Fogo
10 Capítulo 9
Notas iniciais
http://www.youtube.com/watch?v=CZiZC5DaWnY
e voces podem conferir a pronúncia do nome dele ouvindo ela ok? amo vcs)
Heitor não podia acreditar.
Dois dos três filhos do Senhor de Castro já tinham feito uma ameça a ele.
Levantou do chão cheio de areia, limpando as calças. Isso era tão injusto, ele jamais teve a intenção de roubar o pai de ninguém, esse era seu maior medo desde que tinha ido morar naquela casa. Ensaiara centenas de vezes o que diria aos filhos do Senhor de Castro quando eles chegassem. Que em nenhum momento chamou-o de pai, nem quis ser mais importante que eles, e agora Giancarlo o ameaçava por algo que ele jamais quis fazer. Mal percebeu e as lágrimas já rolavam por seu rosto.
Ele saiu correndo Casa-Grande adentro, pra se trocar e ir com os outros dois na cidade comprar as ferramentas ou o que quer que fosse. No caminho tentou enxugar as lágrimas com a parte detrás da camisa, mas apenas chorava mais e mais. Como podiam achar que ele queria tomar o pai de alguém?
Entrou de supetão no quarto, então foi aí que chorou de verdade, com uma mão se apoiando no armário e tapando os olhos com a outra. Ao olhar ao redor seu coração parou, pois Marcello estava de pé ao lado da cama, com uma cara de assustado.
– H-Heitor... o que... – Disse, mas foi interrompido.
Assim que Heitor viu-o ali, esqueceu-se de qualquer regra boba de ética que existisse entre homens, de seu próprio senso de orgulho ou qualquer outra coisa. Correu em sua direção e abraçou-o. Um abraço terno, desesperado por carinho. Assim que envolveu Marcello com os braços sentiu-se bem, protegido, acalentado. Chorou apoiado em seu ombro, e Marcello abraçou-o de volta.
– E-está tudo bem... calma... – Disse, dando batidinhas gentis em suas costas. Quando Heitor parou de soluçar e desvencilhou-o, Marcello olhou em seus olhos. – Pode dizer o que aconteceu?
Heitor desviou o olhar. Era melhor que não contasse. Se Giancarlo descobrisse enchê-lo-ia de pancadas ou coisa pior.
– F-foi... não foi n-nada. – Disse, enxugando as lágrimas com a palma das mãos.
Marcello fez uma cara de desconfiado. Pois, bem, era bem óbvio que tinha acontecido alguma coisa. E por incrível que pareça, ele tinha uma ideia muito acurada sobre o que tinha acontecido.
– Heitor... foi Giancarlo? – Perguntou, a expressão preocupada.
Heitor arregalou os olhos por um instante. Como ele podia saber? Mas em seguida ficou calado. Marcello fez uma cara de quem descobriu tudo e abraçou Heitor novamente.
– Escute, o que quer que tenha sido, saiba que existem pessoas muito egoístas por aí, e por mais que se digam... – Procurou a palavra certa. – superiores... já ouviu aquele ditado “Cão que late não morde”?
Heitor fez que “sim” com a cabeça e pareceu mais aliviado.
– Hunn... então parece que meu pai vai à cidade. Ele te chamou? – continuou Marcello.
– Sim.
– E você vai?
– V-vou.
Marcello já esperava a hesitação em sua voz, e por fim disse:
– Pois bem, você quer que eu vá junto?
Heitor se surpreendeu. Não podia acreditar que Marcello iria fazer aquilo por ele.
– N-não precisa.
Marcello sorriu.
– Bem, então como eu sou uma pessoa muito teimosa, vou mesmo assim. Nada a ver com você claro. – Disse, dando mais um sorriso.
Heitor deu um sorriso agradecido de volta.
Os dois se arrumaram, com Heitor já mais calmo, e em poucos minutos já estavam do lado de fora da casa-grande.
– Ah, aí está você! – Disse o Senhor de Castro a Heitor. – Pensei que não viesse mais. – Completou dando uma risada que foi interrompida assim que viu que Marcello vinha junto com ele.
– Oi pai. – Disse ele.
