fierro del Castro, um dos mais sanguinários do Brasil, então teve sua liberdade e 50 mil cortins Reais como recompensa.
Ao andarem pelos corredores, distraídos pela conversa estimulante sobre tiroteios, Antony ou Tony, esbarrou em alguém que iria se estabacar no chão se não fosse a agilidade e força dele em agarrar esse alguém e puxar para si. Quando puxou, notou uma leveza pouco encontrada por aí, era uma moça, de cabelos morenos e olhos claros, pele alva como o leite de rosas mais puro, os dois ficaram se encarando por um pouco, até que ele soltou a cintura dela.
— Perdão o mal jeito, senhorita. — Disse Tony de forma educada. — Deveria prestar atenção aos corredores. Foi erro meu.
—T-Tudo bem. — Estranhamente, Kathe enrubesceu e se viu meio perdida.
— Antony, essa é Katherine Lafayette, a caçadora que superou seus tempos de disparo. — Comentou Hector com um sorriso. — Vou deixar vocês conversando.
— Espere, mestre. — Ele fala meio preocupado. — Tens algo que ajuda uma pata machucada?
— Pata, esposa do pato? — Brincou Kathe com um sorriso.
— Espirituosa, mas não. — Ele desfaz o nó que libertaria sua capa e mostra que nas costas tinha um suporte que lembrava o das índias quando carregavam bebês, uma trouxa de panos que dentro tinha um lobo guará branco de patas e focinho pretos, tinha uma das patas frontais torcidas.
— Que meigo, eu queria ser protegida de um guardião, eles são tão fascinantes.
— Bem, tenho algo sim. — Disse Hector sacando um frasquinho. — Suco de Erva Brava com Erva Mate, é amargo por demais, porém, amanhã a pata dele vai estar novinha em folha. Né, Rex?
— Rex era um parente seu? — Perguntou Kathe.
— Meu padrinho. Reinaldo Expedito Xavier, ele virou o braço direito do meu pai quando derrotou o pirata Fierro del Castro. — O lobo guará tinha uns ganidos diferentes lembrando os de uma raposa. — Mas morreu faz uns três anos em uma guerrilha ao Norte de Joinville, a cidade que nasci
— É uma junção das primeiras letras, que interessante. —Kathe piscou rapidamente quando ele disse o nome da cidade. — Estás brincando? Eu sou de Joinville também. Conhece dos Costa e Silva?
— Sim, sua mãe é rica e influente na cidade. — Disse Antony calmamente. — É bom saber que tem mais alguém da terra do “chove e goteja”.
— Ô terra pra chover, isso é verdade.
O professor aplicou com conta-gotas o remédio na boca do lobo, que fez uma careta com o amargor, mas como estava no tiracolo de Antony, não se importava muito ou protestava demais. Quem estava avistando tal encontro de longe era Otávio, sentiu algo diferente dentro dele.
— O que houve, Otavinho? — Disse Felícia em sua mente.
— Nada, Tia. — Ele sorriu pra sua guardiã. — Nada, só preciso lembrar de uma coisa. Não se crias frutos em árvore sem raíz.
— Lembrou-me seu Tio, saudades dele, meu amado Túlio.
— Vamos, temos uma aula para ir, hoje vamos aprender esquivas.
Em algum canto do Brasil…
Uma clareira é iluminada por bolas de fogo em tons azulados, todos espalhadas nos cantos do espaço aberto, no centro deste local estava Jurupari. Usava o poder de sua voz em uma cantiga antiga dos Tupis, somente conhecida pelos verdadeiro anciões, esquecida quando a mata foi invadida pelos brancos. Na mão estava uma Cumbuca com alguma mistura de tim vermelho fluorescente, pois brilhava e soltava algumas fagulhas. Sua voz era acompanhada pela batida de seu pé no chão, Luison assistia tudo de longe, notava que a terra tremia ao seu redor.
