Imperium
18 XVIII - Grace Cartwright
Notas iniciais
Todos os dias, logo de manhã, quando o Sol mal havia saído de seu esconderijo, Sophia Collins saía do palácio para supervisionar as carretes de grãos e a pecuária entrando dentro da residência real. Aqueles que passavam seu teste silencioso iriam fazer parte das alimentações diárias da Rainha.
Gideon a observou em silêncio, maravilhado com a mulher de seus sonhos. O cabelo de Sophia estava penteado em um coque alto e ela usava um vestido marrom, com um pano branco cobrindo o topo da cabeça. A cicatriz parecia brilhar na luz do Sol, quase como uma jóia de prata implantada em seu belo rosto.
Ele nunca a viu sem aquela marca. Gideon encontrou Sophie na rua, um pano sujo apertado na bochecha depois de ter sido atacada pelo filho do patrão e jogada na rua como uma prostituta qualquer. Ele a levou para Norfolk e fez seu médico pessoal cuidar de seus ferimentos. Depois, Alexander a empregou. Gideon sabia que Sophie era leal ao primo e guardava seus segredos a sete chaves, porém, apesar de ter conhecimento das preferências do Duque, era incapaz de não sentir ciúmes da relação.
Alexander poderia falar com ela em público, poderia chamá-la de amiga privadamente e ninguém iria piscar um olho, mas Sophie nunca deixaria Gideon ter essa mesma liberdade.
Um feirante ofereceu uma cartela de ovos para a mulher e, depois de uma olhada para as cozinhas, assentiu brevemente, entregando algumas moedas ao homem. Quando ela se virou para entrar no palácio novamente, Gideon correu até ela.
— Sophie! — ele chamou e a mulher franziu o cenho, confusa. Ao perceber ser ele o homem quem andava, ela arregalou os olhos e se virou para o outro lado. — Sophie, espera!
Sophia Collins era mais baixa e mais lenta do que Gideon Lightwood, não importando o quanto corresse. Não demorou para ele conseguir alcançá-la, fechando os dedos ao redor de seu pulso e virando-a. A cabeça da moça se inclinou, o queixo caído e ela encarou os pés. O coração de Gideon se quebrou e ele colocou as mãos em seus ombros, desejando fazê-la olhá-lo nos olhos e dizer, Sophie, sou eu. É Gideon, meu amor.
As bochechas dela estavam avermelhadas e os olhos, semicerrados, como se tivesse acabado de acordar e estivesse com sono. Era como se não o reconhecesse, como se ele fosse um completo estranho.
— Sophie… — ele sussurrou, a voz triste.
— Vossa Alteza — ela disse, fazendo uma reverência. — Como posso ajudar um Infante da Espanha?
— Sophie — ele repetiu. — Sou eu.
Ela olhou para cima e seus olhos se encontraram. Gideon sempre amou os olhos de Sophie. Castanho esverdeado, sempre uma cor diferente quando ele olhava. Olhos vivos e intensos, repletos de emoção. Era impossível notar sua cicatriz quando ele poderia observar seus olhos. Normalmente, quando tudo estava bem entre eles, ela olhava para ele com amor e calma, algo devolvido em seu próprio olhar como devoção e lealdade. Agora, entretanto, eles estavam trêmulos, viajando por todo o seu rosto. Era como se ele fosse um completo estranho.
— Eu sei — ela disse. A voz dela estava determinada e cheia de raiva reprimida, assim como ofensa. Gideon deu um passo para trás, afastando-se de Sophie e soltou seu braço. — O que você quer, Gideon?
Ele abriu e fechou a boca várias vezes, tentando decidir o que dizer sem ofendê-la.
Escolheu, por fim, a verdade e o motivo para ele estar ali.
— O Rei me pediu para ir à Espanha — ele disse. — Quer que eu entregue uma carta ao meu irmão e reconcilie-o com a esposa.
— Bom — Sophie murmurou. — Parabéns, meu senhor. Soube que a Espanha é um país lindo, apesar de eu mesma não poder saber disso. Nunca fui lá.
