Fogo
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Heitor tentou falar, mas sua boca não obedecia ao cérebro. O rapaz do trem estava ali na sua frente novamente. Sabia que era muito bobo ficar feliz em rever o estranho, querendo abraçá-lo e ao mesmo tempo expulsá-lo da casa a vassouradas.
– Olá, é um prazer conhecê-lo. – Disse Marcello (cujo nome pronunciava-se Martchelo) com seu sotaque meio brasileiro e meio... italiano?
Conhecê-lo? Então ele ia fingir que nunca tinham se encontrado. Era melhor assim mesmo.
– O-olá.
O Senhor de Castro achou o enorme diálogo proveitoso e se pronunciou.
– Agora vamos todos para a mesa, minha barriga está fazendo mais barulho que sua irmã com gases.
Quando chegaram lá, já estavam todos em seus lugares. O Senhor de Castro sentou na cabeceira da mesa, e do seu lado direito ficou sua mulher, seguida de Florença. Ao seu lado esquerdo sentou-se Giancarlo, seguido de Marcello e, finalmente, Heitor. Maria trouxe o almoço, que consistia de feijão, arroz, um porco bem grande, batatas assadas, salada de alface e vinho. Como Heitor, Florença e Marcello eram menores de idade, e o Senhor de Castro não permitiu que eles tomassem do vinho.
– Isso é coisa de adultos. – Proclamou.
O almoço começou sem mais cerimônias. Todos conversavam, mas Heitor permanecia quieto. Com toda a família de Castro ali, sentia-se excluído. Ele não era parte da família, pelo menos no sangue, e queria fazer o possível para não ter que abrir a boca e não falar besteiras. Além do que, estava tímido na frente dos novos habitantes da casa.
– Então – Disse o Senhor de Castro, interrompendo as conversas paralelas para deixar o ambiente mais “dinâmico”. –, lá na Itália é tão bonito como dizem os livros?
Quem se pronunciou foi a Senhora de Castro, mais normalmente chamada de Isabella, ou Bella, seu primeiro nome.
– Ah, querido, é muito bonito, sim. – E Heitor pôde ouvir sua voz claramente pela primeira vez. Dos três, ela era a que tinha o sotaque mais carregado, pois nascera italiana e viveu apenas uns dez a quinze anos no Brasil. E seu sotaque estava bem mais forte depois de voltar recentemente de seu país. – As pessoas são muito cultas e educadas. Ah, e as igrejas, então, simplesmente maravilhosas. Meu povo tem bom gosto. – Ela falava com a graça de uma rainha. Algo nela lembrava e Heitor de sua mãe, talvez somente o fato de ela ser uma mãe. Era óbvio que todos os três filhos tinha puxado a ela em aparência. Todos possuíam seus cabelos loiros e lisos, além de ser muito bonita. E infelizmente, para Florença, essa característica de beleza não lhe foi atribuída.
– E as pessoas são bem bonitas, também. – Completou Marcello.
Era inevitável, era só Marcello falar que Heitor se sentia desconfortável com alguma coisa. Imediatamente sua atenção se voltava para ele.
– Ai que inveja. – Protestou Florença. – Queria ir pra Paris e fazer muitas compras, comprar muitas roupas, muitos sapatos e muitos perfumes. Ai, ai. – Falou, com uma expressão sonhadora. Pelo visto se arrependia de não ter optado há alguns anos ir com a mãe para a Itália, era apenas o apego infantil ao pai.
– Então, de Castro, como o lindo garotinho aí veio morar com você? – Disse Isabella.
Heitor se retesou e sentiu seu rosto corar ao ter a atenção de todos pela primeira vez. Sentiu vontade de sair correndo e pular janela afora.
– Ah, é uma história muito triste. – Disse de Castro, olhando desconfiado para Heitor. Aquele era um caso há muito não comentado naquela casa, e ele tinha medo de fazer o jovem rapaz se lembrar de coisas ruins. Olhou para Heitor com uma interrogação na face, como se para perguntar se poderia prosseguir ou não. Heitor deu a entender que podia continuar, e assim ele o fez. – Seus pais eram moradores da fazenda vizinha, os Outubro. – Soltou a palavra como um encantamento, uma prece. – Só que um dia os escravos se rebelaram para fugir e puseram fogo em toda a fazenda. E Ernesto e Lícia não conseguiram... escapar.
A expressão de Heitor era dura, ilegível. Percebendo o estrago que fez, o Senhor de Castro continuou, mais ameno.
– Aí então ofereci minha casa para que ele tivesse um lugar para ficar. E hoje em dia considero ele como um dos meus filhos.
No momento que essa frase escapou pelo ar, Heitor tentou desesperadamente decifrar a expressão no rosto de cada um na mesa.
