Fogo
9 Capítulo 8
Notas iniciais
– E aqueles ali são os Moinhos de farinha. – Disse animado o Senhor de Castro.
Marcello fingia que escutava interessado, mas achava aquilo tudo muito chato, além de ser cruel. Agora, três dias depois do acidente com o cavalo, seu pé já estava bom o suficiente para que ele andasse sem dificuldade. Nesse momento seu pai apontava as instalações onde construiria uma nova ala de plantações, de cana-de-açúcar dessa vez. Ele parecia tão animado que Marcello não ousou falar nada sobre o que achava.
– Muito interessante, pai.
Finalmente chegaram à parte que Marcello mais detestava. As senzalas. Ele era jovem, mas já tomava partido abolicionista e odiava saber que seu próprio pai sustentava o regime de escravidão. A construção onde os negros ficavam era escura, úmida e suja. O coração de Marcello doeu ao passarem por ali.
Mas Marcello não queria discutir com seu pai por isso, pois sabia que ele, mesmo sendo um senhor de escravos, que os levava ao tronco e tudo mais, era um homem muito bom em todos os outros aspectos.
Chegaram ao que parecia ser o fim do incrível passeio pelos “negócios da família”, e ele suspirou aliviado.
– E então, filho, gostou da fazenda?
– Ah sim, pai, claro, gostei muito. – Disse, disfarçando o desânimo.
Quando estavam prestes a voltar, Marcello teve uma ideia.
– Ahn... pai, o que, além das plantações e das senzalas, tem na fazenda?
O Senhor de Castro pensou um pouco.
– Bem, tem os estábulos, que você já conheceu, a casa dos capitães-do-mato... ah, e tem também a cachoeira, já no fim da fazenda.
Marcello se animou com a ideia.
– Cachoeira? E eu posso ir lá?
– Bem, se quiser, pode sim. Mas você não pode ir sozinho, pois está se recuperando e, além de ser longe, você pode se perder no caminho.
– Então vou com quem?
– Não sei, vá com quem quiser. Desde que essa pessoa conheça a fazenda, tudo bem.
Heitor estava no estábulo, tentando dar um jeito na bagunça que Adamastor fez. O cavalo exalou suas necessidades bem no banco em que as pessoas subiam para montá-lo. Na verdade ninguém nunca mais usou-o, exceto Marcello no outro dia. Agora ele jogava alguns baldes de água para tirar a pior parte da sujeira.
– Adamastor, seu porcalhão. – Resmungou.
Antes que desse conta, Marcello estava ao seu lado, sorriso no rosto.
– Ei!
– O que? – Assustou-se. Assim que viu quem era continuou, mais reservado. – Ah, oi. Está tudo bem?
– Está tudo, sim. Escute, meu pai me disse que tem uma cachoeira na fazenda. Mas falou que se eu quisesse ir teria que ser acompanhado, você pode vir comigo?
Heitor ponderou a ideia por alguns segundos. Nesses dias ele estava fazendo o máximo para evitar ficar sozinho com Marcello, pois se reprimia pelo ato repugnante de fazer carinho nele. Mas, no caso, Marcello estava dormindo, e provavelmente isso não aconteceria na cachoeira.
– Tudo bem. – Disse, finalmente. – Deixe só eu terminar de lavar isso aqui que nós vamos, certo?
– Sim!
Marcello deu um sorriso de sincera satisfação e sentou-se para esperar o amigo terminar de lavar o banco.
Como da outra vez, Heitor ficou olhando de soslaio para ele. Será que esse passeio escondia segundas intenções? Não, não, afastou a ideia da cabeça. Era impossível que Marcello fosse desses tipos. Provavelmente ele tinha uma namorada. Uma não: muitas namoradas. Devia ter deixado dezenas delas na Itália. Só de pensar em Marcello beijando outra garota, sua mente entrou em fúria.
Resolveu dirigir suas atenções para o banco, que já estava quase limpo.
– Hunn... acho que já terminei. – Disse, terminando de jogar o resto do conteúdo do balde.
– Então vamos? – Disse Marcello.
Heitor confirmou com a cabeça e guardou o balde.
Marcello se encaminhava para fora quando percebeu que Heitor não tinha saído.
– O que foi? – Perguntou.
Então viu Heitor sair de dentro do estábulo com Adamastor.
Vendo o rosto espantado de Marcello, Heitor se explicou.
– A cachoeira fica bem longe, se quisermos chegar antes do próximo ano melhor irmos a cavalo.
Marcello sorriu, mas chegou com muita tensão perto do cavalo.
– Ele... está calmo?
– Está sim. – Disse Heitor, num sorriso.
Heitor subiu maestralmente no cavalo, deixando Marcello de boca aberta.