— Esse é o motivo para eu estar aqui — Gideon respondeu, agarrando a oportunidade quando ela se fez disponível — Quero que você me acompanhe.
Sophie arregalou os olhos e deu um passo para trás, chocada.
— O quê?
Ele andou até ela e pegou suas mãos, sentindo seus dedos trêmulos. Se fosse qualquer outro momento, ela iria estapeá-lo para longe, tinha certeza, mas agora estava chocada demais para fazer qualquer coisa.
— Venha comigo para a Espanha — repetiu. — Não como criada, ou qualquer coisa, mas como a mulher a quem amo. Ficará ao meu lado e todos terão que nos respeitar. Nem precisaremos voltar. Gabriel sempre prometeu um lugar permanente para mim em sua Corte.
Ele apertou a boca contra dela. Os lábios de Sophie eram tão familiares que seu corpo se relaxou, tentando aprofundar o beijo, mas ela o empurrou para longe antes mesmo de ele conseguir virar o rosto.
Gideon arregalou os olhos e suas bochechas queimaram. Era como se ela tivesse lhe dado um tapa e, uma parte distante dentro dele, achava isso ser uma melhor opção do que a rejeição.
— Quem disse que eu quero? — Sophie perguntou. — Na corte de Gabriel, eu seria sua amante, nada mais. Uma mulher imoral. Todos iriam tentar se livrar de mim e colocar as próprias filhas e irmãs em meu lugar. — Ela olhou para o corredor atrás dele e Gideon sabia ser o caminho para o quarto da Rainha. — Tenho uma posição aqui. Uma posição de respeito. A Rainha se apoia em mim. Ela precisa de mim.
— Ela é uma criança — Gideon retrucou. — Você realmente prefere passar sua vida como uma criada?
— Você não entende — Sophie disse e seus olhos brilharam. Se ele não a conhecesse melhor, acharia que estivesse prestes à chorar. — É nobre. Sua mãe foi uma infanta espanhola e seu pai era o homem mais rico de toda a Europa. Tudo que você já quis, lhe foi entregue com um sorriso. Eu tive de batalhar por tudo. — ela balançou a cabeça. — A Rainha confia em mim. Ela aumentou meu salário na semana passada. Vinte libras agora, toda semana. Sem falta. Aqui no Palácio, eu não sinto frio ou fome e a minha posição é a mais alta entre todas as criadas mulheres. Você pode me oferecer o mesmo?
— Sophie… — ele começou. — Eu te amo. Se vier comigo para a Espanha, irá viver como uma princesa.
— E quando se cansar de mim? — ela retrucou, erguendo o queixo em desafio. — Voltarei para a Inglaterra na mesma situação em que deixei, porém com uma trilha de rumores me seguindo. A Rainha é católica. Realmente acha que ela irá me aceitar de volta?
Ele pensou nos anos em Norfolk, logo depois de a ter encontrado pela primeira vez. Meses de beijos escondidos, horas passadas na cama com os membros suados e entrelaçados. Ele havia ficado na Inglaterra por ela, era para ser uma visita rápida e ele iria tomar seu lugar na Espanha como segundo na linha de sucessão, mas Sophie roubou seu coração no momento em que a viu na rua, apenas dezessete anos de idade e uma maturidade para invejar. Dez anos haviam se passado e ele nunca se cansou dela, nunca desistiu deles.
— Eu… — ele disse, incapaz de falar. — Eu… Eu…
Sophie viu aquilo com escárnio.
— Viu? Nem pode negar. — ela deu uma risada, alta e falsa. — Vá para a Espanha, Gideon. Case-se com quem seu irmão quiser que você case e me esqueça.
Sophie se virou e andou para longe. Gideon não teve força para segui-la ou impedi-la.
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Amado pai,
Desculpe pela demora em te escrever novamente. Com a morte de meu sogro e a ascensão de meu marido, estive tão ocupada que negligenciei meus deveres como filha. Peço o seu imperial perdão, papai, e juro não cometer o mesmo erro novamente.