O Senhor de Castro claramente estava tenso, mas não por causa da frase, mas sim por medo do efeito de Heitor relembrar seu triste passado. Isabella tinha dado a entender que ficou surpresa, mas não passava disso. A cara de Florença era indiferente, como se ela pensasse “Será que tem carne de porco presa no meu dente?”. Marcello ficou levemente confuso, até mesmo triste, como tivesse se dado conta de algo desagradável. A expressão que mais assustou Heitor foi a de Giancarlo. Ele ficou realmente surpreso com a frase, e depois fechou a cara, fuzilando Heitor com o olhar. Quanto e expressão de Heitor... bem, ele imaginava que não estivesse lá muito confiante.
– Bem – Falou finalmente Isabella. –, se meu marido considera você como filho, também receberemos você de braços abertos. – E a frase acalmou a mente de Heitor, pelo menos um pouco, embora tenha soado meio forçada.
A conversa seguiu mais calmamente a partir daí. Heitor evitava mortalmente olhar nos olhos de qualquer um. Os assuntos não eram muito importantes, mas uma parte da conversa chamou mais a atenção de Heitor.
– Marcello, meu filho, conte sobre a viagem que você fez sozinho da capital até aqui. – Perguntou o Senhor de Castro.
Marcello parou de comer e limpou a garganta.
– Ah pai, assim que eu saí da cidade, de trem, fui pegar a mamãe e o Giancarlo na cidade vizinha daqui. – E olhou de soslaio para Heitor, como que para que ele entendesse que o comentário fora direcionado a ele, e soubesse o motivo de ele ter descido uma estação antes de Heitor. – Aí nós três pegamos mais um trem e... – Fez uma pausa de efeito. – aqui estamos!
Então ele realmente não iria dizer que haviam se encontrado no trem. Heitor ponderou se aquilo era bom ou ruim, mas, no final das contas, não seria ele quem ia decidir isso.
Finalmente todos terminaram de almoçar. O senhor de Castro se levantou, animado, pois iria levar Giancarlo para visitar as plantações de uvas e de café, além das senzalas. Marcello também foi convidado, mas recusou ternamente, dizendo que estava cansado e queria dormir um pouco. A senhora Isabella iria com Florença na cidade para comprar roupas e matar a saudade entre mãe e filha. Sendo assim, Heitor ficaria sozinho, mas não se incomodou pois ficava sozinho muito frequentemente.
Sabendo que Marcello iria para seu... para o quarto dos dois, pensou um pouco e decidiu ir pra um lugar onde pudesse ficar isolado. Não queria ficar na companhia do outro, aquilo lhe dava calafrios. Além de não querer incomodá-lo em seu sono.
Heitor alisou passou mais uma vez a escova na crina de Adamastor.
Esse cavalo era uma das poucas coisas que tinha sobrado de sua antiga vida. Seu pai havia presenteado Heitor com ele em seu aniversário de onze anos, e no meio da confusão do dia fatídico, Adamastor fugiu. Foi encontrado uma semana depois, vagando na fazenda dos de Castro, quase morrendo de fome e cansaço.
Heitor considerava ele uma lembrança de um passado cruel, mas bom. Onde estava, no estábulo, podia cuidar de seu amigo e ficar sozinho. Eram duas vantagens em uma. O estábulo ficava longe tanto da casa-grande quanto das plantações, e somente um escravo era encarregado de limpar o lugar e alimentar os bichos. Por isso não ficava lá o dia todo.
Adamastor relinchou com satisfação ao receber o carinho de Heitor no pescoço.
– Calma Adamastor – Disse Heitor, rindo. – Calma.
Fez uma pausa e começou a pensar em Marcello. Ops! Por que motivos estava pensando no garoto? Era estranho, muito estranho, ficar pensando em uma pessoa que mal conhecia. Seria pela simpatia dele? Ou por ser educado? Ou por sua voz, ou então os seus olhos cor de mel, ou... Interrompeu os próprios pensamentos. Era ridículo o que estava fazendo, onde já se viu ficar pensando nos olhos de outro homem?
– Adamastor – Disse, encostando a testa no pescoço do cavalo. –, por que motivo eu fico pensando nele? – Deu uma pausa, para absorver as próprias palavras. – Por que?
Nesse momento ouviu o som de uma coisa de metal caindo no chão, bem atrás dele, e tomou um susto. Como uma materialização promovida pelo universo, Marcello estava lá, com cara de culpado, se abaixando para catar a lata de tinha derrubado.
– Ops, desculpa. – Disse.
Heitor não respondeu, apenas virou para continuar escovando a crina do cavalo. Quanto será que Marcello tinha ouvido? E que diabos ele estava fazendo aqui? Ele não ia dormir?
Marcello se aproximou de Heitor. Com uma expressão de curiosidade no rosto.
– Esse cavalo é seu?
Heitor fez que “sim”, com a cabeça, ainda sem olhar nos olhos do outro.
– Hun... e você sabe montar?
Essas perguntas estavam deixando Heitor pouco à vontade. Mas ele respondeu mesmo assim, quase inaudível.
