— Oi, filho – acenou o pai ao entrar em casa. — Tudo bem?

— Oi, pai. Estou bem e o senhor?

Beijou e cumprimentou a sua esposa. Deixou o ar quente e espesso escapar de sua boca. O homem mais velho continuou rapidamente o seu caminho, cansado e ansioso para tirar aquela roupa suada por causa do trabalho. Seu corpo estava entorpecido de tantas dores. Sua mente estava com sede de descanso e sua atenção estava dirigida para alcançar o seu desejo o mais rápido possível. Tudo fora disso poderia esperar. Ou continuar sem ele.

Ela percorreu o mesmo caminho para alcançá-lo na suíte, onde estava tirando a sua roupa. Diminuiu seus passos e o observou antes de começar a falar.

— Como foi o trabalho? – perguntou com um toque de insegurança, como se não soubesse que poderia dizer algo.

O homem suspirou. Tirava seus calçados com pouco caso. As palavras batiam uma nas outras em sua mente na tentativa de traduzir a sua experiência matutina. Quase não respondeu, mas pensou que se não o fizesse uma guerra começaria e seria necessário usar mais energia. E isso não aconteceria. A mulher aproximou-se e sentou-se na casa do casal.

— Cansativo. O trabalho foi do início da manhã até quase o fim da tarde. Muitas crianças, adolescentes e adultos para lidar. Cada um com suas perspectivas e complexidades e eu tinha de lidar com as minhas próprias emoções e pensamentos. Cansativo. Seres humanos dão problemas atrás de problemas. Por que tenho de trabalhar tanto? Eu estudei e estudei e estudei para ter uma vida melhor, mas olha onde estou. Isso é frustrante! Fui o melhor para nada!

— Calma. Isso não é culpa sua. Você fez a sua parte, mas o ambiente externo onde vivemos não nos proporciona uma vida digna que merecemos.

— Eu deveria ser o suficiente! Não sou nada! Não presto para nada! Todo esforço para nada!

— Você tem uma casa onde pode morar e descansar. Tem uma família. Você tem a mim, quem você pode confiar e quem pode te ajudar.

— Mas não consigo dar a vocês uma vida boa. Uma vida confortável.

— Não é o seu dever somente. Eu faço o mesmo. Somos um casal.

— O seu trabalho não tem o peso do meu. Ganho mais por trabalhar mais. Por isso devo ter privilégios.

— Calma, amor. Tudo vai dar certo – a mulher sorriu fracamente, mas o homem não percebeu. – Vá tomar um banho e tentar relaxar.

O homem aquiesceu e rumou nu para o banheiro.

A água morna do chuveiro caia sobre a sua cabeça, sobre os seus ombros, corria em suas costas e peitos conforme seus pensamentos assentavam-se. Em um momento, algumas memórias ressurgiram das trevas, como defuntos reanimados ao acaso. Lembrou-se de um episódio de sua infância onde o seu irmão mais velho matou o filhote de cachorro de sua versão muito mais ingênua e jovem em sua frente, uma visão perturbadora, violenta e explícita. Balançou sua cabeça como tentativa de levar essas imagens cravadas em sua mente de volta à sombra do esquecimento. Não podia pensar naquilo.

Julgava-se fraco em momentos assim. Julgava-se fraco por deixar ser influenciado por seu passado. O presente estava ali e era urgente. E o futuro? Tão distante e tão ameaçador. Tudo poderia acontecer. Sabia que não estava preparado e precisava de um emprego mais seguro, constante, do qual poderia viver sem se preocupar se ao final do mês terá pagado todas as contas e poderá ainda comprar mais experiências. Não. Deveria parar de pensar aquelas besteiras. Uma coisa de cada vez. Queria terminar de tomar o banho e cochilar, como sempre fazia.

Enxugou-se e colocou a sua cueca. Enfim, liberto de seus estresses. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Sentiu a brisa alcançado sua pele e os seus pelos mexendo. Como era bom estar em casa. Sua mente estava pacífica, suas pálpebras pesadas e o sono era encantador. Envolveu-se em seus braços, entregou-se como um bebê e dormiu.

— Pai – a voz de seu filho surgiu em meio a sua mente enevoada e distante. – Pai, o café da tarde está pronto.

— Já vou – respondeu em um sobressalto, retornando à realidade e abandonando repentinamente o interior de sua mente.

Estava em pé, pronto para caminhar em direção à mesa, pronto para devorar o pão e continuar o seu caminho, sem saber qual o destino e sem se importar com isso, pois o que queria naquele momento era se alimentar de qualquer jeito. Apenas queria o sossego.

— Pai, podemos conversar?

— Agora? Eu quero comer.