Imagino que já saiba, mas deixe-me contar as notícias felizes eu mesma: estou grávida, papai. Cresce um herdeiro para a Inglaterra dentro de minhas entranhas. Você sempre dizia querer o maior número de netos possível, não era mesmo? Meu filho será o primeiro de muitos e, com o casamento do Arquiduque com a Infanta Espanhola, tenho certeza de que Schönbrunn logo estará cheio de pequenos Morgenstern correndo pelos corredores.
Escrevo-te também, pois gostaria de dar voz aos meus medos. Recebi uma carta muito estranha de Sebastian onde, além de anunciar seu casamento, meu irmão comentou um desejo inato de não conseguir esperar para governar. Quando Tatiana Lightwood lhe der um herdeiro homem, ele planeja anunciar seu desejo de herdar o trono espanhol. Temo o que Sebastian poderia fazer quando perceber que o trono de Gabriel não está ao seu alcance e vire os olhos para você, querido pai.
Quando me responder, gostaria de uma asseguração por sua parte. Sabe como respeito o senhor e nossa família.
Com amor,
Sua filha dedicada,
Clarissa, Queen Consort of England, Scotland, Ireland and France.
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Ella Amatis Imogen era a criança mais velha do Rei Stephen, fruto de seu primeiro casamento com Linette Owens, uma dama galesa cuja união serviria para acalmar seu país. Ela era alta como o pai, com dedos longos e altas maçãs do rosto. O nascimento de Ella significou um crescimento na popularidade da família real, perdida depois da morte da avó e ascensão de Stephen. Antes de sua concepção, o pai havia passado vinte anos de luto pela perda de sua primeira noiva e grande amor, Amatis Graymark, uma princesa germânica. William dizia esse ser o motivo por trás da aliança de Stephen com a Prússia.
Ella não era bonita como Cecily ou Jonathan, mas possuía uma certa elegância em seu jeito de andar e agir inigualável em toda a cristandade. Ninguém poderia negar seu sangue real. Ela sempre usava uma cruz de madeira em um cordão simples no peito, uma divergência a suas roupas caras e brincos pesados. O cabelo preto era penteado para cima, seguindo a nova moda do continente, e os olhos castanhos corriam pelo quarto, como se procurando alguma ameaça escondida. Deveria ser normal, ele pensou. Ella passou dez anos de sua vida em uma corte estranha com um marido horrível. A segurança de sua casa não iria apagar todos os machucados invisíveis cometido por Frederick William.
Jonathan a observou em silêncio. Ella estava usando um vestido preto, como esperado por uma mulher recentemente enviuvada, e luvas brancas. Parecia nervosa, ou irritada, duas emoções não estranhas à Rainha-Mãe. Os lábios rosados estavam entortados, mas o resto de seu rosto permanecia neutro.
Ella Herondale pôde levar apenas um de seus filhos para Inglaterra e pequena Wilhelmina estava com as duas mãos agarradas às saias da mãe, o cabelo loiro formando cachos ao redor de seu rosto oval. A Prússia ainda era um reino novo, pobre e sem honras. Se Wilhelmina quisesse ter alguma chance no mercado de casamentos, precisaria receber a boa educação disponível na Corte e usar seu sangue, além das conexões com a Casa da Áustria, para ser uma boa opção de esposa. Jonathan percebeu com um tom de decepção que a sobrinha não parecia com a irmã. Os olhos estavam arregalados, a íris possuindo o mesmo tom de cinza de seu vestido simples.
Ele olhou ao redor. Após a mudança da corte para Hampton Court, teve o cuidado de dar aposentos dignos para sua irmã mais velha, o terceiro melhor quarto em todo o Palácio. As paredes estavam decoradas com veludo vermelho, bordadas com a garça dos Herondale e o leão retumbante de Inglaterra. A cama larga poderia abrigar um grupo de cinco pessoas e possuía inúmeros travesseiros estofados com penas de gansos. Além do quarto, Jonathan havia contratado trinta empregadas para cuidar do dia-a-dia de sua irmã e sobrinha. Elas não iriam sentir falta de nada.
Salvo, é claro, do pequeno Friedrich.