– Marcello? Então você vem? Oras, pois que te chamei um par de horas atrás se você rejeitou como quem se rejeita um convite à pisar em brasa! Hôhôhô. – Exclamou ele, rindo com sua risada que por si só já era engraçada.
– É. Mas acabei pensando melhor, Heitor me convenceu a ir também.
Heitor estava completamente mudo, pois enquanto isso Giancarlo fuzilava-o com o olhar. Na certa já desconfiava que ele tivesse contado tudo a Marcello, o que nem era verdade.
– Então vamos logo que já estamos todos atrasados. – Anunciou o Senhor de Castro finalmente.
Os quatro se acomodaram na charrete. O Senhor de Castro e Giancarlo na frente e Marcello e Heitor atrás. Com um estalar de chicotes os cavalos deram partida.
Sem mais delongas chegaram à cidade.
O mercado se estendia por mais de cem metros, localizado logo depois da praça circular, que era o centro e acerca da qual toda a cidade foi construída. A charrete percorreu a rua principal, tremendo por causa dos paralelepípedos, e depois de dar a volta ao redor da praça, chegou ao mercado. O Sol quente do meio da tarde fazia com que todas as barracas tivessem uma cobertura de panos, dando ao lugar um ar mais aconchegante, embora estivesse lotado de gente.
Estacionaram a charrete no lugar propício e desceram sem outro obstáculo. O Senhor de Castro foi andando à frente, deixando Marcello, Giancarlo e Heitor sozinhos.
– Então, Giancarlo? Não vai acompanhar o papai? – Disse Marcello, em um tom de desafio.
– Muito bem lembrado, irmão – Disse, com o olhar pesado sobre Heitor. – melhor eu acompanhar nosso pai. – Deu bastante ênfase na palavra nosso. E se afastou.
– Crianção. – Disse Marcello assim que o outro estava longe o suficiente para não escutar. Virou-se para encarar Heitor.
Ele tinha estado calado durante todo o caminho, e ainda continuava assim. Marcello não entendia porque ele ficara tão preocupado com o fato de Giancarlo ter ameaçado-o, mas ele devia ter seus motivos.
– Então... papai e Giancarlo foram comprar as ferramentas. E eu acho que eles podem fazer isso sozinhos. O que nos dá tempo de aproveitar o passeio. – Falou, piscando o olho para Heitor.
Heitor sorriu de volta. Marcello era tão bom com ele, não sentia que merecia alguém como ele. Estava se afeiçoando ao outro, e isso o preocupava. A última coisa que queria era perder alguém querido novamente.
– Vamos? – Disse Marcello, apontando com o polegar para o outro lado do mercado.
– Vamos. – Respondeu.
Heitor não se lembrava de ter se divertido tanto antes em toda sua vida.
Ele era um tipo de guia turístico para Marcello, que não conhecia nada do lugar, e mesmo assim conseguia fazer das barracas mais chatas uma brincadeira envolvente sendo que Heitor já as conhecia. Marcello mostrava-se interessado nos mínimos detalhes de tudo. Eles tinham ido à área do mercado destinada a jogos, aqueles jogos típicos de parque de diversões e quermesses, como tiro ao alvo, argolas, pescaria, e Marcello sempre soltava um comentário que fazia Heitor literalmente chorar de rir.
– Olha, o que é aquilo? – Disse ele, apontando para uma barraca mais ao longe, com várias crianças sentadas ao redor.
– Hun... acho que é um teatrinho de fantoches. – Respondeu Heitor.
– O que? Não creio. Vamos! – E saiu correndo sem esperar a resposta de Heitor.
A barraca consistia de uma parede de madeira com uma janela quadrada por onde apenas os fantoches apareciam. Marcello puxou Heitor para sentarem junto das crianças. Aparentemente estava sendo representada a fábula da tartaruga e da lebre, em que a lebre exibida acaba perdendo para uma tartaruga numa corrida.
– Ahh, aquela tartaruga boba é muito lerda. Vou descansar aqui na sombra dessa árvore, pois ela não chegará antes de mim mesmo. – Disse a lebre, que era uma meia branca com duas folhas pintadas de branco coladas em cima.
Marcello parecia compenetrado na história, maravilhado como uma criança que se pergunta como seria possível uma meia estar falando.
