Fogo
8 Capítulo 7
Notas iniciais
– Marcello! – Gritou Heitor, pela primeira vez demonstrando emoção na presença do outro.
Saiu correndo em direção a ele, o coração batendo anormalmente rápido. O cavalo, após ter se livrado da carga incômoda, pareceu se acalmar e saiu dali.
Marcello parou de gritar assim que Heitor chegou ao seu lado e avaliou a situação. Sentia seus olhos lacrimejarem de dor, pois caiu bruscamente e de mau jeito, bem por cima do pé. A dor lancinante acusava uma torção ou mesmo fratura.
– Calma, calma. – Disse Heitor, acalmando Marcello segurando sua mão. Assim que dirigiu sua mão ao pé do garoto, o mesmo engoliu um grito de dor. – Parece que torceu o pé. Ou quebrou. Tem mais algo doendo?
Marcello negou com a cabeça, já mais calmo com o outro do seu lado. Heitor se levantou e foi até uma das seções do estábulo e voltou alguns segundos depois, carregando alguns panos e uma tábua de madeira pequena.
– Olhe, eu vou apenas imobilizar seu pé, não vai doer. Fique tranquilo. – Se surpreendeu ao falar assim, como se fosse sua necessidade e obrigação proteger ao outro. Pegou um dos panos e, depois que Marcello tirou a bota, começou a dar várias voltas ao redor de seu tornozelo, prendendo a tábua a sua perna. Assim que tocava a pele de Marcello, Heitor sentia um frio na barriga. Era uma pele tão macia e... interrompeu-se, acusando a si próprio desses pensamentos levianos.
Trabalho terminado, Heitor levantou-se, limpando a areia da calça.
– Ahn... você tem certeza que foi só isso que machucou? – Disse, preocupado.
– S-sim. – Respondeu Marcello.
– Então venha, temos que chegar na casa-grande para cuidarem melhor disso. – Disse, se curvando para usar as próprias costas como apoio para o outro. Marcello passou um dos braços por trás do pescoço de Heitor e, assim que seus corpos se encostaram, um arrepio tomou conta de Heitor. – Consegue andar? – Perguntou.
Marcello deu um passo bem sucedido. E continuaram assim, andando abraçados. A meia-hora que levou para chegarem até a Casa-grande foi muito tensa para Heitor, que sentia um calor subir seu corpo a cada passo que davam juntos. Não tinha ideia do motivo daquilo. Nos livros, sempre lia que a moça sentia um calor e um arrepio assim que o jovem galante lhe tocava a pele. E ele jamais tinha sentido nada parecido. Será que era porque seriam amigos? Heitor não entendia.
Chegaram à Casa-grande sem mais empecilhos. Maria apareceu esbaforida assim que soube o que aconteceu trazendo umas plantas e uma série de outras coisas que Heitor não conhecia. Os dois levaram Marcello para o quarto, para que ele descansasse do susto e não forçasse a perna.
Depois que Maria saiu, Heitor ficou sozinho no quarto com Marcello.
– Ehr... você está se sentindo melhor? – Perguntou, para puxar assunto, e se surpreendeu consigo mesmo por fazer isso.
– Mais ou menos. – Respondeu Marcello, acomodando a perna machucada no travesseiro em que ela repousava.
Heitor sentou-se na cadeira ao lado da cama.
– S-se precisar de qualquer coisa, não se levante, eu estou aqui. – Falou.
Heitor percebeu que, assim que soltou essa frase, Marcello pareceu sorrir mais tranquilo e estava com uma expressão que Heitor não tinha certeza. Seria... felicidade? Felicidade por ter praticamente quebrado o tornozelo?
– Tudo bem. – Disse, sorrindo, fechando os olhos e dormindo profundamente.
Heitor continuou ali, ao lado dele, observando-o dormir. Tentava buscar em sua mente algum motivo para se sentir tão ligado ao rapaz. Ele era jovem, de sua idade, educado, falante e o tratava bem. Só podia ser isso. Heitor nunca tinha tido um amigo. Sua irmã morou longe sua vida toda, e em nenhuma das fazendas vizinhas existiam crianças. Exceto Florença, mas Heitor não gostava dela, nunca gostou. Ela era muito exibida, metida e atirada, e Heitor a considerava vulgar. Além de ser muito feia. Será que era isso? A falta de ter um amigo na infância fez Heitor se afeiçoar tão rapidamente ao primeiro colega que encontrou? Mas e quanto ao trem? Ele não sabia que ele era filho do Senhor de Castro naquele momento, e sentiu as mesmas coisas que sentia agora.
Passou as mãos nos olhos, como que para apagar seus pensamentos. Ao virar-se para Marcello, podia vê-lo dormindo, sua respiração tranquila. Seus instintos lhe gritavam para que fosse lá e fizesse carinho em sua cabeça, em seus cabelos loiros, dizendo que tudo estava bem. Será que seria estranho demais fazer isso? Dois homens não podiam trocar carinho? Engoliu em seco. Na hora que viu Marcello cair com tudo no chão, parecia que nada mais lhe importava no mundo, tinha que salvá-lo a qualquer custo. Cada toque entre eles era motivo de um arrepio subindo por sua espinha. Mas um arrepio bom.