Jonathan preferiu não abordar o assunto do sobrinho naquele momento. O Rei da Prússia era um menino de seis anos, preso em seu país por um grupo de regentes focados do próprio umbigo. Ainda era necessário muito planejamento antes de ele poder reunir mãe e filho.
Jonathan bateu a bengala no chão duas vezes e duas babás com vestidos cinzas e aventais brancos entraram, os cabelos escuros escondidos embaixo de chapéus brancos. Wilhelmina arregalou os olhos e se virou para a mãe, apertando os braços ao redor da cintura de Ella. Não demorou muito para o Rei perceber que ela era uma menina muito nervosa e tímida, lenta para confiar nos outros.
Jonathan deu um passo para frente, se portando na frente da sobrinha. Wilhelmina não prestou atenção nele.
— Mina, querida, — ele disse, usando o apelido mencionado por Ella em uma de suas quartas. Jonathan tentou manter a sua voz gentil e doce. Nunca teve muito contato com crianças, apenas com os dois filhos de Alexander. Eugenia e Maxwell, entretanto, viviam nas terras do pai em Norfolk, sob o olhar cuidadoso da governanta. Mas Clarissa e Jessamine estavam grávidas e, logo, ele teria duas crianças em sua vida. Se quisesse ser um bom pai para elas, precisaria começar sendo um bom tio. — Eu gostaria que você fosse com essas duas mulheres. Elas irão tomar conta de você. Te proteger. Você não irá precisar de nada, juro. Confio nelas.
Wilhelmina balançou a cabeça e Ella colocou a mão na coroa de seu cabelo, sussurrando algo em alemão.
— Geh, mein Lieber.
Uma das babás, alta e magra, se aproximou e ajoelhou-se ao lado de Jonathan.
— Venha, princesinha, — ela disse. — Vou mostrar o quarto de Vossa Alteza. Aposentos dignos de uma princesa tão bonita como a senhora. — as duas babás eram mulheres experientes em cuidados de criança. Cada uma possuía pelo menos quatro filhos saudáveis e mais de quarenta anos de vida. — Haverá muitos presentes, também. Roupas e brinquedos.
Wilhelmina olhou de soslaio para os dois. Parecia desconfiada. Jonathan olhou para aquela menina e viu a si mesmo, doze anos mais novo. Entendia sua suspeita e medo, como se, ao aceitar, tudo se revelaria como uma brincadeira e ela perderia tudo. Uma criança criada em meio a violência via o carinho como uma ameaça.
— E um cachorro — Jonathan adicionou, gentilmente.
A babá olhou para ele, procurando permissão, e Jonathan assentiu.
— E um cachorro — ela disse. — Mas apenas se Vossa Alteza vier conosco.
Wilhelmina sorriu de lado, um movimento do rosto tão tímido e singelo que era difícil perceber. Ela olhou para a mãe, como se procurando permissão, e Ella assentiu, a mão acariciando o cabelo da filha. Wilhelmina soltou as saias negras e aceitou a mão oferecida pela babá mais ousada.
Quando as três saíram, Ella se virou para o Rei.
— Vossa Majestade não deveria fazer promessas que não pretende cumprir — disse. — Ela acreditará em você e ficará desapontada se não conseguir o animal.
Jonathan olhou para sua irmã. Quando se viram pela última vez, ele era o Duque de York e ela, a Rainha Consorte da Prússia. Agora ele era um Rei e ela era uma viúva. As coisas haviam mudado para a Casa Herondale.
— Pretendo cumprir essa promessa, irmã — ele respondeu. — Sua filha será criada como uma princesa inglesa e, dessa forma, estará sob a proteção do Rei. Não há motivo para você se preocupar. Assim que terminarmos, irei procurar um filhote perfeito para ela. — ele apontou para uma mesa no meio do quarto, com biscoitos e chá. — Sente-se, por favor.
Ella suspirou e pareceu, finalmente, relaxar. A irmã se sentou em uma cadeira perto da janela, ignorando a comida disponível. Jonathan ficou quieto. Quando Ella foi embora, Jonathan tinha apenas dez anos. Ela, dezoito. Não foram próximos, como ele era com Cecily, afinal nunca havia a oportunidade. Ele não havia a menor ideia do que dizer a ela para amenizar a situação. Se William estivesse ali, ele já estaria em meio a uma conversa profunda com a irmã, amenizando todos os seus medos e apreensões.
