Fogo
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Continuando a seção curiosidades sobre a história, aqui está a "origem", na verdade eu estava escutando essa música, fiquei meloso e a história veio na minha cabeça, e acabei pondo o mesmo título, aqui está
http://www.youtube.com/watch?v=PLXavqjCfM0&noredirect=1
s'minino Greyson Chance já me inspirou pra duas outras histórias seguintes, até já comecei uma delas. Bem, sem chatear mais voces, vamos à história :3 :')
O vento frio atravessava a pele de Heitor, que definitivamente não estava vestido para esse clima.
Suas botas já estavam molhadas com o orvalho da madrugada, e ele caminhava pela grama curta e verde tentando divisar o conhecido caminho até a velha jabuticabeira. A relação de Heitor com ela era muito bipolar, pois tinha passado momentos infinitamente felizes junto a ela, quanto já tinha ido chorar sozinho ali, poucas semanas depois da morte dos pais, quando sonhos ruins lhe atormentavam o sono.
Agora estava a poucos metros dela, olhando ao redor para ver se encontrava Marcello. Se tinha entendido direito, era para que se encontrassem na colina da jabuticabeira. A colina era chamada de colina porque não havia um nome que definisse aquilo. Ela era pouca coisa mais alta que o nível do chão plano, talvez cinco metros de altura, mas ela era muito extensa, e seu declive final era mais agudo que o primeiro. Se pudesse ser vista cortada ao meio, ela teria a forma de uma onda.
– Marceeello – Gritou Heitor, procurando o outro.
– Heitor! – E Heitor se virou na direção que acreditou ter ouvido a voz. – Aqui! – Ao longe, na parte mais alta da colina, Marcello estava de pé, acenando para ele.
Heitor foi andando em sua direção, sem contato visual até que chegasse lá, por isso ficou surpreso ao ver que Marcello estava deitado na grama, de barriga para cima.
– Por que você está deitado? – Perguntou Heitor, mas suas palavras foram abafadas pelo vento. Vendo que Marcello apenas olhava para o céu, resolveu deitar-se também.
Assim que sentiu a relva macia sobre suas costas, pôs as mãos na barriga e dobrou os joelhos, para diminuir a área de contato. Marcello estava deitado com as mãos atrás da cabeça e o corpo todo encostado na grama.
Vendo que Marcello estava distraído olhando para o céu, resolveu falar.
– Então... pra que que nós estamos aqui mesmo?
Marcello pareceu levar um leve susto, como quando se é acordado.
– Ah, nem sei. É que eu tava com tanta vontade de vir aqui. Pensei que você pudesse me fazer companhia. – Disse, dando um sorriso.
Heitor não pareceu satisfeito com a resposta, mas já que já estava lá, não iria discutir.
Depois de alguns minutos de silêncio, Marcello finalmente falou.
– Sabe... quando eu morava na Itália eu costumava frequentar um curso à parte da escola. Lá tinha uns aparelhos legais que nós podíamos ver as estrelas e os planetas mais de perto. São chamados de telescópios.
Heitor prestava bastante atenção. Já tinha ouvido falar de telescópios, mas nem imaginava como seria um.
– E eles também davam alguns livros pra gente ler – Continuou Marcello. – E eu gostava de um... um que falava sobre as constelações. Sobre as histórias que cada uma delas guarda.
Heitor olhou para onde Marcello não tirava os olhos nem por um momento: o céu. As estrelas estavam incrivelmente lindas. A noite sem lua fazia com que elas ficassem tão brilhantes que pareciam facilmente alcançáveis se você apenas esticasse a mão.
– E o que é uma constelação? – Perguntou Heitor, curioso. Era óbvio que ele também já tinha ouvido essa palavra, e sabia que tinha a ver com estrelas, mas não tinha certeza do que significava.
Marcello pareceu surpreso com a pergunta, mas respondeu.
– Ah, são algo como “desenhos” que os povos antigos fizeram nas estrelas para se orientar pelo céu.
Heitor continuou em silêncio, como se esperasse mais explicações.
– Olhe, por exemplo, está vendo aquelas estrelas ali, aquelas que parecem um anzol? – Disse, apontando para cima.
Heitor seguiu a direção que seu dedo apontou e procurando um pouco viu um grupo de estrelas formando algo parecido com o símbolo de interrogação de cabeça para baixo.
– Elas formam a cauda do Escorpião. – Completou Marcello. – E tem uma das histórias mais incríveis que eu conheço.
Heitor ficou curioso. Nunca imaginou que aqueles pontinhos poderiam esconder uma história.
– Dizem que Órion, o Caçador, tinha se apaixonado pela deusa da Lua. Mas seu irmão, o deus do Sol, ficou com ciúmes e enviou um Escorpião para matá-lo. Só que o Escorpião nunca conseguiu seu objetivo. Daí então Zeus, o pai dos deuses resolveu pôr os dois no céu, para que essa história ficasse marcada para sempre.
Heitor achou a história muito interessante, mas não entendeu uma coisa.
– Os dois? Mas então onde está o Caçador? – Perguntou.
Marcello sorriu.
– É aí que está. Eles foram colocados em pontos opostos na esfera celeste, para que sempre que um se pusesse no horizonte, o outro se levantasse, e então eles nunca se encontrariam.