A cadeira onde estava era na cabeceira da cama, bem ao lado de Marcello. Se esticasse o braço um pouco alcançaria sua face. Sabia que era algo impensável, mas não conseguia se conter. Esticou o braço tremendo. Seus dedos estavam a centímetros da cabeça do outro. Finalmente conseguiu tocar seus cabelos.
Eram lisos e macios, como imaginou que seriam. Ficou ali, acariciando, fazendo cafuné. Ao mesmo tempo em que sabia que era estranho, não via algum mal. O amigo estava machucado e ele estava consolando-o, apenas isso. Seu coração batia tão rápido que ele sentia a própria pulsação. Olhou para o rosto de Marcello. Seus olhos, fechados como os de uma criança. Seus lábios... assim que percebeu que estava olhando para eles, desviou o olhar. Ficar pensando nos lábios do outro já era demais.
Num impulso, levou sua mão à testa de Marcello, passando o polegar lentamente, acariciando-a. Sua pele era quente e macia. Assim que fez isso, um sorriso apareceu nos lábios do outro, fazendo Heitor prender a respiração. Mas ele não tinha acordado.
Ficou ali por um tempo que não parecia passar, e que ao mesmo tempo passou muito rápido. Fechou os olhos e dormiu. Um sono leve e aconchegante, do tipo que não tinha há muitos anos.
Heitor acordou com alguém balançando-o pelo ombro.
– Acorde, dorminhoco. – Falava Marcello, à sua frente.
Ver o rosto do outro ao acordar fez Heitor lembrar do que aconteceu, e se sentiu culpado, com nojo de si mesmo. Era homem e não deveria fazer carinho em outro homem. Era errado.
– Ah... hun. – Disse, coçando os olhos e se levantando da cadeira.
Marcello estava sentado na cama, e do lado de fora a noite dominava o céu.
– Acho que a janta já está pronta. – Disse Marcello, dando um sorriso para o outro.
Heitor se manteve sem reação, imaginando se o rapaz tinha sentido quando fizera carinho nele mais cedo. Bem, se não tinha comentado nada, e nem parecia emburrado, provavelmente não percebeu. Levantou-se, para ajudar Marcello a caminhar até a sala de jantar.
Estavam todos na mesa de jantar, nas mesmas posições do almoço. Heitor e Marcello foram os últimos a chegar.
– Oh meu filho... porque demorou tan... Oh meu Deus! O que houve com sua perna? – Essa era Isabella, ao ver Marcello chegar mancando e com ataduras em seu tornozelo.
– Ah, mãe, não é nada demais, só torci o pé depois de cair do cavalo.
– Cair do cavalo? Escuta aqui, mocinho, não quero mais você andando a cavalo sem seu pai do lado pra te ensinar. Você podia ter quebrado a perna! – Disse, ficando nervosa.
– Tá bom, mamma, tá bom.
Depois de todos calmos, o jantar foi finalmente servido.
Florença foi a primeira a terminar, seguida de Marcello.
Como não estava acostumado, ainda, à presença de Giancarlo e Isabella, assim que terminou Heitor também se dirigiu ao seu quarto. Não sem antes dar boa noite a todos.
Foi caminhando, seus pensamentos perdidos, quando tomou um susto no corredor dos quartos.
– Heitor. – Disse Florença. Estava vestida em uma roupa vergonhosamente curta.
– Florença. – Disse Heitor, alarmado com a situação constrangedora.
– Por que você me ignora tanto, querido? Não sabe que eu gosto de você?
Heitor engoliu em seco. Cada palavra dela era uma contração de seu estômago para que vomitasse.
– Florença, eu preciso dormir, boa noite.
– Espera... – Disse ela, interrompendo a passagem com o braço, como sempre fazia. – Ainda é cedo, ainda dá tempo de nos divertirmos.
Heitor ficou calado. Não iria perder a paciência a essa hora da noite.
– Escute aqui...
– Psst, Psst. –Disse ela, pondo o dedo indicador nos lábios de Heitor, para calá-lo. – No silêncio é melhor.
Ela se aproximou de Heitor, agarrando pelo pescoço. Heitor queria sair correndo e vomitar em algum lugar. A expressão, o perfume, tudo nela deixava ele enojado.
Quando ela puxou-o bruscamente para perto, ele se desvencilhou de seus braços.
– Me largue!
– Uhh, acha que não aguenta, é? – Disse, desabotoando os botões da parte de cima da camisola, deixando-a cair e ficando com os seios mal desenvolvidos da adolescente descobertos.
Heitor virou o rosto antes que tivesse tal visão. Ela se aproximou novamente e ele a empurrou com força, para a parede.
– Me largue, sua vadia! Eu já avisei. – Suas palavras saíram cortantes.
Florença deu um risinho debochado enquanto ele se virava e tomava a direção do quarto.
– Seu bobinho, só te digo uma coisa... – Fez uma pausa, e Heitor parou de costas, antes de entrar no quarto. – Você ainda vai ser meu.
Assim que disse isso, a porta do quarto de Heitor bateu, e ela repetiu, num sussurro, como se proferisse uma maldição.
– Você ainda vai ser meu. – Disse, entrando no próprio quarto em seguida.
Apenas não percebeu que estava falando alto o suficiente para que uma pessoa parada na entrada do corredor a ouvisse.
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