– E-eu... não vou conseguir subir.
– Claro que vai. Venha.
Marcello se aproximou. Tinha a impressão que de que o cavalo iria começar a pular descontrolado e dar coices em todo mundo.
– Está tudo bem, ele não vai fazer nada. – Disse Heitor, com a voz calma, e estendeu a mão.
Marcello estava com medo, mas mesmo assim segurou a mão de Heitor, tomando impulso para subir em Adamastor.
Mal acreditou quando se viu lá em cima.
– Pode se segurar na minha cintura, se quiser. – Disse Heitor, e um calor atravessou seu corpo assim que Marcello cumpriu o conselho, envolvendo os braços em sua cintura.
O caminho até a cachoeira foi uma provação para Heitor. Quer dizer, exceto o fato de estar correndo, com o vento refrescante batendo em seu rosto, a maravilhosa paisagem da fazenda e o galope perfeito do cavalo, o caminho foi um desespero.
Ter Marcello atrás dele, segurando-o pela cintura, tinha sido horrível. Não horrível no sentido normal da palavra. Tinha sido algo divino, ter o toque de Marcello, mas ele estava descobrindo coisas que não queria. Aquele fogo que sentia a cada toque não podia ser normal. Não deveria ser normal um homem gostar do toque do outro. Heitor tinha vontade de ficar ali pra sempre, os dois abraçados. Isso martelava sua mente como uma grande bigorna.
Chegaram à cachoeira em pouco mais de meia-hora.
O lugar era simplesmente lindo. O rio que separava as fazendas se dividia em dois, um continuando seu leito, e o outro formando a maravilhosa queda d’água, de uns vinte metros de altura, que desaguava em um lago cristalino e com uma mata densa ao seu redor, que não deixava o cavalo passar. O jeito foi amarrá-lo em uma árvore e seguir a pé mesmo.
Marcello se mostrava extasiado com o passeio, olhando em volta como uma criança. Heitor tinha ido ali tantas vezes que nem se impressionava mais, mas não pode deixar de achar divertido o entusiasmo do outro.
– Oh. Meu. Deus. – Disse Marcello.
A cachoeira era magnífica.
Seu pico era formado de rochas escuras, com a água escorrendo entre elas. Formava uma queda gradual, em vários níveis, como se fosse uma escada, cujo último degrau tinha cinco metros de altura. Marcello mal podia respirar tamanha admiração. Heitor achou estranho aquilo, pois sempre imaginava a Itália um lugar cheio de belezas naturais, montes, florestas, rios. Acreditava que Marcello já estivesse acostumado com essas coisas, mas não.
Marcello chegou perto da água, se agachando e molhando a mão.
– É... é simplesmente perfeita. – Disse, maravilhado.
Heitor sorriu de volta.
– Vamos nadar? – Disse Marcello.
– O que?
– Nadar. Não me diga que você vai ficar aqui só olhando essa maravilha da natureza sem prová-la.
Um pensamento leviano passou na cabeça de Heitor, que entendendo o verdadeiro significado da frase respondeu:
– E-eu acho melhor não.
Marcello aparentou ficar desapontado.
– Bem... então, eu vou sozinho.
Se dirigiu para a margem, tirando primeiro a camisa de botões, depois os sapatos, a calça e finalmente a cueca. Heitor fez o possível para desviar os olhos do corpo nu de Marcello, mas era inevitável. Ele tinha um corpo bem-feito, não era musculoso, mas parecia ter sido moldado para ser perfeito mesmo assim. Quando viu que estava literalmente admirando-o, desviou o olhar imediatamente. Onde estava com a cabeça?
Mas não precisou desviar por muito tempo, pois Marcello já tinha se jogado como um canhão na água.
– Iuhuuuuuuuuuuuuuuu. – Gritou. – Essa água está uma delícia!
Ele nadava por todo o diâmetro do lago, com a graciosidade de um cisne. Estava realmente aproveitando a experiência.
Heitor estava sentado na margem do lago, em uma pedra plana, morrendo de vontade de ir nadar junto com ele. Marcello brincava com a água jogando-a para todos os lados, rindo sozinho.
– Você está perdendo. Vem logo, a água está incrível. – Disse, tirando os cabelos loiros da frente do rosto.
Heitor engoliu em seco. Todas as células do seu corpo imploravam para que ele fosse lá nadar também, e ele acabou cedendo. Levantou-se e tirou, timidamente, as roupas, revelando seu corpo magro mas desenvolvido para sua idade.
Quando está completamente despido, entra na água antes que Marcello o veja. O primeiro toque com a água foi congelante, mas um segundo depois ela estava na temperatura perfeita. Não era lá um grande nadador embora já tivesse nadado naquele lago ume dúzia de vezes.