Do céu estrelado, uma estrela começou a irradiar sua luz branca, até se aproximar bastante da terra, mostrando a forma de uma garça branca brilhante. Ao pousar no chão, a garça brilha mais até se transformar em um homem de pele morena avermelhada, olhos branco sem íris ou pupila, tinha um manto feito de penas brancas, assim como seu cocar alto, seus cabelos negros eram lisos e tinha pinturas brancas e azuladas pelo corpo. Era o mensageiro dos deuses Tupis, Polo. Tinha um olhar sério e meio preocupado.
— Infelizmente, o dia da sua liberdade chegou. — Comentou Polo com desprezo. — Anhangá deveria ter te prendido de vez no plano dos mortos.
— Isso é jeito de receber um dos Deuses do Coração da Mata? Filho do Sol e da Terra — Perguntou Jurupari de forma debochada. — Meus pais estão bem?
— Fala como se você se importasse com tal informação. — Polo andava pela clareira até avisar Luison. — Olha só, um dos nossos empregados.
— Também sou um Deus, eu sou a morte. — Luison respondeu em rosnadas.
— Mas quem manda no plano dos Mortos é Anhangá e Ticê, o casal mais sombrio, diferente de você que é filho de uma praga, eles conquistaram o respeito de Tupã.
— FILHO DE PRAGA?! — O homem já bufava de raiva.
— Não caia nas provocações de um mero Mensageiro. — Jurupari encarou Polo e se aproximou. — Avise mamãe e papai, que o filho deles está livre. E que eu vou tomar o posto de Tupã, nem as forças mais celestiais de Nhamandú vão me segurar novamente.
— Sei que não vai falar isso ao “mensageiro”, mas como pretendes fazer isso?
— Conheço as lendas, e dos artefatos que foram dados aos Deuses, o cajado de Caipora, o Colar de Iara, o Tacape de Tupã, o Grimório de Sumé, a Pira de Angra. Elas estão ou em posse dos Deuses ou escondidos por aí. Eu sei que são presentes do criador do mundo a eles.
— Vai roubá-los? — Perguntou Polo.
— Você saberá na hora certa, mas não te direi muitas coisas, para não pecar duas vezes no mesmo erro. — Jurupari solta um sorriso meio doentio, sádico. — Agora volte para o Coração da Mata e fale para todos, que eu voltei e será uma idiotice tentar me barrar de qualquer coisa.
— Isso é o que veremos, “Maldito”.
— Vá logo, “Mensageiro”.
Em um movimento rápido com sua capa de penas, Polo virou novamente em uma garça brilhante e voou com rapidez na direção do céu estrelado. Enquanto isso, Jurupari pegou a cumbuca que tinha algo secreto nela, e guardou em um jarro de barro que ele tinha feito, com vários desenhos a base de carvão com um símbolo de um olho. O pequeno jarro de barro ficava amarrado a sua cintura.
Luison precisava se acalmar ainda, seus carniçais em forma de cachorros tentavam acalmá-lo com lambidas e brincadeiras, o único fraco de Luison era esse animais que criava como filhos. Carniçais Caninos eram como cães malditos, que se alimentavam de carne morta humana assim como Luison, que tinha uma segunda forma parecida como um lobisomem pelado e de pele arroxada. Respirando fundo e pegando um de seus carniçais no colo, estava domando seus instintos internos.
— Então, sócio. — Brincou Luison. — Meu irmão foi converter os boitatás, mas precisamos de um plano inicial, onde vamos atacar?
— Sul, não sei ao certo, mas como o dono dos sonhos e das leis, sinto uma força dominante vindo de lá. Pode ser a reencarnação de quem tanto procuro. — Disse o índio encarando seu amigo. — Sinto a força de um ser que podemos domar, vai ser difícil, mas se tivermos ele por perto, será importantíssimo.
— Um ser mais forte que os boitatás?
— O Boi Vaquim, é uma das melhores montarias para se ter em minha pose. Um ser que nunca foi domado por mãos humanas, mas pelas mãos de um Deus, isso vai mudar.
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Enquanto isso, no Instituto.