– Sim.
Marcello olhou curioso para o cavalo. Parecia maravilhado, como se nunca tivesse visto tão bela criatura. E de fato Adamastor era um garanhão muito saudável e bem cuidado: de cor marrom e pinceladas de mostarda no focinho, nas patas e nos pelos. Marcello chegou perto e começou a fazer carinho no rosto de Adamastor, na área entre os olhos.
– Qual o nome dele? – Perguntou Marcello.
Heitor olhou para ele, dessa vez, com uma expressão séria e sem parar de escovar a crina do animal.
– Adamastor.
– Adamastor. – Repetiu Marcello, num sussurro, quase parecendo perceber que tinha sido um nome posto pelo próprio Heitor, quando era uma criança inocente e animada com a ideia de ganhar um cavalo e dar-lhe identidade.
Heitor continuava a escovar os pelos do cavalo, ignorando a presença do outro. Percebendo isso, Marcello resolveu se retirar. Andou um pouco e sentou num banquinho há poucos metros dali. Ficou observando Heitor em seu trabalho, e Heitor estava tenso, olhando de quando em quando disfarçadamente pra ver se o outro já tinha ido embora.
Depois de alguns minutos Marcello se levantou e se aproximou novamente dos dois.
– Você... poderia me ensinar?
Heitor olhou pra ele, confuso.
– Ensinar o que?
– A montar. Eu queria aprender. – Disse, dando um sorriso simpático.
Heitor considerou a ideia. Não estava se sentindo bem na presença de Marcello. Seu coração acelerava anormalmente toda vez que o outro falava, e cada metro que ele se aproximava fazia um calafrio percorrer sua espinha.
– Posso... sim. – Respondeu, finalmente.
Marcello pareceu autenticamente alegre com a resposta, e saiu correndo para pegar o banquinho.
Heitor achou aquilo engraçado, porque ele já estava acostumado com todo mundo montando sem precisar da ajuda de nenhum apoio. Mas Marcello nunca devia ter feito isso antes.
Marcello depositou o banco ao lado do cavalo e pareceu tenso.
– E agora, o que eu faço?
– Ponha o pé ali – Disse, fazendo o possível para manter a voz neutra. – E depois levante a outra perna por cima do cavalo.
Marcello pôs o pé no lugar indicado e pareceu hesitante em executar a segunda ordem.
– O que houve? – perguntou Heitor.
– Nada, é que... – Disse, com a voz falha.
Heitor entendeu que ele estava com medo e se pôs a ajudá-lo. Segurou a mão do outro, para que ele usasse a sua como apoio. Tocar a mão de Marcello fez um calor estranho passar pelo corpo de Heitor, como se o toque estivesse enviando eletricidade através de suas células.
Com dificuldade Marcello consegui fazer o necessário para montar, mas assim que ele estava lá em cima Heitor percebeu como ia dar trabalho ensinar. Ele estava pendendo para um lado e a coluna estava toda torta. Adamastor estava inquieto com a postura incorreta do jovem.
– Não... Olhe – Disse, paciente. – Deixe a coluna reta e tente equilibrar o peso dos dois lados do corpo... assim, isso.
Marcello fez o que Heitor pediu e até mesmo o cavalo relaxou. O rapaz começou a rir, e Heitor teve de controlar o impulso de rir junto com ele. A risada dele era doce e sonora. Viciante. Assim que Heitor a ouviu, soube que queria ouvi-la para sempre.
– Oaaa. – Gritou Marcello, quando o cavalo começou a se mover levemente. Dava pra notar que ele estava assustado, mas estava adorando a experiência. Heitor segurou as rédeas e foi acompanhando o passeio, controlando a direção.
– Quantos anos você tem? – Perguntou Marcello.
A respiração de Heitor falhou, aquela era a primeira pergunta “pessoal” que Marcello lhe fazia, e ele se mostrou desconfiado em responder.
– E-eu... quinze.
Marcello arqueou as sobrancelhas, surpreso.
– Olha! Eu também tenho quinze. – Falou, alegre.
Heitor sentiu seu rosto corar, sem saber o motivo.
Depois de alguns minutos, Heitor começou a se preocupar. Adamastor estava mais inquieto que o normal, e o motivo era evidente. Apesar de Marcello estar conseguindo ficar equilibrado, sua postura não era lá das melhores, e Adamastor estava acostumado a ser montado somente por Heitor, que cavalgava de forma excelente. Agora com aquele passageiro que não acompanhava o galope e apoiava as mãos a todo momento em suas costas, Adamastor se mostrava sensível demais.
Até que Marcello, para tentar se equilibrar melhor, chutou com a parte de lado do pé na barriga do cavalo, que levantou as patas dianteiras bruscamente, relinchando, e o coração de Heitor afundou ao ver o outro cair das costas do animal e gritar de dor no chão.
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