Fragmentos de um Despertar
5 A Floresta
Notas iniciais
— Mãe, vou sair – avisou.
— Para onde?
— Vou dar uma volta na floresta.
Antes de sair de casa ouviu o seu pai interpelando a sua mãe, com a voz baixa, para saber aonde iria. Sacudiu a cabeça e fechou a porta da casa.
O céu estava azul, brilhante, vivo. Toda aquela pureza e inalteração derramavam nele grandiosidade e claridade intensa. O calor com os raios solares pinicava sua pele dos braços, e a sensação da quentura sobre seu ser era úmida e abafada, gorda e intensa, compacta e acolchoada. O suor nascia e deslizava pela sua testa, pelos seus rosto e pescoço, ardia seus olhos e sua irritabilidade. Concentrou-se em seu caminho, olhou as árvores dançando com o vento tímido e suas folhas mais fracas voando ao chão, sentia o cheiro de árvores e plantas embebidas, ouvia o barulho cheio das folhagens crispando. Sorriu. Fechou os olhos e inspirou profundamente.
O núcleo carnudo em seu peito estava pesado, como um bebê comprimido em um lado da barriga, e pensou que a única decisão era ignorá-lo. Sentiu o nó em sua garganta mover-se. O demônio olhava-o pela fresta da porta, aguardando o momento exato para abocanhar. Suspirou lentamente. A brisa quente passou pelos seus cabelos, fazendo-o abandonar o pensamento daquele instante. Ouviu os sons rastejantes de seus passos sobre o asfalto quente. Ouviu o som de sua existência desdobrar-se pelos segundos e a vida forçava a sua impressão no percurso da idade.
— Envolvi-me de meus próprios problemas, joguei o estreito feixe de luz sobre eles e esqueci do que é viver.
Sua energia vital estava gradualmente sendo reestabelecida, um filhote de tartaruga indo para o mar. Ainda pesava toda a sua imprudência e descuido sobre a sua estrutura, seu respirar fazia demasiado esforço para uma atividade corriqueira. Apenas sair de sua casa ponderou o quão benéfico foi, um impacto imediato. Sua mente tomou outra perspectiva, balançou mais livremente, expandiu. Naquele momento reparou que chegou no interior da floresta densa e desabrochada, aberta para ele, embora misteriosa e convidativa.
— Cada ação tem uma reação.
O cheiro de madeira, folhas e terra molhadas estava intenso. Impregnava seus pulmões, preenchia o seu ser. Pisava no chão de terra batida, na grama e folhas secas. Ouvia a floresta pulsar em uma frequência da qual ressoava em sua alma e o seu corpo confundia-se ao meio. Não estava à margem, possuía-se por inteiro. Compreendia os movimentos e a sensibilidade. Desfez-se na terra sob seus pés e o seu peso reduziu, alcançou a menor grama, alcançou as raízes das árvores, alcançou seus ramos e as folhas, alcançou o seu topo e os seus frutos. Sentiu o andar das formigas, o equilíbrio do interior e exterior. Sentiu a vida pulsar e seus batimentos.
— Constatei que decidi considerar os meus sentimentos como problemas. Quando eu era novo, não os entendia além de sua superfície e quis entendê-los por completo. Analisar, organizar e separar em caixas. Foi uma resposta protetiva, pois cri ser uma maneira de evitar cair em mesmos lugares e perder tempo, além de me conhecer. Foi muito grande o esforço. – Inspirou profundamente. – Vejo que foi uma estratégia da qual me trouxe frutos. Criei uma relação profunda e complexa comigo mesmo. O bem-estar foi grandioso, mas limitei minhas emoções e meus estados sentimentais, reprimi-os e descartei-os. Forcei-me a agir como personalidades distintas e ficcionais, exprimi-me e redobrei-me ao máximo para atingir objetivos, cravando uma batalha da qual me dividia em dois lados: conhecer-me e obrigar-me a ser quem eu não era. Não me aceitava inteiramente. Suprimia aquilo que considerava necrosado.
— Vejo a dor e arrependimento nessas palavras – João analisou. – Porém, também vejo que você não se aceitava. Agora aceita?
— Mais do que antes. Obtive essa perspectiva com as sessões de psicoterapia. Em primeiro momento, perguntei-me se aquela observação era verdade. Julguei como incongruente uma pessoa não se aceitar. Depois de reflexões, aceitei parcialmente. Sinto não ter uma compreensão total desse estado, mas possuo um entendimento mais aprofundado após um tempo. – Desviou o olhar para seus pés em movimento. – Foi triste sentir que não me aceitava. Meu coração foi apertado e sufocado quando notei a minha aversão a mim mesmo e a minha natureza. Todavia, pude encontrar uma possibilidade de ser melhor. De corrigir anos de imprudência.