Mas William não estava ali, entretanto. Ele era o Rei, agora. Suspirando, Jonathan se sentou ao lado da irmã.
— Como você está? — ele perguntou.
— Bem, meu rei. — Ella tentou sorrir, mas a expressão parecia estranha em seu rosto. Ele se perguntou quando foi a última vez que ela jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. — Soube de seu casamento. Meus parabéns, Vossa Majestade. Agora é genro do Imperador austríaco.
— Obrigado. Minha maior realização foi esse casamento — Jonathan respondeu. — Mas sem formalidades, Ella. Você é minha irmã. Não há necessidade para me tratar assim.
Ella tossiu, provavelmente querendo rir, e ele ficou quieto.
— Sua esposa carrega um filho, não é mesmo?
— Sim — ele disse. — O médico diz que ela irá dar a luz em quatro, ou cinco meses.
— Isso é bom — Ella murmurou e olhou para Jonathan com tanta intensidade que ele quase desviou o olhar, mas se forçou a aguentar a encarada. Por Deus, ele era o rei agora. — Somos os últimos Herondale, Jonathan. Eu, você e Cecily, mas apenas você pode carregar o nome da família para frente. Se Clarissa der a luz a um filho homem, a próxima geração de nosso governo está garantida. — ela suspirou. — Cecily e eu renunciamos nossos direitos ao trono, portanto, se você morrer sem herdeiros, Jonathan Wayland será o novo Rei.
A imagem do primo veio a sua mente. Cabelo castanho, olhos verdes maldosos. Costumavam ser amigos, quase irmãos, mas lhe foi confiado um segredo e Jonathan Wayland correu para contar ao rei, destruindo qualquer parcela de afeição que Stephen poderia ter pelo segundo filho. Quando eram adolescentes, o Duque de Buckingham quebrou a confiança de Jonathan e isso ele nunca iria perdoar. Preferia ser condenado ao inferno do que deixar seu trono para o homem.
— Não permitirei que isso aconteça — disse. — Ella, você terá seus direitos novamente. Você e Wilhelmina. Sua filha poderá ser a próxima Rainha da Inglaterra.
Os olhos de Ella se arregalaram levemente. Os dedos esqueléticos tocaram na cruz em seu peito.
— Apenas se for o desejo do Senhor — ela disse e Jonathan assentiu.
Desejava não ser assim, mas as coisas nem sempre iam de acordo com o plano. Mesmo se Wilhelmina subisse ao trono, seus filhos teriam o nome do marido e a Casa de Herondale ainda acabaria.
Mas tudo não estava perdido ainda. Clarissa estava grávida. A criança poderia ser um menino, um Príncipe de Gales, e os sonhos de Buckingham de ascender ao trono se tornariam cinzas com o choro de um varão saudável.
— Passou muito tempo escondido em York — disse Ella e sua voz tomou um tom maternal. — Depois de William, deveria ter amadurecido, mas não conseguiu. Continuou com suas amantes.
Jonathan sorriu. Sabia que isso estava chegando. Assim como William, Ella adorava dar broncas no irmão menor.
— Cecily te contou sobre Jessamine? — perguntou.
Ella sorriu, levemente.
— Não — disse. — Alexander me contou. Faz algum tempo, antes de Clarissa.
— Não sabia que vocês trocavam cartas — ele sussurrou, sentindo-se mais entretido do que com raiva.
— Apenas quando o assunto é você. — Ella suspirou. — Amantes ambiciosas não são boas para um Rei, irmãozinho. Está na hora de se livrar dela.
Ele olhou para baixo, para os pés. As saias de Ella eram tão largas que atingiam a ponta de seus sapatos, cobrindo os dedos do pé dele. Sentia-se envergonhado, como se tivesse acabado de ser pego roubando bolos da cozinha. Ele era o Rei, mas nunca conseguiria perder as barreiras das relações familiares.
— Não se preocupe — ele disse. — Meu relacionamento com Jessamine Lovelace está terminado.