Aquela interrupção não parecia ter importância, então não tinha. Desejava comer sem pensar em nada mais. Era um ritual precioso e valioso. Seu coração batia feliz por saber que estava se aproximando da mesa. O café chegava em seu olfato como uma dádiva divina e o milagre que precisava. Era o que o nutria. Era palpável. Condizia com o que era a beleza: a superfície lisa, sem imperfeições, padronizada, igual ao que sabia, nada de novo, nada embaixo, era simples.

O jovem, contudo, havia expressado as palavras em sua própria mente, em seu silêncio e em seu olhar melancólico. O momento era aquele, porque era o único do qual existia e depois tudo poderia ter transformado. Porém, o seu pai estava cansado, estressado e faminto. Ele não poderia pelo menos ouvi-lo? Não poderia fazer as duas coisas ao mesmo tempo? As palavras estavam congestionadas há muito tempo e inflamavam seus sentidos, o seu tempo e os seus movimentos.

— Até qual limite posso falar contigo? Não posso criticar a sua visão deturpada do seu olhar sobre questões sociais e antropológicas, já que desrespeita a minha opinião fazendo caretas e revirando os olhos. Não posso destacar uma incongruência em seu pensamento simplista e genérico sobre questões das quais claramente não é desenvolto, uma vez que é limitado pela própria perspectiva de suas próprias experiências e noções absorvidas pela sua infância e juventude.

Seu pai não parou de comer. Estava entretido nos sabores e pela satisfação momentânea. Decidiu sentar-se à mesa e pôs café em sua xícara. Olhou as fumaças se perdendo pelo ar. Perguntou-se se aquela conversa realmente seria levada seriamente, se haveria mudança substancial. Duvidava.

— Isso se deve ao fato de ter estudado além em um ramo, alcançando um nível acadêmico superior a maioria da população e em relação a mim? Se for, saiba que não te faz conhecedor de todos os ramos, hábil a discutir sobre assuntos dos quais não estudou com afinco. Ou julga que, pela minha idade ou qualquer outro fator individual meu, não sou capaz e merecedor de respeito? O que te faz me enxergar de um jeito do qual me menospreza?

Nenhuma reação surgiu no rosto de seu pai. Nada o incomodou ou o fez elaborar algum som gutural ou palavras. Nem gritos e raiva. Continuava em seu ritual de devorar qualquer comida.

— Saiba que não sou o detentor da verdade. Saiba que estou longe disso e tenho autoconsciência. Tampouco desejo isso, mas penso que podemos encontrar um ponto de equilíbrio por meio de discussão ou apenas discutir, sem ter uma opinião conclusiva sobre o assunto. Acha que isso poderia nos aproximar? Eu entendo o quanto trabalhou para sustentar a mim e a mãe, entendo o motivo de não ter sido presente em minha infância, mas eu ainda gostaria de te conhecer e ter uma relação próxima. No entanto, seus julgamentos e visão superficial nos afasta.

Seu pai parou de mastigar e bebeu o café vagarosamente. A expectativa de que falaria alguma coisa crescia em cada segundo. Enfim uma palavra, qualquer que fosse. Uma reação na carcaça encontrada no chão de terra batida em um dia de sol e calor intensos. Encontrariam um ponto de equilíbrio?

O homem mais velho empurrou com as pernas a cadeira da qual estava sentado e, segurando a xícara vazia, virou-se e rumou para a cozinha.

— Eu pensei que não gostava de mim, ou que me amava por obrigação, por ser meu pai. Evito conversar contigo para não ter que se preocupar comigo ou ter de correr para minha mãe para resolver o impasse entre nós. Evito conversar contigo por eu estar estressado e bravo com o senhor por não entender os meus sinais, por não entender o meu sarcasmo e ironia, por não entender o meu silêncio. Ainda penso que não me ama ou que o seu significado de amor seja diferente do meu. Te odiei. Te matei diversas vezes. Desejei ter o feito inúmeras vezes. Sabe por quê?

O homem mais velho estava na cozinha, olhando através da janela e bebendo água. Nenhuma reação.

— Para saber o que sou capaz. Para o senhor compreender que não sou o que pensa de mim – olhou para as suas mãos. – Na verdade, por eu achar que compreende algo incompleto e equívoco de mim, pois penso que não me conhece. São apenas julgamentos superficiais de mim e o senhor não se importa, porque não tem o trabalho de se dedicar sobre esses assuntos. O que realmente importa é o senhor me auxiliar na subsistência minha? Isso já basta? Saiba que não menosprezo a sua ajuda. Pelo contrário, sou muito grato por isso. Porém enxergo que não é por aí que um pai deva se limitar a estar presente na vida do filho. – Suspirou, sentindo sua cabeça latejar na parte de trás. – Lembro-me de quando te disse que era preciso falar que me ama para eu saber de fato e a única diferença foi o senhor me dizer que me ama duas vezes por ano. Uma no meu aniversário e outra no Ano-Novo. – Segurou a xícara com força. – Odeio estar nesta posição emocional. Odeio expressar as minhas vulnerabilidades. Prefiro guardá-las para mim, pois me conheço e sei como falar nem sempre melhora a situação.