Heitor deu uma risada. Marcello contando aquilo fazia soar quase verdade, como se tivesse sido ele mesmo a bolar o plano de botar os dois personagens nesses pontos estratégicos.
– É uma história e tanto. – Falou Heitor, finalmente.
– Sim. – Respondeu Marcello, sonhador, mas logo depois sua expressão entristeceu. – Me desculpe ter te chamado aqui, é só que eu... sinto tanta saudade de casa.
Heitor compreendeu que ele falava da Itália. Mas Marcello se corrigiu.
– Ah, bem, é claro que eu sei que na verdade minha casa é aqui, mas... é que eu vivi praticamente minha vida toda lá, e sinto muita falta da minha vida antiga.
Heitor ficou em silêncio. Imaginou como deveria ser viver em outro país. Outro clima, outros amigos, outra casa, e de repente ter tudo isso tirado de repente. Num susto percebeu que ele mesmo tinha passado por algo parecido.
– Você sente saudades? – Perguntou Marcello.
– Do que? – Falou Heitor.
– De sua vida antiga... digo, de antes de você vir pra cá.
Heitor engoliu em seco. Marcello tinha essas coisas de parecer adivinhar o que ele estava pensando, mas as divagações sobre isso sumiram assim que ele pensou na pergunta, e as lágrimas se precipitaram sobre seus olhos.
– Sinto. – Respondeu finalmente.
Marcello pareceu pesar a resposta.
– E do que sente mais saudades? – perguntou.
Se fosse qualquer outra pessoa Heitor já teria dado um chega-pra-lá, pois mesmo anos depois não gostava de falar no assunto. Mas de alguma forma Marcello perguntando parecia fazer tudo parecer menos forte, possível de superar.
– E-eu... – Heitor fez uma pausa para pensar, e tudo veio à sua cabeça novamente. Lembrava-se de seu pai pondo-o para andar a cavalo pela primeira vez, de sua mãe lendo o livro preferido dele, Manual de Veterinária para Primeiros Socorros de Equinos. Não era lá algo muito interessante para crianças, mas naquela noite ele tinha insistido tanto que ela acabou lendo, e leu toda noite em diante. Heitor se lembrava de várias páginas completas do livro.
Lembrava-se também de Nega, sua antiga ama-de-leite, cozinhando o beiju de tapioca no fogão de lenha, e reclamando de quando seu avental ficava chamuscado. E quanto mais lembrava, mais ia lembrando e narrava tudo a Marcello, que o ouvia de ouvidos atentos, mostrando-se um espectador muito compreensivo com as partes em que Heitor emperrava por causa da emoção. Finalmente suas lembranças chegaram à noite do incêndio.
– E então teve aquela noite terrível... que acabou com tudo. – Finalizou, com as lágrimas escorrendo, ainda contidas.
Marcello mostrava-se absorvido pelo sentimento das palavras de Heitor. Podia quase sentir todo o sofrimento naquele coração tão jovem e tão cheio de tristeza.
– E você já foi na fazenda depois dessa noite? – perguntou.
– Não. – Respondeu Heitor, olhando para as estrelas. – Nunca tive coragem.
Marcello virou o rosto para ele, olhando em seus olhos.
– Teria coragem... se eu fosse com você? – Perguntou, com medo da reação do outro à pergunta.
Heitor olhou fundo nos olhos do outro. As estrelas pareciam ainda mais brilhantes refletidas naquela íris cor de mel.
– Teria.
E então buscou a mão de Marcello, que estava ao seu lado, apertando-a gentilmente. Não podia mais negar. O que sentia por ele era algo diferente de amizade, ele eram ligados por algo muito mais forte. Marcello sentou-se, ainda segurando a mão de Heitor, e aproximou-se delicadamente do amigo, pondo a cabeça dele em seu colo. E, deitado ali, Heitor chorou.
Chorou por todos os momentos que não voltariam, por aqueles que amou na infância e que foram arrancados brutalmente de sua vida. Chorou limpando a alma, do lado de alguém que parecia se importar com sua tristeza e que queria escutá-lo. Marcello fazia carinho em seu cabelo enquanto isso. Um carinho estranhamente parecido como o que Heitor fez nele próprio no dia em que se machucou. As últimas lágrimas de Heitor brotavam em seus olhos, e sua surpresa não poderia ter sido maior quando Marcello começou a fazer carinho em sua testa, seguindo a linha da sobrancelha, exatamente igual ele fez naquele mesmo dia.
– V-você... – Tentou falar, mas não haviam palavras que traduzissem aquele momento e o que sentiu.
Lentamente Heitor se ergueu da grama, ficando sentado em frente a Marcello. Como se ambos soubessem o que o outro estava sentindo, foram aproximando os rostos. Heitor sentia o calor unindo-os em um só espírito, um sentimento único, que Heitor nunca soube da existência até aquele momento. Marcello levou sua mão à face do outro, enxugando a última lágrima persistente em seus olhos.
– Não precisa chorar... – Falou. – Você não está sozinho...
E depois de uma pausa que pareceu infinita, finalmente completou.
– Eu vou estar sempre aqui...
Aproximaram seus rostos, que agora estavam a pouquíssimos centímetros de distância.
– Sempre... – Repetiu.
Como se fosse a hora perfeita os grilos silenciaram, o vento se acalmou, a noite tornou-se menos fria.
Heitor e Marcello uniram seus lábios em um beijo.
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