Ella sorriu.
— Isso é bom — murmurou. — Você deve ser diferente, Jonathan. Inglaterra, Escócia e Irlanda não precisam de um jovem cercado por amantes. Elas precisam de um Rei. Não amanhã, não no ano que vem. Hoje.
— Eu irei te deixar orgulhosa, Ella — Jonathan disse com convicção. — Prometo.
Ella assentiu. Ele se lembrou do dia em que ela foi embora. Era o aniversário da morte de Rainha Céline e Jonathan havia se comportado muito mal naquele dia. Chutou as babás, cuspiu na cara dos tutores, mas o que ele disse para a irmã, quando ela entrou em seu quarto para se despedir… Ele nunca se perdoou por aquilo.
— Eu recebi a notícia da morte de nosso pai e de sua ascensão em Paris — Ella disse, atraindo a atenção dele novamente. — Perdi a coroação?
Jonathan balançou a cabeça, negando.
— O Primeiro Ministro acha mais prudente esperar alguns meses. Primeiro, para o fim do luto e, depois, para podermos organizar uma boa celebração.
Ella assentiu.
— Esperto. A coroação de um novo Rei deve ser um evento magnífico, imaculado pela tristeza do luto. Já decidiu como irá se apresentar?
Ele hesitou. O nome Jonathan era antigo na linhagem real britânica, com lendas dizendo ser o nome do primeiro rei da Inglaterra, mas o pai nunca desejou que ele ascendesse ao trono. O herdeiro era William. Se o irmão tivesse sobrevivido a tuberculose, ele estaria casado com Clarissa agora, esperando um filho legítimo e reinando como William IV.
Se usasse apenas o primeiro nome, seria Jonathan XIV. Se usasse apenas o segundo, seria Christopher III. Mas usando os dois, era único.
— Jonathan Christopher I — ele respondeu.
— Bom nome — disse. — Digno de um bom Rei.
Ele balançou a cabeça.
— Todos os dias, sou acordado por assuntos de estado. Inúmeras decisões precisam ser feitas, papéis para serem assinados… — ele hesitou. — Temo não estar preparado para o trabalho.
— Nosso pai negligenciou seus estudos após a morte de William, é verdade — Ella murmurou. — Mas você está preparado. — ela olhou para a janela e a luz do sol do meio-dia brilhou em seu rosto pálido. — Esse é o seu reino, irmãozinho. Sua primogenitura concedida por Deus. Ninguém pode tirar isso de você.
— Como pode ter certeza disso? — ele perguntou, sentindo-se como Wilhelmina. Oito anos. Nova e assustada. Por um segundo, Jonathan desejou que a mãe tivesse vivido, apenas para poder se agachar e esconder em suas saias, como um bebê recém desmamado.
— Porque eu irei te ajudar. — Ella sorriu e a expressão pareceu atingir seus olhos. — As coisas são sempre difíceis com um novo governo e está na hora de você montar o seu próprio. — ela abriu e fechou a boca, procurando as palavras certas para dizer. — Nosso pai mentia para o povo, Jonathan. Dizia ser apenas um monarca constitucional, uma figura de proa, mas nós dois sabemos a verdade. Ele era um rei absolutista que conseguia esconder a sombra de sua mão muito bem.
— Está dizendo para eu continuar o trabalho de nosso pai? — Stephen era controlador. Quase tirânico. Ele controlava seu reino e sua família com um punho de ferro. — O povo já matou um rei absolutista antes, Ella. Eu não gostaria de ser um novo Charles I.
— Você não precisa ser — disse. — Não tenha medo. Eu irei te ajudar. Primeiro, precisa escolher os membros de seu conselho pessoal. Poderão ser Senhores do parlamento, se achar melhor. Os servos de papai agem como se ele ainda estivesse aqui. Precisa mostrá-los a verdade. Você é o Rei agora e nada irá mudar isso.
Jonathan se inclinou para frente e pegou a mão de irmã, sentindo a pele gelada de Ella contra a sua. Ela estava tremendo. Com um movimento gentil de seu pulso, a irmã levou sua mão aos lábios, beijando a pele das costas. Ela inclinou a cabeça levemente, em sinal de respeito ao novo Rei.
