Família
2 Capítulo II - Juntos
Notas iniciais
Eles estavam vindo para vê-lo – todos eles.
A simples ideia de que eles fossem sequer capazes de se juntar era algo que mexia profundamente com o garoto; uma fantasia de infância da qual ele teve que se desprender. As memórias de solidão que secretamente cultivara ao longo dos anos ameaçavam voltar à superfície, apertando-lhe o estômago com força até que ele se viu obrigado a tomar algumas respirações profundas. Ninguém na fila onde ele estava se incomodou; atribuíram o exercício tranquilizante ao teor emotivo da situação. Ele estava confuso, surpreso e desconfortável.
E feliz.
Takeru estava feliz.
Isso era porque ele se recordava de cada dia e cada noite sem companhia; da sensação de voltar para o lar e o lar ser vazio e insuficiente.
Depois que vinha da escola, a bondosa senhora que morava no apartamento ao lado ia vê-lo de vez em quando (o nome dela era Mitsuki? Mizumi? Takeru às vezes se detestava por não lembrar, por mais que os olhos castanhos e os biscoitos caseiros permanecessem firmes na memória) para garantir que ele estava bem. E ele ficava ali, com o tempo transcorrendo lento e indiferente, caçando alguma coisa para fazer. Eram só algumas horas, mas elas pareciam se estender e ele estava absoluta e inquestionavelmente sozinho.
“Deveríamos estar todos… juntos…”
Então, a melhor mãe de todo o Universo chegava — apenas para se ocupar com afazeres domésticos assim que punha os pés no apartamento, enquanto ele pulava às risadas ao redor dela, balançando as mãozinhas e contando sobre o dia. Natsuko, exausta, mirava-o com carinho e fazia seu melhor para prestar atenção, e em seguida assistia o filho jantar e o mandava para a cama com um beijo na testa e um rápido conto de fadas. Takeru sabia e respeitava mais do que tudo que ela passara noites em claro trabalhando em artigos, sempre se esforçando para não deixar nada faltar.
–É chato mesmo ser filho único – comentou um coleguinha de escola uma vez, há anos e anos atrás, quando ele narrara a situação. Aquelas palavras pairaram no ar atingiram-no no rosto com força, afundaram nele e doeram como as coisas raramente doíam.
Ele não era filho único.
♦♦♦♦
Por um momento apavorante, achou que eles não tinham vindo.
De pé no palco do auditório, com toda a sua turma o rodeando, todos de costas eretas e sorrisos bobos que aguardavam seus nomes serem chamados pela Diretora, seus olhos azuis elétricos varreram a multidão de pais sentados nas fileiras de cadeiras e ele quis vomitar. O mais minuciosamente possível, analisou os rostos, numa busca quase doentia por feições familiares perdida da multidão de rostos orgulhosos – não dele – que o encarava. Suou frio e mordeu o interior da bochecha.
Ninguém, mais uma vez.
Onde estavam as pessoas para sentir orgulho dele? Onde –
Ali.
Surpreendeu-o que viu primeiro seu pai, mas, talvez justamente por ser ele quem via menos, sempre tinha a esperança de encontrá-lo por aí. Era interessante e prazeroso observá-lo daquela maneira, um pouco mais relaxado e sem um cigarro pendendo no canto da boca. A última vez que tinham se encontrado tinha sido para jantar na casa dele, e um sorriso puxou seus lábios; quase sentiu o gosto de arroz queimado. Takeru acostumara-se com a realidade de ter um pai ausente – um pai que fazia o melhor que podia, de qualquer modo –, e toda vez que punha os olhos nele, era tomado por uma sensação nostálgica; o coração dele sentia falta de um tempo que ele não conseguia recordar.
Ao lado estavam os outros dois, o irmão dele no meio do casal que não era bem um casal. Não pôde deixar de notar que seus ombros se encostavam e eles pareciam imersos num papo confidente e alegre. Yamato e Natsuko haviam feito um salto fenomenal no que dizia à relação deles. Incrível. “E pensar que há algum tempo eles mal tinham intimidade para trocar poucas palavras sem desconforto…” Percebeu, em seguida, o jeito como Natsuko e Hiroaki se portavam.
Eles não se olhavam.
–Takaishi Takeru.
A coisa toda foi perturbadoramente rápida; deu alguns passos a frente e, quando viu, estava com um diploma de nono ano nas mãos, a luz do flash da máquina na sua mãe o atingiu em cheio e o cegou, ele desceu as escadas aos tropeços para quase dar de cara com o chão.
Poucos segundos depois, sentiu Yamato envolvendo-o num abraço forte.
–Finalmente, hein, baixinho? – O mais velho implicou. – A mãe não deixava de falar como ela estava feliz pelo “bebê dela estar finalmente indo para o Ensino Médio”. Ela até foi para a nossa casa e nos deu carona, porque ela sabe como o pai se atrasa para as coisas. Ele ficou reclamando o caminho todo, dizendo que não se atrasaria pra formatura do filho, mas não foi muito convincente.
Derretendo no aperto, Takeru deu uma risada leve, mais tocado por aquilo tudo do que ele gostaria de admitir. Um movimento repentino onde o resto da família estava chamou sua atenção e olhou por cima dos ombros de Yamato; surpreso, viu como seus pais estavam inclinados na direção um do outro, rindo enquanto Natsuko mostrava-o em sua câmera a foto que tirara. Eles pareciam... em paz. Dispostos se encontrarem nas ocasições em que os filhos queriam ver ambos. No final de contas, Takeru sorriu.
Eles não estavam juntos, mas estavam juntos para ele.
Fale com o autor