Todos estavam apreensivos com a notícia recebida, a fogueira já tinha voltado ao seu normal, mas o alerta foi dado, os professores e forças que protegiam o local, tinham que ficar bem atentos a qualquer coisa. Uma das veteranas do colégio, nunca tinha visto tal rebuliço, mesmo que sentisse que algo não estava certo naquele ano. Criada por uma quilombola e um pajé pataxó, ela tinha uma espiritualização muito alta, Janaína ou Jana como era chamada de forma carinhosa pelos parentes, sempre teve envolvimento com rituais de origem africana e os rituais nativos da terra.
Tomava passes, banhos e descarregos para sua limpeza de alma e evolução. Ela sabia que tinha algo errado e só estava no começo. A moça de traços afro-nativos, tendo olhos amendoados e pele preta, cabelos morenos ou em tranças como agora, o soltos e bem cacheados. Usava roupas de cores vibrantes como o lanço em sua cabeça, não gostava de cores escuras, isso carregava energias ruins. Jana sempre mantinha seu olhar e uma cara meio fechada, um jeito que lhe disseram para que não chegassem muito perto, mas nem sempre funcionava, ainda mais quando tinha que lidar com um conhecido antigo, Amorim.
— Olá, Janaína. — O rapaz estava suspirando um pouco.
— Aconteceu algo, Amorim? — Jana conhecia o jovem clérigo, já que o mesmo era veterano do ano passado, mesmo sendo de religiões diferentes, o rapaz sempre foi respeitoso e curioso sobre tudo.
Amorim se aproximou, pedido licença para se sentar no mesmo tronco diante da fogueira que Jana.
— Eu acho que sou um péssimo clérigo. — Ele olhava pra fogueira fixamente, tentando não ficar muito emocionado. — Todos que converso no seminário, parecem frios, não gostam do meu jeito espontâneo. Não gostam que me aproxime de alunos que sejam de outro conhecimento. Dizem que ser diferente é ruim pra nossa imagem.
— Oxi, como é? — Jana esbravejou um pouco. — Amorim, não ligue pra eles, você se mostrou um excelente clérigo entrando pro Grupo de Cura.
— Mas, e daí? — Amorim ficou um pouco quieto. — Eles não me dão valor, ninguém dá… — O rapaz deixou a voz falhar. — Eu tento ser um bom teólogo, dizendo que a religião não é ruim, que estamos aqui pra acalmar as coisas. Mas o estrago já tá feito.
— É por causa daquele rapaz que veio na nossa diligência, como é o nome dele?
— O Poraquê? — Ele balança a cabeça rapidamente. — Não, ele só estava falando das tradições dele. Foi uma péssima ideia puxar esse assunto.
— Amorim, seja mais confiante. — Ela tem um estalo. — Que tal, se eu te der um banho de ervas? Pra descarregar essa energia ruim, tirar esse mau-olhado de você. E uma dica, não use tanta roupa escura, roupas claras te iluminam.
— Obrigado, Janaína. Vou pensar bastante na sua oferta, e na sua dica.
Ela foi dar um tapinha de apoio no ombro do rapaz, mas isso ativou alguma coisa nela, dado a sua sensitividade, meio que Jana tinha algumas previsões de pessoas muito perto dela, Amorim era alguém. Ela viu ele com uma cruz nas costas, machucado e sendo julgado, uma alusão a dor de Cristo antes da morte. Tais visões eram como charadas, nada vinha como algo realmente escrito ou respondido, mas sabia que era isso que Amorim sentia e estava pra piorar.
Ficando um pouco tonta, Amorim tentou apartá-la, mas sabia que a moça odiava que a tocassem sem permissão, ainda mais se fosse seu cabelo ou cabeça. Mas ela logo se recuperou.
— Desculpa, eu… Não queria te causar alguma coisa. — Amorim se mantinha preocupado, com um olhar choroso.
— Eu estou bem, só… — Ela o encara. — Não tema essas pessoas, quem te quer mal, não te conhece. Não sabe quem és de verdade, então, pense bem na proposta de um banho de ervas, vai te fazer um bem danado.
— Pode deixar. E Obrigado por me ouvir, hoje eu não consegui ir ao confessionário, então conversar contigo já valeu a pena.