— Preciso de ajuda — ele admitiu. — Agora mais do que nunca. Não irei conseguir fazer isso.
— Você não precisa — Ella disse. — Eu estou aqui. Alexander está aqui. Clarissa está aqui. Todos nós iremos te ajudar. — ela suspirou. — Vi os casacos negros hoje. A guarda pessoal da Rainha. Cem soldados austríacos escolhidos e treinados pelo próprio Imperador para proteger sua amada filha, a Rainha da Inglaterra.
— O que você está tentando dizer?
— Estou dizendo que você precisa de algo parecido, Jonathan — ela murmurou. — Sei de um homem digno de ser capitão. Se der sua permissão, posso contratá-lo e lhe encontrar homens para treinar. Em um mês, terá uma guarda pessoal maior do que a de Clarissa.
— Quem é esse homem maravilhoso? — ele perguntou.
— Alexei de Quincey — disse Ella. — É determinado e corajoso. Papai o fez general de nossos exércitos, durante a Guerra Espanhola. Tornou-se um herói e garantiu o casamento de Cecily com Gabriel. Servirá o trono e você com graça e lealdade. — ela sorriu. — Então, Vossa Majestade, tenho sua permissão?
— Você é minha irmã, Ella — ele disse. — Sua filha é a sobrinha do Rei. Seus lugares na Corte estão garantidos. Enquanto eu viver, você não precisará de permissão para nada.
Ella piscou e olhou para Jonathan. De todos os filhos de Stephen VII, a Rainha-Mãe na Prússia era quem menos se parecia com o falecido rei. Ela era alta e magra como a mãe, quase esquelética, com um longo e fino nariz arrebitado. O cabelo preto estava penteado para cima e coberto por uma fina camada de farinha de trigo, para lhe dar uma aparência esbranquiçada. Alguns diziam se parecer com os retratos da avó, a Rainha Imogen I.
— Ella — ele começou. — Posso te pedir um favor?
Ella assentiu.
—Mas é claro — disse. — Além de ser meu Rei, é meu irmão. Faria qualquer coisa por você.
Jonathan sorriu. ra isso que ele precisava. Lealdade, devoção. Passou tanto tempo procurando, antes de encontrar isso em Clarissa e, agora, em sua irmã. Ella era uma Herondale e desejava o melhor para a família e a continuação do nome de seus ancestrais.
— Eu quero que você se torne amiga de minha esposa — murmurou. — Clarissa é jovem e inocente. Com a sua gravidez, temo ser possível de que alguém tente lhe tirar vantagem. Ela iria gostar de sua proteção e amizade.
— Quer que eu me torne uma de suas damas de companhia? — Ella perguntou, confusa.
Jonathan balançou a cabeça.
— Essa posição não está a sua altura — ele disse. — Apenas… Seja sua confidante. Ela precisa de ajuda agora mais do que nunca.
Ella colocou uma mão na bochecha de Jonathan, acariciando a maçã do rosto com o polegar. Ele se inclinou na direção da carícia e sentiu um peso invisível se levantar de seus ombros. Era como se ele estivesse com dor de cabeça há tanto tempo que não sentia mais a dor e o carinho de Ella foi o remédio, trazendo alívio e leveza para todo o seu corpo.
A irmã estava com dezesseis anos quando a Rainha Céline havia morrido e, nos dois anos antes de sua saída para a Prússia, ela havia tentado tomar um papel maternal em relação a Jonathan, porém o pai parou qualquer proximidade entre os dois logo e mandou Jonathan para suas propriedades pessoais em York.
— Clarissa Morgenstern é sua esposa. Pela lei dos homens e de Deus, sou sua irmã. — Ella deu de ombros. — Serei sua amiga e mais. Ensinarei à ela como ser uma verdadeira Rainha.
Jonathan sorriu. Ele fechou os olhos, relaxado. A irmã não moveu sua mão.
