Enquanto aguardava o seu nome a ser chamado, encarava o chão. Ele ouvia o tic-tac do relógio pendurado ao centro da parede estéril e conseguia reduzir e aumentar a velocidade dos segundos, distorcendo a realidade. Estava cansado. Era muito cedo. Queria deixar aquele momento futuro de lado para poder retornar para o seu próprio conforto, mas não havia conforto algum, somente ilusão reconfortante. Eram apenas alguns amontoados de segundos para se organizar internamente, olhar para o teto e refletir.

O autoconhecimento alimenta e destrói através da fome. Não há conforto no processo, apenas constância na inatividade. Um vício que adoece e dá alta, porém, quando para, inexiste, é mais um dentre outros uns. Irresistível confronto da expansão. Sempre filtrando e absorvendo. Uma esponja amarela viva, sensível ao tempo e às palavras. Quase se esgota, mas sempre renova. Não pode esquecer de viver, pois viver ultrapassa qualquer compreensão. Isso o fazia único, alguém diferente na linha temporal humana. Será? Conclusão incompleta.

A estranheza da energia das pessoas na sala o atraía para dentro de si em um fluxo constante natural. Sentia-se seguro e silêncio. Nada excessivo, nenhuma surpresa externa. Estava livre. Estava livre? Não sabia ao certo, mas sentia o alívio. Tornou-se para si mesmo, para os outros, para fora, para a vida, um estranho, um antissocial, fechado, anestesiado, respectivamente. Eram forças opostas vivendo em uma guerra constante.

— Você.

Estava sendo chamado pela Psicóloga. A viagem de dentro para fora foi veloz como o som. Desperto de seus segredos.

Dentro do consultório, os dois estão se encarando, analisando um ao outro, como dois animais predadores avaliando a possibilidade do outro ser a presa. Ele procurava qualquer sinal de diferença naquela mulher, pois haveria o sinal da corrupção e de confiança traída expresso em sua pele e olhos. Nada havia ali, afinal. Todavia, era ainda confiável? Cautela em suas palavras.

— Quais são os problemas? – Indagou, ainda analisando-o.

— Sou eu.

A Psicóloga levantou uma sobrancelha.

— Por quê?

— Em mim há duas forças opostas: aceitar-me e conhecer-me, das quais se consomem e se tornam algo novo, e ignorar completamente o meu lado humano.

— Se quer ignorar o seu lado humano, por que se conhecer e se aceitar como um humano?

— Porque sou humano, mesmo não aceitando a minha humanidade.

— Por que você não aceita a sua natureza?

— Porque me machuca.

O ar não se movia entre os dois. Os olhos da Psicóloga percorreram o seu corpo rapidamente como um raio.

— No entanto, o sofrimento experenciado ao viver entre esses dois extremos é maior – a mulher concluiu perspicazmente.

O rapaz desviou o olhar. Estava nu.

— Por isso estou aqui – sussurrou. – Cada segundo é uma vertigem, cada som é errático e me sinto escasso. Vivo por um fio e estou me parindo há dias. Meu coração pulsa o enjoo para as veias e artérias, meus músculos enfraqueceram e meus movimentos são descontrolados e tímidos. Tudo dói demais – ele suspirou. — Minha mente é um trabalhador sofrendo burnout em uma escala desumana, devendo sofrer para viver, doando a sua vida para comer o veneno do sistema, empobrecendo para enriquecer – massageou as mãos.

A Psicóloga limitou-se a olhar somente.

— Um cachorro vagabundo caído em uma estrada, atropelado, sem vida, sem morte, com mosquitos e formigas o atormentando repetidamente e sem folga, pois não há descanso e a vida precisa continuar e ninguém deve se preocupar. O ouro oxidado, a benevolência fraca. Criança abandonada e sonho sem combustível. Um inferno preso sob a minha pele.

Um mosquito zuniu próximo à janela.

— Primeiramente, fico contente pelo seu retorno – a mulher mexeu-se na cadeira. – Saiba que estou aqui para te ouvir e este é um lugar seguro para você se expressar. Nada do que proferir sairá daqui. Por favor, continue.

O homem esboçou um fraco sorriso.

— Estou apático. Carne sem reflexo, opaca e moribunda. Seca, sem sangue. Abandonado, não por esquecimento, mas por negligência e imperícia – ele encarou o chão. – Descaso com o futuro, doente por ele — aquele ser estava miúdo, regrediu alguns passos e submergia novamente -; desinteressante passado, assombrado por ele; sofre pelo presente, deseja-o viver – munido de coragem, ele olha aos olhos da mulher à sua frente. – Anseio por prazeres efêmeros, emoções baratas, sofrimento justificado. Perdi-me, escolhi a confusão, não quero procurar um caminho, pois está confortável o desconforto. Sou engolfado pelos demônios e meu coração está quente e manso.