O seu pai voltou e caminhou em direção a outro cômodo. Nenhuma reação. Voltou rindo e parou próximo da mesa.

— Lembrei de uma coisa que aconteceu comigo quando eu era moço – comentou, rindo. – Eu gostava de uma menina. Ela era uma graça, mas era banguela. Trabalhávamos em uma fazenda, cortando cana. Ela falava “crofe”. – Riu mais.

O rapaz riu daquela cena. Seu pai esquecia que havia contado a ele outras vezes, porém resolvera parar de acenar esse fato. Não importava mais, pois o esquecimento era mais forte. O mais velho retornou ao seu caminho. O mais jovem terminou de beber o seu café e levou sua xícara até a pia. Decidiu ir ao mesmo cômodo do qual seu pai estava.

A televisão estava ligada e seu pai ria de cenas engraçadas. Compreendia que aquele momento era santificado pelo seu pai, porquanto era o momento de desligar a mente do estresse cotidiano.

— Por que o senhor sempre tenta se aproximar de mim com piadas, algum acontecimento do seu dia ou conhecimento alheio? Por que eu rio e presto atenção? Eu não sei o que o senhor quer de mim. Entendo que por não me conhecer, torna-me uma figura intrigante, mas o senhor crê que essa sua abordagem é suficiente? Eu te dei pistas diversas vezes sobre o que podemos conversar quando sozinhos e fui direto, porém o senhor costuma ficar em silêncio, apenas escutando. O senhor realmente me ouve?

Seu pai riu e olhou para ele em busca de algum esboço de riso, mas nada encontrou. Então, virou-se para frente.

— Cenas como essa que acabou de acontecer me deixam curioso. Se o senhor pensa que estou em um nível intelectual abaixo, por que busca a minha validação de algo que achou graça? Por que a minha opinião importa agora? – Olhou para suas unhas. – Ou foi somente para checar se estou te acompanhando, tendo o mesmo nível superficial de entretenimento? Por que quando conta algum acontecimento do qual acha engraçado, ou uma piada ou quando exprime a sua “superioridade” em conhecimento gramaticais por meio de correções da fala da mãe e de sua consequente exposição ao ridículo, o senhor olha em minha direção aguardando algum retorno ou aprovação?

Seu pai riu outra vez, imerso na televisão.

— Se me conhecesse, saberia que não importa o que contasse, eu nunca faria o que o senhor faz: te julgar ou te expor ao escárnio. Acredito que deve fazer isso consigo mesmo. – Expirou o ar dos pulmões. – Acho cômico quando alguém de retorna aquilo que fez a essa mesma pessoa e o senhor não aceita. Cômico e um incômodo. Por que o outro deveria te tratar de outra maneira? Por que devemos aceitar a sua maneira simplista e generalista de nos tratar e não te devolver a mesma moeda? O senhor não sangra quando machucado? O senhor não fica doente quando o seu organismo está desbalanceado? Qual é a razão por trás de tudo isso?

Seu pai xingou pelo fato de o controle não ter funcionado.

— O senhor é tão pobre de autoconsciência? Não consegue enxergar os seus erros? Não consegue enxergar o mal do qual se comete ao escolher certos caminhos? Será possível eu enxergar todas essas constantes e ver que acertará o mesmo lugar, sem melhorar, sem piorar? Minha mãe e eu te avisamos. Por que não procurou mudar? Está estacionado.

Uma situação engraçada chamou sua atenção na tela da televisão. Riu com seu pai.

— Digo que é impossível de eu não compartilhar alguns traços com o senhor. Entretanto, sou capaz de analisá-los a tempo e modificá-los. Minha mãe já apontou que a nossa semelhança é a razão de nossa distância. Concordo parcialmente. Acredito mais no fato de tentarmos criar uma ponte daquilo que acreditamos ser essencial para nossa aproximação e convivência ser o erro crucial, porquanto o outro não possui necessariamente desenvoltura nessa área específica ou familiaridade suficiente. Portanto, o essencial seria nos conhecermos melhor. – Limpou a garganta. – Não sei se será possível realizar essa proeza em tempo. Já estamos muito afastados um do outro e o que sustenta a nossa relação é a minha habilidade de suportar os seus desrespeitos e inconveniências. Isso requer muito de ti e de mim, que está desgastado emocionalmente. A real solução é andarmos em nossos próprios caminhos.

A realidade pairava entre os dois. Todos esses diálogos vindos de sua parte eram produtos de sua imaginação, um ponto fora da curva do qual nunca ocorreu. Almejava profundamente conversar com seu pai, mas este sempre estava distante em suas próprias necessidades e o que acreditava ser importante.