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Meine liebe Tochter,
Eu sei dos planos de seu irmão. Não se preocupe. Meu reino teria sido muito mais curto se eu não pudesse enxergar a dissidência em minha corte. Sebastian será punido de acordo com seus erros. É difícil de admitir, mas seu irmão me decepciona. Ele é meu herdeiro, sim, mas temo o que irá acontecer com nosso domínios quando ele ascender ao trono. Sebastian irá trazer o fim aos Morgenstern, tenho certeza.
Mas tudo não está perdido. Sua gravidez me alegra, liebes. Um neto ou uma neta seria o necessário para aliviar meus medos. Mostraria que nosso Senhor sorri para você, minha filha. Rezo por uma gravidez segura e um parto mais seguro ainda. Minha a mãe, a quem lhe dei o nome, morreu na cama de parto, alguns meses depois de meu pai. Odiaria ver a mesma coisa acontecendo a você
Também lhe dou parabéns pela ascensão de seu marido. Agora você é a Rainha da Inglaterra, como planejado por mim. Espero que não se esqueça da Áustria, sua terra de nascimento. Stephen VII não honrou a nossa aliança e odiaria ver a mesma coisa acontecendo com Jonathan Christopher.
Confio em você, Seraphina.
Amor,
Seu pai.
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Casamentos eram eventos felizes, mas nenhum dos atendentes estavam sorrindo naquele dia.
Apenas a família da noiva estava ali. O noivo era órfão desde os quatorze anos — por suas próprias mãos, segundo rumores – e os primos o odiavam demais para sequer estarem ali. Não havia problema, entretanto. Ele não precisava de ninguém.
Ninguém, é claro, além da noiva e do dinheiro do futuro sogro.
Assim como ele, a jovem moça era neta de uma princesa Herondale, a segunda irmã do falecido Stephen VII, e possuía uma reivindicação pequena ao trono. Era a sétima na linha de sucessão, após o pai, os irmãos e o futuro marido. A noiva era bela de uma maneira não natural. O cabelo era de um loiro claro, quase branco, e seus cílios eram longos e escuros; os olhos possuíam uma cor cinza nebulosa. As mãos rosadas agarravam o braço do pai enquanto ele a entregava ao noivo como uma peça de mercadoria.
O pastor, um homem a quem precisava do dinheiro e estava disposto a ficar quieto sobre a cerimônia para o rei, pulou os sermões e salmos murmurados nas casamentos tradicionais. Ele olhou ao noivo, um homem alto de cabelo castanho e olhos verdes, com nojo. Em toda a Inglaterra, não havia uma alma que amasse o Duque de Buckingham.
— Você, Jonathan Wayland, aceita essa dama como sua legítima esposa, prometendo ser fiel, amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Por todos os dias das suas vida até que a morte os separe? — perguntou, a voz monótona.
Jonathan Wayland sorriu.
— Aceito.
O pastor virou a noiva. Sentia pena dela. Só estava ali para gerar um herdeiro. As circunstâncias foram explicadas a ele antes de aceitar o trabalho. Era uma besteira dos nobres europeus. Duas pessoas com uma reivindicação simples poderiam gerar alguém com uma reivindicação ainda melhor ao trono. Esse era o objetivo de Wayland. Não só ser rei, como também ter seu próprio sangue na história.
Entretanto, casamento era casamento, e ele precisava fazer seu trabalho. Mesmo se o Rei não soubesse, mesmo se qualquer súdito da nobreza inglesa precisasse pedir sua permissão para uma situação como aquela. O pastor precisava de dinheiro.
— Você, Grace Cartwright, aceita esse senhor como seu legítimo marido, prometendo ser fiel, amá-lo, respeitá-lo e obedecê-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Por todos os dias das suas vida até que a morte os separe?
A noiva hesitou. Ela era jovem, talvez com dezesseis anos, mas ele conseguia ver a força interior nela, lutando contra essa união. Parecia especialmente irritada com a ideia de obedecer seu marido.
Entretanto, seu pai limpou a garganta ao lado e ela suspirou. Não havia maneira de sair daquela situação, não no meio da capela de St James. Toda a corte havia deixado o palácio um dia antes, mas Jonathan Wayland e os Cartwright ficaram.
— Aceito.
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