O silêncio preenche a sala e todos os vazios. Ele continuou:

— Ao tentar analisar-me, analisar o meu eu passado próximo, vejo uma pessoa que lutava para entender a si própria, cansando em pontos onde não conseguia sair ou quando era excessivo viver sob a sua própria pele, momentos marcados por intensas atividades cerebrais das quais queimavam a minha existência, era muito de mim mesmo que sufocava e debilitava os meus sentidos. Quando aquelas duas forças opostas me assassinavam sempre religiosamente, pancadas nos mesmos lugares, eu culpava-me por sangrar – sua perna mexia-se rapidamente enquanto tornava-se corado de novo. – Era intragável, doloroso e torturante. É onde a carne é frágil, sensível e crua, uma parte de mim mesmo da qual queria distância e sentia repulsa.

— Há uma resposta exata como forma de resolução do seu problema. Talvez você já tenha se deparado com ela em algum momento.

Ele a encarou e se sentiu absorvido por suas palavras.

— Aceitação – ele anunciou. – Como poderia eu aceitar-me e conhecer-me dessa forma? Como poderia ver-me completo minimamente para viver a experiência humana se eu odiava o meu ser? – Uma lágrima escorreu pela sua bochecha rosada e febril. – É uma guerra consigo mesmo, contra a própria ignorância egoísta e contra a vida. É uma ironia existir querendo se exterminar. Era uma força nula, um vazio cheio. Repulsa com atração. Enlouquecedor. Alimentava-me com uma comida envenenada e aguardava a tornar-me saudável. Uma prisão.

— É a resposta exata, embora abstrata. Como aceitar a sua própria humanidade em um oceano de humanidades? Isso requer coragem, determinação e resiliência. Não é um exercício fácil em sua condição – ainda o analisava. – Como ser um ser humano?

— Não há como saber ser um humano, somente viver – enxugou a lágrima. – Quando estamos prontos? Estamos presentes?

A sua resposta o deixou a circunstância mais clara e leve. Seu interior flutuava.

— Exatamente – um sorriso sutil surgiu nos lábios da Psicóloga. – Viver abrange muitas coisas, como sofrer, amar, morrer, ressuscitar, acertar, errar. E ter cuidado com a sua opinião e julgamento sobre situações e sentimentos é crucial, porquanto as consequências podem ser limitadoras. – A mulher inspirou. – Os momentos fáceis são inevitáveis, assim como os difíceis. Como você os perceberá? Suprimirá seus sentimentos ou os deixarão fluir? Julgará a felicidade como boa e a tristeza como ruim? Por quê? Ambas não são partes da natureza humana?

— As situações que levam à tristeza podem ser ruins.

— Sim, podem. Contudo, os sentimentos são sinais valiosos do seu corpo e você deve escolher como os encarará. Olhará de um modo eficiente ou rígido? Qual é o melhor jeito de você usufruir amplamente da experiência humana e da vida?

— O sentimento é um aviso de seu corpo, a linguagem mais íntima que um ser pode ter consigo mesmo. Uma arte sutil, abrupta, silenciosa, gritante, muda sempre ou muda nada.

A pessoa à sua frente sorriu.

— Estou feliz pela sua conclusão. – A voz calma preencheu a sala. – Passarei um exercício para você lidar de forma saudável com tuas emoções. Você deverá praticá-las sempre e, inicialmente, poderá ser difícil se habituar, mas persista. O primeiro passo é perceber a tua emoção. Descreva-a de teu modo, devendo lembrar que pode sentir algumas emoções em um mesmo momento, sem julgamento e supressão. Note-a e note o teu corpo. O segundo passo é aceitar essa emoção e os teus sentimentos. Abrace a tua vulnerabilidade, a tua humanidade. Creio que essa será a tua porta de entrada ao mundo humano. – A mulher moveu ligeiramente a cabeça. – E foque no agora, no momento presente. Logo, saberá que é apenas uma emoção e não você.

— Então, eu não sou as minhas emoções.

— Não. Elas fazem parte de você, mas você não é elas. – A profissional sorri. – A sensação experimentada poderá ser de alívio, pois o que você teme é a tua vulnerabilidade, ou a ideia nutrida por si mesmo sobre o que é a vulnerabilidade. Sentir é natural. Aceite o teu lado emocional e viverá em paz consigo mesmo.

O homem levantou-se da cadeira e caminhou em direção à sua casa. O seu coração estava mais leve e alegre. Parte do peso do qual carregava em suas costas foi desfeito naquele consultório.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.