— Como foi essa experiência de reajuste?
— Turbulenta. Inicialmente, criticava a ideia de me tratar gentilmente, com amor e atenção. Era uma atividade que nunca fui habituado, adotei uma visão da qual a julgava inferior e desnecessária. O diferencial foi testar, pois o estranhamento e o preconceito não eram maiores que o meu sentido de pesquisar se a hipótese era válida em meu cenário. Posso concluir que foi bastante eficiente parar de me julgar e ser o meu próprio carrasco. Concluí que era contraproducente ter uma posição nociva, no entanto, era um hábito cultivado há anos. Iniciei o processo de tratar-me como um humano, de ser um humano, mesmo que fosse em situações desconexas uma das outras, sem uma rotina.
— Você mencionou que não era habituado a se tratar com amor. Caso estivesse habituado agora, pensa que não estaria nessa situação?
— Bem, não consigo saber. Ainda assim, poderia estar mais compreensível.
— Como essa estratégia te fez falta?
— É seguro afirmar que me fez falta, mas, como me conheço, eu sei como me destruir de dentro para fora. De frente às circunstâncias desafiadoras e antagônicas, escolhi o meu fim, por não ver uma solução, estava cansado e, ao invés de recuperar o fôlego, pensei que desistir entregar-me-ia à tranquilidade. – Olhou a um passarinho voando em sua frente. – Um dos maiores problemas está o esquecimento de conceitos importantes. Às vezes, estou muito focado em solucionar a questão interna e esqueço-me de mim e do mundo ao meu redor.
— Reconhece que o seu esquecimento de aguardar a emoção passar, descansar e tentar solucionar o embate mais tarde te levou ao caminho que estava trilhando?
— Sim. Nesses momentos é melhor mudar de perspectiva, realizar outras tarefas – continuou a andar.
Um vento forte fez seus cabelos dançarem energeticamente. Inspirou e expirou profundamente. Parou de andar e fechou os olhos. Abriu os braços para sentir-se livre de suas correntes emocionais densas. Entendia que não estava amplamente pronto, porém evoluiu consistentemente.
— Não queria sair de casa em hipótese alguma. Meu corpo todo estava doendo, meus músculos envolviam meus ossos fortemente, minha alma queria abandonar meu corpo. O esforço que fiz foi totalmente brutal.
— Se arrepende de ter vindo?
— Nenhum pouco.
— Como está se sentindo?
— Desde quando saí de casa, minhas sensações lembraram-me de estar vivo, mas meu interior passou pelo medo, permanecendo constante na apatia e, algumas vezes, sinto o peso de minha alma somente, como se estivesse abandonado o meu corpo.
— Isso é ruim?
— É melhor do que eu estava.
— Por que desistiu de ir às sessões de psicoterapia?
— Pois não quero nenhum envolvimento com mais pessoas. Apesar de sentir mais disposição, parece que qualquer esforço além da medida da qual venho exercendo será fatal. Afastei-me de todos.
— Não poderia ser um dos métodos para se autodestruir?
— Sim, como poderia não o ser, ou ser as duas coisas.
— Você considera como um ato de importância?
— Sim, é claro. Querendo ou não, é um profissional que está sob o sigilo psicólogo-paciente, alguém que estudou por anos para exercer a profissão, com conhecimentos para ajudar eficientemente uma pessoa a lidar com a situação. Foi muito importante ter alguém de fora com olhar especializado e pautado pela ciência para me guiar até uma saída.
— Até mesmo para você não lidar com tudo isso sozinho. Alguém com uma perspectiva de fora da tempestade. – João ficou alguns minutos em silêncio. – Não seria melhor retornar?
Seu olfato identificou um cheiro doce, misturado com o cheiro de terra molhada e madeira úmida. O sol atingia sua testa por causa da dança intermitente das folhas verdes acima da cabeça. Seus pés não pisavam a terra, sua pele não era o limite, a dor não era o início do fim. Aquele pensamento o pegou desprevenido. Parou, encostou no chão, sentiu a gravidade. A dor era a transformação iminente, um aviso do qual o corpo expandiu e largou a carapaça velha no chão, já que deve estar pronto para mais mudanças. É a vivência humana.
— Ainda falta alguma coisa.
O que era? Não sabia ainda. Estava na ponta da língua, no entanto, não havia nada ali pois fugira sem deixar pistas. A resposta estava em desenvolvimento, ainda não estava completa. Escondia-se em algum lugar de sua mente. Poderia ser a reconstrução de seu propósito? Poderia ser o próximo passo? Encarou a grama da qual nascia no meio da estrada. Sua visão começou a ficar embaçada, mas não parava de escarar o ponto fixo. O chão deslizou para frente e os dois lados envoltos de árvores deslizaram para trás.
— Sim, eu quero retornar.
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