Acompanhavam quando de repente a tartaruga apareceu e passou da lebre na corrida.
– Ohh! – Gritaram as crianças, e Marcello aderiu ao coro.
Então a lebre acordou e, ao chegar à linha de chegada, percebeu que tinha perdido para a tartaruga.
– Essa tartaruga maldita ganhou de mim na corrida. Oh não! – Exclamou a lebre.
Pronto. Com essa frase todos na plateia caíram na gargalhada, exceto Heitor que não se impressionou, pois já conhecia a história de cabo a rabo. Marcello ria junto com todas as outras crianças, como se nunca tivesse escutado a história antes em sua vida. A risada dele era tão doce e inocente, tão contagiante, que Heitor começou a rir também, não da história, mas da risada de Marcello.
Finalmente as cortinas de pano foram fechadas e todos na plateia deram uma salva de palmas. Duas garotas vestidas com roupas simples saíram de trás do cenário e se curvaram ante a salva de palmas. Algumas crianças, as que tinham condições, deixaram um punhado de moedas no chapéu depositado na frente do cenário e elas duas pareceram extremamente felizes com a recompensa.
Marcello inocentemente chegou e pôs uma quantidade de moedas que cobria pelo menos dez vezes o valor das que já estavam lá. As duas garotas olharam incrédulas para ele.
– M-moço... – Disse a mais velha.
– Vocês merecem, fizeram uma apresentação maravilhosa. Parabéns. – Disse Marcello.
Então as duas abraçaram-no e logo depois saíram correndo, felizes. Provavelmente uma certa mãe ficaria muito surpresa hoje.
– Puxa, Marcello, isso foi muito bonito... – Disse Heitor, ainda impressionado.
Antes que o outro pudesse responder o Senhor de Castro gritou-os ao longe para que se apressassem a ir embora.
Ao cair da noite os grilos cantavam como se estivessem particularmente felizes. O jantar foi servido e todos comeram num ambiente tranquilo, até Giancarlo pareceu mais ameno em seu comportamento. Os homens falaram sobre o passeio à tarde, e Florença reclamava de não ter sido chamada, pois queria fazer compras urgentíssimas, como a nova tiara da moda.
Estavam todos em harmonia.
Aos poucos foram todos terminando de comer e se recolhendo para seus sonos. Heitor foi um dos primeiros a terminar, indo para o quarto logo em seguida, mesmo com as reclamações de todos por ainda ser cedo.
– Estou exausto. – Disse.
E era verdade. O dia tinha sido cansativo física e psicologicamente. Desde o passeio na cachoeira, a ameaça de Giancarlo e o passeio com Marcello pela cidade, Heitor estava muito cansado.
Indistintamente entrou no quarto e deitou na cama, dormindo profundamente logo em seguida.
Plec.
Acordou sobressaltado. Tinha ouvido um pequeno barulho de coisa caindo no chão. Olhou em volta, mas já estava tudo escuro e o silêncio reinava em toda casa. Esperou mais um pouco e ao olhar ao redor, percebeu que a cama de Marcello, ao lado da sua, estava vazia. Ficou confuso por uns momentos, pois seu cérebro ainda estava mais dormindo que acordado, até que ouviu novamente o barulhinho de algo leve caindo no chão.
Plec.
Dessa vez enxergou uma pequena pedrinha batendo na janela de madeira e caindo no chão. Tinha mais ou menos o tamanho de um botão.
– O que...
Ele ficou pensando por alguns segundos, desconfiado, e resolveu ir até a janela.
Levantou-se, ainda cambaleando de sono e se aproximou da janela, olhando para baixo, além da pequena sacada, e encontrou o rosto de Marcello sorrindo para ele.
– Marcello? – Balbuciou.
– Heitor – disse Marcello, falando num sussurro, mas inteligível por causa da leitura labial. –Desça. Me encontre na colina da jabuticabeira.
Heitor fez uma cara de “Hã? Isso são horas?” e antes que se desse conta, já estava se trocando para descer.
Saiu do quarto, descendo as escadas fazendo o mínimo possível de barulho. Passou pela sala e abriu a porta da frente, indo de encontro à fria madrugada.
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