Amorim acenou com a cabeça, e saiu dali, antes que ficasse muito tarde e as comadres viessem atrás dele. Jana tinha um certo receio do que poderia vir acontecer com aquele rapaz, pois acima de tudo, de qualquer coisa, ela nunca viu um traço de malícia nele, era alguém verdadeiramente bom que tinha o dom de cura, que estava sendo mal falado por respeitar as demais crenças e estilos de vida.
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Durante a noite, todos dormiam em suas cabanas, Poranga estava dormindo em uma cabana onde dormiam mais 4 garotas, incluindo Kathe e Jana, todas em seus respectivos quartos. Mas algo não deixava com que Poranga dormisse direito, uma espécie de pesadelo a perturbava durante a madrugada.
“Na época onde teve que se esconder na mata por causa de uma possível maldição que carregava, antes de ser encontrada pelos pais adotivos de outra tribo, a moça foi visitada por um ser. Só que nesse pesadelo, era bem mais vívido do que uma simples ilusão. Uma cobra gigante de um tamanho inenarrável pra ela, com chamas azuladas pelo corpo enorme, suas escamas tinham uma cor forte como carvão de brasa acesa, ela encarou Poranga seus olhos eram brancos e seu sibilar soltava uma certa faísca. Era como um Boitatá, só que a lenda dizia, que se comesse carne humana, libertaria o mal do Boitatá e ele seria só do caos.
— Itaúna… Vamos buscar você… Estamos no seu rastro. — Dizia o Boitatá no sonho, antes de abrir sua enorme mandíbula e matar Poranga no sonho.
Ao despertar em um susto, Poranga notou que estava suada e parecia febril, um pesadelo poderia deixar uma pessoa nesse estado.
Bem longe dali, Jurupari estava fazendo uma reza ou um canto, estava concentrado em achar algo, estava rastreando os sonhos. Até que abriu os olhos, e começou a rir com felicidade de vitória.
— ACHEI! Achei a encarnação dela, achei minha pedra preciosa. — Comentou o Deus.
— E quem seria? — Perguntou Luison.
— Na hora certa, lhe direi, só tenho que ir atrás dela. — Ele encara Luison. — Vou te mandar para um local, quero que mande um aviso para eles.
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No dia seguinte, as aulas estavam sendo feitas tranquilamente, no quintal da frente, algumas comadres fulôzinhas estavam brincando, elas tinham 30 centímetros de altura na forma pacífica. Sempre brincavam de pega-pega nos quintais do instituto. Até que uma delas sentiu um cheiro forte, algo que não era comum sentir por ali, principalmente com cheiro de pólen rodeando elas. Essa que sentiu o cheiro, foi correndo avisar Jaci Jaterê, só ele entendia a língua da “Fadas Nativas”. Ele acendeu seu cachimbo e foi na direção do local e o cheiro era algo podre, de carniça mesmo.
— Céus, isso não é bom. — O cheiro ficava ainda mais forte. — Isso tem cara do meu… Irmão…
O local que era um pampa aberto sob um lajeado, começou a ter alguns pontos onde a mata morria e ficava um lamaçal podre, de lá começavam a emergir alguns Corpos Secos, pareciam zumbis bem putrefatos, com as almas de pessoas que foram rejeitadas pelos paraíso e o plano dos mortos, por serem tão perversos em vida, que nem o castigo mais severo lhes fariam mudar. Sendo condenados então a ter suas almas presas nos corpos mortos deles.
Era um grande grupo de Corpos secos, um pequeno batalhão. Jaci não arriscaria mandar seus sacis para uma briga desse nível, então, usou seu cajado para invocar uma Muralha de Erva-Mates, já que a planta era um pouco grande e se juntas, davam uma lentidão extra ao seres. Só que ele havia se esquecido de uma coisa, o Toque Necrótico dos Corpos Secos, tudo que ele toca, seca, até mesmo onde pisa.
— Sacis, avisem o diretor, eu seguro eles. — Disse Jaci para seus pequenos diabretes.
Um grupo de três cães, pastores belgas, pularam a pequena muralha de erva mate, estavam de uma forma maior e mais bestiais, seus olhos brilhavam em tons fortes de escarlate, rosnavam bravamente e babam de raiva. Jaci conhecia eles.
— Droga… Luison está aqui. — Ele tremeu na base.
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