– Haha, sabia que ia acabar vindo. – Disse Marcello. – Vamos apostar corrida?
Heitor fez uma cara de dúvida.
– Tá.
– Então vamos até embaixo da cachoeira. Quem chegar primeiro, ganha. JÁ! – Disse, surpreendendo Heitor, que não estava preparado para a partida.
Mas meio segundo depois já estava dando braçadas como louco na direção da queda d’água. A água refrescante limpava sua alma a cada metro nadado.
Quando sentiu a pedra com a mão, parou e tirou a cabeça de dentro da água, recuperando o fôlego. Ao olhar ao redor, não encontrou Marcello em lugar nenhum.
– Marcello? – Perguntou alto.
Mesmo com a visão embaçada por causa da água, conseguiu enxergar algo se debatendo, lutando para ficar na superfície, ao longe.
– Marcello! – Gritou Heitor, já desesperado.
Não era possível. Mais uma vez? Parecia que era só ele dar uma deixa que acontecia algo com o amigo. Nadou mais rápido do que nunca até a direção onde viu ele batendo os braços, se afogando.
– Marcello! Onde está você? – Disse, ao chegar lá e não encontra-lo em lugar nenhum.
Quando começou a ficar realmente preocupado, sentiu algo apertar-lhe a barriga, fazendo cócegas.
– Aaahhhhh!
– Hahahahaha. – Riu Marcello, pondo a cabeça pra fora da água.
– O que? Por que você fez isso?
Marcello ria compulsivamente, e tentou recuperar o fôlego.
– Haha, foi só uma brincadeira, calma né?
– Calma? Ora seu... – E pulou em cima dele.
Começou a segurá-lo pelos braços, e Marcello se defendeu com as mãos. Heitor pegou-o pelo pescoço, como se fosse enforcá-lo, mas estava apenas fingindo, e Marcello gritava, entre risadas.
– Para, Hahaha, para.
– Uma brincadeira, é? Tome. – Disse, pondo as mãos em concha e jogando água no rosto do outro.
– O queee? Agora isso é uma disputa!
Começaram a jogar descontroladamente água um no outro, e logo já estavam se empurrando de novo, como crianças. Tentavam se empurrar, segurando nas mãos um do outro, e num momento difuso, Heitor percebeu que estava perto demais de Marcello.
Seus corpos estavam quase se tocando por debaixo da água, e seus rostos a centímetros de distância. Heitor sentia a respiração quente de Marcello, inebriando-se nela por um segundo. Olhava em seus olhos cor de mel, perdendo-se no mistério que eles poderiam esconder.
– Caham. Acho... acho melhor irmos agora, não? – Disse Heitor, com a voz falhando.
– Ehr... – Suspirou Marcello.
Heitor se virou, nadando apenas com os olhos por cima da água. Marcello nadou até a margem, emergindo e saindo do lago. O outro tentou não olhar, mas sua visão bateu no corpo de Marcello por um instante, e logo desviou novamente. Assim que o loiro acabou de se vestir Heitor saiu da água, pondo as roupas na velocidade da luz.
Assim que desceram do cavalo, já na casa grande, o Senhor de Castro aparece, acompanhado de Giancarlo.
– Heitor, meu garoto, eu queria mesmo falar com você. – Disse, aproximando-se dele. – Eu e meu filho, Giancarlo, estamos indo comprar algumas ferramentas na cidade. Gostaria de vir junto?
Heitor não via muita diversão em ir comprar ferramentas, mas ele sabia que o Senhor de Castro gostava de ir, e não queria fazer desfeita.
– Claro – Respondeu. Surpreendendo-se com a cara feia que Giancarlo fez assim que ele aceitou. Marcello a essas alturas já tinha entrado em casa e não ouviu a conversa.
– Ótimo. – Disse o Senhor de Castro, sorrindo com satisfação. – Então vocês dois vão se aprontar. – Disse apontando para Heitor e o filho. – Estarei esperando com a charrete do lado de fora da fazenda.
Assim que saiu, Heitor virou-se para retirar a sela de Adamastor, mas antes que pudesse raciocinar, sentiu um puxão pela gola da camisa e foi imprensado contra a parede.
– Escute aqui fedelho. – Disse Giancarlo, com um punho armado Ele era alto e forte, os cabelos loiros curtos, chegava a ser bonito, mas seu rosto era cruel e violento. – Ele é meu pai, e você jamais tomará o meu lugar, compreendeu?
– E-eu...
– Psst, calado. Só saiba que se você tentar, vai conhecer a dor do jeito mais terrível que imaginar. – Disse, soltando Heitor no chão. – E nada de dizer isso a ele. – E virou-se, adentrando a casa-grande.
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